Nem Amélia, Nem Girlboss

Crônicas

Sei que há o risco de eu ser mal interpretada enquanto leem este texto específico, mas sinceramente? Eu venho ruminando essas ideias dentro de mim há aproximadamente dois anos, e decidi correr o risco mesmo assim.

Quando a gente pensa em feminilidade, feminismo ou assuntos relativos às escolhas de vida da mulher geralmente surgem dois modelos: aquele primeiro e ideal machista, mais raro atualmente, da Amélia que não tinha a menor vaidade, e que por isso sim era mulher de verdade (???); ou o segundo mais condizente com os nossos dias, da mulher extremamente segura de si, bem resolvida e independente, todo o conceito que a Sophia Amoruso materializou como Girlboss.

Mas e se eu não me identificar com nenhuma delas? Porque nenhum dos dois modelos me representa, e a cada dia que passa me sinto mais livre por ter chegado a essa conclusão.

Até porque vamos combinar, né? Se teve uma coisa que aquela onda de “Bela, recatada e do lar” fez, em 2016, foi mostrar que essa ideia da mulher “sem vaidade”, que não se cuida, nunca liga para si mesma etc., já foi rejeitada até mesmo pelo próprio machismo – e entenda que não estou aqui criticando a escolha pessoal de vida da Marcela Temer nem nada semelhante, mas achei no mínimo curioso a tentativa de alavancá-la como o padrão de mulher a ser seguido. Não sei vocês, mas eu pelo menos não tenho nenhuma empregada e nem me lembro se já fui à dermatologista alguma vez na vida.

Mas também não me sinto nenhuma Girlboss, e não me sinto em nada inferior por isso.

Alguns de vocês, imagino, devem saber que eu até li o livro. Eu já estava cogitando a chance de virar freelancer no ano passado, via o título em várias fotos descoladas no Instagram e tudo o mais; aí pedi e ganhei no amigo secreto da empresa em busca de inspiração. E não vou dizer para vocês que é um livro ruim nem nada porque é até engraçadinho, tem uma leitura bem fluída, uns desenhinhos legais, várias frases motivacionais e feministas do tipo “Você é mulher e nada a impede de ser bem-sucedida! Você é totalmente capaz!” e blá blá blá. Mas vou confessar a vocês que, quando passei a conhecer um pouco mais a fundo a parte da história da Sophia que não é contada no livro e nem na série, percebi que tampouco queria me parecer com ela também.

Não sei se a gente só vai aprendendo essas coisas com o passar dos anos, mas precisei silenciar muitas vozes externas antes de poder encontrar a minha própria; precisei aprender a questionar, como já escreveu Mariliz, por que “A mão que bate em Marcela não bate em Marisa, tal qual primeira-dama decorativa”. E aí percebi que eu nunca me senti verdadeiramente inferiorizada por ser mulher, mas os discursos contrários eram tantos e em todos os lugares, que minha própria experiência pessoal não parecia ter nenhum efeito.

Não posso dizer que com todo mundo foi assim, seria muita fantasia da minha parte pensar isso. Mas voltando à minha experiência, eu sempre fui incentivada a estudar e me dedicar a tudo o que eu quisesse, desde as aulas de Ballet e Kung fu até os mil cursos técnicos de Gestão Empresarial à Comunicação Visual. Em todo tempo as pessoas costumavam me elogiar pela minha inteligência e capacidade, como fazem até hoje.

Meu pai é uma daquelas pessoas que odeiam qualquer menção ao feminismo, sabe? Mas foi ele mesmo quem correu atrás de pagar todos esses meus caprichos, e uma vez quando eu tinha dez anos quase quebrou o meu nariz porque nós dois estávamos jogando futebol e ele simplesmente se esqueceu que tinha no mínimo umas três vezes o meu peso e tamanho – eu nunca mais fui tratada de forma tão igual, depois disso 50% de todo o resto me pareceu privilégio.

Se eu resolvi postar esse texto agora, a despeito de todos os xingamentos ou reações que podem vir dele, é porque eu realmente gostaria de compartilhar isso com tantas mulheres quanto possíveis. Você não é livre porque um movimento ou ideologia assim o diz, o que realmente pode trazer liberdade é o reconhecimento de quem você é, de onde veio e para onde vai. E hoje sim, posso afirmar que me sinto mais convicta da minha identidade do que jamais estive.

Eu amo estudar e trabalhar, mas também quero aprender a cozinhar melhor. E não quero fazer isso apenas para me enquadrar em um padrão de “mulher pra casar”, quero cozinhar porque gosto muito de comer. Que problema há nisso?

Já passou da hora de deixar as mulheres serem de fato livres para o que decidirem ser de verdade.

