Nem Amélia, Nem Girlboss

Crônicas

Sei que há o risco de eu ser mal interpretada enquanto leem este texto específico, mas sinceramente? Eu venho ruminando essas ideias dentro de mim há aproximadamente dois anos, e decidi correr o risco mesmo assim.

Quando a gente pensa em feminilidade, feminismo ou assuntos relativos às escolhas de vida da mulher geralmente surgem dois modelos: aquele primeiro e ideal machista, mais raro atualmente, da Amélia que não tinha a menor vaidade, e que por isso sim era mulher de verdade (???); ou o segundo mais condizente com os nossos dias, da mulher extremamente segura de si, bem resolvida e independente, todo o conceito que a Sophia Amoruso materializou como Girlboss.

Mas e se eu não me identificar com nenhuma delas? Porque nenhum dos dois modelos me representa, e a cada dia que passa me sinto mais livre por ter chegado a essa conclusão.

Até porque vamos combinar, né? Se teve uma coisa que aquela onda de “Bela, recatada e do lar” fez, em 2016, foi mostrar que essa ideia da mulher “sem vaidade”, que não se cuida, nunca liga para si mesma etc., já foi rejeitada até mesmo pelo próprio machismo – e entenda que não estou aqui criticando a escolha pessoal de vida da Marcela Temer nem nada semelhante, mas achei no mínimo curioso a tentativa de alavancá-la como o padrão de mulher a ser seguido. Não sei vocês, mas eu pelo menos não tenho nenhuma empregada e nem me lembro se já fui à dermatologista alguma vez na vida.

Mas também não me sinto nenhuma Girlboss, e não me sinto em nada inferior por isso.

Alguns de vocês, imagino, devem saber que eu até li o livro. Eu já estava cogitando a chance de virar freelancer no ano passado, via o título em várias fotos descoladas no Instagram e tudo o mais; aí pedi e ganhei no amigo secreto da empresa em busca de inspiração. E não vou dizer para vocês que é um livro ruim nem nada porque é até engraçadinho, tem uma leitura bem fluída, uns desenhinhos legais, várias frases motivacionais e feministas do tipo “Você é mulher e nada a impede de ser bem-sucedida! Você é totalmente capaz!” e blá blá blá. Mas vou confessar a vocês que, quando passei a conhecer um pouco mais a fundo a parte da história da Sophia que não é contada no livro e nem na série, percebi que tampouco queria me parecer com ela também.

Não sei se a gente só vai aprendendo essas coisas com o passar dos anos, mas precisei silenciar muitas vozes externas antes de poder encontrar a minha própria; precisei aprender a questionar, como já escreveu Mariliz, por que “A mão que bate em Marcela não bate em Marisa, tal qual primeira-dama decorativa”. E aí percebi que eu nunca me senti verdadeiramente inferiorizada por ser mulher, mas os discursos contrários eram tantos e em todos os lugares, que minha própria experiência pessoal não parecia ter nenhum efeito.

Não posso dizer que com todo mundo foi assim, seria muita fantasia da minha parte pensar isso. Mas voltando à minha experiência, eu sempre fui incentivada a estudar e me dedicar a tudo o que eu quisesse, desde as aulas de Ballet e Kung fu até os mil cursos técnicos de Gestão Empresarial à Comunicação Visual. Em todo tempo as pessoas costumavam me elogiar pela minha inteligência e capacidade, como fazem até hoje.

Meu pai é uma daquelas pessoas que odeiam qualquer menção ao feminismo, sabe? Mas foi ele mesmo quem correu atrás de pagar todos esses meus caprichos, e uma vez quando eu tinha dez anos quase quebrou o meu nariz porque nós dois estávamos jogando futebol e ele simplesmente se esqueceu que tinha no mínimo umas três vezes o meu peso e tamanho – eu nunca mais fui tratada de forma tão igual, depois disso 50% de todo o resto me pareceu privilégio.

Se eu resolvi postar esse texto agora, a despeito de todos os xingamentos ou reações que podem vir dele, é porque eu realmente gostaria de compartilhar isso com tantas mulheres quanto possíveis. Você não é livre porque um movimento ou ideologia assim o diz, o que realmente pode trazer liberdade é o reconhecimento de quem você é, de onde veio e para onde vai. E hoje sim, posso afirmar que me sinto mais convicta da minha identidade do que jamais estive.

Eu amo estudar e trabalhar, mas também quero aprender a cozinhar melhor. E não quero fazer isso apenas para me enquadrar em um padrão de “mulher pra casar”, quero cozinhar porque gosto muito de comer. Que problema há nisso?

Já passou da hora de deixar as mulheres serem de fato livres para o que decidirem ser de verdade.

