Alguns esclarecimentos

Textos

Eu não tinha a pretensão de escrever tão cedo sobre este assunto novamente, mas depois de passar um pouco de raiva cheguei a me perguntar se fui tão clara quanto quis ser sobre minhas posições e na dúvida resolvi escrever.

Vou exemplificar porque ainda que sejam assuntos totalmente diferentes, dá pra traduzir várias coisas que penso a partir do mesmo conceito: gosto muito de roupas, sapatos e livros, muito mesmo. Poderia até incluir CDs nessa categoria, só que o Spotify e o Youtube facilitam demais a minha vida — apesar de complicar a explicação que pretendo. É melhor me reter às roupas, sapatos e livros.

Que seja, o ponto é que mesmo gostando bastante deles, não os saio comprando compulsivamente só por isso… Tá que há aproximadamente um ano eu comprava os livros compulsivamente mesmo, admito. Mas estou melhorando nisso, agora tem mês que nem compro livro; e sei que parece meio doido quando digo isso, mas já cheguei a comprar cerca de três livros por semana. Sério. Só que agora estou me controlando e evoluindo.

No entanto, ainda que sendo coisas mais ou menos distintas entre si e com vários contrastes no que cabe à minha preferência, meus critérios de escolha são basicamente os mesmos. Quanto às roupas e sapatos não sou muito de ligar pra marca e nem sou cliente fiel de uma loja, considero mais a qualidade, meu gosto, o conforto e o preço.

Com os livros também é mais ou menos por aí, não gosto muito de best-sellers (não é uma regra absoluta do tipo boicote ao mainstream, vez ou outra aparece algo que me atrai. Mas na maioria dos casos acabo me decepcionando e voltando pro underground) e não tenho uma livraria favorita; sei sobreviver à base de Saraiva e Fnac, mas também com o Sebo do Messias (e outros desconhecidos desde que sejam limpos) e maquininhas da Sé. E vivo muito bem assim.

Falei isso porque gosto de encarar quase todas as outras coisas desta mesma maneira. Por quais razões gosto dessa peça? Por que prefiro comprar aqui e não ali? Minha decisão de compra ou contratação de serviço é geralmente pautada a partir dessas respostas, e para coisas mais complexas gosto de usar a análise SWOT.

Acho que fui clara até aqui, não? Espero que sim, porque é agora que o negócio fica mais estreito.

O que é a política senão a prestação de um serviço? Estou falando da política na raiz e na prática correta e devida, e não dessa coisa que passa na TV ou do assalto desarmado que a gente sofre todo dia.

O Aurélio a define como “ciência do governo das nações”, mas eu gosto de enxergá-la como um conjunto de práticas visando regular as relações civis, públicas e até mesmo as privadas — um serviço necessário à sociedade.

Necessário sim, mas que precisa ser levado a sério. Se nessa “ordem” que a gente conhece as coisas saem desse jeito, imagine sem nenhuma tentativa de organização! Acho que não preciso de outro motivo lógico para dizer porque sou contra a anarquia.

Eu gosto sim de estudar ciência política, leio sobre e até comecei a assistir um MOOC da USP sobre o tema na semana passada — tem um de ética que é bem interessante também. E se estudo e pesquiso é porque se tem outra maneira melhor e mais fácil de resistir ao engano e à manipulação ainda não vi.

Não gosto, e nem quero, impor minhas opiniões e preferências a ninguém. O que eu gostaria mesmo é que todo mundo pesquisasse e sentisse a mesma satisfação que encontro quando sei que concluo as coisas por mim mesma, porque sei o quanto isso me faz bem. Não preciso que todo mundo concorde comigo, até porque se todo mundo pensasse como eu não surgiriam ideias novas e melhores, e não é essa a minha vontade.

Mas há quem pergunte minha opinião sobre essas coisas, e aí sim respondo com convicção e prazer porque sei no que acredito e por que acredito. Se concordar comigo ótimo, e se não concordar também, na maioria das vezes costumo ser tolerante e paciente — sim, há exceções: não me sinto obrigada a tolerar quem desconhece a tolerância, apesar de também não ver nisso motivo para briga; e existe limite para tudo nessa vida, inclusive para o meu estoque de paciência. Até tento ser simpática e legal, mas se alguém estoura sua cota individual no meu estoque antes de resolver perguntar minha opinião eu automaticamente me sinto no direito de não eufemizar nenhuma verdade indesejada. Só isso.

