Panelaço, impeachment, coisa e tal

Textos

Era para esse texto ter saído na sexta-feira passada, mas eu estava tão doida com uma pesquisa de Sistemática que não tive cabeça para concluir o que estava escrevendo a respeito. Já expliquei qual a minha preferência política aqui em um outro post e, como minha visão não mudou desde então, não vejo necessidade de repetir tudo o que foi dito; resumo dizendo que sou uma espécie de centro-direita que insiste em sonhar com a concretização de uma terceira via.

Não escondo que fui e continuo sendo oposição ao atual governo, no primeiro turno do ano passado escolhi a Marina e no segundo o Aécio. Eu poderia fazer uma lista extensa explicando detalhadamente os motivos pelos quais discordo das diretrizes do PT em vários aspectos; mas vou me ater à diferença entre o discurso que eles pregam em contraste com suas práticas, os escândalos de corrupção e as falácias do Lula que, além de já ter declarado em entrevistas mentir sem o menor pudor para ganhar votos, também disse em entrevista à RTP (emissora portuguesa) que o mensalão nunca existiu (!) Ou então poderia citar a falta de gestão e planejamento econômico, mas o principal motivo de eu não ter votado na Dilma foi porque já sabia que haveria toda essa confusão tributária e econômica pós eleição, e não me sinto nada feliz em dizer isso. E não, não acho que se outro candidato tivesse sido eleito as coisas se desenrolariam de uma maneira diferente porque, sinceramente? A coisa já estava muito feia antes e prontinha para estourar a qualquer momento, só esperando embaixo do tapete uma hora mais propícia para a caca aparecer.

E, se admito que o resultado não seria dos melhores independente do candidato que fosse eleito, há de se perceber que, mesmo sendo coxinha assumida, sou contra o impeachment pelo simples motivo de que tenho horror a golpes e ditaduras, seja ditadura do proletariado, golpe militar ou o que for. Eu não votei, e nem votaria na Dilma porque não gosto de ser enganada. É claro que, quando digo isso às pessoas que convivem comigo, geralmente falam que é muito idealismo de minha parte esperar honestidade em campanhas de eleições; e eu fico aqui me perguntando que espécie de sociedade é esta a nossa onde esperar o mínimo de realismo das pessoas e situações é ideal. Não sei se é excentricidade minha, mas à medida que vou ficando mais íntima das pessoas, vou revelando a minha lista de defeitos espontaneamente. Não porque eu goste desses defeitos gostaria que todos fossem texto para que eu pudesse editá-los ou apagá-los de uma vez ou ache que as pessoas com quem convivo sejam incapazes de descobri-los por si sós, porque o estado de cegueira inicial de quando nos conhecemos vai sumindo quando surge a intimidade; mas acho que não custa nada avisar e evitar eventuais choques, sabe? E não consigo esperar nada diferente de qualquer pessoa que queira exercer um grande cargo, seja político ou não. Quero uma boa dose de realidade, e não números falsos ou frases de efeito dizendo aquilo que eu gostaria de ouvir.

Porque quadros lindos e cor-de-rosa não costumam ficar assim para sempre. Uma hora a sujeira aparece, e quando aparece, fazer o quê? Acho que esse é o tipo de pergunta que todo brasileiro deveria se fazer nessas horas. As reivindicações, exceto aquelas pedindo impeachment e intervenção militar, são legítimas e tudo o mais, mas… Sinceramente? Em junho de 2013, quando as pessoas começaram a ir às ruas para reclamar, pensei “Finalmente o pensamento das pessoas deste país está começando a mudar!”, mas quando vi vários dos nomes eleitos em outubro passado, eu meio que me desiludi. E, vendo muitas das reclamações dos que aderiram aos últimos protestos, tanto os contra o PT quanto aqueles em defesa da Petrobrás que não consegui compreender totalmente até agora, inclusive percebi que, infelizmente, ainda parecemos estar longe de desenvolver uma consciência política coletiva e mais concisa; e enquanto a mentalidade geral não mudar, não sei se consigo ter esperança de alguma melhoria.

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Águas de Março

Crônicas

O céu se encheu de nuvens, escureceu, e aquele calorão todo aos poucos vai desaparecendo. Guardo os meus vestidos, as calças voltam para a minha rotina junto com o coturno e o guarda-chuva, e à medida que minha voz vai ficando rouca e se tornam cada vez mais frequentes as chuvas percebo, que minhas estação favorita está chegando. Março tem cara de Tom e Elis, eles deixaram essa marca que permanece soando seus acordes como ecos na minha cabeça, ainda que eu esteja ouvindo qualquer outra música ou apenas silenciosa enquanto o verão se despede.

