Cricri

Textos

Hoje procurei, na internet, um texto que se encaixasse com algumas coisas que venho percebendo há algum tempo. Como não encontrei, resolvi eu mesma escrever.

Antes que começassem as últimas férias, fiz uma lista dos cursos e matérias que queria estudar, livros que queria ler, séries pendentes e etc. Não consegui concluir nenhuma dessas listas coisa desagradável para se dizer.

Das três listas, a mais negligenciada foi a dos cursos e matérias que eu queria me aprofundar, pesquisar e etc. “Por que não já começar a estudar Estatística agora nas férias?”, pensei. Ou aprender a mexer na HP12C, aquela calculadora cara que os professores costumam pedir para uma prova e depois disso a gente nunca mais encontra uma utilidade na vida (porque não sabe mexer mesmo, mas na verdade ela é muito útil sim). Ou já começar a ler alguma coisa sobre RI, revisar alguns livros da faculdade e esse tipo de coisa. Em minha defesa, posso alegar que o espanhol eu realmente estudei sim e um item da lista já é melhor que nada.

Quando fiz essa última lista, obviamente estava pensando em tudo o que planejo para minha carreira. Na faculdade é mais que comum ouvir um ou outro professor dizer “Nessa área, as exigências não cessam. Vocês nunca poderão parar de estudar, precisam ter uma especialização. E não basta parar no inglês, precisa saber falar o espanhol e já ter outra língua em mente. Vocês precisam ter um diferencial…”, e blá blá blá. Sempre existe uma continuação para esse discurso, e na maioria das vezes ela costuma ser longa.

Não estou com isso dizendo que não compreendo essas exigências todas, porque sei bem que de algumas coisas não dá para fugir. Mas me impressiono sempre que redescubro que isso não é uma exclusividade da minha área, porque tenho amizade com pessoas que estudam cursos completamente diferentes do meu e não raramente esse mesmo discurso se repete.

Me lembro que há alguns anos, quando eu ainda estudava para o vestibular e, não sei se isso é ilusão minha provavelmente sim, mas não me recordo de ter essas preocupações tão variadas. Acho que, de alguma maneira bem simplista, eu fantasiava que só precisava entrar em uma universidade e pegar o diploma, sem nenhuma dependência, o mais rápido possível e que isso bastasse – só isso, fantasiava mesmo. Mas isso não basta para um mercado de trabalho cada vez mais exigente, e quando percebi isso comecei a me perguntar o que a sociedade aceitaria como “o suficiente”.

Também não estou querendo dizer com isso que as pessoas não devem procurar uma especialização nem nada do tipo, muito pelo contrário, falei aqui em algum outro texto que agora não me lembro que eu mesma tinha um longo planejamento nesse sentido. Tá que agora eu ando repensando alguns destes tópicos e já nem sei mais se quero fazer mestrado ou não, mas tenho certeza que após concluir meus três anos de tecnóloga ou três anos e meio, talvez 😦 no ano que vem vou me tornar bacharel e me organizar para fazer pelo menos uma pós graduação, que ainda não consegui decidir se quero Economia ou Marketing – mas aí já é outra história.

O que quero dizer é que… É como se tudo aquilo que a sociedade exigisse de mim eu acabasse transferindo também, primeiro para as minhas próprias exigências pessoais e depois para as pessoas que me cercam. Não sei bem se esse é um problema só meu ou geral, mas me sinto muito cricri cada vez que me pego pensando nisso.

Porque analisando bem, é fácil perceber que os meus amigos mais íntimos e as pessoas com quem mais convivo não são muito diferentes de mim. Não que eu só converse com quem estuda as mesmas coisas que eu, é claro que as coisas não funcionam assim. Mas também não é como se as opiniões fossem muito distintas, considerando que até mesmo as esquisitices que mais gosto de ver nos outros são aquelas parecidas com as minhas.