Sim, já fui chamada a participar de partidos, e sim, mais de um. E não estou interessada, por vários motivos. Primeiro porque é meio difícil encontrar um partido com visão semelhante à minha, geralmente me identifico mais com candidatos equilibrados que transcendem o próprio conceito de partido; e segundo que se encontro gente ativa na política com quem minhas ideias se identificam prefiro apoiá-las de alguma maneira e me dedicar melhor às outras áreas de minha vida — porque sim, existe vida além da política. E outras preocupações, prioridades, assuntos, etc.

Quanto à minha visão eu diria que está mais para centro-direita. “Centro é para os indecisos” e blá blá blá? Não me importo, já disse, sei no que acredito e porque acredito; e se descobrirem algum outro modelo melhor e mais eficiente não vejo nenhum problema em mudar de opinião.

Como acabei de escrever sobre objetos e SWOT, os meus critérios de escolha são outros e abomino essa futebolização da política onde as pessoas se sentem obrigadas a escolher uma camisa e um partido sem a necessidade de identificação total com suas ideias e valores por qualquer outra razão incompreensível pra mim. Se até pro Corinthians já parei de torcer contra quando percebi que mesmo não torcer a favor não me parece um motivo racional para ser fervorosamente contrária, não consigo entender como alguém consegue encarar uma coisa tão séria dessas na mesma óptica.

E também, na minha cabeça é muito tênue a linha entre a política e a economia, tanto que em minhas escolhas não sei desvencilhar as duas. Não porque ache que dinheiro é a coisa mais importante de todas, acho que já escrevi aqui que discordo da vantagem absoluta e da mão invisível descritas por Adam Smith (e também não sou a favor da teoria ressurgida em forma de neoliberalismo); mas também não consigo enxergar essa preocupação com os indefesos que os vermelhos tanto pregam quando analiso as palavras violentas de Karl Marx — acabei de lembrar-me de uma coisa muito engraçada que meu professor disse sobre Marx em uma aula de Economia Internacional, mas acho melhor deixar pra lá.

Por enquanto o meu pensamento se identifica mais como alguma coisa entre as vantagens comparativas de David Ricardo e a intervenção governamental descrita por John Maynard Keynes — mas não vejo essa intervenção como algo sujeito propriamente aos desejos de nenhum presidente, para não cair no retorno a nenhuma prática absolutista; prefiro pensar nesse algo como um poder semelhante ao de um judiciário independente.

É claro que não precisaria ser independente se presidido por alguém íntegro e que priorizasse as reais necessidades da nação em detrimento de seus interesses partidários, mas…

Me preocupo com a área social sim! Nasci e cresci em São Miguel e depois me mudei para o Itaim Paulista, ambos na ZL, já vi muita gente sofrida e acho que toda pessoa precisa de todas as condições necessárias para se ter uma vida dignamente humana; mas quando falo dignamente humana não me refiro à parasitagem.

É essencial a qualidade na educação, na saúde, na moradia e no transporte público; tudo tem que ser feito da melhor maneira possível e, quando necessário um preço, que este seja o mais acessível (não é utopia querer uma administração de recursos eficiente, e prova disso é que vários outros países conseguem. Eliminar e punir corretamente a corrupção, além de uma reforma tributária decente e sua aplicação literal já seriam um bom começo). Tampouco o combate à miséria deve ser negligenciado.

Essa questão de combate à miséria é a mais complicada de ser explicada, porque grande parte das pessoas costuma se colocar de maneira absolutamente contrária ou a favor de projetos como Bolsa Família e etc, e até nisso a minha opinião diverge. Não gosto de muitos aspectos ligados ao desenvolvimento da coisa, mas não desprezo totalmente a ideia, acho que tudo depende.

Por exemplo, conheço vários casos de mulheres que têm intencionalmente vários filhos pensando no auxílio e também de homens que se acomodam ao ponto de não levarem em conta os seus próprios ofícios e, sinceramente? Com o perdão da palavra, acho que só com muita mediocridade e mal caráter mesmo para conseguir arquitetar mentalmente uma coisa dessas. E tem também aquelas fraudes, tipo cachorro que recebe auxílio e outros que ultrapassam muito a minha criatividade; nesses pontos sou contra e só isso expressa a minha opinião.