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Cara lavada

Crônicas

Há já algum tempo em que venho pensando em escrever sobre isso, e comecei um rascunho em um caderno, porque tenho a mania antiquada e não ecológica de rabiscar e sujar a mão de caneta, sentir o cheiro do papel mesmo, antes de querer digitar alguma coisa – até porque também tenho outra mania estranha de editar meus pensamentos escritos e às vezes perdê-los, salvar no pen-drive errado, etc e etc. Chega de falar das minhas manias.

Quando ligo o computador e vasculho alguma coisa na internet, com frequência vejo alusões à fotografias e campanhas mostrando o lado mais humano, menos artificial das celebridades, esse tipo de coisa. Eu acho super legal, gosto de ver esse tipo iniciativa. Devo admitir, entretanto, que ao mesmo tempo que gosto fico me perguntando se adotar esse comportamento não seria a coisa mais óbvia de todas, afinal gente é gente de carne osso de qualquer jeito, status e lugar; mas fico feliz porque vejo essas coisas como provas de que a mentalidade das pessoas está mudando.

Para mim essa é uma questão um tanto delicada para se escrever ou dizer, porque qualquer escolha errada de palavras pode passar alguma compreensão diferente da que eu pretendo, mas é justamente por achá-la tão crucial que ouso e me atrevo a correr o risco.

É estranho, em alguns pontos, ser mulher. Não digo desagradável, mas estranho; porque quanto mais penso sobre a quantidade de informação relacionada ao papel da mulher na sociedade mais confusa fico, e é nessa minha confusão particular e pessoal que percebo estar inserida em uma confusão externa muito mais abrangente. E sei que isso não é exclusividade minha.

Há aproximadamente dois meses, depois de ler aquele texto que foi compartilhado umas quinhentas vezes na minha timeline repleta de frases em apoio e tal, comecei a procurar uma maneira de descrever a minha própria concepção do assunto sem ser grosseira ou qualquer coisa assim – e sou tão rápida que ainda agora peso o que escrevo quase como que pisando em ovos. Tem any pontos no texto e na visão feminina sobre esses tabus que eu gostaria de abordar, e não sei se serei eficiente em minha tentativa.

Para começar, posso partir do pressuposto de que tive uma ótima educação e instrução por parte de meus pais. Nunca fui rica, mas estudei em escolas boas durante a maior parte de minha vida, sempre tive apoio de minha família quando quis estudar ballet (e olha que eu era horrível, dura como uma pedra), pintura em tecido; ou fazer aulas de canto e coral, aprender a tocar teclado (decisão que durou cerca de uns seis meses na infância, se não me engano), guitarra e violão, participar dos grupos de teatro e rádio na escola, começar a estudar Inglês e Castelhano, e mais um bocado de coisas do tipo que quis fazer e não consigo me lembrar. Meus pais nunca me podaram nesse sentido, pelo contrário, quanto mais eu escolhia me envolver com coisas diversas mais eles gostavam – e apesar de sempre reforçarem que eu era privilegiada por ter a chance de fazer coisas que eles não puderam com a minha idade, jamais permitiram que eu tivesse um rei na barriga por causa disso.

É claro que sempre ouvi coisas do tipo “Porque você é muito mimada mesmo, só por isso deixam você fazer qualquer coisa”, ou ainda hoje ouço coisas como “Nossa, mas você faz faculdade? E ainda cisma de ficar caçando outros cursos, três? Não trabalha não? Seus pais deixam, é?”. E sim, meus pais não só deixam como também preferem que eu aproveite o meu tempo livre para adiantar todos os cursos que pretendo fazer enquanto ainda não estou trabalhando – e ainda têm mais paciência com o meu desemprego do que eu mesma. Enche o saco ficar respondendo isso toda hora, sabe? É desagradável, e apesar de acostumada, não gosto. Porque se os meus próprios pais, que pagam as minhas contas, não reclamam e preferem as coisas desse jeito, o que me obriga a ficar respondendo isso?

A boa educação que minha mãe me deu. E no meu caso, só. Enfatizo no meu caso, porque é só nisso que penso mesmo. Mas quando eu leio textos desse tipo percebo que, talvez pelos sofrimentos e ressentimentos arraigados pelo machismo, muitas mulheres encaram como obrigação ou satisfação pessoal sair esfregando o doutorado e o PhD na cara dos outros como atestado de capacidade. E sei que sou um tanto suspeita pra falar disso porque ainda penso em fazer outra faculdade, MBA e pelo menos um mestrado; mas isso porque sou estranha e realmente gosto de estudar, não porque penso que deva usar isto como pretexto para provar minha capacidade, ou ainda pior, superioridade sobre alguém em relação a qualquer coisa.