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Pra você lembrar que a vida não é tão complicada quanto parece ser

Crônicas

Sabe, eu já perdi as contas de quantas vezes acessei o Google procurando respostas para toda dúvida que brotasse, ainda que só um pouquinho, em minha cabeça. E sei que não sou a única a fazer isso, porque do contrário nunca teriam inventado alguma coisa como o Wikihow.

Mas hoje de manhã eu estava aqui pensando e me perguntando se tudo na vida é realmente tão complicado quanto eu penso ser. Porque várias das coisas que muitas vezes penso não terem respostas, quando presto mais atenção percebo que já foram respondidas; e se é assim comigo, acredito que também possa acontecer o mesmo com você.

Pensando nisso, comecei a montar uma lista de lembretes para uso pessoal que talvez também possa ser útil a quem mais interessar:

  1. Simplifique sempre que puder e for realmente necessário. Por que complicar quando é possível fazer o contrário? Algumas coisas são de fato complicadas, mas outras só o são porque as permitimos ser.
  2. Já inventaram o diálogo, o pombo-correio, carta, telegrama, telefone e Código Morse, para não falar em todas as demais redes e mídias sociais. Nenhuma dessas maravilhosas invenções do mundo da Comunicação vão servir para aproximar quem não faz a menor questão de estar perto de você. E a despeito de quanto você queira ou espere, persistir no erro não vai fazer nada além de lhe machucar. Reconhecer a hora de desistir e partir também faz parte.
  3. Falta de tempo nunca será um motivo válido para não fazer o que você gosta de fazer. Você passa gasta mil horas no transporte público e nem por isso deixa de ler, ouvir música ou assistir séries. Porque quando algo é importante mesmo a gente sempre dá um jeito.
  4. Mudar é natural, só o que está vivo muda.
  5. Cansar também é natural. Uma hora acontece.
  6. Amor escondido nunca serviu de nada para ninguém. Se o seu amor nunca se converte em ações para o outro, então não é amor. E se nunca te muda em nada, provavelmente não é amor também.
  7. A música pode melhorar o seu dia. Mas se você não tomar cuidado, pode piorá-lo também.
  8. Nenhum DeLorean modificado vai aparecer e te ajudar a voltar no tempo para consertar suas bostas, então é melhor pensar duas vezes.
  9. Fugir nunca foi resposta para nada, e nunca será.
  10. Se lembre de permanecer leve, mesmo com todos os apesares. Ainda é uma escolha, embora também não exista outra opção.

Eu poderia enumerar mais mil coisas, mas não vou. Não existe ninguém melhor que você para montar e continuar a sua própria lista.

O importante é ter sempre em mente que a vida não pode ser tão complicada quanto parece, porque nada realmente é. E se você nunca vê as mudanças que espera dos outros, por que não mudar você mesmo? Sempre é tempo.

Mais um texto aleatório sobre política e as eleições mais chatas que você já viu

Crônicas

Para poder escrever este texto eu precisei engolir todo o conteúdo de uma garrafa de água e respirar fundo três vezes, duas coisas que não são ligeiramente fáceis de fazer tossindo o tempo todo e tomando dois remédios. Porque é muita coisa difícil de ser escrita ao mesmo tempo.

Eu não gosto de complexo de vira-lata nem qualquer coisa semelhante, mas acredito que o Brasil está superando toda expectativa de bom senso neste segundo turno. E isso não é exclusividade nossa, considerando como andam as coisas na atmosfera internacional – vamos combinar que, a partir do momento em que o Trump foi eleito, já deu para perceber quão loucas as coisas estavam ficando. O Trump, aquele cara que não só apareceu umas mil vezes nos Simpsons como na vida real também parece um desenho animado! Sério, você já devia ter começado a desconfiar que as coisas não poderiam ficar muito melhores a partir daí.

E o que dizer dessas eleições agora, que fazem até mesmo eu, que realmente gosto de acompanhar política e notícias gerais, rolar os olhos e ficar indignada a cada novo texto da grande mídia ou post de eleitores de ambos os lados? Porque sim, é bem assim que eu me sinto.

Decidi começar pelo Haddad, que é mais fácil. Até hoje recebo perguntas de meus amigos perguntando por que estou tão calada se gosto dele. E sim, eu realmente gosto dele, gostei da gestão que ele fez aqui na prefeitura de São Paulo, cargo para o qual votei nele duas vezes. O candidato é a minha personalidade preferida do PT, junto com o Suplicy – em quem eu não votei e nem votaria, mas nem por isso deixo de achá-lo um sujeito bacana. E é justamente por gostar do Haddad que eu me sinto muito mais decepcionada quando o vejo fazendo o gesto de “Lula livre” e indo pata a cadeia pedir conselho. Primeiro porque eu não quero o Lula livre coisa nenhuma, quero mais é que prendam vários outros (Oi, Aécio! Tudo bom?!); e em segundo lugar porque ainda acredito que ele pode ser bem melhor do que isso.

