Fé inexplicável

Cristianismo

Há já algum tempo que venho pesquisando e lendo sobre Teologia, aquela curiosidade que tinha começado na Apologética foi crescendo e se desenvolvendo de maneira a passar pela História da Igreja e outros questionamentos mais intrínsecos ao ser humano.

Não é como se eu possuísse alguma expertise no tema, pra falar a verdade, de toda uma lista de livros que ainda quero ler e outros arquivos que coloquei no tablet, até agora só consegui ler três (neste ano). Sei que por certo tantas outras pessoas conseguiriam, e já conseguiram, escrever sobre o assunto com propriedade muito maior que a minha, mas me atrevo a tentar porque não sei se de algum outro modo eu conseguiria explicar mais claramente os fundamentos da minha fé.

Já pensei, já perguntei e li antes de chegar a esta premissa, mas ainda não encontrei uma alternativa mais convincente de que a própria fé não se explica muito bem. Não que isso torne a fé mentirosa, vou dizer o porquê: já tentou convencer um corintiano de que o seu time não é o melhor, ou mostrar a um extremista político, e isso vale tanto pra esquerda quanto pra direita, que nem todas as coisas são do jeito que ele pensa ser? Caso já tenha tentado saberá que, em ambos os casos, não adianta muito comparar a quantidade de títulos conquistados por outros times ou mostrar todas as teorias político-econômicas e sua aplicação mais próxima com suas respectivas falhas e acertos. Aliás, na maioria das vezes é até inútil tentar explicar alguma coisa, sou do tipo que argumenta mas se cansa muito rápido – apesar de que em alguns casos continuo gostando de questionar esperando uma resposta satisfatória. Acho que esse é um grande defeito meu.

É claro que não quero, com este exemplo, resumir a fé e a espiritualidade a tópicos como preferência política ou futebolística, porque obviamente tudo é muito mais complexo que isso. As questões, eu digo. O ser humano é complexo também, mas por ser tão repetitivo, independente do tema sugerido, acaba nos permitindo fazer algumas comparações previsíveis quanto a seus pensamentos e comportamentos, e é por isso que usei as duas categorias citadas como referência.

Já falei, em outro post, que deixei de ser anticorintiana quando percebi que isso era coisa muito inútil de minha parte, mas simplesmente deixar de torcer contra não me torna, de maneira nenhuma, apta a compreender esse fascínio, essa paixão e orgulho tão grande que sentem sendo corintianos, maloqueiros e sofredores, e ainda agradecer a Deus por isso! É algo incompreensível demais para mim, e com o tempo percebi que algumas pessoas à minha volta se encontram no mesmo nível de incompreensão sobre a minha fé.

É claro que não quero, com este exemplo, resumir a fé e a espiritualidade a tópicos como preferência política ou futebolística, porque obviamente tudo é muito mais complexo que isso. As questões, eu digo. O ser humano é complexo também, mas por ser tão repetitivo, independente do tema sugerido, acaba nos permitindo fazer algumas comparações previsíveis quanto a seus pensamentos e comportamentos, e é por isso que usei as duas categorias citadas como referência.

Já falei, em outro post, que deixei de ser anticorintiana quando percebi que isso era coisa muito inútil de minha parte, mas simplesmente deixar de torcer contra não me torna, de maneira nenhuma, apta a compreender esse fascínio, essa paixão e orgulho tão grande que sentem sendo corintianos, maloqueiros e sofredores, e ainda agradecer a Deus por isso! É algo incompreensível demais para mim, e com o tempo percebi que algumas pessoas à minha volta se encontram no mesmo nível de incompreensão sobre a minha fé.

Na minha humilde opinião, não que eu seja alguém melhor ou pior para dizer isso, é só um pensamento meu mesmo que pode estar certo ou não; mas penso que todo ser humano tem fé em alguma coisa, seja de um jeito ou de outro. Fé no Corinthians ou na política como já citei, mas também na Ciência, na Arte, no antropocentrismo (alguns no egocentrismo também), no pensamento positivo, na astrologia, no dinheiro, na Filosofia, na Psicologia… É uma lista sem fim. Nessa minha óptica a diferença entre um cristão e aquele que diz não crer seria justamente onde essa fé está depositada. E nada mais.