Desde que botei a cabeça no travesseiro ontem comecei a me perguntar se tudo isso não seria exigência demais da minha parte. Sei que é perfeitamente compreensível a afinidade por gostos comuns, ou os mesmos livros lidos e interesses parecidos, mas estou tentando repensar a linha até onde isso fica em um limite aceitável  e o ponto onde me torna exigente além do necessário; e por enquanto essa linha está me parecendo mais tênue que a linha entre o sustenido e o bemol quando um afinador eletrônico não consegue reconhecer a nota certa.

Fico me lembrando da voz de Caetano dizendo que “Narciso acha feio o que não é espelho” sempre que penso isso, porque não sei se estou muito certa de que é exatamente assim que as coisas devam ser.

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1007 erros

Crônicas

Quando criança, existiam duas maneiras práticas de me deixar entretida: a primeira era passar a tarde assistindo televisão com minha avó, o que automaticamente significava Highlander e qualquer coisa que tivesse o Chuck Norris no meio, e antes da TV a cabo todas as novelas que passassem no SBT e na Globo, e depois da TV a cabo também. A segunda coisa consistia em gibis, almanaques e tudo o mais que envolvesse a Turma da Mônica.

É claro que eu brincava também. Mas, assim, nunca, nunca mesmo, minha mãe me deixou brincar na rua, e minha irmã caçula demorou muito a nascer, sabe? As meninas que iam brincar comigo no quintal eram mais velhas, então obviamente cresceram antes de mim. Eu tinha um melhor amigo de infância, me lembro que nós acordávamos mais cedo para brincar e/ou assistir Dragon Ball antes de estudar, íamos juntos para a mesma escola (onde brincávamos no intervalo porque éramos de sala diferentes), voltávamos juntos e ainda continuávamos brincando no mesmo quintal antes de ir dormir. Mas depois de um tempo ele se mudou de casa, e depois disso as férias deixaram de ser tão divertidas como costumavam ser.

Principalmente para os meus pais. Porque deixar uma criança fora da escola, sem os amigos e o tempo todo assistindo TV significava ter muita energia acumulada para a hora em que eles chegavam do trabalho. Energia acumulada de todas as maneiras imagináveis. Eu não era só uma criança querendo brincar o tempo todo, era uma criança querendo brincar e perguntar o tempo todo. E aquelas perguntas bem de criança mesmo, tipo o porquê do céu ser azul, se a centopeia tinha mesmo cem patas, se tinha leite na Via Láctea, por que os judeus e os árabes nunca faziam as pazes, etc. e tal.

Foi aí que meu pai descobriu uma invenção incrível, que nem sei se ainda existe hoje: o almanacão de férias. Ele me levava à banca e me deixava pegar tudo o que eu quisesse, e eu me sentia tão feliz com isso criança inocente que saía pegando todos os almanaques, gibis, figurinhas e revistas Recreio que via pela frente.

Mas eu era, mesmo, uma criança meio muito esquisita. Quando eu abria um desses almanaques, não lia primeiro a estória, pintava os desenhos ou qualquer coisa normal assim. Não, a primeira coisa que eu fazia era procurar o jogo dos 7 erros. E quanto mais desse jogo tivesse, mais eu gostava. Só depois de encontrar todos os erros e ter a certeza absoluta de que não tinha mais nenhum desses jogos, eu começava a ler e depois fazia aquela obra de arte surrealista de rabiscados coloridos e misturados formando qualquer coisa irreconhecível no papel. Um talento nato, coisa que impressionava de se ver.

Essa mania de procurar os erros em tudo me perseguiu por um bom tempo, e mesmo hoje não me abandonou por completo. Não que eu ainda seja perfeccionista como já fui, mas, em casos de pessoas atrapalhadas como eu, prestar muita atenção nisso pode ser até bom para saúde. Minha mãe não gosta que eu diga que sou atrapalhada, porque ela acha que é ser cruel demais comigo mesma. Já eu chamo isso de ser realista e aceitar logo os fatos, porque se até agora não consegui deixar de ser atrapalhada, minhas expectativas para o futuro não são das mais otimistas.

