Ser quem a gente é

Crônicas

Semana passada eu comecei a ler um livro do Cortella. E, sabe, toda vez que leio qualquer coisa sobre filosofia várias questões começam a fervilhar em minha cabeça. Não acho que seja muito diferente com qualquer outra pessoa, mas enfim.

Coincidentemente, também na semana passada, vi uma página repostar um verso do Leminski que descobri há dois anos em outro livro muito bom. E o verso diz:

 isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além.

E fiquei aqui pensando…

Não estou escrevendo nada disso no sentido de dizer que nós nunca podemos mudar, porque sinceramente não acredito nisso. Acho que cada um deve saber muito bem no que precisa melhorar e tomar vergonha na cara para que essa mudança aconteça, e em muitos aspectos eu também me incluo nisso. Mas, de uma maneira geral, não é como se fosse exatamente fácil sermos nós mesmos.

Todos os dias, de todas as formas possíveis e imagináveis, nos deparamos com qualidades e características que parecem tão melhores que as nossas. Nos moldamos, nos editamos para uma adaptação daquilo que achamos correto: uma espécie de versão melhorada de nós mesmos. Seja por auto proteção, para impressionar alguém ou por qualquer outro motivo; somos levados a acreditar que não somos bons o bastante.

E talvez não sejamos mesmo, também pode acontecer. Mas o que eu realmente acredito, é que quase sempre somos bons naquilo que não queremos, ou não sabemos, ser.

Só que não é nada normal fazermos um photoshop em tempo real de nós mesmos. Não digo que é simplesmente doentio, mas também aprisionador. E quem é que aguenta viver assim?

Ultimamente, ando revendo muitas posturas e pensamentos, e até mesmo sentimentos, meus. Não posso dizer que tem sido fácil, mas creio que a cada dia isso se mostra necessário. Mas o que tem me impressionado quanto a isso, por mais contraditório que possa parecer por se tratar de mudanças, é que a cada pequeno passo me sinto mais livre para ser eu mesma. É como se eu estivesse me redescobrindo de uma forma que há pouco tempo antes não me imaginei.

E a cada dia sinto mais forte a convicção de que eu não quero uma versão editada de mim. É claro que sempre terão ajustes a serem feitos, mas minha essência continua sendo a mesma, e depois de todo esse tempo não acredito que vá mudar.

Já parou pra pensar no que essa liberdade significa?

Bom, pelo menos pra mim, significa que já tenho idade suficiente para ter algumas noções econômicas e políticas, mas que minha vida não se resume a isso. E também significa que eu não me sinto menos madura ou séria por caçar pokémons e ler quadrinhos, a despeito do que possa parecer. Significa que sou livre para mostrar o que penso e sinto, e que onde não encontro essa liberdade aos poucos também se desfaz o meu querer.

Significa muitas outras coisas, mas a principal delas é que eu não sou obrigada. A nada! Não sou obrigada a malhar e fazer dieta, a vestir as roupas que aparecem na TV ou qualquer outra coisa que a mídia imponha. Não sou obrigada a ter conversas intelectuais o tempo todo para que vejam o quanto sou (ou deixo de ser, também é algo válido a se pensar) inteligente.

Na verdade, todo mundo é. Às vezes a gente só precisa se dar conta disso.

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Sobre o tempo e tintas de cabelo

Crônicas

Repito: isto não é um tutorial de beleza ou nada do tipo, porque eu realmente não tenho a menor vocação para fazer ou falar dessas coisas. Mas gosto de misturar as coisas sérias da vida com situações cotidianas, e pretendo continuar assim. Portanto, insisto.

Essa não foi a primeira vez que pintei meu cabelo. Comecei aos dezesseis, cerca de uns sete anos atrás. “A cor do seu cabelo é muito esquisita, não é definida”, disseram. E eu, tonta, acreditei. Primeiro uma tinta loura sem amônia nas férias, não era como se fosse durar – ou mudar, de fato, alguma coisa. E já que não mudou muito, coloquei uma tinta mais forte, dessa vez um mel; nem eu sabia se meu cabelo estava loiro ou laranja, quanto mais as outras pessoas. Depois uma tinta mais loura, outra mais loura, uma outra mais loura… Até meu cabelo ficar todo branco e eu perceber a bosta que estava fazendo.