A fé no antropocentrismo e no egocentrismo são as que eu acho mais estranhas, não no todo, mas em um único aspecto: desde o Renascimento tornou-se comum o pensamento de transferir o que acontece na Terra à responsabilidade humana, desprezando a “ignorância” que levou a Idade Média a ser conhecida como Idade das Trevas pelo seu notável Teocentrismo. Não estou aqui tentando entrar no mérito de qual dos dois períodos tenha tido um pensamento mais civilizado, primeiro porque acho muito desumano quando ouço alguém usar este termo ao fazer comparações entre épocas ou lugares distintos que apresentam crenças diferentes; e segundo porque também tenho vários pontos de discórdia com muitas coisas que regiam o pensamento medieval. No entanto o que me intriga não é isso.

Suponha que eu concorde com as afirmações de Nietzsche, por exemplo. Já vi gente que concorda, mas quando questionada sobre sua decisão de não crer na existência de Deus aponta todas as tragédias e desastres do mundo como as razões para duvidar dEle ou de Sua bondade e todos os outros atributos. E eu não me sinto no direito de querer interferir na fé (ou ausência dela, apesar de ter o pensamento que já descrevi há pouco) de ninguém porque não dou a ninguém o direito de interferir na minha, mas sempre que ouço algo desse tipo me pergunto mentalmente porque nós, seres humanos, temos uma mania estranha de nos orgulharmos e querer o crédito por tudo o que dá certo ao passo que culpamos Deus pelo que saiu errado. Pelo menos para mim isso é algo muito difícil de compreender.

Também descrevi a crença na Ciência como fé, ainda que eu entenda que perfeitamente que os mais céticos discordarão de mim. Digo que é fé pelo o único motivo de eu não ter presenciado, e também não conhecer ninguém que tenha, o momento exato onde todos os levantamentos apontados pela Ciência teriam ocorrido. É aí que eu descubro outra incompreensão minha. Repito que não estou querendo ofender ninguém, mas alguns pensamentos me confundem bastante. Tipo, quando sou criticada ou questionada sobre a minha crença na Bíblia frequentemente argumentam que esta foi escrita por homens que talvez tenham se movido por interesses distintos e até mesmo duvidosos, passíveis de engano, etc… Mas o que foi Charles Darwin senão um homem? Fred Hoyle, Georges Lemaítre, Galileu, Newton, Einstein e todos os outros grandes cientistas não foram homens também?

Eu não preciso crer no avanço da tecnologia ou na criatividade humana porque o vejo sempre que mexo no meu notebook, no meu celular ou assisto o jornal e descubro uma nova invenção. Posso até tocar. Mas para aquilo que não vejo, para o que tecnicamente não haveria nenhuma prova tida como concreta e só pairam cada vez mais incertezas, a menos que eu decida ignorar por completo tudo o que não posso compreender perfeitamente, não me resta alternativa senão a fé.

Quando eu estava lendo Teologia é poesia?, do C.S. Lewis, em um domingo anterior vi algo que define bastante a visão que eu também tenho:

Acredito no Cristianismo como acredito que o Sol nasceu, não apenas porque eu o vejo, mas porque por meio dele eu vejo todo o resto.

E é exatamente como me sinto, não sei se eu saberia descrever melhor.

Outras vezes ouvi dizer “Eu até posso acreditar em Deus se Ele me provar que de fato existe, não sou antiteísta não!”, mas o Deus em quem creio não precisa me provar nada porque eu não sou nada. Porque se eu acredito que a vida na Terra não pode ser explicada exclusivamente pela Ciência e que o Criacionismo me ajuda a compreendê-la melhor, me acharia no mínimo muito imatura se acreditasse que esse Deus que criou todas as coisas precisasse parar qualquer outra coisa importante que esteja fazendo só para me provar algo. Volto aqui a citar Nietzsche dizendo “Não posso acreditar num Deus que quer ser louvado o tempo todo” porque sempre que leio ou ouço algo do tipo me pergunto se as pessoas imaginam que Deus tenha sérios problemas de carência e dependa totalmente da adoração dos seres humanos para existir, quando na verdade Ele nem sequer precisa de mim para qualquer coisa, inclusive para crer nEle.

Crer ou não crer na Bíblia e no Cristianismo só faz diferença na minha vida e na vida das pessoas que me cercam à medida que eu decido praticar ou não os princípios que permeiam a minha fé, porque Deus não precisa da minha crença para existir. A Trindade se basta, essa dependência toda que conhecemos é uma coisa humana e não divina.

Ainda que seja difícil crer, não falei em momento algum que seria porque a fé e a facilidade são razões inversamente proporcionais. Acho que, conhecendo a natureza do ser humano, talvez jamais tenha sido. Mas no que tange ao Cristianismo, sempre me lembro de uma música que ouvia bastante na infância, a única que conheço da Joan Osbourne, onde em um dos versos ela diz “If God had a face, what would it look like? And would you want to see, if seeing meant that you would have to believe in things like Heaven and in Jesus and the saints, and all the prophets?” (Se Deus tivesse um rosto, como se pareceria? E você gostaria de ver, se ver significasse que você teria de crer em coisas como Paraíso e Jesus e os santos, e todos os profetas?).