Por exemplo, é comum que uma pessoa como eu encontre hematomas de origem desconhecida com certa frequência no corpo. Digo que a origem é desconhecida porque, literalmente, não existe jeito de saber. É tão comum tropeçar, cair, chutar o pé da cama por engano, bater a cabeça e o braço sem querer; acordada ou não. Eu realmente não sei se crio mais hematomas acordada ou dormindo, cada dia é uma nova surpresa e uma grande probabilidade nem tão desejada de auto superação.

Também é comum eu espero que seja que pessoas como eu optem por novas tendências, muitas das quais nós mesmas lançamos e são exclusivíssimas. Tipo só descobrir que vesti a blusa do lado avesso no ponto de ônibus quando alguém me avisa, uma das minhas favoritas – “favorita” não é bem a palavra, mas é bem típica. Ou passar máscara para cílios em um olho só e sair correndo com medo de se atrasar. Essa também pode vir ocasionalmente acompanhada de um choro no ônibus por ter passado um daqueles cremes específicos para a área dos olhos, quando depois de espalhado o creme não compreende direito que é para ficar na área externa, e escorre para dentro do olho querendo proteger o que não precisa. É claro que isso acontece no olho com máscara, e o resultado final disso é prova viva de que nem sempre ter a cara limpa é pior que usar maquiagem.

Eu sou um jogo dos 7 erros ambulante, e se eu for bem sincera a minha conta de erros já deve ter passado dos 1007 há muito tempo. E não falo isso como drama ou autocomiseração, mas sim porque sei que a minha conta já está bem alta e os números se elevam a cada dia. Parei de calcular, porque não gosto de sofrer. E também, porque nem sempre contá-los serve como maneira de preveni-los mesmo.

Os erros não são previsíveis. Isto é, nem sempre, porque às vezes é tão notoriamente errado que quase chega a ser um grito. E quando o próprio erro grita um aviso, é melhor escutar. Quando me aparece um erro desses eu só consigo pensar em correr. Não é uma metáfora.

Mas outras vezes quando a gente percebe que foi um erro só dá tempo de bater na testa, e bater na testa consecutivamente. Tenho uma coleção desses erros aí, que é provavelmente a maior das minhas coleções.

O fato é que um erro, ou a suspeita dele, muda toda uma percepção pré-concebida. Muda os planos e qualquer outra coisa que possibilite não repeti-lo, ou mesmo fugir dele. É claro que infelizmente eu não posso ser perfeita e continuo errando, aliás, faço isso quase todos os dias “quase” só quando percebo. Mas quando tenho a chance de evitar o erro, burrice seria se assim eu não o fizesse.

É até clichê ouvir pessoas dizendo que a vida passa rápido demais para se preocupar com todos os erros e, parcialmente, até concordo que não dá para pensar neles o tempo todo. Mas também acho que a vida é preciosa demais para descartá-los totalmente, já que um erro, simples ou não, pode mudar todo um percurso. É coisa muito séria para se pensar.

Inspir(ação)

Crônicas

Semana passada, voltando de Sumaré no ônibus e antes de cochilar, enquanto lia as primeiras páginas de um dos livros adquiridos após a mini viagem, fiquei pensando. Pensando em várias coisas, para ser sincera, porque o meu pensamento divaga sobre assuntos desconexos ou não de uma forma que nem eu consigo compreender; mas em meio a toda essa divagação interna um único pensamento foi fixo.

Pensei em todos os meus livros. Sei que poderia ter pensado em, sei lá, todas as músicas que já escutei ou qualquer outra coisa; mas confesso que, muitas vezes, quando penso nas coisas propriamente ditas, objetos e junções de átomos, me parece difícil pensar em outra coisa. Pensei no sorriso que abro quando toco um livro sabendo que tenho nas mãos algo meu – sensação que experimentei, assim, umas três vezes, no fim de semana em questão.

É preciso levar em consideração que, como já disse em outro post, sou uma viciada em livros em constante terapia, tentando não gastar com isso toda mínima moeda que guardo ou com paçoca, mangaba e açaí. Até tentei organizar uma biblioteca em meu tablet. “É prático, fácil de organizar e não consome tanto espaço”, pensei. O problema é que sou meio antiquada e gosto mesmo de papel, sabe? Ainda não me sinto bem com esses formatos digitais e não me lembro da última vez em que consegui concluir uma leitura dessa maneira.