E depois tem o Bolsonaro, essa pessoa que me deixa até sem palavras porque a cada discurso dele que vejo eu meio que não consigo acreditar que ele de fato existe. Eu não vou usar nenhum dos termos pejorativos que todo mundo está usando porque já estou cansada desse mais do mesmo, mas é sério. Como??? Não tem explicação para uma coisa dessas. É claro que é muito óbvio o porquê da ausência dele nos debates, eu também não iria se só falasse besteira. E olha que eu já vi propagandas eleitorais ruins, mas usar esse espaço para falar de uma reversão de vasectomia nunca – nem sabia que dava para reverter!

Ainda pior do que essa situação desagradável de ter que escolher entre um dos dois quando sim, esse ano tínhamos várias opções diferentes e algumas até viáveis mesmo, é a pressão que seus ativistas de Facebook, que muitas vezes nem sabem de verdade o que é ativismo e só estão agindo como massa de manobra de uma mente que realmente ensaia as palavras mais “certas” para o espetáculo, jogam em cima de todo mundo qualquer um que deles discorda.

Minha posição política? Centro-esquerda e social democrata, já falei isso várias vezes. Se eu acredito que alguém vai mudar a opinião de alguém que decidiu votar no Bolsonaro ao chamá-lo de burro e fascista, ou então ao colocar mil xingamentos diferentes em todas as mídias sociais existentes? Não. Penso que algum eleitor do PT vai mudar de lado após ver todas as acusações de corrupção e todas as frases com a foto do Bolsonaro ao fundo em verde e amarelo nos seus Stories? Também não!

Além de não acreditar que aqueles que já têm suas posições definidas queiram mudar o voto diante das expressões contrárias, também não acredito muito no efeito dessas mesmas alegações em cima dos indecisos. E entenda que sim, eu amo os meus amigos e entendo o terror que muitos deles estão sentindo; mas também entenda que existe uma categoria de pessoas “indecisas” que assim  o são porque ao imaginar um futuro de ambos os lados não enxergam nada além de bosta voando em todas as direções, o que obviamente não é nem um pouco satisfatório. A gente já vem escolhendo o “menos pior” há muitos anos, e olha só que destino maravilhoso essa escolha nos reservou! Muito dificilmente jogar mais um discurso polarizado em cima desse público em questão vai surtir o efeito desejado, talvez a pessoa até finja que concorda só para lhe fazer calar a boca – o que você com certeza também não quer, pois no fim das contas é o voto que conta.

Eu me sinto extremamente chateada com “argumentos” de defesas em favor de ambos os candidatos, porque muitos deles de argumentação mesmo não tem nada. Por exemplo, as duas frases mais famosas da esquerda continuam sendo “Fascista!” e “Você precisa estudar História!”. Antes de continuar minha linha de raciocínio, quero lembrá-los que já revelei a minha tendência um pouco mais à esquerda ali em cima, e para quem caiu de paraquedas aqui e talvez não saiba, História não só é a minha matéria preferida na vida como eu continuo estudando-a até hoje; acho bom vocês terem isso em mente antes de lerem o que estou escrevendo a seguir: QUANDO VOCÊ ACUSA ALGUÉM QUE ALEGA SER DE DIREITA DE FASCISTA MOSTRA QUE SERIA BOM VOCÊ REVER ALGUMAS AULINHAS DE HISTÓRIA TAMBÉM! E não sou euzinha que estou dizendo isso não, são dois historiadores italianos especialistas em Fascismo via BBC. Pois é!

Já deu para perceber que eu não estou escolhendo nenhum lado, certo? Ótimo, então posso seguir com minha crítica em paz.

Quero falar ainda de dois clássicos nessa eleição. O primeiro é aquela pessoa que até outrora se declarava comunista e agora grita de dores pela democracia. Entenda que eu não estou me referindo a pessoas que temem pela continuidade da democracia, porque eu sou uma dessas; estou falando da pessoa que assumidamente curte uma foice, PSTU e PCO e agora faz textão preocupadíssima com a democracia. Segue lista de líderes comunistas democratas e reconhecidos como grandes humanitários: Che, Stalin, Mao Tsé-Tung, Fidel Castro, Hugo Chávez e Nicolás Maduro. Mas é claro que todos eles se esforçaram demais para manter a representatividade e pluralidade de suas instituições democráticas, né? Assim vocês insultam a minha inteligência, por favor! Acho que nesse ponto eu até prefiro o discurso dos pró Bolsonaro que conheço porque se baseia mais naquele clichê “Economia, corrupção, PT não dá” etc, e menos fanfic; estes outros que querem sair atirando em todo mundo que não tem a cor ou a preferência sexual desejada felizmente não conheci.