Todo mundo antes de decidir crer ou não no Cristianismo se encontra nesse mesmo impasse, sobre o qual C.S. Lewis também escreveu:

Uma vez que se aceita o Teísmo, não se podem ignorar as declarações de Cristo. E, quando se examinam essas declarações, parece-me que não se pode adotar nenhuma posição intermediária. Cristo ou era um lunático, ou era Deus. E Ele não era lunático.

Gosto bastante do Lewis porque, diferentemente de mim que tinha mais dúvidas sobre ser a minha fé verdadeira ou não, ele era ateu e ao escrever falando tão claramente de suas dúvidas e tudo o quanto pensava antes e depois de se converter me dá uma perspectiva bem mais ampla das coisas. O cristão não só acredita em todas essas coisas como também na graça, que por vezes consegue parecer ainda mais incompreensível que a fé, mas este é um tema tão amplo que talvez eu tente escrever sobre isso depois.

O fato é que eu sei muito bem quais são os fundamentos da minha fé: creio em um Deus que criou a Terra e toda a natureza, e a despeito de eu merecer ou mesmo querer, me amou ao ponto de entregar Jesus para que eu tivesse vida plena e esperança. Creio porque sempre que me vejo encantada com a quantidade de detalhes que encontro em cada flor, árvore ou animal da natureza me recuso a acreditar que uma explosão ou evolução possam ser as verdadeiras responsáveis por tamanha perfeição, e isso me basta.

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Transparecer

Crônicas

Transparecer, deixar ser. Não se trata de só querer mostrar ou aparecer, basta não esconder. Pra que esconder? Por quê?

É oposto aos enigmas, que na ficção tanto admiro e na realidade abomino. E se os abomino é porque ainda não descobri algo que me inquiete mais que não saber o que esperar, em quem confiar ou o que pode ou não pode ser. Pois se certamente há quem prefira as aparências, o meu apreço só escolhe quem não maquia sua essência.

E não consigo querer nada diferente disso. A vida é tão ilusória, e o tempo tão complicado para eu sequer ousar pensar em outra coisa senão transparecer aquilo que sou, ou me decidir por algo que não sei o que é. Afinal, qual o sentido de esconder o que se pensa e quer?

Transparecer é expor, ainda que não intencionalmente, mas sim pelo simples fato de ser livre. Liberdade do roteiro que nem sempre sai como o planejado, porque tudo é orgânico e ao vivo, sem a menor necessidade de editar falhas, fragilidades ou sensibilidades. Livre para encarar os meus defeitos e medos, sorrisos e desassossegos. Livre de mim mesma, mais livre do que jamais poderia imaginar ser.

Se a felicidade for contrária a isso, a desconheço: feliz me sinto quando descubro no que talvez haja de melhor em mim, e o pior também, porque é justamente este que me impulsa a não me acomodar.

E se for triste, que seja. Se estiver errado, que haja o tempo e a vontade necessária para corrigir. Se houver dúvida, que não exista o medo de descobrir. Mas se for certo, que eu tenha coragem de persistir. Se for chorosa a noite, que a misericórdia apareça linda e clara como o sol pela manhã.

Que não se demore a escuridão, e tudo logo venha à luz.

Segura tua alma, menina!

Crônicas

Desempina o nariz, abaixa seu dedo e essa crista. Está pensando que é quem? Melhor que alguém, por quê? Cadê aquele sorriso que foi embora? E toda aquela alegria que também não vejo mais?

Segura tua alma, menina. Só porque cresceu está achando que já sabe alguma coisa? Sabe não. Viu não. O mundo é bem maior que seu umbigo, e muito mais cruel que o seu rostinho lindo. Só tem maldade lá fora.

E aquela esperança? E a minha confiança, não valeu de nada não? Pois se quebrou, e não sei se um dia vai se reconstruir. Mas espero que sim.

Segura tua alma, menina. Aguenta o temporal. Lembra do que tem dentro de você, a minha amizade e o meu choro não podem ser em vão. E não são.

Volta. Olha por onde tropeçou. Tira essa lama das botas. Vem se limpar.

Volta. Vê que a chuva não terminou? Nem minha esperança se esgotou, vem pra se purificar.

