Escrevo

Crônicas

Escrevo por prazer, para relaxar ou pensar melhor. E, se escrevo, é porque não descobri jeito melhor de compreender o que às vezes parece tão confuso quando dentro de mim; ou então porque quando vejo as letras tomando forma no papel me surge um sorriso tão espontâneo! Acho que estranho mesmo seria não escrever.

Não existe uma palavra perfeita para descrever. Foi escrevendo que descobri algo que, quando faço, é como se não existisse nada mais existisse à minha volta, e me desligo. Me transporto para um planeta estranho e só meu, onde o único barulho audível em minha cabeça é o som de meus pensamentos e das teclas traduzindo o que antes permanecia oculto em minha mente.

As palavras são tão mais claras quando no papel! Na folha não existe espaço para medo, vergonha ou qualquer coisa assim. Quando tenho que falar algo para um grupo distinto do qual estou acostumada, por exemplo, às vezes me sinto gaga e as minhas pernas tremem demais, e no meio do nervosismo até mesmo a língua portuguesa me parece um idioma distinto daquele que tanto amo no papel: as palavras saem atravessadas e a cada dez segundos sinto que falhei em algum ponto da gramática ou da concordância, mas se escrevo não sinto falta de nenhum método avançado ou técnica específica; não existe mistério, nem insegurança.

Escrevo para lembrar, algumas vezes até como lembrete de que preciso escrever. Não é como se isso fosse para mim algo no qual eu me sinta boa e possa me gabar, porque não vejo a coisa dessa maneira e já vi muita gente o fazer melhor que eu, sejam eles os escritores renomados ou conhecidos, gente como a gente mesmo. É possível, talvez, que escrever seja a única coisa na qual não me sinto intimidada por não me sentir boa o bastante; eu simplesmente não me sinto presa a nenhum tipo de comparação. É uma coisa minha, e sendo minha não vejo necessidade de ter um público-alvo específico ou me sentir diminuída por não ser nenhum Machado de Assis. É tudo muito automático, simples como o respirar, e diferente disso jamais deve ser.

Mas não escondo, compartilho. Não é por status, e sim porque fazendo isso me sinto mais gente. Todos têm um sonho secreto de mudar o mundo para melhor de alguma forma e sei que apenas palavras não bastam para isso, mas também sei que é no campo das ideias que as coisas começam. Não há precisão de aplausos ou outdoors, assim como também não existe nenhum motivo para esconder. Quando vejo, nas letras, a capacidade de traduzirem tanta sensibilidade e inconformismo, penso que as palavras conseguem até ser mais humanas que muita gente por aí.

Tem muita alma, e vida nas palavras. Elas podem ser doces, mas se descuidadas perigosas, e depois de soltas nunca voltam. Se só nos comunicássemos por escrito, talvez, seria mais fácil dar conta de cada palavra dita e pensada – mas como a vida não é assim, sou a primeira que precisa aprender a falar também.

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A parte fácil

Crônicas

Já parou pra pensar quantas vezes antes de fazer ou resolver alguma coisa procurou a parte mais fácil antes?

Não me lembro se foi na semana passada ou retrasada, mas estava pensando sobre determinado assunto e automaticamente me vi calculando o grau de dificuldade, procurando saber se tinha alguma facilidade em tudo aquilo. E foi bem aí que eu percebi que faço isso com muita frequência, uma frequência assustadora até.

Eis uma coisa estranha, o meu elevado só que não nível de conhecimento (aplicado, ao menos) em matemática: as quatro operações básicas e a regra de três e de preferência a simples, por favor. Mas na hora de classificar meus medos e dificuldades em números, rapaz… Me sinto até expert na coisa! Inúmeras vezes consegui quantificar em números e estatísticas atualizadas as minhas justificativas para fugir de dadas situações e tal, caberia até apresentação no Power Point e etc.

Toda essa covardia sempre me fez ansiar e procurar pela parte fácil, e entenda que, quando digo “parte fácil” não estou necessariamente querendo dizer “jeitinho” ou qualquer trapaça semelhante. Por exemplo, a parte fácil pode muitas vezes ser a procrastinação. Nesse semestre tenho uma matéria que, além da explicação da professora e dos slides, usamos um livro e toda semana a professora acrescenta um capítulo à nossa lista de leitura, sempre referente ao tema que ela acaba de explicar. E é aí que a parte fácil entra em ação: depois de ter tentado terminar, várias vezes, o primeiro capítulo sem muito sucesso, pensei que seria mais prudente eu focar nas minhas anotações e prestar muita atenção nelas, assim poderia assistir minhas séries em paz e ler outros livros mais interessantes só me preocupar com os capítulos de leitura às vésperas da P1.

E não é que deu certo? O que não significa, entretanto, que seja propriamente certo.

Mas aí, quando finalmente saí do capítulo introdutório, que era mesmo extenso e bem chatinho por ser repetitivo com algumas noções que já tínhamos visto nos outros semestres, à medida que ia avançando a leitura pelos outros capítulos percebi que de repente eu já não folheava as páginas fazendo uma lista mental de coisas mais legais que eu poderia estar fazendo em vez de ler aquele livro, e que até estava gostando da parte operacional de Comex mais do que imaginei que gostaria. E quando percebi que estava gostando do jeito difícil me lembrei de quantas vezes fiz meus planos baseados na parte mais fácil e em quantas coisas boas eu perderia se as coisas sempre saíssem segundo o meu roteiro.