Finalizo a minha crítica com uma última frase que li ontem: “O anti-petismo começou quando o filho do patrão encontrou o filho do empregado na mesma faculdade”, mais um discurso polarizado. Eu fico até perdida porque dentro de uma frase há tanto a dizer! Eu nunca fui contra o Bolsa Família, apesar de achar que a fiscalização contra as fraudes deveria ser maior, acho que é um programa sensacional e já vi alguns economistas e estudantes fazendo estudos que comprovam isso; e tenho essa mesma opinião sobre o PróUni, CsF etc (Rouanet não). Compartilhar uma frase dessas é um desrespeito enorme, não com aquelas pessoas que declaram abertamente serem de direita, e sim com aqueles antigos militantes que andavam com bandeiras e broches do Lula, mas hoje decidiram votar no Bolsonaro porque se decepcionaram com o tanto escândalo que surgiu. Eu conheço algumas pessoas boas que me procuraram para dizer exatamente isso, e convido vocês a tentarem ouvir a versão delas sobre esse anti-petismo citado, se é que alguém ainda se importa com essa coisa de ouvir a opinião do outro.

Eu ainda sonho com o dia em que o Brasil deixará de ser tão polarizado, porque sinceramente não acredito que a gente atinja algum progresso real antes de reconhecer e falar abertamente sobre as falhas e vantagens de ambos os lados. Aquela famosa terceira via que nunca vai pra frente, sabe?

Chá de Camomila e Gilmore Girls

Crônicas

Sherlock Holmes me introduziu ao mundo da leitura, quando na biblioteca de minha antiga escola comecei a devorar suas páginas com avidez. E com as séries não foi muito diferente.

Eu mentiria se dissesse que nunca assisti nada antes disso, e quando pequena eu até via alguns episódios soltos de Psych e Monk com o meu pai. Mas sem sombra alguma de dúvida foi a adaptação mais recente da BBC  que me ensinou a ter assiduidade, tanto com Sherlock quanto com todas as séries que passei a acompanhar depois dele.

Agora, Gilmore Girls é completamente o oposto de tudo que sempre procurei em uma série: não tem nenhum mistério, investigação ou herói. Pensa numa coisa pacata! Eu não as assistia nem quando passava no SBT, e se uns dois anos atrás alguém me recomendasse a trama dessas duas, eu provavelmente ignoraria.

Quem diria que a graça da história é justamente essa? Porque Gilmore Girls foi a segunda série, depois de Friends, a me lembrar que não são necessários grandes cenários, efeitos ou enigmas para fazer um roteiro interessante. Nada mais que a vida cotidiana, com seus problemas e maravilhas, sendo retratada de forma simples e intensa.

Sabe aquela sensação de tarde fria, sofá, cobertor e comida gostosa? Um chá bem quentinho, um pedaço de bolo e um bom livro para passar o tempo enquanto gotas de chuva batem contra a janela – é o que eu sinto quando assisto Gilmore Girls. E não é só porque a Rory é uma das personagens com quem mais me identifico, mas sei lá. Trilha sonora muito boa, alternada com pitadas de ironia e drama formam a combinação perfeita para tudo o que minha cabeça associa com a essência de relaxar.

Eu descobri que amava mesmo essa trama nas vezes em que eu saía do trabalho cansada e estressada, quando eu não queria saber de nenhuma grande saga ou ideia inovadora. Eu queria fechar meus olhos e me desligar tudo por duas horas, só isso. Mas se fecho os olhos nesse estado faço tudo, menos desligar – são horas em que Lorelai alcança esse propósito com melhores resultados.

E hoje, quando ainda assisto Gilmore Girls economizando os episódios com medo de perder as sensações boas já citadas, acredito que a missão da Amy Sherman-Palladino seja exatamente esta: lembrar que nessa vida que Deus nos deu não há nenhum problema em parecer comum às vezes. Ninguém é totalmente extraordinário o tempo todo, e menos continua sendo mais; a simplicidade e a quietude são bem-vindas.

A despeito de quantos problemas e correrias possamos ter, saber separar um tempo para as coisas bobas também é uma virtude.

Orgulho

Crônicas

Escrever sobre isso não é fácil. Já perdi as contas de quantas vezes calei os meus dedos por não saber nem como começar.

Eu não consigo me lembrar de um tempo onde o orgulho não fizesse parte de mim. Mesmo quando ele não tomava o controle por completo, eu sabia que essa sempre seria uma luta que eu deveria travar.

Quando tinha dezessete, ousei pensar que o orgulho me fosse de bom proveito. Ironicamente, de fato me trouxe um pingo de bom senso. Deixei que ele entrasse e ficasse. Pouco mais de um ano descobri que suas raízes tinham ido muito mais fundo do que eu imaginava, e o tamanho do trabalho que eu teria para removê-las.

