Baobás

Crônicas

De fato, no planeta do pequeno príncipe havia, como em todos os outros planetas, ervas boas e más. Consequentemente, sementes boas, de ervas boas; sementes más, de ervas más. Mas as sementes são invisíveis. Elas dormem nas entranhas da terra até que uma cisme de despertar. Então ela se espreguiça e lança timidamente para o sol um inofensivo galhinho. Se é de roseira ou rabanete, podemos deixar que cresça à vontade. Mas quando percebemos que se trata de uma planta ruim, é preciso que a arranquemos imediatamente. Ora, havia sementes terríveis no planeta do pequeno príncipe: as sementes de baobá… O solo do planeta estava infestado. E quando não se descobre que aquela plantinha é um baobá, nunca mais a gente consegue se livrar dele, pois suas raízes penetram o planeta todo, atravancando-o. E se o planeta é pequeno e os baobás numerosos, o planeta acaba rachando.

“É uma questão de disciplina”, me disse mais tarde o principezinho. “Quando a gente acaba a toalete da manhã, começa a fazer com cuidado a toalete do planeta. É preciso que nos habituemos a arrancar regularmente os baobás logo que se diferenciem das roseiras, com as quais muito se parecem quando pequenos. É um trabalho sem graça, mas de fácil execução.”

E um dia aconselhou-me a fazer um belo desenho para que as crianças do meu planeta tomassem consciência desse perigo. “Se algum dia tiverem de viajar”, explicou-me, “poderá ser útil para elas. Às vezes não há inconveniente em protelar um trabalho. Mas quando se trata de baobás, é sempre uma catástrofe. Conheci um planeta habitado por um preguiçoso. Ele havia deixado que ali crescessem três arbustos…”

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Eis a aquarela mais impressionante do livro.

Acho que preciso fazer uma lista dos clássicos infantis que eu deveria ter lido quando era criança, mas não gostava de ler, porque sempre que os redescubro me dou conta de quantas coisas boas perdi por ter deixado de lado. Foi assim com As Crônicas de Nárnia, das quais só consegui concluir os últimos volumes no ano passado, e está sendo assim com O Pequeno Príncipe, que agora estou terminando de ler. É mais do que totalmente clichê dizer que, apesar de ser infantil, esse livro não tem nada de bobinho e inútil, mas, acredite em mim, as pessoas repetem tanto isso porque é totalmente verdade.

Cada pessoa deve ter, portanto, alguma história do livro que mais lhe apeteça ou se identifique, e lendo ontem no ônibus enquanto ia de manhã para a faculdade percebi que ando me tornando uma especialista em baobás, e não, isso não é uma coisa boa ou algo de que uma pessoa deva se vangloriar. Pra falar a verdade, é bem desagradável mesmo, porque existem umas fases da vida em que tudo parece estar bem e quase da maneira como a gente queria que estivesse até que, opa, aparece uma surpresinha indesejada em forma de baobá. Andei lendo algumas interpretações de blogueiros distintos sobre o que significariam os baobás na estória, e uma dessas interpretações dizia que os baobás eram pessoas que, depois de um tempo percebemos não serem as rosas que nos cativam; e acho que sim, esta é uma das possibilidades, mas os baobás, de tão grandes, são bem mais abrangentes e podem referir-se a sentimentos, erros, ideias e percepções equivocadas, além dos já mencionados relacionamentos.

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Baobás podem chegar a medir trinta metros de altura e vinte metros de diâmetro, e vivem por milhares de anos.

E aí que, numa tarde em que a eminente ameaça de chuva por um céu transformado pela cor das nuvens e pelo som dos trovões me tira toda a coragem de assistir a aula da tarde, depois de o professor já ter suspendido a aula da manhã, me pego olhando para a janela do quarto e pensando nos baobás. Sim, no plural. Porque primeiro fui surpreendida por um baobá de aproximadamente dois meses, que sozinho já foi bem doloroso de arrancar e, assim que eu comecei a pensar que, depois de tratada, a minha terra estava começando a se recuperar, descobri dois outros baobás: um de aproximadamente dois anos, e outro com pouco mais de sete meses.

Uma das coisas mais desagradáveis que acompanham os baobás é a consciência de que somos culpados pela existência deles. Todo mundo percebe quando algo começa a nascer dentro e ao redor de si, algo que nem sempre é prontamente identificado no princípio, e até mesmo por isso acabamos regando, alimentando e cuidando para ver no que a semente dá. Até que em um dia não tão belo aquela semente revela-se como um baobá que, caso permaneça e cresça, pode acabar destruindo tudo à sua volta, e a dificuldade em se exterminar um baobá é inversamente proporcional à facilidade com que ele surge e cresce. Quanto maior o tempo de demora para se descobrir o baobá, maior a dor no processo removê-lo. Bom seria se todas as sementes viessem com placas de identificação, assim jamais existiria o risco de se confundir uma roseira com um baobá.

