Pra você lembrar que a vida não é tão complicada quanto parece ser

Crônicas

Sabe, eu já perdi as contas de quantas vezes acessei o Google procurando respostas para toda dúvida que brotasse, ainda que só um pouquinho, em minha cabeça. E sei que não sou a única a fazer isso, porque do contrário nunca teriam inventado alguma coisa como o Wikihow.

Mas hoje de manhã eu estava aqui pensando e me perguntando se tudo na vida é realmente tão complicado quanto eu penso ser. Porque várias das coisas que muitas vezes penso não terem respostas, quando presto mais atenção percebo que já foram respondidas; e se é assim comigo, acredito que também possa acontecer o mesmo com você.

Pensando nisso, comecei a montar uma lista de lembretes para uso pessoal que talvez também possa ser útil a quem mais interessar:

  1. Simplifique sempre que puder e for realmente necessário. Por que complicar quando é possível fazer o contrário? Algumas coisas são de fato complicadas, mas outras só o são porque as permitimos ser.
  2. Já inventaram o diálogo, o pombo-correio, carta, telegrama, telefone e Código Morse, para não falar em todas as demais redes e mídias sociais. Nenhuma dessas maravilhosas invenções do mundo da Comunicação vão servir para aproximar quem não faz a menor questão de estar perto de você. E a despeito de quanto você queira ou espere, persistir no erro não vai fazer nada além de lhe machucar. Reconhecer a hora de desistir e partir também faz parte.
  3. Falta de tempo nunca será um motivo válido para não fazer o que você gosta de fazer. Você passa gasta mil horas no transporte público e nem por isso deixa de ler, ouvir música ou assistir séries. Porque quando algo é importante mesmo a gente sempre dá um jeito.
  4. Mudar é natural, só o que está vivo muda.
  5. Cansar também é natural. Uma hora acontece.
  6. Amor escondido nunca serviu de nada para ninguém. Se o seu amor nunca se converte em ações para o outro, então não é amor. E se nunca te muda em nada, provavelmente não é amor também.
  7. A música pode melhorar o seu dia. Mas se você não tomar cuidado, pode piorá-lo também.
  8. Nenhum DeLorean modificado vai aparecer e te ajudar a voltar no tempo para consertar suas bostas, então é melhor pensar duas vezes.
  9. Fugir nunca foi resposta para nada, e nunca será.
  10. Se lembre de permanecer leve, mesmo com todos os apesares. Ainda é uma escolha, embora também não exista outra opção.

Eu poderia enumerar mais mil coisas, mas não vou. Não existe ninguém melhor que você para montar e continuar a sua própria lista.

O importante é ter sempre em mente que a vida não pode ser tão complicada quanto parece, porque nada realmente é. E se você nunca vê as mudanças que espera dos outros, por que não mudar você mesmo? Sempre é tempo.

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Mais um texto aleatório sobre política e as eleições mais chatas que você já viu

Crônicas

Para poder escrever este texto eu precisei engolir todo o conteúdo de uma garrafa de água e respirar fundo três vezes, duas coisas que não são ligeiramente fáceis de fazer tossindo o tempo todo e tomando dois remédios. Porque é muita coisa difícil de ser escrita ao mesmo tempo.

Eu não gosto de complexo de vira-lata nem qualquer coisa semelhante, mas acredito que o Brasil está superando toda expectativa de bom senso neste segundo turno. E isso não é exclusividade nossa, considerando como andam as coisas na atmosfera internacional – vamos combinar que, a partir do momento em que o Trump foi eleito, já deu para perceber quão loucas as coisas estavam ficando. O Trump, aquele cara que não só apareceu umas mil vezes nos Simpsons como na vida real também parece um desenho animado! Sério, você já devia ter começado a desconfiar que as coisas não poderiam ficar muito melhores a partir daí.

E o que dizer dessas eleições agora, que fazem até mesmo eu, que realmente gosto de acompanhar política e notícias gerais, rolar os olhos e ficar indignada a cada novo texto da grande mídia ou post de eleitores de ambos os lados? Porque sim, é bem assim que eu me sinto.