Mas aos vinte quatro ele bateu em minha porta outra vez, e eu, depois de concluir que sua total ausência também não tinha sido uma de minhas melhores escolhas, abri. “Quem sabe dessa vez eu realmente aprendo?”, pensei. Talvez eu pudesse me tornar menos ingênua e sensível, mais forte; se eu aprendesse a usá-lo corretamente talvez não me sentiria tão vulnerável a me decepcionar com as pessoas novamente.

Só que aí, com o passar dos meses fui percebendo que eu não estava apenas construindo uma muralha que me protegia de intrusos ou indecisos, mas que principalmente me escondia de mim mesma. Era como o veneno auto ingerido cuja citação atribuem a Shakespeare, a moeda a ser estipulada em troca daquilo que não se pode comprar ou tampouco merecer. E me corroeu ardentemente até que eu aprendesse a me libertar de todas as suas camadas.

Não foi nem de longe um processo simples, foi a coisa mais dolorosa que já experimentei. E se porventura eu começasse a achar que já tinha terminado, encontrava mais uma ponta perdida que reiniciava todo o ciclo. Demorou até que eu pudesse estancar todas as pontas, sangrou muito. Mas finalmente cicatrizou, hoje segue como um lembrete indolor.

Acabei concluindo que ser livre é melhor do que ter razão, um braço torcido ainda é preferível a uma dor contínua e sem nome.

Varreduras

Crônicas

2017 foi um ano bom para mim, atípico. O ano passado foi um daqueles casos onde tudo o que poderia dar errado deu, e experimentar algo completamente novo depois disso foi como um sopro de orvalho desses que a gente sente vez ou outra.

Eu nem posso contar tudo o que me aconteceu, em parte porque não é necessário, e outra parte porque ainda não é hora – tenho optado por algumas mudanças, e à medida que elas forem tomando a forma que quero vão acabar transparecendo, também, por aqui.

O que eu achei mais engraçado no meio disso tudo é que exatamente tudo acabou saindo ao contrário do que havia sido planejado por mim, mas não de uma forma ruim, no final acabou saindo melhor que a encomenda. E isso me ensinou a ver, em prática e não mera frase de efeito, que os planos de Deus são maiores e melhores do que tudo que pedimos ou imaginamos.

Consegui rápido um emprego bom em minha área de formação, e aprendi a tomar café – sabe como é, no começo do ano só um Matte ou capuccino, mas lá pelo meio já estava rendida às duas canecas grandes e diárias de café. Comprei camisetas legais, e comecei a me programar para gastar menos. Não escrevi tanto quanto desejava, e precisei de muito tempo comigo para assimilar cada pedaço de mudança que em mim surgia; pedaços que foram maiores que a minha capacidade de os numerar.

Vi gente pobre achando ter muito, e vi gente rica que já entendeu que nem todo o dinheiro do mundo é suficiente. Atrasei minhas séries, deixei um rastro de livros inacabados e troquei os Cheetos de requeijão por chips de inhame. Percebi que gosto de doces mais do que eu mesma sabia, e depois troquei o excesso desses doces por potinhos de cranberries. Descobri que alguns erros são mais difíceis de reparar do que outros, mas nem por isso impossíveis, e que algumas coisas ainda resistem à ideia de partirem por completo. E em nenhuma dessas descobertas me senti só.

Conheci gente nova, alguns agradáveis e outros nem tanto. Quebrei minha mala no carnaval, e ontem comprei uma nova. Arrebentei pelo menos três necessaires, e ganhei outras. Fiz hematomas de origem desconhecida, e ganhei dois outros sendo espancada e espremida em um dia chuvoso como outro qualquer na linha 12. Planejei uma viagem, e desisti dela algum tempo depois. Mudei meus planos, quase todos eles, e aprendi que algumas vezes aceitar e esperar é mais útil do que gastar os dias lutando contra.

E aí vem outro ano, com todas as descobertas e reviravoltas que a vida é especialista em dar, pensar nele é como abrir um livro do Conan Doyle ansiosa pelas respostas que serão dadas aos mistérios. Mas passado esse instante, a ansiedade se vai e dá lugar à calma e a certeza de que as coisas serão exatamente do jeito que devem ser.

23

Crônicas

Tentei voltar a escrever em um diário, senti falta de olhar meus cadernos antigos e dar boas risadas. Logo percebi que eu nunca mais me adaptaria a essa ideia como há alguns anos atrás, e que o jeito era me conformar com os textos feitos uma vez por ano, uma espécie de balanço das lições boas e tudo o que precisa ser deixado para trás.

As pessoas mudam, o cabelo e as roupas também. Mas a paixão por escrever não, e é reconfortante saber que a despeito de quantas coisas mudem com o passar dos anos, pelo menos isso sempre há de ser igual.

