Aquela que escrevia

Contos

Aquela que escrevia

Sempre escrevia. Não lhe importava se era de noite, de madrugada ou de dia, bastava lhe bater a vontade e escrevia. Ela podia até tentar enumerar os motivos, mas a verdade é que nem ela mesmo os sabia com toda certeza. Só sabia que, quando estava triste, escrevia. Mas se estivesse feliz, também escrevia. E se quisesse resmungar, escrevia também, e logo desistia.

Algumas vezes tentava explicar porque escrevia, mas essas tentativas nunca foram o seu ponto forte. Ela sabia que existiam milhares de coisas legais a serem feitas e descobertas, e certamente gostava de muitas delas: gostava muito de conversar, cantar, viajar, ler, assistir séries e dar risada sem motivo. Mas se tivesse que escolher apenas uma coisa para fazer, sabia muito bem qual escolheria. E não achava que se arrependeria.

Porque quando ela escrevia, não pensava em mais nada. O mundo à sua volta se desligava por completo, e embora desconhecesse a razão disso, nunca lhe pareceu errado. No começo, quando mais nova, preferia escrever sobre romances e lugares completamente distantes da realidade. Mas os anos se passaram e, como num processo automático, foram acrescentando mais doses de realismo às suas estórias. Não que desprezasse de todo a fantasia, porque não desprezava, e sendo sincera até gostava bastante. Ela só descobriu que nem sempre precisava de uma grande ideia inovadora para escrever, porque a simples necessidade da escrita transcendia as suas próprias ideias.

Se estivesse inspirada, escrevia. E se não estivesse, escrevia também – porque tinha desenvolvido o seu próprio método de, quando inspirada, guardar parte de suas ideias para quando não estivesse mais; um hábito que foi adquirindo depois de tanta prática. Não escrevia para fugir ou criar seu próprio universo paralelo, mas sim porque escrever era, nada mais nada menos, que a melhor maneira que já havia encontrado de se sentir ela mesma.

Também quando mais nova, já sonhou em ganhar a vida escrevendo. As pessoas sempre lhe disseram que devia trabalhar fazendo aquilo que mais gostava, e como nunca tinha gostado de mais nada o mesmo tanto que gostava de escrever… Mas não conseguiu. Escrever em tempo integral não é das tarefas mais fáceis, e ela sabe que ainda precisa pagar suas contas. Estudou muito, fez um desses cursos que a sociedade exige para conseguir um bom emprego. Mas nunca parou de escrever, não conseguiria. Mesmo que nunca ganhasse um tostão com isso, ainda assim escreveria: já fazia parte de si, e nada que ela fizesse poderia mudar isso.

Sempre haveria uma página em branco que a chamaria de um modo que lhe fosse impossível de resistir, a tinta das canetas continuaria sujando seus dedos. Ela sabia que sempre carregaria consigo um caderno ou um bloco, e que na ausência deles até o seu celular lhe serviria – e embora preferisse o papel, também aprendera como se adaptar às novas tecnologias. As palavras sempre a encantariam infinitamente mais que os números, e isso nunca poderia negar. E mais do que tudo isso: sabia que outro tipo de vida não seria capaz de imaginar.


Como a vontade de escrever contos está ficando cada vez mais forte, sigo com o projeto que comecei no ano passado chamado “Aquelas”. Mas não quero ser repetitiva no blog, e justamente por desejar aqui uma atmosfera mais variada, passo agora a organizar esses contos no wattpad, na medida do possível atualizando lá toda semana. Só uma ou outra dessas estórias serão selecionadas e postadas aqui.

Até mais!

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Sorria sim!

Crônicas

Você não precisa parar de sorrir, não deixe ninguém lhe convencer do contrário. Também não precisa ficar reclamando o tempo todo, menos ainda mendigar pelo amor e a atenção de alguém

Sabe, nem sempre na vida as coisas saem do jeito que a gente quer. Seria bom se saíssem, mas não seria real. Os contos de fadas param de fazer sentido depois que completamos, no máximo, doze anos, e a vida fica um bocado diferente do que nos fizeram acreditar que seria. Descobrimos que não basta querer muito algo, ou ficar apenas fantasiando e pensando positivo a vida inteira para que algo aconteça. A vida fora dos livros e filmes de romance é assim, e cedo ou tarde precisamos lidar com ela.

