Pátria amada, Brasil!

Textos

Há muito burburinho sobre a derrota brasileira no jogo de terça, não se falou em outra coisa na quarta. E eu fiquei aqui, depois de acertar as minhas próprias coisas, pensando no que deveria escrever, e se deveria escrever alguma coisa. Resolvi escrever sim, porque se a gente sabe bater no peito e sentir orgulho nos tempos bons, é bobeira e infantilidade não saber aprender com os maus.

Sobre o jogo, de todo modo a perda era inevitável. Alguém sempre tem que perder, e seleções que jogaram muito melhor que a gente já tinham sido desclassificadas (beijos, Austrália!), então não sei o por quê da surpresa. Mas nós sempre torcemos e sofremos, ninguém gosta de perder. Perder acontece, mas perder de 7×1 é sofrido demais; e perder de 7×1 em casa doi no fundo da alma. Agora perder de 7×1 em casa e ainda por cima ver a Argentina se classificando pra final no lugar da Holanda, doi no corpo, na alma e no espírito. Exagero meu? Talvez. Sofri e reclamei, só não chorei porque depois me cansei de ficar chateada e levei na esportiva – afinal, o esporte tem dessas coisas.

O futebol é imprevisível, ninguém vence um torneio com história e tradição. E é justamente essa conhecida imprevisibilidade que me faz questionar os torcedores que deixaram o Mineirão assim que começou a goleada, porque, pelo menos na minha cabeça, das duas coisas uma: A) Sabiam que a Alemanha não era composta por um ou dois jogadores bons, mas sim um time de qualidade, e que tava difícil da gente ganhar ou B) Acharam mesmo que a Copa estava comprada [enquanto eu escrevia isso pensei numa terceira alternativa, mais aceitável: C) Se arrependeram de ter gastado dinheiro pra passar tanta vergonha e raiva]. Mas eu ainda prefiro perder numa semifinal a ganhar uma taça comprada. Disse eu sim, porque não dá pra botar a culpa só nos jogadores, já que a partir do momento que eles vestem aquela camisa verde e amarela me sinto sim sendo representada.

Quarta de manhã, quando acessava sites de jornais e lia postagens no Facebook, vi aquela foto de um grupo incendiando uma bandeira brasileira na Vila Madalena e me senti muito chateada. De verdade. Porque não me sinto brasileira só por causa do futebol, e nem me orgulho disso só em época de jogo da seleção. E não sou uma patriota cega também, tipo aqueles ufanistas realçando nossas grandezas (Quais? Temos mesmo uma área muito extensa…) e qualidades para esconder nossos defeitos, sabe? Sei sim que nossos defeitos não são poucos, mas não amo o meu país por causa do futebol, do samba, do carnaval, da floresta amazônica ou qualquer um desses símbolos frequentemente citados. E nem por causa da nossa história, muitas vezes confusa e sofrida.

Amo o Brasil porque nasci e cresci aqui, e ao contrário do que ouço muita gente dizer, não acho que se tivesse a chance de escolher teria optado por outro lugar. Posso até falar inglês, arranhar um portunhol e estudar italiano, mas só essa nossa língua portuguesa estranha, que alguns portugueses chamam de mestiça ou impura, é a língua que posso chamar de minha. Não porque eu despreze os demais países, pra falar a verdade, uma das razões pelas quais mais gosto de estudar Comex é a possibilidade de estudar e conhecer outras culturas; mas não tenho nenhum problema de nacionalidade ou identidade. E é justamente por não ter nenhum problema com a minha nacionalidade que fico tão chocada com uma coisa dessas.

Tenho 21 anos e essa é a sexta Copa que vejo. Bem, considerando que só em 98 fui entender o que significa, posso dizer que esta é a quinta. Acho que entendo alguma coisa sobre o fenômeno em torno do Mundial, e por fenômeno digo o frenesi das bandeirolas, guias de calçadas coloridas e etc.