Passei um tempo me perguntando o que a Geórgia de 23 diria à Geórgia de 22 se tivesse a oportunidade. Ela provavelmente diria para a mais nova tomar mais cuidado e ficar esperta, pensar melhor e mais vezes antes de tentar escolher qualquer coisa; que não dá para ser de porcelana a vida inteira e que chega uma hora na vida que a gente precisa aprender a ser mais forte, acordar. Mas mesmo sem esse diálogo, eu acabaria descobrindo de qualquer maneira.

A vida segue, os planos mudam e os sorrisos voltam. Às prioridades soma-se a certeza de que essas nunca devem mudar, e isso independe do que aconteça. Só muda de lugar o que, pra princípio de conversa, nunca nem deveria ter ganhado espaço. E é justamente minimizando as instabilidades que a segurança cresce, talvez porque seria no mínimo ingênuo achar que coisas demasiadamente complicadas de uma hora pra outra simplesmente se resolvessem.

As séries ficam quase em dia, a lista de viagens aumenta. Existe uma vontade muito grande de viver, de conhecer o que ainda não foi visto. Algumas ideias abandonadas ressurgem, mas no geral persiste a sede novidades e outras descobertas, do tipo que nem se quisessem poderiam ser contabilizadas.

Uma hora a gente acaba percebendo que a vida é curta demais para perder tempo insistindo em se importar com qualquer coisa ou pessoa que nunca tenha se esforçado para tanto, e que a confiança, como tudo o mais na vida, precisa ser conquistada. É essa percepção, e não o tempo, que traz de volta a paz.

Faxina

Crônicas

Existe jeito melhor de abrir setembro do que escrever sobre faxina?

Tudo bem, eu também consigo pensar em vários assuntos mais agradáveis. Mas é o que temos para hoje.

Devo começar admitindo com certa vergonha que a faxina passa longe de ser uma das minhas tarefas domésticas preferidas. E sim, eu sei que chega a ser no mínimo irônico uma pessoa que tem mania de limpeza não gostar de faxina; mas nem tudo na vida é da maneira que gostaríamos, não é mesmo?

Tenho meus motivos para isso, e explico: pensei bastante até descobrir que a primeira razão encontra-se no fato de eu gostar muito mais do resultado final da limpeza, que do processo em si. Sei que pode parecer uma coisa muito óbvia quando falada dessa maneira, mas venho percebendo que não é. Por exemplo, cozinhar pra mim é divertido tanto no percurso quanto no resultado. Não que eu seja uma expert ou coisa parecida, porque ainda não sou, mas sempre que cozinho sinto prazer em descobrir as coisas, me encanta o fato de um ingrediente ou tempero poder, sozinho, mudar todo o sabor de uma comida; e é justamente esse encantamento que me falta quanto ao processo de limpeza.

Explicado esse primeiro motivo, tenho outra razão muito legítima para nunca ter me esforçado demais nesse quesito: sou alérgica a quase todos os produtos de limpeza que já inventaram. O jeito mais fácil de me ver com o nariz vermelho e com falta de ar é passando por esse corredor específico de qualquer supermercado. Aí, pensa! Não é como se eu fosse alérgica a todos os produtos existente, mas a preguiça e o desgosto se encarregam de usar minha alergia como uma muleta. E usam muito, aliás.

Por último, e que ao meu ver pesa mais que todos os dois porquês citados anteriormente, conta o fato de eu ser lerda. E não sou um pouco lerda, sou muito lerda! Eu queria muito, de verdade, ser uma daquelas pessoas que conseguem limpar a casa toda em um dia; mas só pra poder limpar e arrumar dignamente o meu quarto levei exatamente uma semana. Uma semana! Um dia inteiro para limpar o nicho, organizar e ver o que podia jogar fora, outro dia só para repetir o mesmo processo em minha penteadeira; e depois as portas do guarda-roupa, outro dia para as gavetas… E ainda estou terminando de cuidar do criado-mudo hoje.

Semana passada eu estava assistindo ao Flash e vi uma cena em que o Flash Reverso bagunça, depois limpa e organiza toda uma casa em questão de poucos segundos. Segundos, e eu aqui precisando de uma semana para arrumar só o meu quarto! Consegue entender que meu preparo é, principalmente, psicológico para ter paciência de não parar tudo no meio do caminho? E sim, naquele momento, vendo aquela cena, eu o invejei.

Ainda assim, mesmo levando tanto tempo para fazer algo que não gosto muito, não pude deixar de perceber a bondade de Deus sobre minha vida. Bondade que primeiro se manifestou em me dar uma mãe que também é doida por limpeza, mas que gosta muito mais do ato em si do que eu, porque já percebi que vou acabar deixando a parte mais pesada da limpeza nas mãos de uma diarista assim que eu sair de casa. Bondade em me ensinar a importância de não desistir de fazer as coisas simplesmente porque não gosto, e também porque obter o resultado desejado sempre faz valer o meu esforço.