Decidi começar pelo Haddad, que é mais fácil. Até hoje recebo perguntas de meus amigos perguntando por que estou tão calada se gosto dele. E sim, eu realmente gosto dele, gostei da gestão que ele fez aqui na prefeitura de São Paulo, cargo para o qual votei nele duas vezes. O candidato é a minha personalidade preferida do PT, junto com o Suplicy – em quem eu não votei e nem votaria, mas nem por isso deixo de achá-lo um sujeito bacana. E é justamente por gostar do Haddad que eu me sinto muito mais decepcionada quando o vejo fazendo o gesto de “Lula livre” e indo pata a cadeia pedir conselho. Primeiro porque eu não quero o Lula livre coisa nenhuma, quero mais é que prendam vários outros (Oi, Aécio! Tudo bom?!); e em segundo lugar porque ainda acredito que ele pode ser bem melhor do que isso.

E depois tem o Bolsonaro, essa pessoa que me deixa até sem palavras porque a cada discurso dele que vejo eu meio que não consigo acreditar que ele de fato existe. Eu não vou usar nenhum dos termos pejorativos que todo mundo está usando porque já estou cansada desse mais do mesmo, mas é sério. Como??? Não tem explicação para uma coisa dessas. É claro que é muito óbvio o porquê da ausência dele nos debates, eu também não iria se só falasse besteira. E olha que eu já vi propagandas eleitorais ruins, mas usar esse espaço para falar de uma reversão de vasectomia nunca – nem sabia que dava para reverter!

Ainda pior do que essa situação desagradável de ter que escolher entre um dos dois quando sim, esse ano tínhamos várias opções diferentes e algumas até viáveis mesmo, é a pressão que seus ativistas de Facebook, que muitas vezes nem sabem de verdade o que é ativismo e só estão agindo como massa de manobra de uma mente que realmente ensaia as palavras mais “certas” para o espetáculo, jogam em cima de todo mundo qualquer um que deles discorda.

Minha posição política? Centro-esquerda e social democrata, já falei isso várias vezes. Se eu acredito que alguém vai mudar a opinião de alguém que decidiu votar no Bolsonaro ao chamá-lo de burro e fascista, ou então ao colocar mil xingamentos diferentes em todas as mídias sociais existentes? Não. Penso que algum eleitor do PT vai mudar de lado após ver todas as acusações de corrupção e todas as frases com a foto do Bolsonaro ao fundo em verde e amarelo nos seus Stories? Também não!

Além de não acreditar que aqueles que já têm suas posições definidas queiram mudar o voto diante das expressões contrárias, também não acredito muito no efeito dessas mesmas alegações em cima dos indecisos. E entenda que sim, eu amo os meus amigos e entendo o terror que muitos deles estão sentindo; mas também entenda que existe uma categoria de pessoas “indecisas” que assim  o são porque ao imaginar um futuro de ambos os lados não enxergam nada além de bosta voando em todas as direções, o que obviamente não é nem um pouco satisfatório. A gente já vem escolhendo o “menos pior” há muitos anos, e olha só que destino maravilhoso essa escolha nos reservou! Muito dificilmente jogar mais um discurso polarizado em cima desse público em questão vai surtir o efeito desejado, talvez a pessoa até finja que concorda só para lhe fazer calar a boca – o que você com certeza também não quer, pois no fim das contas é o voto que conta.

