Sobre a TPM

Cristianismo, Para Mulheres

Desisti de tentar escrever alguma coisa sobre isso, meu rascunho anda parado há tanto tempo e eu ando tão louca com essa coisa chamada final de semestre com seminário e trabalhos para amanhã que, assim que vi hoje esse vídeo percebi que nenhuma das coisas que eu escrevi a despeito me pareciam tão necessárias assim, e ainda pude aprender.

P.S.: aceito humildemente doações de chocolate, tipo uma tonelada. Beijos no coração.

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Caneta e papel

Crônicas

Acho difícil pensar em duas outras ferramentas mais queridas. É um caso de amor tão sincero e tão antigo… Mais antigo que minha paixão pelo violão ou qualquer outro objeto de afeto que eu sequer possa pensar.

Porque quando seguro uma caneta sob uma folha limpa, é como se não existisse nada mais lá fora ou em qualquer outro lugar. A mão vai se borrando de tinta, ficando azul ou preta, e à medida que o papel se enche a minha alma enfim me parece nítida como o branco do papel.

É como me enxergo por dentro, tanto o melhor quanto o pior de mim. Todos os meus medos e desassossegos, opiniões e as coisas que não posso dizer ficam juntos numa folha qualquer. Até os meus planos fantásticos, tão incríveis em minha mente, necessitam passar pelo teste do papel  – quando então descubro que muitos deles são ridículos e não fantásticos, mas de nenhuma outra maneira saberia.

Uma folha limpa é um universo de oportunidades: um ninho de palavras enroscadas, notas musicais esperando por serem tocadas, ou cartas não entregues. É um espelho da alma, de tudo o que é importante e não se pode deixar passar, como um conjunto de rabiscos que em qualquer outra ocasião não fariam nenhum sentido… Mas fazem. E as alegrias descritas no papel também parecem tão mais alegres! Tão mais acessíveis em um arquivo secreto da memória, revividas sempre que lidas.

As palavras são especialistas nessa capacidade imensa de trazer às coisas à vida, ainda que eu não compreenda completamente o porquê. No princípio era o Verbo, e assim para sempre há de ser.

Distância

Crônicas

Sabe quando mesmo acordando bate um cansaço? Cansaço de querer insistir no que não se deve tentar ou não sabe se deve. Cansaço de ver tanta incerteza junta em um só lugar.

É como quando jogo 2048 e coloco uma peça no lugar errado, e sem alternativa fico desfazendo e refazendo a jogada esperando que uma peça melhor venha e dê para continuar. Só que a vida não é um jogo, e nem sempre dá para continuar. Tem vez que machuca, faz mal continuar.

E então reaparece um mesmo impasse, que na verdade não há. É só aprender a deixar de querer ter por perto o que perto não quer estar, sem repensar ou voltar atrás. Uma ausência constante deixa de fazer falta com o tempo, e logo chega esse tempo.

Chega o tempo e chega de quebra-cabeças. Chega de enigmas e pistas inexistentes, de todos os mistérios e tanta coisa incompreendida ou mal interpretada. Chega de inconstância, e sem mais.

Pedra no peito

Crônicas

“Tinha uma pedra no meio do caminho…”, escreveu Drummond em seu mais famoso poema. Mas um dos meus favoritos dele é a Confidência do Itabirano:

Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

“Mas oitenta por cento de ferro nas almas é muito rude”, sempre pensei. E continuo pensando. Porém também já vi quem ultrapasse essa cota que já acho excessiva com oitenta e cinco, noventa… Cem por cento de ferro nas almas. É tanto ferro que nem sobra espaço para aquilo que Drummond considerou porosidade e comunicação.

E eu me pergunto por que o ser humano é tão esquisito assim. Esquisito porque temos manias tão absurdas, e é incrível a nossa habilidade em arranjar desculpas para justificá-las. Como se houvesse justificativa para o orgulho – não estou ignorando a existência dos famosos “Viu como eu tinha razão?” e “Eu avisei isso antes…”, sempre tão prontos como resposta em nossos lábios. Mas percebi que em nenhuma das vezes que digo qualquer uma dessas duas frases me sinto mais satisfeita ou feliz por isso.

Sentimos medo, e também temos fraquezas. Mas não lidamos com elas, ou pelo menos não como deveríamos lidar. Escondemos, ignoramos como se isso fosse o bastante para que elas sumissem sozinhas. Agimos como se elas não existissem, e tentamos convencer o resto do mundo de que isso é verdade. Como se todo esse orgulho fosse a capa que nos torna o Superman, que até poderia servir como exemplo de perfeição se não passasse de uma mera ficção. E é ainda pior quando até conseguimos nos convencer disso.

O orgulho também cega. Falo disso com a maior liberdade porque até os dezessete fui orgulhosa demais, quando então compreendi o que Shakespeare (ou Buda, ou Einstein, ou sabe-se-lá-quem porque atribuem essa frase a várias outras pessoas) quis dizer quando falou sobre tomar o veneno esperando que a outra pessoa morresse e desisti. Desisti de ser corroída por dentro, e depois disso passei a enxergar a vida com muito mais tons – sei que essa afirmação pode soar apenas meio poética, mas acontece que eu sou meio daltônica, então acredite quando digo que a variedade de tons é realmente algo importante para mim.