Na verdade, eu acho que é até engraçado. Semana passada eu estava pensando comigo “Nossa, quase nem tenho roupa mais, não acredito que vou ter de comprar tudo de novo!”, mas se tem algo que alegremente redescubro toda vez que me proponho a limpar e organizar qualquer coisa é que tenho muito mais do que me lembrava ter. Tenho o suficiente para mim, e ainda sobram coisas boas para quem precisa.

Aí me dei conta de que a vida não é muito diferente de um quarto bem limpo e arrumado, sabe? As coisas fazem muito mais sentido quando estão em seus devidos lugares, e tudo o que não for bom precisa ser jogado fora.

Dá trabalho sim, nos últimos dias me vi adotando vários hábitos que nunca cogitei para não desperdiçar todo o trabalho que tive. Mas não tem sido um peso, as coisas meio que vão fluindo da maneira que deveriam se nos dispomos a mudar o foco. E tem valido muito a pena.

Ser quem a gente é

Crônicas

Semana passada eu comecei a ler um livro do Cortella. E, sabe, toda vez que leio qualquer coisa sobre filosofia várias questões começam a fervilhar em minha cabeça. Não acho que seja muito diferente com qualquer outra pessoa, mas enfim.

Coincidentemente, também na semana passada, vi uma página repostar um verso do Leminski que descobri há dois anos em outro livro muito bom. E o verso diz:

 isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além.

E fiquei aqui pensando…

Não estou escrevendo nada disso no sentido de dizer que nós nunca podemos mudar, porque sinceramente não acredito nisso. Acho que cada um deve saber muito bem no que precisa melhorar e tomar vergonha na cara para que essa mudança aconteça, e em muitos aspectos eu também me incluo nisso. Mas, de uma maneira geral, não é como se fosse exatamente fácil sermos nós mesmos.

Todos os dias, de todas as formas possíveis e imagináveis, nos deparamos com qualidades e características que parecem tão melhores que as nossas. Nos moldamos, nos editamos para uma adaptação daquilo que achamos correto: uma espécie de versão melhorada de nós mesmos. Seja por auto proteção, para impressionar alguém ou por qualquer outro motivo; somos levados a acreditar que não somos bons o bastante.

E talvez não sejamos mesmo, também pode acontecer. Mas o que eu realmente acredito, é que quase sempre somos bons naquilo que não queremos, ou não sabemos, ser.

Só que não é nada normal fazermos um photoshop em tempo real de nós mesmos. Não digo que é simplesmente doentio, mas também aprisionador. E quem é que aguenta viver assim?

Ultimamente, ando revendo muitas posturas e pensamentos, e até mesmo sentimentos, meus. Não posso dizer que tem sido fácil, mas creio que a cada dia isso se mostra necessário. Mas o que tem me impressionado quanto a isso, por mais contraditório que possa parecer por se tratar de mudanças, é que a cada pequeno passo me sinto mais livre para ser eu mesma. É como se eu estivesse me redescobrindo de uma forma que há pouco tempo antes não me imaginei.

E a cada dia sinto mais forte a convicção de que eu não quero uma versão editada de mim. É claro que sempre terão ajustes a serem feitos, mas minha essência continua sendo a mesma, e depois de todo esse tempo não acredito que vá mudar.

Já parou pra pensar no que essa liberdade significa?

Bom, pelo menos pra mim, significa que já tenho idade suficiente para ter algumas noções econômicas e políticas, mas que minha vida não se resume a isso. E também significa que eu não me sinto menos madura ou séria por caçar pokémons e ler quadrinhos, a despeito do que possa parecer. Significa que sou livre para mostrar o que penso e sinto, e que onde não encontro essa liberdade aos poucos também se desfaz o meu querer.

Significa muitas outras coisas, mas a principal delas é que eu não sou obrigada. A nada! Não sou obrigada a malhar e fazer dieta, a vestir as roupas que aparecem na TV ou qualquer outra coisa que a mídia imponha. Não sou obrigada a ter conversas intelectuais o tempo todo para que vejam o quanto sou (ou deixo de ser, também é algo válido a se pensar) inteligente.

Na verdade, todo mundo é. Às vezes a gente só precisa se dar conta disso.

Sobre o tempo e tintas de cabelo

Crônicas

Repito: isto não é um tutorial de beleza ou nada do tipo, porque eu realmente não tenho a menor vocação para fazer ou falar dessas coisas. Mas gosto de misturar as coisas sérias da vida com situações cotidianas, e pretendo continuar assim. Portanto, insisto.

Essa não foi a primeira vez que pintei meu cabelo. Comecei aos dezesseis, cerca de uns sete anos atrás. “A cor do seu cabelo é muito esquisita, não é definida”, disseram. E eu, tonta, acreditei. Primeiro uma tinta loura sem amônia nas férias, não era como se fosse durar – ou mudar, de fato, alguma coisa. E já que não mudou muito, coloquei uma tinta mais forte, dessa vez um mel; nem eu sabia se meu cabelo estava loiro ou laranja, quanto mais as outras pessoas. Depois uma tinta mais loura, outra mais loura, uma outra mais loura… Até meu cabelo ficar todo branco e eu perceber a bosta que estava fazendo.