Com seis anos, em 1998, eu não tinha o menor senso de nacionalidade e queria ter nascido na Itália (talvez porque sempre gostei de Veneza e da língua italiana, ou então ponho a culpa na televisão), mas desde já tinha sido ensinada a decorar a rua, pintar a cara e gritar que era brasileira com muito orgulho e muito amor… Sempre em ano de campeonato, porque nos três anos seguintes as mesmas pessoas que prontamente se mobilizavam para enfeitar a rua eram também as primeiras a reclamarem que o governo não prestava, que o Brasil era subdesenvolvido, que em país de primeiro mundo a coisa era diferente e por aí vai. Esse é o tipo de coisa que pode, sim, confundir a cabeça de uma criança. E muito!

Ainda sobre esse fenômeno, volto a citar o complexo de vira-lata, tão bem descrito por Nelson Rodrigues, pela segunda vez nesse blog. Porque é justamente na Copa que as pessoas mais pobres que reclamam (e com razão) de nada no Brasil funcionar para elas e as mais ricas, que também reclamam (talvez desanimadas de tanto compararem o Brasil com os outros países desenvolvidos para onde viajam) por tantas coisas, se unem com um objetivo comum: torcer por seu país. O mais conhecido turista de todos torna-se o patriotismo, que de quatro em quatro anos bate à nossa porta.

A diferença, dessa vez, é que nem todo mundo queria Copa. Também precisamos das outras coisas, perceberam há um ano. A gente não quer só comida, a gente quer a vida como a vida quer, escreveram Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sérgio Britto há tantos anos numa letra que ainda parece tão atual. Mas no meio do campeonato os nossos olhos brilham tanto que até esquecemos o que queremos, só que mais ou menos. Bastou um dos sonhos ser negado para nos lembrarmos dos outros.

Minha fé e minha esperança é que toda essa mistura de sentimentos acontece em ano de eleição presidencial. A consciência precisa tomar espaço, primeiramente em nós, para então chegar às urnas. E, sinceramente? Chega desse papinho de dizer que os políticos não prestam e blá blá blá, comece você a ser alguém que preste pensando direito antes de apertar o verde pra qualquer número que lhe dão na boca de urna dez minutos antes. Aliás, já vejo um ponto aqui: como alguém consegue reclamar de um candidato eleito em quem votou através da boca de urna? Não sabe mesmo que é crime?

A democracia precisa ser usada com muita sabedoria, até mesmo para que continue existindo… Se me achar exagerada, é só dar uma olhada nos demais países da América do Sul e ver se é mesmo coisa da minha cabeça.

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Pós-moderno

Crônicas

São tempos tão complexos os atuais. Quando comparados a épocas anteriores quanto ao acesso tecnológico são claramente mais simples, mas acho as questões sociológicas tão mais complicadas.

Primeiro veio a modernidade, e escolho usar o termo em seu sentido de ruptura com o clássico. O projeto moderno pode ser definido como o avanço tecnológico impulsionado pelas buscas que facilitassem a vida, os mecanismos inventados que nos proporcionaram mais tempo de lazer – e ainda que filósofos, arquitetos e artistas em geral tenham, em grande parte, a queda do Muro de Berlim e o fim da URSS como marco inicial para a pós-modernidade, esta mesma busca persiste. Mas não quero falar de História ou de Arte, por mais que eu goste das duas coisas. Gosto mais de pessoas.

Não poucas vezes me pergunto como a vida em sociedade afeta o ser humano. Imagino que haja lugares parados no tempo, em outro contexto, talvez bucólico, fora do que chamamos de globalização (no 1° semestre da faculdade aprendi que a globalização vai muito além do que a Geografia nos mostrou no Ensino Médio, presente desde o surgimento do comércio entre os países e, portanto, irreversível) sem que esta ausência seja pejorativa. Mas não conheço estes lugares, só sei da vida em metrópole – e, no caso de SP, megalópole.

Nem tudo são flores nessa vida de capital. Mas eu gosto, até mesmo porque, como bem disse Caetano, Narciso acha feio o que não é espelho, e o diferente tantas vezes assusta; sendo mais precisa, espanta. Não gosto do ar poluído, nem das intermináveis filas, horas perdidas no transporte público ou excesso de cinza, e ainda não mencionei o trânsito caótico ou a salada mista causada pela falta de um padrão arquitetônico quando minha cidade é vista de algum ponto alto – e este é o motivo de eu querer bater em todo arquiteto que diz não ser o Urbanismo tão importante. Mas gosto das misturas de sotaques, do leque gastronômico, das variadas etnias, histórias e origens; fico encantada com as muitas opções culturais. Desprezo qualquer coisa que me negue as facilidades que São Paulo me traz, o comodismo me impele a isso.