Não foi fácil escurecer o cabelo nessa época. Me lembro de ter jogado louro escuro pelo menos umas duas vezes, mas o 12.0 sempre acabava sugando a cor de cima de um jeito ou de outro. A raiz crescia por cima, misturava com o cabelo tingido e ficava um negócio lindo que só! Aí comecei a cortar, e foi assim que me apaixonei pelo Chanel de bico: a metade de cima do cabelo estava da minha cor natural, e as pontas bem louras, como se aquilo fosse proposital.

Até que depois de um tempo me cansei e escureci tudo. Foi a primeira vez, ainda mais com o cabelo curto, que me senti uma espécie de Branca de Neve. Estava tudo muito lindo, até que a tinta foi desbotando e ficando meio ferrugem. É claro que eu pintei de novo, joguei um louro escuro pra deixar o meu cabelo o mais próximo do natural possível. E funcionou por um tempo, antes que começasse a desbotar. Mas nessa altura eu já estava cansada de tingir, só deixei ir desbotando, crescendo e fui cortando.

Foram anos até que meu cabelo ficasse completamente da cor natural, e ganhei uma habilidade de esperar como nunca antes já havia tido. Se quer saber, eu gosto da minha cor natural. É meio indefinida mesmo, e sendo bem sincera, não é lá das minhas preferidas. Mas é minha, e eu gosto. Fiquei muito satisfeita apenas com ela nos quatro anos que dali se passaram.

Mas mulher é um bicho muito esquisito. Conheço mulheres que não gostam quando eu digo isso, mas sou mulher e me reconheço como um bicho muito esquisito – e conheço outros tantos bichos esquisitos que ainda não se reconhecem como tal. Certo dia me levantei, olhei no espelho e, simplesmente pensei “Ah, ando meio cansada de acordar e ver sempre essa mesma cara. Acho que preciso dar uma repaginada no cabelo”. Uma semana depois, as pontas de meus cabelos estavam com luzes. Foi só o estopim: alguns meses depois e eu estaria completamente loira.

Só que o louro também não é a minha cor preferida de cabelo. Sabe quando você faz alguma coisa só porque sabe que combina? Não é como se você precisasse gostar de fato, mas já que era pra mudar, que fosse ao menos uma mudança que não ficasse ruim. Eu era bem loira quando criança, antes que meus cabelos passassem para o castanho claro, e sabia que combinava comigo. Logo, lá estava eu com os cabelos claros outra vez. Nem sequer pensei em todo o trabalho que tive.

Mas aí, no começo desse ano, aprontei de novo: adivinha quais são as cores de cabelo que mais gosto? Pois é, castanho escuro e preto. E não sei por quê, nem sempre preferência é algo que a gente explica. Escureci mesmo, e só não botei o preto porque sei que daria um bocado a mais de trabalho pra sair – não é como se o castanho escuro não estivesse dando trabalho também, em todo o caso.

Por que eu quero tirar uma cor que gosto tanto? É como eu disse, bicho esquisito. Porque a raiz natural sempre cresce, e não tenho paciência pra ficar retocando, acho que só terei quando meus cabelos estiverem brancos e eu me ver obrigada a fazer isso. Enquanto ainda não estamos nesse patamar, uma raiz mais clara fica crescendo, se mistura aos cabelos mais escuros e vai ficando aquela coisa linda, sabe?

Esses dias eu andava pensando sobre várias coisas que vêm acontecendo e percebi que as tintas de cabelo me servem como marcadores de tempo. Não é como se eu gostasse de esperar todo o tempo preciso antes que as coisas fiquem do jeito que eu quero, mas a minha decisão de não cortar o cabelo torna a espera uma necessidade. Fazer qualquer outra coisa machucaria meus cabelos e traria a tesoura como consequência, então não faço nada. Só respiro fundo e espero, sem saber quanto tempo será necessário e me incomodando sempre que vejo no espelho a raiz mais clara, mas reconhecendo que não existe coisa melhor para fazer. E olha que eu nem sei se meus cabelos vão ficar como quero ou não.

Não é como se nas outras coisas da vida fosse muito diferente, cada dia que passa descubro um tanto a mais de paciência que eu nem sabia ter, ou julgava impossível. Mas não é.

Talvez, da próxima vez, eu pense umas quinhentas vezes antes de mergulhar de novo em uma cor ou ideia nova. Ou talvez eu me lembre de todo o trabalho que dá e desista antes mesmo de tentar.

Talvez. É só o próprio tempo quem vai me dizer.