Assim que o sol começa a desaparecer, digo adeus aos minutos de minhas tardes que gasto em frente à janela. O outono tem gosto de poesia, violão e destra suja de caneta; tudo à minha volta me encanta e parece transbordar inspiração. Meu esmalte nas cordas vai se desfazendo, meus livros e listas parecem tão mais convidativos que antes! É tanta coisa que quero fazer ao mesmo tempo, e me sinto muito mais disposta mesmo sem saber por onde começar.

As comidas são mais cheirosas, as palavras saem em forma de verso. Não tem jeito de o vento ser mais gostoso, e nem consigo pensar em época melhor para descer do apartamento e olhar a lua. Sou estranha, não gosto muito de sair de casa ou grandes aglomerações: prefiro sentar e lá fora e olhar a lua, ou ler um livro e assistir a um filme, repetir a mesma música o tanto que for possível sem enjoar e não pensar em nada; essas coisas simples com um preço mínimo e prazer imensurável. E tudo isso parece tão melhor no outono! Não sei o por quê de toda essa afinidade e encanto maior com o outono, só sei que nele me sinto muito mais folk e deixo quase todo o gosto de MPB e surf sessions para trás.

Acho que em alguns casos a perfeição não consiste na ausência de defeitos, mas sim em perceber que mesmo com todos os defeitos visíveis eu não mudaria uma vírgula e aceitaria de bom grado todos os “mas”. Eu fico gripada mais vezes que consigo contar, no quesito excesso de sono só perco para o inverno e nem sempre sinto vontade de trocar minhas sapatilhas pelo coturno ou tênis; mas quando vejo na rua a cor das árvores e suas folhas no chão não consigo imaginar nenhuma outra estação que seja mais perfeita aos meus olhos.

#AskHerMore

Textos

Eu vinha planejando, para este mês, uma série de posts abrangendo temáticas femininas e tal, mas à medida que os primeiros trabalhos do semestre foram finalmente surgindo e a lista de livros e exercícios aumentando, além de outros probleminhas técnicos, percebi que as coisas não acabariam saindo bem da maneira como planejei outra vez. Tem um bocado de coisas que eu gostaria de abordar e tal, mas como não sei mais se isso será possível, vou tentando fazer o que está ao meu alcance.

Enfim, ainda é Dia Internacional da Mulher no Brasil (por enquanto) e foi até complicado decidir sobre o que eu queria escrever primeiro. Como já falei em alguns outros posts, eu não sou a mulher mais feminista da face da Terra, sou contrária a legalização do aborto e outras coisas que fazem de mim uma pessoa muito conservadora em alguns aspectos, e também falei que concordo que é mais que necessária a igualdade salarial entre os gêneros. Não por qualquer questão sexista, mas sim por bom senso apenas, afinal, a nossa própria Constituição Federal defende no art. 5º incisos I, II, III e XLI a isonomia sobre as liberdades fundamentais e criminal. Aí eu fico aqui pensando, somando isso ao fato de só as garotas que estudaram comigo, na grande maioria, terem procurado alguma especialização profissional e cursos superiores, e que na minha faculdade (e em outras faculdades também, segundo meus professores) é muito maior o percentual de alunas matriculadas, em pleno século XXI pagar menos a uma mulher que exerce o mesmo cargo que um homem não faz o menor sentido.

Nesse aspecto de algumas das causas defendidas pelas feministas com as quais me identifico, existe uma outra coisa que, por incrível que pareça, consegue me incomodar ainda mais, e com todo esse contexto do Oscar ficou ainda muito mais visível, e é disso que se trata a #AskHerMore. E vou ser bem sincera, quem me conhece de perto sabe o quanto eu gosto de vestidos, saias e etc., todo esse girly stuff; mas assim que tornam visível o incômodo que as próprias atrizes sentem com esse tipo de pergunta no red carpet, acho que fica mais fácil a tradução e interpretação do que quero dizer.