Durante a adolescência eu não queria ter filhos biológicos. É claro que havia todo um discurso humanitário e social por trás disso, que confesso ainda admirar quem não só faz o mesmo discurso que eu fazia como também o pratica, mas no meu caso específico a parte fácil era a essência do meu discurso. Não era exatamente o medo de ter estrias, de meus pés incharem ou de ficar gorda, mas sempre que em algum filme ou série aparecia a cena de um parto, o médico gritando para a mãe fazer força e uma mulher descabelada berrando, o meu pensamento inicial era “E se eu não tiver forças pra fazer a criança sair? Por que mesmo eu quero ter um casal de filhos e não posso ficar satisfeita com um só?”. Há de se admitir que existia lógica no meu pensamento, vai…

Só que aos vinte a cabeça de uma mulher já não é a mesma dos dezesseis, e quase toda vez que alguma criancinha pequena me chama para brincar e me cansa de tanto correr, me pego imaginando que bonito será o dia em que eu tiver uma pessoinha pequenininha dessas me chutando por dentro. Esse tipo de coisa é importante para uma mulher, mesmo não sendo fácil.

E a lista de coisas importantes e não tão fáceis só aumenta, embora nem todas as outras coisas sejam tão bonitas assim. Não é fácil sair de casa para fazer uma prova quando se acorda com uma daquelas cólicas cruéis que não dão vontade de sequer pensar em qualquer outra coisa que não seja a cama, ou deixar a preguiça de lado para fazer algo que não seja tão prazeroso quanto o esperado. Também não é fácil escolher a escada quando se encontra o elevador paradinho com a porta aberta, e nem preferir um lanche mais saudável quando se vê uma linda lata de batatas na prateleira do mercado ou assistir só um episódio da série pensando em adiantar a leitura de um daqueles livros que a gente lê porque precisa, e não por escolha. Nenhuma dessas coisas é bonita, mas todas são boas e necessárias.

Nem sempre a vida é composta por escolhas fáceis ou bonitas, e pra falar a verdade acho que na maioria das vezes não é. A zona de conforto não é um hotel cinco estrelas, e mesmo que o nome até remeta a isso, não é um canto para se espreguiçar e fixar moradia; não sei nem se é um bom lugar de passagem.

Significados

Crônicas

De sábado para cá venho pensando bastante no significado das coisas. É estranho como, de alguma maneira para mim incompreensível, a sociedade deixa passar reto o porquê de quase tudo, e sempre que penso nisso faço uma análise interna para descobrir quantos porquês e “paraquês” eu mesma despercebo sem querer.

É tanta frase solta usada como escudo ou arma, totalmente desconexas de seus contextos e sentidos originais, ou tradições que se perpetuam sem que sejam compreendidas; e não estou aqui criticando as tradições, só penso que, como os clichês, existe um motivo para que assim o sejam. Mas às vezes me parece um tanto quanto raro achar gente interessada nesses porquês, o nosso comodismo impede. É sempre mais fácil deixar tudo como está, porque no fim das contas é só atribuir créditos à Clarice Lispector ou Caio Fernando Abreu e pronto. Quem é que liga mesmo para a origem? Cadê o lead?

Outra coisa que eu acho estranha, sobre tudo isso, é que paradoxalmente desprezamos os significados que de fato existem e são claros, e procuramos significados imaginários – isto é típico de mulher, inclusive. Não estou dizendo que isto é intencional porque é loucura, mas acontece. Somos capazes de achar que podemos enxergar algumas milhas de distância, mas não vemos o que está em frente aos nossos narizes. Conseguimos extrapolar o conceito de hipermetropia, sabe?

Ou atribuímos outros significados, colocamos a nossa percepção, que é relativa, como verdade absoluta. Isso é fácil de perceber quando vejo as pessoas falando um discurso, até que aparentemente bonito e de efeito, e no meio surgem as seguintes palavras: “Mas cada um tem a sua verdade pessoal. O que é verdade para você pode não ser verdade para mim…”, e na maioria das vezes eu não respondo o que penso por não querer ser grosseira ou mal compreendida apesar de que algumas pessoas sabem ler meu pensamento só pela cara que faço, mas sempre me pergunto como o ser humano consegue tornar subjetivos os próprios conceitos de verdade e mentira. Quando vejo alguma questão com alternativas nas minhas P1 ou P2, geralmente só uma das opções é afirmativa (ou falsa, se for este o caso), e não interessa se um ou dois itens da mesma sentença podem ser verdadeiros, porque a frase precisa ter todas as vírgulas e pontos corretos para ser considerada válida.

Isso também é visível de várias outras formas. Domingo agora, por exemplo, a Pessach judaica e a Páscoa cristã foram, e todo ano continuam sendo, associadas a coelhos que põem ovos. E, assim, eu tenho a opinião de que não há necessidade de nenhum pretexto para comer chocolate, mas havendo-os, todos se tornam válidos, sabe? Agora, a relação do coelho com a Páscoa ou do coelho com os ovos, ou ovos de coelho com chocolate, acho que nem Freud explica. Não dá para entender, e ainda assim o significado original deixa de existir para algumas pessoas, mesmo que o segundo não faça o menor sentido.

O pior de tudo é que, quando o significado é posto de lado, a essência se esvai junto. É como se o cantar de um pássaro deixasse de ser uma expressão da natureza para tornar-se uma mera combinação de notas, mecânicas e sem sentimento. O raiar do sol deixaria de ser um recomeço diário, um sorriso não nos cativaria e nem nos impulsionaria a sorrir junto; assim as coisas pequenas e simples perderiam o seu valor. A vida seria por demais mecânica e sem graça, o tédio se espalharia por todos os cantos e todos os variados sons existentes seriam silêncio em meio à rotina.

Seria um mundo muito desagradável para se viver.