É irônico que, supostamente abrindo mão de nossos defeitos e falhas de caráter, e friso supostamente porque não acho que isso seria um problema se fosse algo sincero e não só por questão de aparência ou o que os outros poderiam pensar, não encontramos toda esta “superioridade” procurada. Toda vez que ouço alguém dizer “Eu vou ser superior”, mais inferior me parece e não vejo de que outro modo poderia ser.

Não é sobre abrir mão da nossa imperfeição, da qual com um pouquinho de bom senso sabemos que nunca vamos nos livrar completamente. É sobre abrir mão da nossa essência humana que erra e se arrepende, mas não foge disso apesar da vergonha, para nos tornarmos cem por cento ferro, cem por cento pedra ou qualquer outra coisa mecânica que não respira e tampouco precise sentir e demonstrar emoção.

A vida poderia ser tão mais fácil se descomplicássemos e amolecêssemos de vez essa dureza toda.

59 dias

Crônicas

59 dias. 1416 horas, 84960 minutos, 5.097.600 segundos. Tantos milésimos quantos não ouso contar. Menos que dois meses, quase nada.

Aí eu percebo que, sempre nessa mesma época, começo a lembrar e analisar o que eu esperava do meu ano. Aquelas listas de metas, sabe? Não como aquelas listas enormes que eu fazia na adolescência, com metas incontáveis das quais eu não chegava a cumprir a metade – coisa que, quando paro e lembro as coisas esquisitas que eu costumava escrever, não acho que tenha sido tão ruim assim ter deixado vários itens pendentes. Acho que minhas metas hoje são bem mais práticas e pé no chão.

E não é como se meu ano tivesse sido ruim, porque não foi, ou se eu tivesse conseguido cumprir todas as metas que escrevi, porque ainda faltam duas; mas não é isso que me assusta. O tempo me assusta, a ausência dele para ser mais sincera. Ainda não vi coisa mais preciosa que o tempo, nem mais escassa.

Sempre que penso sobre isso fico perplexa. Na infância, nas aulas de canto e coral da 5ª série, meu professor de música preferido costumava nos treinar para cantar Aquarela, do Toquinho, em uma apresentação que já nem me lembro mais se aconteceu ou não, só sei que eu gostava tanto daquela música que nunca mais esqueci a letra; e enquanto estava aqui escrevendo sobre isso me lembrei daquele trecho que diz “E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar, não tem tempo, nem piedade e nem tem hora de chegar. Sem pedir licença muda nossa vida, depois convida a rir ou chorar…”.

Quando criança, querendo crescer logo (hoje não sei por quê), eu não tinha a mínima ideia do que o Toquinho queria dizer com isso; depois na adolescência concordei. Mas agora não acho que só o futuro seja tão imprevisível e incontrolável assim, porque todos os dias quando acordo o presente dá um jeito de me surpreender. E não estou dizendo que isto seja algo ruim, porque não é em 85% das vezes. Só me assusta mesmo.

Me lembro tantos detalhes da minha infância, até já escrevi sobre alguns aqui, mas me lembro nitidamente de coisas de quando eu tinha três ou quatro anos… E no mês que vem, caso assim Deus queira, já serão vinte e dois anos. Eu, com vinte dois anos. Ainda nem me acostumei direito com os vinte e um! Deixei de me acostumar depois dos dezoito. Talvez esta seja a famosa crise dos vinte, e não é nada agradável.

Acho tão confuso pensar em todas essas coisas, porque se penso demais na brevidade do tempo começo a me imaginar daqui a alguns anos correndo atrás de uma criança remelenta que chamarei de meu filho enquanto seguro outra mais nova nos braços para trocar a fralda (pelo menos é assim na minha cabeça, se vai ser assim mesmo eu já não sei); e muitos anos depois (espero!) me vejo tendo aquela crise do primeiro fio de cabelo branco; e muitos outros anos depois, já com todos os cabelos brancos, abusando da minha velhice para ser ranzinza. Não, eu não quero ser ranzinza, acho mais capaz de ser uma daquelas idosas que contam histórias, tipo a de quando resolvi escrever alguma coisa sobre o tempo na minha juventude.

Tudo não passa de um átimo, e isso é bizarro. Coisa que voa sem pedir minha opinião, e do jeito que sou lerda, caso a minha opinião diferenciasse em algo, gostaria que tudo acontecesse em câmera lenta para descobrir se aproveitando o tempo minuciosamente não houvesse pretexto para saudade, nem para lamentos ou procrastinação.

Como se fosse possível degustar o tempo como chocolate, saboreando detalhadamente e identificando todos os sabores presentes na receita, exceto aqueles que de tão ruins ninguém quer. Como se o tempo se importasse em ser sujeito às minhas vontades loucas e estivesse sempre à minha espera, como os mordomos dos filmes que estão prontos a atender assim que um sininho ressoa…

Toda essa brevidade me serve como um lembrete diário de que eu nada sou.