EXW & DDP

Crônicas

Sei que nunca utilizei nenhum termo de Comércio Exterior como analogia para explicar o que penso a respeito de algo, mas como é isso o que eu estudo e não consigo pensar em nenhuma outra coisa que ilustre melhor, é assim mesmo que vai ser – e para quase tudo existe uma primeira vez, não?

Incoterms é uma abreviação para International Commercial Terms, um negocinho que é tão fundamental em uma negociação internacional que, desde o 1º semestre, os professores nos alertam sobre a importância de conhecer essas condições de venda de cor e do avesso. E eu não quero entrar em detalhes muito técnicos sobre a composição deles porque não é esta a linha deste blog, mas para explicar bem o meu ponto devo dizer que, a função principal desses termos comerciais é deixar muito claro a quem pertence as responsabilidades e os riscos em uma operação de comércio exterior, ao exportador ou ao importador.

Quando fazíamos simulações de exportação ou importação, geralmente calculávamos o custo total baseados no CIF ou no FOB – que também podem significar o preço da mercadoria com ou sem frete, mas neste caso me refiro aos incoterms homônimos mesmos. Porém, existem dois termos que sempre parecem bem mais atrativos, apesar de não muito utilizados: EXW e DDP.

EXW é uma sigla para Ex Works, ou Local de Produção em português, e DDP significa Delivered Duty Paid, traduzido oficialmente como Entregue Direitos Pagos. A razão para estes termos serem bem mais interessantes que os outros são as mais óbvias: o sonho de todo mundo é jogar as responsabilidades sobre os riscos e os custos para a outra parte presente na negociação.

É claro que, de todo jeito, o exportador ou o importador repassará esses custos para o último consumidor (é aí que o negócio fica interessante para você quando consome um produto importado, caro leitor) no fim das contas, mas ainda assim… Ninguém quer ter dor de cabeça, sabe? Para o exportador (ou produtor) o sonho é fechar uma negociação em EXW, porque seu único dever é deixar o produto pronto na fábrica, fazenda e etc, e o importador que se vire com transporte, impostos e etc. – já o importador adoraria um DDP, porque o exportador cuidaria de todas coisas essenciais à operação, e ele apenas esperaria tranquilo até que a mercadoria chegasse em seu país destino e no local de sua escolha.

E aí eu me peguei pensando sobre quantas vezes na vida a gente fica meio EXW e DDP, porque é muito mais fácil esperar que os outros façam tudo e nós não precisemos mover um dedo para fora da nossa zona de conforto. O título desse escrito está há meses marcado em um post-it rosa que deixo na parede da cabeceira de minha cama para lembrar das minhas inspirações, e antes de entrar de férias e começar a escrevê-lo fiquei me perguntando se eu mesma não tenho agido assim – e concluí que, pelo menos intencionalmente, que eu me recorde, ultimamente não.

É tão estranha essa essência egoísta do ser humano. É natural, e justamente por ser intrínseca assim, leva um tempo até que possa ser totalmente subjugada.

Voltando ao exemplo da negociação internacional, a menos que o produto seja de extrema importância e interesse do importador/exportador, a escolha de um desses dois incoterms seria inviável, utópica. Eis o motivo de não serem os mais utilizados, mas ainda assim têm o seu lugar. Isto é, em uma negociação.

Mas a vida não é uma negociação para ser vista dessa maneira, tampouco os relacionamentos (amizades, amorosos, familiares e etc., todos os tipos de relacionamentos) devem ser tratados nessa mesma óptica. É impossível desenvolver qualquer coisa profunda e durável pensando assim.

A vida é muito mais que isso. Todos os dias, quando abro os olhos antes de me levantar da cama me pego pensando em algumas coisas e analisando os meus riscos, ou o quanto as minhas responsabilidades aumentam gradativamente. Seria muito fácil ignorar tudo isso, me fechar na minha redoma e rejeitar qualquer coisa que a invada. Mas também seria o oposto de viver.

Sei bem dos meus riscos, e também das minhas responsabilidades. E também sei que se escolho estar em algo que para mim é importante, é porque ainda assim continua valendo a pena.