Quando tinha uns seis anos, arranhei minha testa com um espinho ao pegar a bola com que o Iago e eu brincávamos na roseira da minha tia, o rasgo atravessou minha testa e sua cicatriz durou semanas. Mesmo assim, nunca deixei de gostar das rosas por causa dos espinhos ou coisa parecida, porque a rosa é bela demais para ser estragada por um ou dois espinhos, e logo seus cortes cicatrizam. Já os baobás, a cada machadada sangram e machucam a terra, nunca se destroem da noite para o dia e levam muito tempo para terem seus galhos e troncos destruídos antes que se consiga chegar até a raiz. A cada machadada a terra se pergunta se e quando estará curada novamente, ou se seria possível que um baobá se extinguisse apenas ao parar de regá-lo, mesmo sabendo que a resposta seria negativa e tampouco menos dolorosa.

Mas aí um raio de sol entra pela janela para me relembrar que o mesmo Deus com voz de trovão que traz a tempestade também afasta as nuvens mais escuras para o Alto Tietê e, apesar da chuva, do tempo perdido e de todas as cicatrizes, uma hora a terra estará boa novamente.

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Constância

Crônicas

Ultimamente ando pensando muito sobre constância, e como esta é uma virtude tão necessária.

Olhando no dicionário, a vejo descrita como: 1 Qualidade de constante. 2 Firmeza de ânimo; perseverança, coragem. 3 Duração. 4 Persistência e 5 Paciência. Nunca vi alguém usar nenhuma denotação pejorativa para a constância, aparentemente é como se todos a entendessem como uma virtude e ponto; mas na prática não é bem assim que a coisa funciona. Por exemplo, enquanto estou aqui sentada na cama escrevendo sobre isso também estou tentando me lembrar de alguma letra de música, qualquer uma, que exalte a constância e tal, mas nenhuma me vem à cabeça. Mas se repito o mesmo exercício, trocando pela inconstância, eis que um leque me surge. Para início de conversa, vou mencionar duas músicas nacionais culturalmente muito conhecidas, sendo uma Metamorfose Ambulante do Raul (título e letra autoexplicativos), e a outra Como Uma Onda, ou Zen-Surfismo, do Lulu Santos. E, mais recentemente (tá, doze anos não podem ser tão recentes assim), lembro-me que na adolescência eu tinha um CD, original, da Pitty, onde uma das minhas músicas favoritas também ressaltava a inconstância da vida humana dizendo “Chega simples como um temporal, parecia que ia durar. Tantas placas e tantos sinais, já não sei por onde caminhar. E quando olhei no espelho eu vi meu rosto e já não reconheci, então vi minha história tão clara em cada marca que tava ali…”.

Eu estava me perguntando por que sendo a constância amplamente compreendida como uma coisa boa, as letras de música, crônicas ou poesias, que são reflexos da nossa sociedade, não a reconhecem como tal, e aí me dei conta de que a resposta é justamente esta: reflexos de uma sociedade inconstante. Porque, de alguma maneira estranha, apesar de nem todas as pessoas serem tão abertas a todo tipo de mudança, é como se a inconstância sempre estivesse presente em cada um de nós. Já não é assim com a constância que, como qualidade e sinônimo de maturidade, precisa ser desenvolvida e raramente é uma característica natural. Talvez por isso a monogamia seja algo tão horripilante para alguns, ainda exista o nomadismo (isso é mais ou menos diferente do que aprendemos na escola, apesar de ter a mesma essência. Não costuma acontecer com tanta frequência aqui no Brasil, mas nos países tido como desenvolvidos é muito comum que as pessoas mudem devido aos estudos ou o trabalho, os estrangeiros são bem mais desprendidos nesse sentido) e as pessoas andem cada vez mais ansiosas pelos upgrades de seus aparelhos; acho muito esquisito quando vejo o nível de insanidade que algumas pessoas cometem só para trocar seu iPhone pelo último modelo – como se o anterior fosse tão pior assim.

É claro que toda essa inconstância transborda para os relacionamentos. Eu tenho mania de guardar praticamente tudo, fotos, cartas, presentes (dos mais legais aos mais estranhos, tipo embalagens de bombons ou pilhas usadas) que ganhei dos meus amigos em anos, desde a 4ª série mais ou menos, então vire e mexe acabo encontrando uma dessas caixas, camisetas anotadas e recados em agendas antigas. Não é muito agradável a sensação de relembrar pessoas com quem tínhamos laços tão especiais e, com o passar do tempo, a maioria acaba se distanciando por circunstâncias diversas, apesar de quase totalmente compreensivas. A coisa também não fica muito distinta nos relacionamentos românticos… Certa vez, Nelson Rodrigues escreveu que “Todo amor é eterno. Se não é eterno, não era amor”, e fico me perguntando se, caso ele ainda estivesse vivo, ficaria tão horrorizado com a banalização do amor como eu fico. Eu já perdi as contas de quantas vezes preferi passar o resto da minha vida sozinha a ter qualquer coisa parecida com esses casais que vivem dizendo “Te amo” e expiram em menos de três meses, e por incrível que pareça, conseguem “amar” igualmente a pessoa com quem se envolvem depois, coisa que também não dura muito tempo, e isso continua se repetindo como um ciclo sem fim.