Eu me sinto extremamente chateada com “argumentos” de defesas em favor de ambos os candidatos, porque muitos deles de argumentação mesmo não tem nada. Por exemplo, as duas frases mais famosas da esquerda continuam sendo “Fascista!” e “Você precisa estudar História!”. Antes de continuar minha linha de raciocínio, quero lembrá-los que já revelei a minha tendência um pouco mais à esquerda ali em cima, e para quem caiu de paraquedas aqui e talvez não saiba, História não só é a minha matéria preferida na vida como eu continuo estudando-a até hoje; acho bom vocês terem isso em mente antes de lerem o que estou escrevendo a seguir: QUANDO VOCÊ ACUSA ALGUÉM QUE ALEGA SER DE DIREITA DE FASCISTA MOSTRA QUE SERIA BOM VOCÊ REVER ALGUMAS AULINHAS DE HISTÓRIA TAMBÉM! E não sou euzinha que estou dizendo isso não, são dois historiadores italianos especialistas em Fascismo via BBC. Pois é!

Já deu para perceber que eu não estou escolhendo nenhum lado, certo? Ótimo, então posso seguir com minha crítica em paz.

Quero falar ainda de dois clássicos nessa eleição. O primeiro é aquela pessoa que até outrora se declarava comunista e agora grita de dores pela democracia. Entenda que eu não estou me referindo a pessoas que temem pela continuidade da democracia, porque eu sou uma dessas; estou falando da pessoa que assumidamente curte uma foice, PSTU e PCO e agora faz textão preocupadíssima com a democracia. Segue lista de líderes comunistas democratas e reconhecidos como grandes humanitários: Che, Stalin, Mao Tsé-Tung, Fidel Castro, Hugo Chávez e Nicolás Maduro. Mas é claro que todos eles se esforçaram demais para manter a representatividade e pluralidade de suas instituições democráticas, né? Assim vocês insultam a minha inteligência, por favor! Acho que nesse ponto eu até prefiro o discurso dos pró Bolsonaro que conheço porque se baseia mais naquele clichê “Economia, corrupção, PT não dá” etc, e menos fanfic; estes outros que querem sair atirando em todo mundo que não tem a cor ou a preferência sexual desejada felizmente não conheci.

Finalizo a minha crítica com uma última frase que li ontem: “O anti-petismo começou quando o filho do patrão encontrou o filho do empregado na mesma faculdade”, mais um discurso polarizado. Eu fico até perdida porque dentro de uma frase há tanto a dizer! Eu nunca fui contra o Bolsa Família, apesar de achar que a fiscalização contra as fraudes deveria ser maior, acho que é um programa sensacional e já vi alguns economistas e estudantes fazendo estudos que comprovam isso; e tenho essa mesma opinião sobre o PróUni, CsF etc (Rouanet não). Compartilhar uma frase dessas é um desrespeito enorme, não com aquelas pessoas que declaram abertamente serem de direita, e sim com aqueles antigos militantes que andavam com bandeiras e broches do Lula, mas hoje decidiram votar no Bolsonaro porque se decepcionaram com o tanto escândalo que surgiu. Eu conheço algumas pessoas boas que me procuraram para dizer exatamente isso, e convido vocês a tentarem ouvir a versão delas sobre esse anti-petismo citado, se é que alguém ainda se importa com essa coisa de ouvir a opinião do outro.

Eu ainda sonho com o dia em que o Brasil deixará de ser tão polarizado, porque sinceramente não acredito que a gente atinja algum progresso real antes de reconhecer e falar abertamente sobre as falhas e vantagens de ambos os lados. Aquela famosa terceira via que nunca vai pra frente, sabe?

Chá de Camomila e Gilmore Girls

Crônicas

Sherlock Holmes me introduziu ao mundo da leitura, quando na biblioteca de minha antiga escola comecei a devorar suas páginas com avidez. E com as séries não foi muito diferente.

Eu mentiria se dissesse que nunca assisti nada antes disso, e quando pequena eu até via alguns episódios soltos de Psych e Monk com o meu pai. Mas sem sombra alguma de dúvida foi a adaptação mais recente da BBC  que me ensinou a ter assiduidade, tanto com Sherlock quanto com todas as séries que passei a acompanhar depois dele.

Agora, Gilmore Girls é completamente o oposto de tudo que sempre procurei em uma série: não tem nenhum mistério, investigação ou herói. Pensa numa coisa pacata! Eu não as assistia nem quando passava no SBT, e se uns dois anos atrás alguém me recomendasse a trama dessas duas, eu provavelmente ignoraria.

