Aquela que nunca se sentia bonita

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Aquela que nunca se sentia bonita

Ela sabia que, segundo os padrões da mídia, não era bonita. Era mais do que uma mera opinião instintiva, era uma certeza: nada havia que merecesse destacada atenção em seus olhos, cabelos ou qualquer outra parte de seu corpo – se sentia comum em todos os aspectos.

O pior de tudo é que não era bonita nem a seus próprios olhos. Não se sentia bonita, ainda não havia descoberto o prazer que só a autoestima poderia lhe proporcionar. Afinal, não se sentir bonita para uma pessoa ou outra é tolerável, considerando que preferências pessoais são relativas e tudo o mais. Mas não se sentir bem consigo mesma, quem poderia suportar?

E ainda gostava de se torturar comparando-se às outras. Dizia que não, mas nunca parava, porque mesmo que não admitisse, no fundo esperava que por pena alcançasse a atenção desejada. Desconhecia a máxima de que sempre haveria alguma outra mais bonita, ainda que fosse a Beyoncé, e se recusava a aprender a lidar com isso.

Se por algum motivo, qualquer que fosse, desconfiasse que outra mulher poderia receber as atenções que tanto queria, lhe desprezava. Entortava a cara, fazia bico e criava sua própria muralha de proteção. Mas gostava de forjar uma aparência de bondade, como se essa aparente inocência pudesse camuflar todo o rancor que escondia em seu coração.

E enquanto decidisse permanecer assim, não crescia. Não vivia de verdade. Mesmo que teimasse em mentir para si mesma, nenhuma outra pessoa poderia ser culpada; pagava penitência por sua própria escolha infeliz.

O que ela precisava mesmo era descobrir com urgência o segredo de beleza que nenhuma revista de moda ou blogueira jamais contou: que mais importa o que está dentro. Piegas sim, totalmente clichê – mas nem por isso menos verdadeiro.

Por que se não, de que outra forma poderia sobreviver a tanta vaidade? Por quanto tempo mais seria escrava da comparação? Ou então odiar todas as outras era de fato mais fácil do que aprender a ser feliz?

Ela não tinha se dado conta de que ninguém jamais poderia ser a pessoa incrível que somente ela, e ninguém mais, estava destinada a ser, e tampouco que estava privando o mundo à sua volta disso. Por quanto tempo ainda seria capaz de resistir?

Ela também ainda não sabia que a verdadeira beleza é multiforme, e que está nos olhos de quem vê. E que mesmo que um bom sorriso não pudesse resolver tudo, na maioria das vezes já era meio caminho andado. Ou que a melhor definição de leveza não consistia em atitudes ou gostos predominantemente infantis, e sim na paz indescritível de saber amar a si mesma com todos os apesares; saber quem é e para onde vai.

E quem seria capaz de adivinhar no que se tornaria quando enfim descobrisse, quando a beleza interior lhe emanasse de tal forma que acabasse por finalmente deixá-la mais linda do que jamais pensou que poderia ser?

Nem ela mesma saberia enquanto continuasse se lamentando por não parecer tudo aquilo que sempre quis ser. Aos que lhe conheciam só restava esperar que a menina não tardasse demais a descobrir.

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Aquela que já sabia que não sabia

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Aquela que já sabia que não sabia

Qual é a raiz quadrada de setenta e cinco? Há vida inteligente fora da Terra? O aquecimento global é real ou uma fraude?

Ela sabia que nunca teria a resposta para todas as perguntas na ponta da língua. Não se pressionava com isso, e nem se surpreenderia caso alguém mais astuto lhe interrogasse.

Não é como se não apreciasse a inteligência, pelo contrário, sabia mais do que bem a sua importância. Mas ela também sabia que pouco conhecimento era cem por cento absoluto ao ponto de nunca evoluir ou mudar, que não era pecado perguntar e que sempre haveria a possibilidade de alguém mais esperto lhe confrontar.

E sabendo disso, por que se cobraria mais que o necessário?

Hoje ela escolhia evitar o desgaste, mas isso não significa que sempre tenha sido assim. Quem lhe visse agora talvez nem reconhecesse mais aquela que sempre prezou pela razão em primeiro lugar.

A vida tem dessas, não é mesmo? Às vezes a gente pensa que sabe alguma coisa, mas sábio mesmo é quem reconhece não saber nada – já reparou que quem pensa que sabe quase nunca está disposto a aprender?

Ela vivia cada dia como se fosse uma nova descoberta. O senhorzinho que sempre sorria, ainda que estivesse todo dia em baixo do sol distribuindo papel na rua; a mãe que com firmeza repreendia os filhos andando na rua, ou a vendedora que mesmo ignorada respirava fundo e mantinha a simpatia: todos eles tinham algo a ensinar. E como eterna aprendiz que era, estava sempre ávida por todos esses detalhes.

O tempo havia lhe ensinado aquilo que nem todos os livros, filósofos ou mestres puderam registrar; que a verdadeira sabedoria ia muito além de coisas que a mais alta cultura poderia tentar descrever ou enumerar.