No entanto, se houvesse uma fiscalização antifraudes, mais critérios e uma conscientização, se necessária acompanhada de capacitação profissional ou algo do tipo que servisse pra mostrar às pessoas que não é pra ficar na dependência exclusiva do auxílio a vida inteira, não penso que eu seria das mais contrárias.

Tem também aquele clichê do “Critica o Bolsa Família, mas se inscreve no CSF” que todo mundo já deve ter ouvido uma vez na vida. E, não é querendo ser propositalmente contrária, mas eu não consigo pensar diferente: não me inscrevo não, e não é só porque meu curso não é um dos mais oferecidos. Não quero mesmo.

Acho o CSF muito bom quando analisada a chance incomparável daqueles que conseguem a bolsa, mas pensando de um modo mais coletivo não acho grande coisa. Porque além do intercâmbio, que é ótimo, eu o vejo como uma outra forma de dizer “Não confio muito no nível de ensino do meu país, por isso vou bancar uns jovens brilhantes lá fora por um tempo para que eles aprendam melhor e se destaquem no mercado de trabalho”.

Aí eu pergunto: não é mais fácil investir no aperfeiçoamento da educação aqui dentro mesmo em vez de delegar isso a outros? Se é viável proporcionar aos universitários uma experiência inovadora de vivência e ensino lá fora, por que não usar o mesmo conceito para trazer mestres e doutores que aperfeiçoem o ensino superior daqui? Na minha opinião o alcance seria bem maior, e a economia também.

A economia, sempre a economia… Sim! Acho muito estranho quando vejo algum candidato criticar ou dizer que não liga muito para os dados econômicos e só se importa com o desenvolvimento social porque, penso que com um pouquinho de raciocínio lógico qualquer um pode entender que sem uma economia estável e crescente não há possibilidade  avanço social.

Não estou fazendo apologia da forma mais pura de capitalismo, espero que estas várias e longas linhas tenham servido para explicar isso, mas me sinto na liberdade de questionar outra vez: se todo mundo resolvesse parar de trabalhar, como cresceria a economia? Ainda sobre o quesito vagabundagem, se ninguém trabalhasse (classifico todas as diferentes funções, salários e cargos), quem pagaria os tributos em geral de maneira proporcional à renda? E sem contribuintes, como poderia um Estado se sustentar? E se um Estado não se sustentasse (dívida interna), como poderia arcar com projetos sociais? E se a União, os Estados e Municípios não arcassem com seus respectivos projetos sociais e necessidades, quem arcaria? Cuba? Venezuela? Argentina? Como recuperar e reerguer o IDH de um país com a economia falida?

Ninguém nunca me respondeu nenhuma dessas dúvidas de maneira satisfatória, mas tudo bem não respondê-las se não quiser me convencer a pensar de outro jeito.

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Espectadora

Crônicas

Eu me achava estranha por querer conversar com os personagens dos filmes, com os jogadores de futebol e etc. Ter a visão mais ampla do roteiro ou partida soa como algo desesperador, isto é, na minha cabeça.

Não assisto novelas porque além de não ter paciência e achá-las um lixo cultural com a constância essa sensação bizarra toma proporções maiores, e enquanto parava e refletia sobre isso agora, pensei que talvez seja esta uma das minhas justificativas para o meu problema em acompanhar séries — além da preguiça.

“Mas você não está vendo que ele é o vilão? Olha pra trás!”, é um pensamento às vezes verbalizado por mim. E não adianta argumentar racionalmente sobre ser ficção, porque eu tenho a plena convicção disso, mas não é como se esta certeza me ajudasse de alguma maneira. Já tentei, e pelo menos até agora não ajudou.

É como o medo de barata, sabe? Já me falaram mais de mil vezes que ela é menor que eu e várias coisas desse tipo, que eu sei que são verdade, mas que de algum jeito incompreensível e inexplicável o meu subconsciente ignora tudo isso e me mostra um T-Rex sempre que vejo uma. A essência do medo é irracional e não vou tentar explicar o que nem eu mesma entendo, só sei que comigo funciona assim.

Hoje percebi que muitas vezes a própria vida me parece um filme: conheço muito bem os personagens, e também o enredo. É clichê, e clichê é uma coisa do tipo que jamais existiria se não desse certo, tal como a trama que, diferente de basear-se apenas, é feita em fatos reais.