Mas isso não é motivo para se descabelar, passar o resto dos dias se lamentando ou qualquer coisa parecida com isso. A felicidade reside nas pequenas coisas do nosso dia-a-dia, cabe a você mesma saber distingui-la quando lhe bate à porta.

Existe uma raiva que eu preciso confessar. Não sou do tipo de pessoa que gosta de guardar raiva, e sempre fico me monitorando para que isso não aconteça, mas como é algo tão decorrente é capaz de que muitas vezes eu acabe me esquecendo. E essa raiva que sinto é da música, da literatura e às vezes até do cinema, que são coisas que gosto bastante pra ser sincera. Raiva porque várias letras, livros e roteiros são repletos de carência excessiva, e essas coisas nos são vendidas de modo a acreditar que depender emocionalmente de outra pessoa é a coisa mais normal do mundo. Mas não é, e você precisa saber disso.

Pensa em todas as vezes que já sorriu, mesmo que por impulso. Cada pequena fração de segundo que lhe gerou uma risada, e como a vida era tão melhor com esses momentos. A gente sorri vendo bebês fazendo coisas engraçadas, com comida, com a paisagem, com micos alheios, com a satisfação de ser bem sucedido em alguma coisa, e tantas outras coisas que nem consigo enumerar. A felicidade é o conjunto de todas essas coisas, e não algo que você possa atribuir a outra pessoa que erra tanto quanto ou mais que você. Essa capacidade está dentro de você, e não fora.

Eu sei que nem todas as situações da vida estão sujeitas ao seu controle, mas você também já deve ter percebido que reclamar disso o tempo todo não melhora muita coisa. Se é que melhora alguma coisa, porque comigo nunca adiantou. Mas quando eu sorrio, ainda que sem ter um motivo exato, me sinto mais feliz e é justamente aí que me surgem mais motivos para sorrir. Costumamos esperar que nos sintamos alegres para só então sorrir, mas o oposto também é válido e você devia tentar. Enxugue as suas lágrimas, e volte a sorrir como sempre fez.

E, quando se olhar no espelho, não se esqueça que só uma das pessoa mais importantes do mundo deve lhe achar espetacularmente linda: VOCÊ! E sim, nesse quesito não existe pessoa mais importante que você. Não se vista e nem se arrume para nenhum cara, faça isso por você. Fique linda para você, feliz com você. Primeiro por dentro, e quando assim o for não será preciso fazer nada para que todos à sua volta percebam. Na verdade, você nem vai mais ligar se percebem ou não, porque só o seu foco vai ser outro. Sei que você pode, sim, voltar a sorrir.

Confia em mim, eu nunca quis o seu mal. Não é egoísmo pensar dessa maneira, você não só pode como não merece nada menor que isso. Sei que uma hora as coisas vão dar certo para você, e torço sinceramente por isso. Queria poder lhe dizer isso pessoalmente, mas não sei se você iria me entender. Você só precisa parar de procurar do lado de fora a própria chave que escondeu sem perceber.

O que eu sei sobre a vida?

Crônicas

Minha cabeça funciona de um jeito muito doido. Na maioria das vezes é complexo até pra eu mesma compreender esse jeito, quanto mais pra explicar. Acho tão engraçado quando alguém me diz “Nossa, isso deve ser difícil, ainda mais para você que parece ser bem organizada”. Deixa eu contar um segredinho pra vocês: não sou, e também não faço a menor ideia do que leva uma pessoa a pensar que eu seja. Porque pensa bem, e entenda que não estou dizendo isso para me gabar, mas eu escrevo, canto, componho, tento tocar algumas coisas e vez ou outra sai alguma coisa legal quando tento desenhar. Você já reparou que, geralmente, quanto mais criativa uma pessoa é, mais desorganizada ela tende a ser? É claro que existem as exceções, mas até hoje não conheci muitas. Fica aí a dica pra você que costuma se sentir atraído por gente talentosa.