Minha infância

Crônicas

Pensei muito antes de procurar uma foto da minha infância. Porque estava com preguiça, preocupada com outras coisas minhas e da faculdade, etc e tal. Aí hoje, que estava mais relaxada, percebi que não tem nenhuma foto de quando criança que eu goste mais que esta.

Gosto da sensação que a foto me traz, das lembranças que ainda me parecem tão recentes na memória – mas não gosto dessa sensação de velhice embutida.

Era bom fazer careta pra quase tudo e não me preocupar com quase nada, comer várias correntinhas de mel colorido, pensar que a vida tinha sabor de chocolate e cheiro de terra molhada (é grande a probabilidade de escutar a voz da Sandy em sua cabeça se tiver uma idade avançada feito a minha).

Eu tinha complexo de Mônica, meu passatempo preferido era correr e bater nos meus primos e meninos que por qualquer motivo besta me provocavam; e por algum outro motivo inexplicável, acho que o passatempo favorito deles era me deixar nervosa. Em casa, na igreja, na escola e em todo canto.

E por falar em Mônica, saudades da minha caixa de gibis e almanaques de férias. Saudades dos tantos álbuns de figurinhas que nunca consegui completar. Saudades do Sam, meu japonês preferido, não se incomodava sempre que eu parava na banca para conversar.

Saudade de ralar o joelho, de pregar peça. Eu era tonta demais para saber pregar peça em alguém, mas tenho uma prima sacana que quando vinha do interior pra cá e quando não era eu o alvo de suas peças me botava em seus esquemas de aprontar com o seu irmão. Nessas poucas vezes eu percebia que meu primo mais velho era ainda mais tonto que eu.

E as minhas Barbies, gostava tanto delas! Mas acho que elas não gostavam tanto assim de mim… Só porque eu testava meus dotes cabeleireiros, fazia algumas manchas nelas com um esmalte vermelho que minha mãe tinha quando queria brincar de hospital e me esquecia de passar acetona depois, vai entender.

Sinto saudades das aulas de ballet, e das dores que eu sentia depois delas por na minha cabeça pensar que isso me dava o direito de cantar Só a bailarina que não tem. Eu sei, também não entendo metade das coisas que eu pensava na minha infância.

Acho que só não sinto saudades de comer sabonete, embora por qualquer motivo também incompreensível meu subconsciente se orgulhe disso. Porque sabe, meus amigos comiam minhoca, tana-jura, tijolo laranja… Eu realmente me sinto feliz por só ter comido sabonete e pasta de dente.

E vender limonada, fabricar sabonetes estranhos lê-se: amassar sabonetes velhos e fazer uma bola colorida que eu vendia pros meus tios no quintal que meus tios compravam de mim por me acharem fofinha. Era tão fácil me sentir rica com dez reais!

Também não sinto saudades das aulas de flauta, mas gosto de lembrar que nelas não existia preguiça de ler partituras – mas aí a gente cresce, descobre as cifras…

Aí a gente cresce e toma vergonha que antes não tinha, complica tudo o que antes era tão simples. A gente cresce e para de correr e se descabelar, e cria tanto medo besta que às vezes até esquece como é bom sonhar.

Miopia

Crônicas

Eu tinha quinze anos quando descobri que era míope. Estava parada no ponto de ônibus indo para algum lugar que não me lembro quando olhei para um letreiro verde vindo em minha direção e, “O que é aquilo?”, pensei quando não consegui distinguir nenhuma das letras escritas ali.

Não era só uma mera questão de distância, tudo o que estava longe estava embaçado também: a miopia não vinha sozinha, o astigmatismo tinha resolvido me visitar sem dar previsão de quando iria sair.

Não é de todo ruim, sabe? Não digo que é bom também, porque seria mentira. Mas é o tipo de coisa que dá para se acostumar.

Os pontos negativos: sou um pouco atrapalhada, às vezes esqueço meus óculos -> saio de casa sem enxergar -> forço a vista apertando os olhos -> algumas pessoas já me perguntaram se eu estava as encarando ou paquerando por isso -> e na verdade eu nem tava vendo ninguém direito, só estava querendo enxergar.

Ou quando alguém diz algo do tipo “Você fica mais bonita sem óculos”.

Sério? Achei que as pessoas usassem óculos por precisarem, o que é bem diferente de querer. Eu uso porque tenho agonia só de pensar em colocar lentes de contato, aquelas coisas que entram nos olhos e… Eca! De todo modo, isso é sempre algo muito grosseiro de se dizer.

O lado bom: eu enxergo, o pró que compensa todos os outros contras.