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A primeira pedra

Cristianismo

No finalzinho da tarde de ontem minha mãe veio conversar comigo, bastante chocada, me perguntando se eu já sabia sobre o que haviam feito nesta edição da Parada do Orgulho LGBT aqui em São Paulo, no último domingo. A partir daí tivemos uma conversa um tanto quanto longa em cima desse tema.

Antes de continuar escrevendo, pois sei que este é um tema bem delicado e polêmico, preciso dizer algumas coisas, ainda que isto signifique correr o risco de ser mal compreendida – mas não há outro modo de explicar tudo o que penso sobre o tema, então sim, é necessário. Eu sou cristã, e por isso entendo o porquê de as pessoas se sentirem ofendidas. Não me sinto homofóbica em dizer isso, pelo contrário, tenho vários amigos gays e nenhum deles nunca me criticou de tê-los tratado de alguma maneira ofensiva por causa da minha fé. Cristianismo não é sinônimo de homofobia, ainda que a culpa desse mal entendido seja, em grande parte, de alguns cristãos que têm uma postura muito diferente daquela recomendada na Bíblia; mas sei que esse é um assunto vasto demais para ser demasiadamente explicado aqui, e talvez ainda leve tempo até que as pessoas compreendam, tanto a sociedade em geral quanto os próprios cristãos.

Vi, pelo facebook, várias pessoas dizendo não entenderem o porquê de tanta ofensa utilizando uma imagem que reúne uma encenação de A Paixão de Cristo, a revista Placar com o Neymar crucificado e por último Viviany Bebeloni, a atriz transexual que protestou crucificada contra a violência que a comunidade LGBT é exposta, perguntando a diferença entre os três. Respondo que a primeira é uma encenação representando literalmente a própria cruz de Cristo e por isso não foi ofensiva, a segunda foi uma piada infeliz, e a terceira um protesto incompreendido. Se Viviany disse que não teve a intenção de atacar a Igreja com o seu ato e apenas quis protestar, eu acredito nela. Algumas outras fotografias que vi, como a que envolve um crucifixo, por exemplo, já ficam mais difíceis de compreender, mas não quero entrar neste quesito.

Não penso que a questão toda pare por aí, eu dizia à minha mãe ontem que às vezes a gente peca por ver tudo de uma maneira muito superficial. São dias de muita intolerância estes que vivemos, em todo canto, e infelizmente a Igreja não está isenta disso. Como cristã, sei muito bem o que a cruz de Cristo significa para mim. Mas as outras pessoas não sabem, e como poderia eu esperar que compreendessem perfeitamente algo onde elas não enxergam o mesmo valor que vejo? Seria insanidade minha nutrir uma expectativa dessas.

Um outro exemplo dessa intolerância pôde ser visto em um fato ocorrido no começo deste ano, quando todo mundo ficou chocado com a barbárie contra os cartunistas da revista Charlie Hebdo, e nunca na minha vida eu tinha visto tantas pessoas falando francês, mesmo que só para dizer “Je suis Charlie”.

Neste mesmo tempo, vi inúmeras reclamações sobre toda a atenção que foi dada ao assunto, dizendo coisas como “Deveriam prestar mais atenção na África e nas favelas, isso sim. Chega de tanto ‘Je suis Charlie’!”. E, francamente? Não sou alheia ao que está acontecendo no mundo, ando muito triste pelas pessoas que morrem no caminho para a Europa enquanto fogem da guerra civil na Síria e das 150 pessoas que morreram num posto de gasolina em Gana buscando proteção contra as enchentes, e quanto mais na periferia onde a coisa é ainda mais visível pela proximidade. Mas não consegui ficar menos chocada com o que aconteceu na França por saber de todas essas coisas, e nem achar que só porque eles eram de primeiro mundo a gente devia só se preocupar com coisa mais importante. Pessoas são a “coisa mais importante”, eles eram seres humanos como todos os outros que citei e não mereciam morrer daquele jeito.

Da mesma maneira que fui contrária aos ataques contra Charlie Hebdo, sou contrária ao jeito que tenho visto alguns cristãos ofenderem pessoas que estavam na 19ª edição da Parada do Orgulho LGBT neste domingo. Não me lembro de Jesus como alguém que deu uma lista de princípios moralistas a serem seguidos pela humanidade, mas sim como alguém que impactava as pessoas com Seu amor e, só por isso, por própria vontade elas mudavam suas crenças e, consequentemente, os seus hábitos por amor a Ele.