Mas o fato é que, quando pensei em meus livros naquele domingo, se tem algo em que não pensei foi no espaço em que ocupam ou no meu trabalho para organizá-los. Pensei nos temas distintos: cristianismo, poesia, literatura, ficção, crônicas, teologia, filosofia, sociedade e umas outras coisas que não consigo classificar direito. Pensei em como os leio filtrando aquilo que julgo ser bom, aquilo que me inspira a ter atitudes práticas, e se toda essa inspiração tem de fato se convertido em novas práticas.

Falo principalmente dos livros porque sinto-os de uma forma bem mais nítida, mas não acredito que a inspiração resida apenas neles. Me sinto inspirada pelas músicas que ouço, por frases de efeito que vejo ou mesmo pelas respostas mais simples; pessoas me inspiram. É como se a inspiração andasse por todos lados, muitas vezes surpreendendo por surgir nos momentos e lugares menos esperados: é um pensamento solto, voando, que de repente, encontra onde pousar.

Por outro lado, tem vezes que acho a inspiração algo muito difícil de se compreender. É suficientemente externa para que eu não me sinta no direito de julgá-la sendo minha, mas suficientemente interna para exigir uma resposta minha. É quando, por exemplo, ganho uma canção de presente por inspiração. É como uma chuva incessante de palavras que brotam no papel ou no bloco de notas do meu celular sem que eu saiba como ou por quê, é literalmente uma letra que vejo pronta por minhas mãos sem a sentir minha. Não é produto de horas ou noites em claro, como há alguns anos; às vezes é coisa rara, que demora a aparecer, mas que quando decide aparecer se resolve em questão de minutos.

E mesmo assim, fluindo independentemente de mim, não se concretiza sem que eu caminhe intencionalmente nesse sentido. Não porque eu seja superior em alguma coisa, porque acredito que inspiração possa pousar sobre qualquer um que dê a ela espaço, mas porque sem qualquer ação ela se torna vazia. Uma letra não se transforma em música antes de encontrada uma melodia e testadas várias harmonias, uma ideia não passa de algo distante enquanto não encontra metas para a sua realização, e nem as palavras ou sentimentos mais bonitos são úteis quando não se traduzem em práticas.

Sei que é um tanto clichê colocar o significado de verbetes em textos. Mas, sendo bem sincera, não é o tipo de coisa com que me importo. A minha teoria sobre os clichês que eles não o seriam se não funcionassem, e é por isso que têm o seu lugar certo. Enfim, quando procurei por inspiração no Aurélio, encontrei:

  1. Movimento pelo qual se leva ar aos pulmões.
  2. Ideia ou pensamento que surge de repente; estro.
  3. Insinuação, conselho.
  4. Coisa inspirada.
  5. Infusão da vontade divina na consciência humana.
  6. Pausa de um quarto de compasso.

Mas o estranho mesmo, e piegas, devo admitir, é a brisa que entrei enquanto pensava nisso. Pensei na gramática coisa muito interessante para se pensar e em sua formação de sufixos. Existem vários tipos de sufixos, mas os principais são dois: os que formam nomes de ação e os que formam nomes de agentes. E aí que, entre os que formam nomes de ação, um deles é o próprio –ção, ex: promoção.

Não contente em saber que o sufixo indica ação, meu pensamento tentou procurou se lembrar de quantas coisas boas, além da inspiração, indicam, desde a própria palavra que a designa, a ação de uma maneira ainda mais nítida: oração, comunicação, educação, aproximação, satisfação, realização, organização, cativação, motivação, demonstração… A lista não tem fim.

Pensar nessa lista de palavras foi uma das coisas mais bobas que me lembro de ter feito em meses. Apesar disso, sinto que este é um exercício que eu deva repetir muitas outras vezes, porque preciso de um lembrete constante de que a minha vida não pode ser simplesmente passiva o tempo todo. Eu preciso me mover.