Usar óculos é quase a mesma coisa que acontece na vida, as lentes me capacitam a enxergar até o que eu não quero ver. Principalmente o que eu não gostaria de ver.

Algumas coisas parecem tão mais lindas de longe, quando a minha vista está embaçada… Até que então eu as enxergo como realmente são, aí elas perdem o seu brilho. E às vezes, mais perto, nem mesmo a pureza parece mais tão pura assim.

Seria preferível não ver. Preferível que tudo continuasse lindo, ainda que embaçado. A ilusão não é nem de longe bonita, mas parece tão mais aceitável que a ilusão… Ou menos sofrível.

Mas se meus olhos já viram, o que mais eu poderia fazer? O resto perde o brilho se não consigo esquecer o que vi.

A lente acompanha o problema de tornar tudo visto fora dela desconfiável, inseguro e perigoso; quando tudo o que quero é proteção. A própria lente me serve de proteção.

Mercado político

Crônicas

– Um político honesto, por favor. – pediu a jovem assim que adentrou o mercado.
– Hum, acho que estes já foram eleitos no primeiro turno ou nem isso, de tão pouca procura. Será que não posso lhe ajudar de alguma outra forma? Um menos corrupto, talvez? – perguntou o vendedor enquanto visualizava suas opções dentro e fora das prateleiras. O mercado, apesar do nome, muito assemelhava-se a uma feira ou a um açougue.
– Menos corrupto? Eu quero um nada corrupto! – insatisfeita com a resposta, a jovem indignou-se.
– Você ainda é muito jovem, não sabe como esse país era antes… Hoje estamos muito melhor. – percebendo uma possível discussão, uma senhora preferiu roubar a vez antes que chegasse o seu momento na fila preferencial – Me mostre os menos corruptos, por favor.
– Temos A, B e C. A está na política há mais de vinte anos, não teve nenhuma proposta ou obra marcante e seu partido é composto por escândalos, mas é carismático e insiste não saber de nada; B elegeu-se alegando que pior não ficaria e foi considerado um dos melhores e mais presentes, apesar de ter arrastado quatro ladrões do partido com junto devido à sua popularidade; e C não é de todo ruim, só não conclui seus mandatos porque a cada dois anos procura um cargo melhor. – respondeu o comerciante, apresentando as opções como se fossem peças de carne.
– Parece mesmo difícil escolher. – ponderou a senhora, avaliando suas opções.
– Vocês estão falando e pensando demais, eu quero mesmo é alguém que faça alguma coisa. – sem paciência com as duas, apressou-se um office boy em direção ao balcão.
– D faz bastante coisa, só está envolvido em algumas investigações de lavagem e desvio de dinheiro no exterior. – disse o vendedor, mostrando uma quarta opção.
– Defina ‘bastante coisa’. Ou por acaso vai me dizer que você está falando daquela geringonça que deveria ajudar o trânsito no centro da cidade e ninguém mais sabe o que faz? – a jovem, que havia se calado procurando um candidato diferente, arqueou uma das sobrancelhas.
– Tanto faz, pelo menos esse me representa. – o office boy pediu para embalar.
– O maior ladrão de todos lhe representa? – mostrando muita preocupação, a senhorinha apertou sua carteira contra o peito, e a jovem acompanhou-a ao segurar firmemente sua bolsa.
– Cadê o E? Aquele que é político bom! Nunca antes na história desse país vi elegerem um analfabeto como eu. – tomando o lugar do office boy, chegou um senhorzinho de barba branca segurando uma bengala.
– E não está candidato, mas apoia F.
– Quem é F? – perguntou o senhor, interessado na proposta que o vendedor estava lhe fazendo.
– Certamente você conhece F, que há quatro anos já está aí. Não fez nada muito marcante também, e se enrola um pouco com as palavras. Mas lhe dê uma chance, F só não teve muito tempo para fazer algo realmente relevante ainda… – respondeu o vendedor, tirando F de um lugar destacado para mostrar quem tinha a campanha e propaganda mais bonitas.
– Ah, não! Se F continuar eu não consigo mais escolher e nem comprar nada! – interviu a jovem.
– Estou gostando de F, se E apoia é porque sabe o que faz. – o senhor entregou o dinheiro e recebeu seu pacote.
– Mas você nem precisa votar! – a jovem insistiu, tentando tirar o pacote de sua mão.
– Mas eu quero! – e o senhor o puxou de volta. Não com força, até dava para puxar uma vez mais… Mas então a jovem se viu lutando por um pacote com um velhinho, e ficando nervosa consigo mesma, o deixou passar.
– Ai, de que lugar é esse senhor mesmo? – uma executiva, segurando o celular, empinou o nariz e chegou ao balcão ignorando as duas que ali estavam. – Eu quero mesmo é saber quem tem diploma.
– G tem diploma. – disse o vendedor, apontando mais uma opção. A executiva não tinha tempo para entrar em muitos detalhes, era muito rápida e já estava pegando o dinheiro em sua carteira.
– Mas você não vai nem avaliar suas propostas? – a jovem inconformou-se outra vez.
– Querida, eu trabalho há mais de quinze anos e patrão nenhum nunca quis saber de minhas propostas. Vê como sou exigente? Não sou como esses despolitizados que elegem E ou F, meu padrão é muito mais elevado. – a executiva respondeu, sem desfazer o ar esnobe ou sequer olhar para a jovem enquanto falava, pegou seu pacote e saiu.