O próprio clichê já dá todas as pistas do que pode acontecer, mas não basta, e a ele somam-se as pistas da trilha sonora. Ainda que o clichê falhe, a trilha sonora é  mais evidente, porque o tom denuncia o desenrolar da trama.

É mais ou menos a sensação de ouvir Le Quattro Stagioni, de Vivaldi, e por isso acho que a música clássica se enquadra tão bem nos filmes. As palavras não são necessárias para transmitir nada, e talvez até atrapalhassem. La Primavera, minha favorita na infância, aquela dos comerciais de sabonete, é a tradução da felicidade em Mi Maior.

E então começa L’estate, que inicialmente não me surpreende, mas deixa a dica: Sol Menor. Os violinos, que tanto me encantam, terminam por dar revelar a presença do suspense, o perigo e a perseguição. Há quem diga que mostram a aventura, no entanto o perigo parece tão mais claro para mim.

Mas nenhum personagem percebe. Como não, por quê?! É tão raro encontrar no mainstream um roteiro inovador, mas ainda assim cada personagem sente-se único e especial, diferente dos milhares iguais que já existiram. E não é! Nem sequer o drama é original!

Só que não sou roteirista, meus gritos e avisos são mudos, não importando o que eu faça. Não consigo dar vida a um personagem ou impor minhas opiniões e convicções, nem mudar os seus caminhos e decisões. Mas gostaria. Como espectadora, amaria. Me sentiria melhor se assim pudesse.

Acho que se fosse a autora pensaria diferente. Ninguém gosta de ler ou assistir uma estória insossa, quanto mais de escrever. Os personagens são reféns da ilusão de serem independentes e escolherem o que bem quiserem.

E afinal, o ser humano é o quê?

Ser ou ter, eis a questão

Textos

Tinha essa ideia em mente há um bocado de tempo já, mas ando tão louca com as coisas da faculdade que não estava conseguindo desenvolvê-la direito — e também porque dentro da minha cabeça tem um monte de ideias e opiniões sobre um monte de coisas, aqui dentro é uma bagunça que só! Vou tentar ser sucinta.

Quando o Eike Batista abriu a boca hoje, depois de tanto tempo em silêncio, vi “notícias” de todo o tipo. A que mais me chamou a atenção, na Exame, foi uma comparação entre as frases de quando bilionário com as declarações feitas agora, endividado. E eu confesso que até ri de algumas piadinhas dos internautas, mas não quero ficar aqui falando do que aconteceu ou deixou de acontecer com ele. No entanto, vejo nele um bom modo de exemplificar o que penso.

Parece um choque que um cara que já esteve classificado na Forbes tenha hoje um patrimônio negativo de aproximadamente US$ 1 bi, e certamente o é. “Não dá para fazer com que as coisas deixem de acontecer porque simplesmente ninguém achou que isso fosse possível, não está em nosso controle”, foi mais ou menos como relembrou-me uma amiga querida ontem (estou tentando lembrar as palavras dela, mas sei que a essência do que disse era assim). A vida tem dessas coisas.

A matéria que mais me chamou a atenção, sobre a comparação de frases de antes e depois, assim o fez porque as coisas ditas pelo Eike agora parecem muito mais sensatas, isto é, para qualquer pessoa normal. Já nas frases anteriores nota-se um nível exagerado de autoconfiança e eu diria que até mesmo arrogância, o que muitas vezes (não gosto de generalizações) acontece como uma relação diretamente proporcional à riqueza de alguém. Essa é mais uma das esquisitices do ser humano.

Ser classe média é uma coisa normal para tantas entre as sete bilhões de pessoas na Terra e eu me incluo nelas, mas quando acontece com alguém de grande destaque nasce um tumulto em volta. Acho que já escrevi em algum outro texto sobre como me chamam de mimada até hoje por ter alguns privilégios, que não são muitos, mas admito que existem. E quanto mais penso nisso, mais penso na relatividade dessas coisas.

Quando eu era mais nova e estudava em escola particular, com uns 10 ou 11 anos, acho, vivia perguntando para minha mãe por que eu não podia ter os tênis caros que todo mundo usava (uma vez minha mãe me deu uma chuteira, de menino, porque era o mais barato da loja), ou mesmo um celular quando começou a deixar de ser uma coisa descomunal — em um tempo remoto e repleto de Nokias 2280 ou Siemens A50. Estou ficando velha.