Não foi fácil escurecer o cabelo nessa época. Me lembro de ter jogado louro escuro pelo menos umas duas vezes, mas o 12.0 sempre acabava sugando a cor de cima de um jeito ou de outro. A raiz crescia por cima, misturava com o cabelo tingido e ficava um negócio lindo que só! Aí comecei a cortar, e foi assim que me apaixonei pelo Chanel de bico: a metade de cima do cabelo estava da minha cor natural, e as pontas bem louras, como se aquilo fosse proposital.

Até que depois de um tempo me cansei e escureci tudo. Foi a primeira vez, ainda mais com o cabelo curto, que me senti uma espécie de Branca de Neve. Estava tudo muito lindo, até que a tinta foi desbotando e ficando meio ferrugem. É claro que eu pintei de novo, joguei um louro escuro pra deixar o meu cabelo o mais próximo do natural possível. E funcionou por um tempo, antes que começasse a desbotar. Mas nessa altura eu já estava cansada de tingir, só deixei ir desbotando, crescendo e fui cortando.

Foram anos até que meu cabelo ficasse completamente da cor natural, e ganhei uma habilidade de esperar como nunca antes já havia tido. Se quer saber, eu gosto da minha cor natural. É meio indefinida mesmo, e sendo bem sincera, não é lá das minhas preferidas. Mas é minha, e eu gosto. Fiquei muito satisfeita apenas com ela nos quatro anos que dali se passaram.

Mas mulher é um bicho muito esquisito. Conheço mulheres que não gostam quando eu digo isso, mas sou mulher e me reconheço como um bicho muito esquisito – e conheço outros tantos bichos esquisitos que ainda não se reconhecem como tal. Certo dia me levantei, olhei no espelho e, simplesmente pensei “Ah, ando meio cansada de acordar e ver sempre essa mesma cara. Acho que preciso dar uma repaginada no cabelo”. Uma semana depois, as pontas de meus cabelos estavam com luzes. Foi só o estopim: alguns meses depois e eu estaria completamente loira.

Só que o louro também não é a minha cor preferida de cabelo. Sabe quando você faz alguma coisa só porque sabe que combina? Não é como se você precisasse gostar de fato, mas já que era pra mudar, que fosse ao menos uma mudança que não ficasse ruim. Eu era bem loira quando criança, antes que meus cabelos passassem para o castanho claro, e sabia que combinava comigo. Logo, lá estava eu com os cabelos claros outra vez. Nem sequer pensei em todo o trabalho que tive.

Mas aí, no começo desse ano, aprontei de novo: adivinha quais são as cores de cabelo que mais gosto? Pois é, castanho escuro e preto. E não sei por quê, nem sempre preferência é algo que a gente explica. Escureci mesmo, e só não botei o preto porque sei que daria um bocado a mais de trabalho pra sair – não é como se o castanho escuro não estivesse dando trabalho também, em todo o caso.

Por que eu quero tirar uma cor que gosto tanto? É como eu disse, bicho esquisito. Porque a raiz natural sempre cresce, e não tenho paciência pra ficar retocando, acho que só terei quando meus cabelos estiverem brancos e eu me ver obrigada a fazer isso. Enquanto ainda não estamos nesse patamar, uma raiz mais clara fica crescendo, se mistura aos cabelos mais escuros e vai ficando aquela coisa linda, sabe?

Esses dias eu andava pensando sobre várias coisas que vêm acontecendo e percebi que as tintas de cabelo me servem como marcadores de tempo. Não é como se eu gostasse de esperar todo o tempo preciso antes que as coisas fiquem do jeito que eu quero, mas a minha decisão de não cortar o cabelo torna a espera uma necessidade. Fazer qualquer outra coisa machucaria meus cabelos e traria a tesoura como consequência, então não faço nada. Só respiro fundo e espero, sem saber quanto tempo será necessário e me incomodando sempre que vejo no espelho a raiz mais clara, mas reconhecendo que não existe coisa melhor para fazer. E olha que eu nem sei se meus cabelos vão ficar como quero ou não.

Não é como se nas outras coisas da vida fosse muito diferente, cada dia que passa descubro um tanto a mais de paciência que eu nem sabia ter, ou julgava impossível. Mas não é.

Talvez, da próxima vez, eu pense umas quinhentas vezes antes de mergulhar de novo em uma cor ou ideia nova. Ou talvez eu me lembre de todo o trabalho que dá e desista antes mesmo de tentar.

Talvez. É só o próprio tempo quem vai me dizer.