Assim como a executiva, o senhorzinho e o office boy, incontáveis apressados ultrapassaram a jovem e a senhora na fila, comprando qualquer coisa que o vendedor lhes apresentasse porque certamente tinham coisa mais importante para fazer.

– Será que você pode embalar C para mim? – por fim perguntou a senhora.
– Mas você já se esqueceu que ele disse que C não conclui nada? – a jovem, que até então estava calada, respirou fundo.
– Minha filha, não sou como você que tem todo o tempo do mundo, eu nem sei se estarei viva quando C tentar outra coisa daqui a dois anos. – sem perder a amabilidade, a senhorinha guardou sua carteira e pegou o seu pacote, deu dois tapinhas no ombro da jovem e foi embora.
– Agora só falta você. – já sem nenhuma paciência, o vendedor a encarou. Queria fechar logo o expediente e todos os outros já haviam saído.
– Tenho mesmo que escolher um desses aí? – indagou a jovem pela última vez.

Arte em mim

Textos

No começo do semestre, se não me engano na primeira aula de Direito Tributário (não é esse o nome específico, mas chamar assim faz-nos sentir que a coisa é mais prática. Não faz não), meu professor nos perguntou qual seria a nossa reação se de repente surgisse um incêndio na faculdade e as respostas foram diversas; não vou nem falar a minha porque acho desnecessário repetir a vergonha.

O fato é que a pergunta tinha a ver com um tema introdutório, e as respostas apontavam para um dos quatro tipos de temperamentos — podendo haver ainda subdivisões. E eu gosto dessas coisas, assim que cheguei em casa tratei logo de fazer o teste; minha mãe e as meninas que convivem quase diariamente comigo concordaram que o resultado tinha bastante a ver: melancólico-sanguíneo.

Fica meio difícil para eu falar que não porque, sabe quando você tem aquela impressão de se ver descrito em algumas linhas? Foi como me senti.

Mas não quero me prender muito a todos os detalhes, só quero usar um como ponto de partida para expressar o que já venho dizendo há alguns anos sem ser compreendida. Entre várias coisas, “Melancólico sanguíneo é o temperamento mais inclinado para as artes” estava escrito, e é exatamente sobre isso que quero falar.

“Eu queria tanto saber cantar, tocar ou desenhar… Ter algum talento, sabe?”, é o tipo de coisa que muitas vezes ouvi.

Seria mentira minha dizer que não é bom, me sinto de um jeito tão intenso e livre quando canto ou escrevo que nem todas as palavras de todos os dicionários de todas as línguas me serviriam para descrever.

É mais ou menos como se por um breve momento pudesse sentir que a arte é minha, algo que vem de dentro de mim, mesmo sabendo que o dom e a inspiração não são — é uma dádiva.

Mas sempre que ouço esse tipo de lamúria me pergunto se ninguém percebe que as outras coisas também são talentos, porque não acho possível que só a arte seja capaz de fazer com que alguém se sinta assim; e é justamente por isso que acho válido tentar tirar um pouco do idealismo sobre a arte, mostrando que até mesmo ela tem alguns lados reais que não são tão bons assim.

Do começo, pois não vejo outro ponto considerável, acho importante falar um pouco dos meus pais.

Minha mãe é linda e tem olhos azuis, é uma mulher um tanto fora do padrão, e não estou falando isso por causa da beleza ou dos olhos azuis: ela é a única mulher que eu conheço que já decidiu e começou a estudar licenciatura em Mecânica, ainda que não tenha terminado por problemas financeiros.

Para mim isso é tão brilhante e incomum, tão incomum quanto a maioria masculina da classe dela na década de 80 também achou. Minha mãe sempre foi boa com números e exatas, e eu acho isso lindo demais.