A resposta para minhas perguntas era evidente: não tínhamos dinheiro para isso. Meus pais me criaram com o pensamento de que era mais que válido investir o dinheiro, que já não era muito, em coisas que de alguma forma me transmitissem conhecimento e princípios, mas que jamais seria aceitável esgotar esse recurso escasso para satisfazer os devaneios consumistas de uma garotinha. E hoje eu concordo com eles, exceto pela chuteira. Não tenho nenhuma fixação com sapatos caros, mas podiam ter recorrido ao bom e clássico All Star.

É claro que depois que meu pai pediu o divórcio nos mudamos de bairro, terminei de estudar em escola pública para que minha mãe pudesse usar o dinheiro para construir casa, depois comprar apartamento e etc, conheci muitas pessoas com realidades diferentes da qual fui criada. Gente para quem ter um apartamento simples e modesto, um notebook e faculdade, ainda mais pública, parece luxo — e abro outro parêntese aqui: eu não fiz curso de inglês, pré-vestibular ou qualquer outra coisa a vida inteira, não comprei e nem paguei muita coisa que precisei ou quis. Tem muita coisa boa e gratuita na internet e fora dela ou com um preço simbólico e acessível para qualquer um que esteja disposto a gastar mais de R$ 50 por fim de semana em uma balada, mas ainda continua mais fácil esperar que as coisas caiam do céu e criticar quem se esforça para correr atrás de qualquer coisa que realmente lhe importe.

Conforme fui crescendo passei a me perguntar se precisaria mesmo de todas as coisas que penso precisar. É uma pergunta que me faço até hoje quando me deparo com um guarda-roupa lotado de peças que não uso mais ou prateleiras que ficam entulhadas e bagunçadas com livros que ainda nem consegui ler totalmente, apesar de ser esta a minha intenção. Não reclamo de nada e agradeço, me sinto muito satisfeita. Mas preciso?

Há tantas coisas que não compreendo. Posso estudar um milhão de vezes a Pirâmide de Maslow e achar que entendo o conceito de necessidade e desejo, mas quando visto de maneira prática me parece… Não tenho palavras para descrever. Como por exemplo gastar R$ 200 mil em uma bolsa, por mais linda que seja, mesmo sabendo que quem faz isso tem outras preocupações, não faz o menor sentido para mim; assim como também sei que para outras pessoas a loucura é minha quando gasto o meu dinheiro para comida em livros diversos, desde os que custam R$ 2 na Sé até aqueles caros que a gente sente que vai usar por um semestre (ou menos) na faculdade. Cada pessoa tem a esquisitice que lhe cabe.

O que me assusta é ver que a indagação transmitida por Shakespeare em Hamlet também vai perdendo o sentido hoje, porque cada vez mais vejo gente preocupando-se em ter alguma coisa quando poderiam estar mais focadas no que são ou pretendem ser; e isso não se a aplica só a dinheiro.

Sou da opinião de que ninguém é bonito, e sim tem beleza por quanto tempo a vida quiser lhe presentear (e tentar prolongar esta dádiva com uma coleção de plásticas só vai ter um efeito inverso do esperado). Em outras palavras, não acho que ser lindo dê a ninguém o direito de ser antipático, burro ou acomodado. Seria maravilhoso se todo mundo fosse lindo, simpático, inteligente e esforçado; mas como sei que isso é utopia também, recomendo pelo menos dois outros itens da lista (não falei de educação, mas está subentendido). Porque se ou quando a beleza acabar, o que vai restar? Alguma coisa precisa restar.

E não isento o conhecimento dessa concepção. Ninguém é puramente conhecimento, mas sim o adquire. Admito que tentar compreender coisas variadas é uma espécie de vício para mim, mas não vejo isso como maneira de diminuir ninguém e até por isso estou tentando reduzir outro de meus defeitos, o sarcasmo.

Sei de várias pessoas que criticam, assim como eu, a vaidade materialista, mas não percebem que a vaidade intelectual é tão nociva quanto ou até mesmo pior, pois como sabiamente me disse outra amiga nessas férias, diferentemente da quantia de dinheiro que pode ser imprevisível (volto ao exemplo do Eike Batista), o conhecimento acumula-se com o passar dos anos; e o que deveria ser para nós motivo de crescimento acaba nos empobrecendo se servir apenas de alimento ao ego.