Não tenho que provar nada para ninguém, e acho que nós, mulheres, precisamos abrir mão dessa mania de querer provar alguma coisa – até porque só a necessidade de provar algo em si já é passível de suspeitas sobre as reais concepções e motivos.

A mulher de hoje quer ter uma boa qualificação profissional (acho digno), mas não se contenta com isso, quer aplicar essa formação em bons empregos (acho digno também). Mas não para por aí, também quer ter cargos de liderança, a aparência de uma celebridade (com Photoshop, claro!), a vida perfeita e um príncipe encantado de brinde; exatamente como eu imagino a Mulher-Maravilha do século 21.

Sabe por que eu acho os quadrinhos da Marvel mais interessantes? Porque apesar dos super poderes e de toda a coisa de heroi, o Homem-Aranha, o Hulk e os X-Men têm em comum as dúvidas, inseguranças e complexos passíveis a qualquer ser humano. E apesar de mera ficção, na minha cabeça qualquer coisa diferente disso não passa de utopia.

E em meio a toda essa confusão existencial, não faltam pessoas que explorem esse nosso caos em benefício próprio. Somos manipuladas, e muitas vezes nos deixamos manipular sem perceber – ao menos assim eu espero.

Um exemplo: não tenho vergonha de assumir que nas últimas eleições presidenciais votei na Marina e que tenho quase a total certeza de que farei isto novamente. No entanto, não votei nela por ser mulher ou qualquer coisa assim, mas sim por estar cansada da velha polaridade que todos nós já conhecemos; não penso que apenas ser mulher ou homem seja motivo suficiente para votar em ninguém.

Mas quando ligo a televisão e vejo alguma pesquisa tendenciosa seguida por um comercial igualmente suspeito mostrando uma mulher sendo dublada pela voz de um homem e alegando não ter voz para falar por si, querem que eu pense o quê? Engraçado que não vejo mais este mesmo comercial sendo exibido recentemente, e me pergunto o porquê… Acho que Gramsci poderia me explicar um pouco melhor.

Não sou feminista. Não porque ache que a mulher já atingiu tudo o que merece, tipo receber um salário igual pela mesma função desempenhada por um homem, até porque acho ridículo ainda termos que reivindicar por uma coisa tão óbvia quanto essa, quando para mim incompreensível mesmo é ver na prática o contrário.

Quanto à liberação sexual, exceto pelo aborto, acho que isso é da conta exclusiva de cada um, seja homem ou mulher. Não tenho o direito e nem quero impôr as minhas opiniões sobre ninguém, mas também me sinto no direito de dizer que não me sinto representada de maneira alguma quando vejo campanhas de mulheres nuas segurando cartazes dizendo que não merecem ser estupradas; não porque eu ache que mereçam, mas porque existem maneiras infindas e melhores de protestar por isso, e porque penso que se qualquer pessoa tem a real percepção de que só cabe a si mesmo qualquer tipo de escolha sexual deveria perceber também que não precisa sair fazendo nenhum alarde quanto a isso.

E já que estraguei toda a delicadeza e a essa altura já mostrei o meu lado mais retrógado, vou aproveitar para dizer que acho um tanto imaturo essa coisa de reclamar insistentemente dos mais diversos xingamentos tipo vadia, biscate e etc. Não acho que sejam apropriados também, usar de qualquer um deles para ofender alguém é igualmente imaturo, com o adicional de ser ridículo; acho o pensamento é livre, mas a ofensa não. Mas digo isso porque em 90% das vezes que vejo mulheres reclamando disso fazem associação direta ao fato de ser mulher, porque se fosse homem a promiscuidade seria bonita e blá blá blá…

E a Carochinha mandou lembranças! Não é por ser mulher. Se qualquer cara me adiciona no facebook com um avatar sem camisa, e na timeline tem várias selfies exibindo o corpo na academia ou acompanhado de várias mulheres estilo panicats, uma boa primeira impressão garanto que não vou ter. E não acho isso nada bonito, símbolo de autoafirmação e masculinidade ou qualquer baboseira semelhante, mas também não vou sair xingando ninguém por causa disso. Eu sei que, ainda que ganhasse o Nobel da Física, ninguém prestaria atenção na minha tese se eu estivesse usando microssaia, barriga de fora e um mega decote – e olha que no meu caso nem grande pensadora contemporânea eu seria considerada, tenho certeza.

Não me sinto igual, e nem quero ser. Ainda que tantas coisas precisem ser ajustadas, são propriamente as diferenças que nos tornam mutuamente interessantes e uma possível parceria, não uma richa eterna e sexista acerca de superioridade ou inferioridade.