E então o meu pai, quem sempre achei muito inteligente também, mas de uma maneira diferente da minha mãe. Corre dos números, mas é autodidata em humanas e idiomas, e muita coisa do violão aprendeu sozinho também.

Minha mãe é metódica, sistemática, organizada, atrapalhada e quase sempre desesperada; e meu pai é muito talentoso, tem uma memória musical fantástica, também tem déficit de concentração e é desorganizado que só.

Adivinha qual dos dois eu mais puxei? Já adianto que os olhos azuis e habilidade da minha mãe com exatas não herdei — já quanto a ser atrapalhada e a facilidade em desesperar-se já não posso dizer o mesmo.

Foi na barriga de minha mãe que ganhei o meu primeiro violão, desde muito cedo comecei a estudar canto e coral, flauta, teclado e ballet, e incrivelmente desenvolvi a fantástica e inovadora só que não arte de ser regular em todos eles; exceto na flauta e no ballet, porque ambos disputavam para ver em qual dos dois eu me saía pior.

A regularidade é culpa minha, confesso, porque a dificuldade em concentrar-se é outra incrível habilidade que recebi: eu queria muito tocar teclado, sei que queria. Assim como também queria saber desenhar perfeitamente, pintar, dançar, entrar em um grupo de teatro, dominar tudo o que fosse relativo à História da Arte e mais uma outra lista de coisas que nem me lembro mais tipo salvar uma baleia, ir à lua, inventar alguma coisa importante para a humanidade e etc.

Mas a música nunca me deixou, embora também não me acompanhe do jeito que eu imaginava. Gosto mesmo é de escrever e cantar, e só resolvi mesmo tentar tocar alguma coisa quando vi que não gostava muito de pedir ajuda na hora de pensar nas harmonias que iam acompanhar as letras e melodias por mim criadas.

Meu método de aprendizado: um mês de aulas particulares, livros e DVDs comprados em bancas de jornal, vídeos e cifras variadas… Meu modelo não é o problema em si, porque também sou autodidata. E ser autodidata não é nada ruim; mas imagino que seja ainda melhor quando além de autodidata a pessoa também consegue ser disciplinada.

Tem outro ponto muito crítico, a organização. Ou a ausência dela, para ser mais sincera.

Conheço várias pessoas criativas envolvidas com arte das mais diversas formas, e mesmo com tantas diferenças, se tem uma única coisa em comum que percebi de longe foi a desorganização.

Não estou dizendo que seja uma regra absoluta, até acho que seja possível caber criatividade e organização em uma pessoa só — mas ainda não vi.

Falo por mim mesma, já experimentei vários estágios de desorganização e diria que já têm uns 10 anos que tento ser uma pessoa organizada… E continuo tentando, com alguns períodos de sucesso e outras derrapadas; não vejo a hora de chegar o dia em que eu finalmente poderei dizer que sou uma pessoa organizada.

Mas tem uma explicação lógica para isso, ou pelo menos na minha cabeça parece lógica. Porque são tantas ideias e inspirações diferentes que até a mente já fica uma bagunça.

Sabe o que é andar com um caderninho pequeno por quase todos os cantos anotando palavras-chave saídas de inspirações para serem desenvolvidas posteriormente e ter outro turbilhão de ideias o tempo todo sem conseguir desenvolver tudo? Pois é.

E se a mente de alguém é assim, imagine então que coisa linda fora dela!

“Essa gente metida com artes é mesmo muito esquisita, excêntrica….”, é outra coisa que já ouvi bastante. E é mesmo, ainda não encontrei nenhum argumento que negasse isso.

Tem outro ponto que, pelo menos pra mim, acho horrível no que tange às artes: a sensibilidade. Mas não estou falando de um nível normal e aceitável de sensibilidade, e sim de um completo exagero vestido de sensibilidade.

Certa vez, quando estudava Comunicação Visual na Etec, fomos à Bienal e o grande destaque de toda a exposição estava sobre as obras de Arthur Bispo do Rosário. Nós não sabíamos muita coisa sobre ele, só tínhamos ouvido falar superficialmente em uma ou duas aulas de História da Arte — e as demais coisas aprendemos por lá mesmo.

Quando nos deparamos com o Manto, obra-prima do artista, uma de minhas colegas, coincidentemente uma das melhores artistas plásticas que já conheci pessoalmente, passou mal. Muito mal, ficou tonta e angustiada de um jeito que nem mesmo ela sabia entender.