Sou uma menina de cidade grande, nunca morei fora de SP e nem consigo imaginar direito como seria minha vida fora da área metropolitana, mas tem uma coisa que não sei se invejo ou admito no interior: lá tem gente tão mais simples e mais amável que eu!

(Im)Perfeição

Crônicas

Quase toda vez que tento entender ou analisar alguma coisa relativa ao ser humano acabo chegando a um impasse inconclusivo, algo que nenhuma outra expressão além de “Que bicho estranho!” definiria melhor. Até porque eu mesma, e principalmente eu, sou estranha aos meus olhos – e não me classificaria de maneira diferente.

Não existe criatura alguma mais estranha que o ser humano, por vários motivos: 1. Porque pensamos; 2. Porque achamos que pensamos; 3. Ou porque deveríamos pensar.

Acho que o terceiro motivo é o que mais me incomoda.

Não que isto seja muita coisa, porque às vezes até o primeiro motivo não me soluciona muita coisa, e aí me encontro presa no segundo e me jogando de novo no terceiro, como num ciclo irritante e sem fim.

Ou será que só na minha cabeça as coisas funcionam assim?

Digo estranho para não dizer complicado. Complicado é a palavra certa, mas ainda que eu pense que nada mais descreva melhor, usar complicado me parece complicar ainda mais a raça humana.

Pois que seja então estranho o meu eufemismo! Como se houvesse algum problema em assumir complicação, e simplificar a todo custo fosse sempre possível… É mesmo um eufemismo bem infantil, como quase todos o são.

Mas não me basta a infantilidade em querer fugir de toda complicação, porque sei que o brinde é um pacote de medos. E algumas incertezas avulsas acompanhadas de tanta insegurança… Um amontoado de defeitos revestido de carne, osso e pele humana, porque não existe nada mais humano que a imperfeição.

Não escrevo nada disso como um massacre à autoestima, efeito de uma depressão ou qualquer coisa do tipo.

Mas quando não entendo alguma situação ou pessoa, depois de tentar por mais um tempo sem êxito, ou desistir de tentar ao soar o primeiro alerta de complicação, me pergunto se eu seria objeto de fácil compreensão. E, sinceramente? Acho que não.

Há em mim tantas letras trocadas, palavras confundidas, tropeços não intencionados, acordes mal tocados, perguntas sem respostas, outras questões não resolvidas e rascunhos inacabados escondidos… Versos não rimados, sorrisos guardados, prosas que na verdade aspiravam ser a mais fina poesia, vergonha traduzida nas minhas mãos gesticulantes e bochechas coradas, e tantos outros defeitos que não me lembro ou não sei.

Não que sejam propositais, muitas vezes são só inevitáveis; coisas que, a despeito da minha vontade contrária, não caberiam em nenhuma edição.

E é num flash de sanidade que me pergunto o porquê de querer que em minha vida haja uma ferramenta de edição, mas essa resposta eu sei: porque torna-me ainda mais humana o medo de deixar que descubram que sou imperfeita também.

Compreender política é preciso sim!

Textos

Tiro da gaveta mais uma ideia há tanto arquivada, e outro tanto delicada de ser desenvolvida, por achar necessário.

Não tenho pretensão de fazer nenhum manual de Política porque existem vários melhores que qualquer coisa que eu poderia escrever, e até porque além de ser trabalhoso demais, pouca gente tem paciência de ler o que escrevo, rs. O que quero mesmo é fazer um texto de reflexão, algo que talvez possa servir como ponto de partida – e não quero, de maneira alguma, impor a minha visão de mundo sobre ninguém, porque detesto quando tentam fazer isso comigo.

Enfim, partindo do princípio, acho válido dizer que, como a maioria das pessoas, um dia achei desnecessário Política, Filosofia, Direito, Economia e todas essas coisas que são tidas por chatas – e muitas vezes me refaço esta mesma pergunta, quando confronto todo o idealismo com a parte real da coisa. Mas tive um start um tanto incomum para pensar nessas coisas.