Só que é sempre da constância que surgem as coisas boas. É a constância que permite a alguém terminar uma graduação, um livro ou se dedicar verdadeiramente a qualquer coisa; mas também é a presença contínua de uma mesma percepção que nos permite abandonar a ideia de algo que jamais existiria e escolher um caminho diferente. Antes eu costumava pensar que a constância implicava diretamente na ausência de um final, mas percebi que isso não é verdade, porque de maneira contrária à inconstância, seu trunfo é produzir um final digno. E  não é extremamente fácil perseverar em meio a tantas adversidades, mas os frutos provam que não há outra coisa certa a fazer.

Imprevistos

Crônicas

Desde o fim do ano passado, e a cada dia mais, me pego pensando muitas vezes sobre a imprevisibilidade da vida. Eu odeio aquela sensação de ficar repetindo a mesma tecla, mas às vezes sinto como se toda vez que acho já ter aprendido e percebido tudo o que podia a respeito disso, outras situações inesperadas aparecem e me relembram de que ainda preciso de muita prática para aplicar o pouco de teoria que venho descobrindo.

Era quinta-feira passada, lá por volta das 6:40 da manhã, quando peguei o ônibus a caminho do meu primeiro dia letivo do semestre e tudo parecia correr muito bem. Parecia. Um dos meus antigos problemas que venho tentando reverter é a falta de organização em vários aspectos, incluindo a impontualidade, e apesar de felizmente já ter notado alguns progressos, ainda me sinto bem longe de como quero estar. Mas nesse dia não me senti tão longe assim, para ser sincera, estava até que bem feliz comigo mesma por ter conseguido arrumar tudo e as coisas se encaminharem da maneira como eu havia planejado, tudo no horário certo e tal… Só que não por muito tempo. Mal pude aproveitar muito a felicidade de ver o tempo a meu favor e, quando o ônibus estava quase chegando na estação de São Miguel, por algum motivo que até agora não entendi, todos os carros ficaram parados e de repente só se ouviam buzinas furiosas e pessoas impacientes esvaziando os ônibus e lotações. Esta não era uma opção para mim, então fiquei quieta no mesmo lugar observando o celular, que antes marcava 7:05, apontar 8:15 quando cheguei na faculdade.

Há de se dizer que, além de me frustrar com o meu visível atraso, tive tempo para ler, dormir, lamentar, etc e etc. E depois de cochilar um pouco no trajeto, fiquei percebendo o quão falha, frustrada e impotente me sinto diante dos imprevistos. Eu já tinha pensado sobre isso algumas vezes, mas até então acho que não tive a dimensão exata de quanto tudo isso me afetava, e de como isso é sério. É tão errada a minha percepção que, quando algo assim acontece, não consigo ver a situação como “Não saiu do jeito que eu esperava, mas sei que fiz a minha parte e tudo vai acabar ficando bem”, porque na maioria das vezes penso “As coisas não saíram como eu planejava, e agora? E agora?!”. É um excesso de necessidade de controle desnecessário e abusivo, e que não se apresenta como o monstro que só agora o percebo, porque inicialmente se mostra como uma pequena e linda borboleta, inofensiva. É um roteiro todo pronto. Antes eu pensava “Vou terminar o EM e faço um ano de cursinho, aí entro numa universidade pública e consigo um emprego bem bacana. Não quero ser como essas minhas amigas que se envolvem demais emocionalmente, não vou me interessar por ninguém até que eu esteja pelo menos na metade da minha segunda faculdade, antes disso não quero e nem vou me preocupar. E já preciso começar a pensar no que vou me especializar, porque quero pelo menos ter terminado o mestrado antes de começar a pensar em ter filhos; que serão um belo casal de filhos, aliás, o menino pelo menos uns três anos mais velho que a menina. Ainda não pensei nos instrumentos musicais que eles vão estudar, hm…”.

Hoje, repito, hoje, eu sei que é loucura planejar tantos detalhes assim, e maior loucura ainda achar que todo o meu roteiro pronto sairia da maneira como eu havia planejado. No entanto, insano mesmo é o meu choque e a paralisia que sinto diante desses imprevistos, “E agora?!” é uma expressão carregada com mais medos e inseguranças do que eu jamais poderia imaginar. É um fardo pesado demais, que eu já me cansei de carregar. A vida não é como uma massa de bolo pronta, e eu já perdi as contas de quantas dessas fórmulas prontas eu abri, e continuo abrindo mão; fórmulas que aspiram ser amuletos contra os medos e erros, mas depois de um tempo acabam se revelando ainda piores que enfrentar logo a raiz do problema.

“Mas não é como se você pecasse por causa disso, isso aí já é um exagero seu”, já me disseram, mas não consigo entender essa mania de esperar que aconteça um sintoma muito exagerado para correr atrás do antídoto. Se eu percebi que isso não tem me feito bem já é o bastante, não? Não posso ignorar que muitas vezes minha vida saiu ao contrário, e muito melhor, do que eu havia planejado ou pensado, e temer não saber o que pode me acontecer não é o tipo de coisa que quero acumulando espaço dentro de mim. “E agora?!” é uma pergunta que, no fim das contas, acaba sendo respondida por si só.