Quem diria que a graça da história é justamente essa? Porque Gilmore Girls foi a segunda série, depois de Friends, a me lembrar que não são necessários grandes cenários, efeitos ou enigmas para fazer um roteiro interessante. Nada mais que a vida cotidiana, com seus problemas e maravilhas, sendo retratada de forma simples e intensa.

Sabe aquela sensação de tarde fria, sofá, cobertor e comida gostosa? Um chá bem quentinho, um pedaço de bolo e um bom livro para passar o tempo enquanto gotas de chuva batem contra a janela – é o que eu sinto quando assisto Gilmore Girls. E não é só porque a Rory é uma das personagens com quem mais me identifico, mas sei lá. Trilha sonora muito boa, alternada com pitadas de ironia e drama formam a combinação perfeita para tudo o que minha cabeça associa com a essência de relaxar.

Eu descobri que amava mesmo essa trama nas vezes em que eu saía do trabalho cansada e estressada, quando eu não queria saber de nenhuma grande saga ou ideia inovadora. Eu queria fechar meus olhos e me desligar tudo por duas horas, só isso. Mas se fecho os olhos nesse estado faço tudo, menos desligar – são horas em que Lorelai alcança esse propósito com melhores resultados.

E hoje, quando ainda assisto Gilmore Girls economizando os episódios com medo de perder as sensações boas já citadas, acredito que a missão da Amy Sherman-Palladino seja exatamente esta: lembrar que nessa vida que Deus nos deu não há nenhum problema em parecer comum às vezes. Ninguém é totalmente extraordinário o tempo todo, e menos continua sendo mais; a simplicidade e a quietude são bem-vindas.

A despeito de quantos problemas e correrias possamos ter, saber separar um tempo para as coisas bobas também é uma virtude.

Orgulho

Crônicas

Escrever sobre isso não é fácil. Já perdi as contas de quantas vezes calei os meus dedos por não saber nem como começar.

Eu não consigo me lembrar de um tempo onde o orgulho não fizesse parte de mim. Mesmo quando ele não tomava o controle por completo, eu sabia que essa sempre seria uma luta que eu deveria travar.

Quando tinha dezessete, ousei pensar que o orgulho me fosse de bom proveito. Ironicamente, de fato me trouxe um pingo de bom senso. Deixei que ele entrasse e ficasse. Pouco mais de um ano descobri que suas raízes tinham ido muito mais fundo do que eu imaginava, e o tamanho do trabalho que eu teria para removê-las.

Mas aos vinte quatro ele bateu em minha porta outra vez, e eu, depois de concluir que sua total ausência também não tinha sido uma de minhas melhores escolhas, abri. “Quem sabe dessa vez eu realmente aprendo?”, pensei. Talvez eu pudesse me tornar menos ingênua e sensível, mais forte; se eu aprendesse a usá-lo corretamente talvez não me sentiria tão vulnerável a me decepcionar com as pessoas novamente.

Só que aí, com o passar dos meses fui percebendo que eu não estava apenas construindo uma muralha que me protegia de intrusos ou indecisos, mas que principalmente me escondia de mim mesma. Era como o veneno auto ingerido cuja citação atribuem a Shakespeare, a moeda a ser estipulada em troca daquilo que não se pode comprar ou tampouco merecer. E me corroeu ardentemente até que eu aprendesse a me libertar de todas as suas camadas.

Não foi nem de longe um processo simples, foi a coisa mais dolorosa que já experimentei. E se porventura eu começasse a achar que já tinha terminado, encontrava mais uma ponta perdida que reiniciava todo o ciclo. Demorou até que eu pudesse estancar todas as pontas, sangrou muito. Mas finalmente cicatrizou, hoje segue como um lembrete indolor.

Acabei concluindo que ser livre é melhor do que ter razão, um braço torcido ainda é preferível a uma dor contínua e sem nome.