Aliás, também me lembro de Jesus como aquele que estendeu a mão, e não a primeira pedra (João 8:1-11). Se Ele agiu assim, por que querer fazer algo completamente diferente?

Está mesmo faltando amor nesse mundo.

As fotografias e o tempo

Crônicas

Não sou das pessoas que mais gostam de tirar ou mesmo aparecer em fotos, isto é, de mim, porque gosto muito de fotografar outras coisas, e às vezes penso que hoje sou assim porque já devo ter estourado minha cota de selfies durante a infância e a adolescência, quando nem nome para isso a gente sabia que existia. Na maioria das vezes que resolvo aparecer em uma fotografia, só minha ou com outras pessoas, quase que invariavelmente as razões são: a) Estou cansada de olhar minha cara nessa foto e não tenho mais outras; e b) Gosto tanto dessa pessoa, e todas as nossas fotos parecem ter quase um ano (ou dois, ou três…).

Quando descarto a hipótese de já ter tirado todas as fotografias e por isso estar cansada de estar na frente das lentes, penso que o verdadeiro motivo para isso, e o mais plausível, é que não quero que minhas fotografias se tornem qualquer coisa. Elas até podem ser sobre qualquer coisa, livros, paisagens e talvez comida, quando não estou nelas; mas para botar a minha cara nelas, a menos que seja uma chance única do tipo “Por que estou me sentindo uma pessoa bonita agora? Por que meu cabelo não bagunçou e minha franja está no lugar? É melhor eu até parar e fotografar isso, porque né…”, gosto da ideia de ser uma coisa especial. Aquela coisa antiga de momentos memoráveis e lembranças que precisam ser guardadas, sabe? E sinto que se isso “acontecesse” toda hora não teria nada de especial, pelo contrário, seria mais comum que não sei o quê.

Gosto de transformar as fotografias em coisas especiais principalmente por causa da sensação que isso dá com o passar dos anos. Não consigo encontrar em uma palavra perfeita para definir, e talvez seja só a nostalgia mesmo, mas gosto de ter a sensação de olhar essas fotografias especiais e pensar em como o tempo passou e mudou as pessoas que aparecem nelas, inclusive eu. Me apegava demais aos meus antigos diários quando os comparava com os mais recentes e pensava sobre tudo o que havia mudado nos meus planos, opiniões e sentimentos, mas parei de escrevê-los quando percebi que as fotografias cumprem este propósito de maneira muito melhor.

Porque no fim das contas, é tudo sempre sobre o tempo. Tanto faz se escrito ou fotografado, mas é sempre ele! Já perdi as conta de quantas vezes o tempo me mostrou coisas à minha volta e sobre mim que nem eu mesma havia percebido, e que de outra maneira jamais perceberia. O tempo voa quase sempre sem pedir permissão, e me surpreende como ninguém.

Converso tanto sobre o tempo, e com pessoas tão variadas quanto as respostas que ouço. Quase sempre percebo, tanto em mim quanto em outras pessoas, uma vontade de controlar o tempo, moldá-lo à nossa própria maneira. Como se o tempo fosse nosso, sabe? E nem sempre isso é sobre querer fazer com que tudo aconteça do jeito mais rápido possível, algumas vezes eu gostaria que todo o resto congelasse e as horas demorassem a passar por um único momento.

Mas não é assim que acontece, e nem teria como ser. O tempo não pede licença, e tampouco se importa com a opinião alheia, para ser o que nasceu para ser – sei que é estranho imaginar o próprio tempo nascer, mas seria muito irônico se logo ele escapasse a linha cronológica do começo, meio e fim. Não é como se isso tornasse o tempo um vilão ou coisa assim, ele só não é meu mordomo.

Nunca vi coisa melhor que o tempo para me chacoalhar quando estou inerte e preciso me mexer, e é também ele que me revela quando não há necessidade de correr. Talvez não seja sempre compreensível quanto eu gostaria que fosse, mas é imutável e muitas vezes tido injustamente como culpado por aquilo que as pessoas fizeram e/ou deixaram de fazer.