O Manto em questão tem mesmo um significado triste. Bordado em anos de internação de clínicas psiquiátricas, os seus desenhos e nomes apontam para as fantasias e tristezas, misturado à crença de que ele seria o Messias e aquela seria sua roupa de apresentação no juízo final. É mesmo uma coisa bem chocante quando entendemos o seu significado.

Mas não entendíamos ainda, e nem a moça em questão entendia. Ela já sentia, e é como eu me sinto em relação à música ou à literatura.

Fui criada ouvindo desde de Chico, Tom, e Flávio Venturini a Elvis, Air Supply, Beatles e Bee Gees. Fora que depois fui criando o meu próprio repertório, com Keane, Arctic Monkeys, Móveis Coloniais de Acaju, Cachorro Grande, KT Tunstall, Tiê e etc. Eram muitas bandas e das mais variadas, até que com 17 anos parei de ouvi-las.

Por que? “É que você é cristã e não pode ficar ouvindo essas coisas, né?”, algumas vezes me perguntaram. Minha resposta não é exatamente esta.

Primeiro que, mesmo sendo cristã, os estilos de música que ouço não mudaram — e não, não ouço Aline Barros, Diante do Trono e nem nada assim. Não gosto, mesmo. Foi-se o tempo que música cristã era só DT e HCC; a cada dia descubro um grupo novo de algum estilo que gosto e vivo muito bem assim.

E a outra coisa é que, aos 17 anos percebi que eu tinha a mania irritante de sentir muito forte aquilo que o artista sentia quando compôs a música, o que não é nada legal quando os autores compõem músicas tristes, com raiva e etc.

Tô falando sério! Tem gente que diz que isso é exagero meu, mas até hoje eu sinto mesmo. E se tento afastar até os meus próprios sentimentos ruins e dúvidas, imagine os de outras pessoas! Nesse sentido eu não fico buscando muito essa coisa de identificação não.

Não é como se eu tivesse esquecido todas as letras dos Killers, do Guilherme Arantes ou de qualquer um deles, na verdade me lembro muito bem e vire-e-mexe alguma dessas letras invade a minha mente sem pedir nenhuma licença, até porque a memória musical na maioria das vezes traz-me alguma música à lembrança assim que alguém me diz uma palavra qualquer.

Mas no que depende de mim, tento fugir de todas elas porque, de sensações esquisitas já me bastam as minhas.

Ou sobre a timidez. Para algumas pessoas parece tão estranho acreditar que alguns artista sejam tímidos em qualquer coisa que não se relacione à arte, mas não é e isso porque a arte transcende a própria timidez.

Admito que já fui bem mais tímida antes de descobrir o ponto fixo nas aulas de teatro, hoje até dizem que apresento bem os seminários na faculdade — o detalhe é que sempre tiro os óculos na hora da apresentação e falo sem enxergar direito a cara de ninguém.

Não é como se eu deixasse de fazer as coisas que me são necessárias por sentir vergonha, estou tentando me livrar dela diariamente. Só que ainda costumo ficar vermelha, porque esse tipo de coisa não tenho como controlar.

Mas nenhuma dessas outras coisas é tão ruim quanto a que segue.

Às vezes me pego imaginando quantos artistas, dos mais variados possíveis, existem e quantos sobrevivem da sua arte. Porque sério, repito que não acho que o dinheiro seja a coisa mais importante; mas se eu fizer um poema declarando como eu me sinto sobre isso na hora de pagar um simples pão na padaria, penso que o padeiro não ficaria nada feliz.

Muitas pessoas deixam de lado a arte para não morrer de fome, e de sonho a transformam em um hobbie na tentativa de se sentirem menos infelizes.

E então veem a Britney Spears (não sei quem é a pessoa sem talento do momento que a substitui), o Romero Britto e o Paulo Coelho fazendo muito sucesso e sobrevivendo disso; dá para imaginar como as pessoas criativas e talentosas devem se sentir?

Acho que já escrevi aqui que queria estudar Jornalismo até um tempo atrás. Eu não queria aparecer na televisão nem nada do tipo, só queria ser paga para fazer nada mais nada menos que escrever.

Aí depois de um tempo mudei de ideia, já tive vários blogs (esqueci a senha de todos, haha) e hoje escrevo de graça aqui simplesmente porque pra mim difícil mesmo seria não escrever; não ter ideias ou não imaginar coisa alguma.

O ponto é que apesar de tudo isso a arte não é mesmo ruim.

Mas ter o dom de ensinar também não, é uma coisa linda. E ajudar as pessoas das mais diversas formas então?

Existem tantas outras habilidades lindas que não entendo porque ainda tem gente que perde o tempo achando que só a arte é válida.