E até onde o comodismo me leva? Esse vício moderno parece não ter fim! É tão grande a vontade de simplificar todas as coisas, que pelo menos eu, muitas vezes, acabo complicando tudo mesmo sem perceber, e principalmente, sem querer. Sempre tentando ao máximo resumir as coisas em busca de mais tempo, tempo ao meu dispor para o que eu bem entender. E o que eu faço com esse tempo livre? Dormir, comer?

Me sinto tão crítica às vezes; primeiramente crítica de mim mesma, e depois de minha própria sociedade. Moro em apartamento há cinco anos, mas sinto falta da minha cachorra, de um quintal e uma árvore para pegar sombra enquanto vejo o sol passar. Ou então digo, penso que sinto. Porque quando penso em como seria a minha própria casa não imagino nem um pequeno jardim, que tanto gosto, ou um quintal grande onde os meus futuros filhos possam brincar, mas sim outro apartamento, quanto menor mais prático de cuidar. E também é mais seguro, sempre ouço alguém dizer; e sempre me pergunto se é mesmo verdade ou uma dessas coisas que a gente diz pra tentar se convencer.

Uma vez fui visitar uma amiga minha que também mora em apartamento, e cumprimentei uma senhora que foi muito simpática comigo; mas quando perguntei à minha amiga quem era, ela não soube me responder. Achei um grande absurdo, até que um dia desses, andando pelo meu próprio condomínio, vi dois rostos de moradores desconhecidos que até então eu nunca tinha visto na vida. Tantas pessoas parecem invisíveis, e também nós o somos. Invisíveis, mas visíveis para 800 pessoas ou mais enquanto acessamos as redes sociais pelos nossos smartphones e não enxergamos nada mais.

Há alguns meses venho tentando ser mais atenta com essas coisas e com as pessoas. Bem cedo de manhã, quando vou para a faculdade, geralmente agradeço ao motorista que tem a bondade de esperar minha pequena e desesperada corrida até o ponto de ônibus e digo ‘Bom dia’ ao cobrador. E não sou uma pessoa das mais extrovertidas, antes de tudo foi um desafio para mim. Nos primeiro dias era muito engraçado, as outras pessoas no ônibus olhavam estranho e os próprios cobradores ficavam desconfiados; mas depois gostaram e se acostumaram, sempre me reconhecem e às vezes até conversam comigo. O que me choca é que agradecer e dizer bom dia é usar o mínimo de educação que minha mãe me deu, então por que tem de parecer uma coisa de outro mundo?

Desaprendemos a nos relacionarmos. E quando penso em pessoas não consigo ver só ganhar muito dinheiro, ter uma boa formação, conquistar várias coisas ou realizar todos os sonhos como a verdadeira razão de nossas existências. Gosto da paz que sinto escrevendo, cantando e viajando, mas acharia ousadia demais pensar que nasci só pra fazer qualquer uma destas coisas. Porque seria muito raso, simples demais, e é justamente este o perigo das coisas: nos acostumamos tão facilmente a criá-las e à sua simplicidade que nos esquecemos que nós mesmos fomos criados. E se esquecemos, ou negamos, que fomos criados, negamos também nossa função. Não poucas vezes uma criação se define pela função que lhe cabe, e assim também nós só através dessa percepção descobrimos o porquê de estarmos aqui.

Mas nem todo ser humano gosta de ser ver como criatura, é a herança iluminista fincada em nossos corações. Essa busca excessiva pela razão, como se a razão fosse algo perfeitamente ao nosso alcance. Falo assim porque eu mesma era (e vez ou outra ainda me pego assim) adepta do vício de querer compreender todas as coisas, até perceber que não consigo e é impossível.

Shakespeare chegou a essa mesma conclusão muito antes de mim, não consigo entender de outra maneira a incapacidade que ele atribuiu à nossa vã filosofia. E, realmente, como é vã a nossa filosofia.