Tenho nojo das revistas femininas, a última que descobri pela internet e me interessou, justamente por ter o formato um pouco diferente das revistas brasileiras e traduções ou versões como a Vogue (é, eu não curto Vogue. Não me apedrejem, por favor) foi a australiana Frankie Magazine. Durante a adolescência gastei muito dinheiro comprando essas Atrevidas e Caprichos da vida quando saía na capa alguma banda que eu gostava, tanto que quando fui jogá-las fora aos dezoito e fiz a conta de quanto tinha gastado naquilo (não me lembro o número exato, mas foi cerca de R$ 300) quase chorei, mas em suma todas essas revistas são iguais: anúncios e publicidades de vestidos e outras marcas caras, entrevistas com artistas e testes imbecis com os títulos ainda mais imbecis, tipo “Ele beija bem?” ou “Será que você beija bem?” e outras inutilidades afins. E quando cresci pensei que as revistas para mulheres fossem diferentes, com um conteúdo mais interessante, mas pense no meu choque quando percebi que a essência é basicamente a mesma, com a exceção de que as “matérias” que envolvem o sexo oposto são muito mais… Deixa pra lá, é melhor eu nem tentar explicar.

Isso não acontece só com revistas, existem vários fatores, através da mídia de massa ou não, que reduzem a feminilidade a questões superficiais como a moda, a cor do esmalte ou da tintura de cabelo e blá blá blá. Repito, essas coisas são legais e fazem parte do nosso dia-a-dia sim, mas eu não gosto, e nem compro mais, certas revistas por saber que não terão nada além disso; as conversas que tenho com minhas amigas sobre isso praticamente não duram cinco minutos antes que encontremos temas mais interessantes. E existem duas possíveis coisas desagradáveis que normalmente surgem diante desse tipo de alienação: a) algumas mulheres acabam realmente acreditando que a vida se resume a isso; ou b) não sei dizer ao certo se porque algumas das mulheres mencionadas na primeira alternativa passam essa imagem e por isso somos tratadas desta maneira, ou se primeiro elas recebem a alienação e depois todas nós, em maior ou menor grau, somos tratadas desse jeito porque isso acabaria caindo naquela velha lenga-lenga do ovo e da galinha; mas existe alguma dinâmica muito estranha na maneira como algumas mulheres se enxergam e como o sexo masculino nos enxerga.

Também me incomoda toda essa sensualidade excessiva que a mídia impõe sobre a mulher, e eu sei que há quem goste, até mesmo mulheres, mas me incomoda. Falando sobre mim outra vez, eu me sinto insegura sobre muitas coisas, diria até que o meu nível de insegurança beira os 50%, o que eu acho ser muita coisa, e se eu estiver na TPM pode variar entre 150% ou 300%. É tanta insegurança que, quando eu percebo ou penso perceber algum cara olhando para mim, a primeira coisa que me passa pela cabeça é “Não, ele não deve estar olhando pra mim não, é só impressão. Certeza que tem alguma outra menina mais bonita por aqui, mais alta e sem óculos, com a pele mais macia, o cabelo com uma cor mais brilhante e sedoso… É claro que não deve ser pra mim, só se for pegadinha do malandro” e simultaneamente começo a olhar para os lados procurando por alguma estrela perdida de Hollywood, com Photoshop e tudo. Ainda assim, não é porque me sinto insegura desse jeito que preciso ser chamada de “gostosa” ou receber alguma cantada imprópria, das mais grosseiras às mais estúpidas imagináveis, para me sentir bonita ou satisfeita comigo mesma.

Aliás, quem foi que inventou que gritar “GOSTOSA!” no meio da rua é um elogio ou uma boa maneira de conquistar uma mulher? Sempre que ouço alguém dizer isso primeiro penso em uma lasanha ou uma bandeja com todos os chocolates do mundo, mas quando percebo que não é bem disso que se trata me sinto ofendida, e não entendo como é que algumas mulheres conseguem gostar disso. Não quero ser reconhecida pelo meu corpo ou por fotografias com vários likes no Instagram só porque meus peitos saltam para fora (hipoteticamente, gente!), e isso não significa que eu queira sair por aí parecendo a Noiva Cadáver, mas… Acho que ficou claro o que eu quis dizer, não?

É fato que sou mais emocional que racional na maioria das vezes, que não defendo nenhum tipo de igualdade de gêneros quando a barata voa ou rasteja, ou respira e acho que o cavalheirismo ainda é muito importante nos dias atuais, que gosto de girly stuff e tal, mas não sou só isso e nem quero ser tratada dessa única maneira. Quando atrizes reclamam publicamente só receberem perguntas insatisfatórias sobre o seu vestuário é, na verdade, um grito coletivo que também parte de quase toda mulher. Eu não quero ficar conversando só sobre a cor do meu cabelo (que eu nem sei, inclusive, mas é natural); quero falar de música e poesia, livros, política e economia. Quero falar dos meus planos, do que desejo profissionalmente, penso e espero da vida, que é muito maior que essas superficialidades.