Meu avô materno é comunista até hoje. Sua preferência não é simplesmente socialista ou centro-esquerda, mas sim da extrema esquerda. Mesmo. Desde muito cedo, meus primos achavam irritante qualquer preocupação que envolvesse estes assuntos de gente grande, e por isso me deixavam sozinha com meu avô quando qualquer tema desses aparecia no meio da conversa.

Eu devia ter uns doze anos quando percebi que não concordava muito com as ideias do meu avô. E não é como se já tivesse me interessado instantaneamente pelo assunto, mas achei que até mesmo para discordar eu precisava de argumentos que me mostrassem o porquê dessa discórdia. Daí surgiu minha visão crítica.

Na escola, minhas matérias preferidas sempre foram História, Literatura, Artes e Geografia; ou qualquer outra coisa que passasse longe das Ciências Exatas, porque para elas o meu raciocínio é ainda mais devagar que a minha lentidão natural. Ainda assim eu não gostava muito de Filosofia, porque até mesmo a Matemática me parecia (um pouco) mais fácil de se entender sempre que eu ficava tonta ao perceber que as respostas para todas as perguntas que eu percebia não estariam sempre ao meu alcance. Até compreendo hoje que isso é inevitável, mas não deixa de ser frustrante.

Até que um dia resolvi ler Eric Arthur Blair, mais conhecido como George Orwell, e além de gostar bastante da Revolução dos Bichos e 1984, achei um tanto intrigante que sua própria preferência socialista não fosse um empecilho à sua visão crítica. Aí sim surgiu, em mim, um genuíno interesse.

Ainda nessa fase da adolescência, queria muito estudar Jornalismo em uma universidade pública e futuramente me especializar nas Ciências Políticas, mas não pretendia sair de São Paulo… Resumindo, perdi alguns anos tentando entrar na USP, e minha mãe é grata até hoje por eu não ter passado – sério mesmo. Mas foi só depois de perceber com meus próprios olhos toda a manipulação por trás das mídias que eu mesma acabei desistindo.

É claro que a visão de mundo que tenho hoje não foi desenvolvida de uma hora pra outra, anos foram necessários. Não gosto de estudar Direito até hoje, geralmente estas são as matérias que mais detesto em minha grade curricular, mas sou obrigada a admitir que algumas de suas premissas foram fundamentais para a formação de opinião que tenho hoje.

Entretanto, não acho que sejam apenas os conhecimentos de uma área ou outra necessários, porque sem a visão crítica não há nenhuma capacidade de questionamento, e sem esta torna-se inviável qualquer mudança.

Junho de 2013 foi, de longe, a coisa mais interessante que aconteceu no Brasil em qualquer aspecto político depois das Diretas Já; e não acho que teria acontecido se as pessoas não questionassem a relação dos discursos que ouvimos com a realidade que vivemos, ou a quantidade de tributos que nos são cobrados com os casos de corrupção.

Outro ponto que acho extremamente necessário tocar é a minha visão apartidária. Porque vejo, muitas vezes, o próprio partidarismo como empecilho à visão crítica. Já ouvi alguns relatos de pessoas partidárias que admitem que a ideia de Fulano ou Ciclano pode até ser melhor, mas que a sabotam por não ir de encontro aos interesses de seus partidos – muita gente desconhece que este é um dos principais problemas na nossa estrutura política, e até hoje não encontro nenhuma razão suficientemente lógica nisso.

Não foi o prazer que me mostrou a importância de me preocupar com todas essas coisas, mas a visão crítica sim. Foi a visão crítica que me levou a questionar a propaganda comunista a qual por muito tempo fui exposta na escola sem perceber, e também foi ela que me levou a buscar outras visões – e questionar também os fundamentos, as fontes por trás dessas outras visões. Foi a visão crítica que me mostrou a necessidade de não acreditar em tudo o que vejo na televisão, e também foi ela que me mostrou que desligá-la pode ser muitas vezes o melhor a se fazer.

Questione! Questione as propostas, mas não pare nelas, cheque também os formadores de opinião. Questione Marx, mas também questione Maquiavel e Adam Smith. Faça bom uso do quote ‘Penso, logo existo’ antes de qualquer coisa, e só vote tendo plena consciência do que está fazendo – porque é verdade que a Política não é a coisa mais importante de sua vida, mas ela certamente vai influenciar boa parte do seu dia-a-dia.