Essa convicção lhe tornava livre como nenhuma outra antes poderia ter tornado. Não era uma liberdade que justificava a passividade ou a ignorância, mas sim que a libertava para não se preocupar em ser superior a ninguém que não fosse ela mesma. E ainda que tentasse por meio de palavras, nunca se sentiria capaz de explicar – e nem devia. Não era obrigada, a nada.

O irônico mesmo era que, quanto mais concluía consigo mesma que nada sabia, mais queria saber. Uma coisa puxava automaticamente a outra, não conseguia evitar e nem queria. No íntimo se sentia feliz que assim o fosse.

Quem lhe via por fora talvez corresse o risco de imaginar que essa sabia muito, mas ela mesma não se deixava enganar. Não era facilmente seduzida por elogios que inflassem o seu ego, e ainda que o pensamento lhe passasse rapidamente pela cabeça, fazia questão de não deixá-lo fixar.

E assim levava a vida, com tanta calma e serenidade quanto possível. E quando essa calma não parecia ser possível, bastavam cinco minutos e mais um pouco de reflexão para descobrir que era.

Será que Sócrates, aquele filosófo, se orgulharia ao saber que ela achava simplesmente genial a sua descoberta?

Aquela que não entendia

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Aquela que não entendia

Alguma coisa parecia estar diferente desta vez, ainda que ela não soubesse exatamente o quê. Não sabia nem se era o jeito de olhar que percebera nele ou a intenção que havia mudado, mas mesmo assim algo não estava mais do mesmo jeito que antes…

Ou não?

Provavelmente não. Afinal de contas, não seria a primeira vez que se enganara sobre esse mesmo assunto. Por que justo agora seria diferente? Não, impossível; não era e nem podia ser.

Mas será que era tão impossível assim mesmo?

Sim. Melhor que qualquer outra pessoa, ela conhecia bem o buraco onde se meteu antes, buraco para onde nunca mais queria voltar.

Ou será que queria?

Cada ideia, até parece! Ela conhecia bem esse roteiro desgastado, de frente para trás, e já havia se machucado em todas as reprises. Muito lhe admirava, inclusive, que ainda ousasse cogitar tal assunto depois de tanto tempo.

E se…

“E se…” era um termo muito vago para considerar, cheio de alternativas não comprovadas. Nunca tinha visto tanta complicação junta antes para algo que supostamente deveria ser simples; o melhor mesmo era deixar as coisas assim antes que voltassem a se complicar outra vez, certo?

CERTO?!

Pelo amor de Deus, como poderia mudar de ideia a essa altura? E por que mudaria, se até onde conseguia lembrar, suas razões em nada não apontavam como errada a sua escolha.

Certo. Ela estava mesmo certa antes, não havia motivo para querer voltar atrás. Decidiu que o melhor a fazer era não pensar mais no assunto, como a partir de agora faria…

Só que não funcionou, porque pensou. Aí resolveu se distrair com um livro qualquer, mas acabou pensando outra vez.

O que poderia haver de diferente afinal, ou por que isso ainda a instigava tanto? Não sabia se as respostas lhe agradariam, e menos ainda se gostaria de admitir.

Não, não era possível… Devia ser só impressão mesmo, onde já se viu? Ela devia começar a pensar em homens que lhe trouxessem sanidade, em vez de mais confusão.

Mas será que era mesmo tão louca assim? Seus olhos podem não ter visto direito, ou talvez o seu cérebro só tenha misturado tudo… De novo. Se tratando dele, era sempre melhor lidar com a possibilidade.

E ainda que não estivesse louca, sabia que caso estivesse certa, como bem lembrava das vezes anteriores, logo passaria: a experiência lhe ensinara que constância não constava na lista de qualidades do rapaz. Os outros defeitos ela até poderia aceitar, mas esse era difícil demais.

Talvez o melhor remédio fosse simplesmente puxar no fundo da memória todas as vezes em que quebrou a cara batendo na mesma tecla, isso por certo bastaria. Haveria de bastar.

Por que então essa sensação não passava logo? Por que bem dentro uma voz insistia em teimar, como se ela estivesse errada dessa vez, e sua decisão de outrora já não fosse a mais acertada?

Bem, nos desenhos animados sempre haviam duas vozes na hora das decisões importantes. E se estivesse dando ouvidos à voz errada?

Ela não queria errar outra vez. Já nem sentia mais raiva ou decepção, só cansaço mesmo: estava cansada de se abrir só para depois precisar se retrair de novo. E de novo, e de novo… Já tinha até perdido a conta.

Mas e se… E se desta vez, para variar, fosse diferente mesmo? E se ela não estivesse tão louca como pensava, se seus olhos não tivessem lhe traído?

Seria possível mesmo?

Ela reconsideraria, apesar de tudo. Ainda que não quisesse demonstrar ou admitir, sabia que se ele tivesse crescido um pouco nesse espaço de tempo reconsideraria.