Isso não é algo que eu me orgulhe, pelo contrário. Gostaria de ser uma daquelas pessoas que tem agenda bem estruturada, com horários pra tudo e etc., mas comparando isso à minha realidade agora digo que quando consigo organizar um pequeno espaço do meu quarto, por menor que seja, e seguir o cronograma esperado já fico comemorando cada pequena vitória. E isso se reflete nos meus pensamentos, pois quase sempre eles parecem um monte de spaghetti espalhado, tudo junto e misturado de um jeito que pode ser qualquer coisa, menos linear. Esse é até um dos motivos pelos quais gosto de escrever, botar meus pensamentos em uma folha de papel me ajuda a compreendê-los melhor e me organizar internamente.

Por pensar dessa forma cíclica, vira e mexe alguma pergunta fica martelando na minha cabeça, várias vezes consecutivas, até encontrar uma resposta. E, desde a última sexta, não consigo parar de me perguntar o que eu sei sobre a vida. Talvez porque a resposta não seja uma das que mais me agradam.

Quando criança, costumavam me chamar de nerd. E, admito, eu era mesmo, naquela época gostava bastante de estudar (saudades!). Uma vez ganhei até medalha na escola, acho que na quinta série (guardo essa medalha até hoje, porque quem já me viu tentando jogar qualquer coisa sabe que nunca mais vou ganhar outra medalha na vida), e na sexta série fui a terceira colocada em um provão lá que a gente fez, perdendo apenas para dois caras, um do terceiro e outro do segundo ano. Depois disso, quando me mudei de bairro e escola fiquei muito mais relaxada (ganhei uma coisa chamada vida social, etc), mas ainda assim sempre fui reconhecida como uma pessoa inteligente e blá blá blá. E é muito difícil escrever isso sem parecer orgulhosa disso ou querendo me gabar, mas ainda gosto de estudar – claro que em uma proporção bem menor que antigamente, mas sim.

Só que ninguém nunca me perguntou por que eu gosto de estudar. E tá que ser de alguma forma reconhecida é legal, seria mentira minha se eu dissesse que não, mas nunca foi esse o motivo. Nunca, mesmo. Pode até parecer clichê o que estou para dizer, mas é verdade: sempre acreditei que saber é melhor do que não saber. Não para provar nada para ninguém, e nem pra mim mesma, mas porque toda pergunta merece uma resposta. Nenhuma pergunta existiria se não houvessem sua resposta equivalente, aliás, e é esse processo de descoberta que sempre me fascinou e ainda continua fascinando.

Sabe qual o problema nosso tudo? É uma coisa que já venho reparando há alguns anos, e sinceramente gostaria muito que qualquer pessoa que se considera minimamente inteligente também percebesse. Porque, infelizmente, quanto mais a gente sabe, mais a gente passa a pensar que sabe. E à primeira vista isso pode até parecer um raciocínio completamente lógico, mas não é. Só quando olhamos atentamente, bem atentamente mesmo, conseguimos perceber que quanto mais pensamos saber alguma coisa, menos sabemos no fim das contas. Toda vez que faço alguma descoberta nova percebo que o meu conhecimento é infinitamente menor do que eu julgava ser antes de descobrir, e não o contrário. Eu sei que é uma informação bem confusa de se assimilar, não é como se saber disso me tornasse mais esclarecida quanto a qualquer coisa, na verdade toda vez que essa conclusão me assombra quase sai fumacinha da minha cabeça.

Porque é ruim não saber. Não encontrar todas as respostas desejadas me desagrada, quase mais que qualquer outra coisa, porque eu sei que essas respostas estão por aí em algum lugar, e muitas das vezes eu não posso e não sei se um dia irei encontrá-las. A vida não é como um livro, ou uma boa escola onde você treina todas as respostas certas para acertar na prova. Seria bem mais prático se fosse, e tudo seria mais lindo como unicórnios cor-de-rosa voando e deixando seu rastro de arco-íris. Mas não é assim.

O que me alegra em tudo isso, apesar de eu não saber ainda se é alegria ou conforto, é que saber disso, e mais que isso, reconhecer isso publicamente requer coragem, humildade e outras coisas que muitas vezes são ainda mais importantes que o conhecimento. Eu me entristeço sempre quando vejo alguém que sabe muito pensar que sabe tudo e agir como se assim fosse, não porque é irritante, mas porque fico imaginando o quão triste e decepcionante uma vida assim deve ser.