Ninguém me vê como Ele me vê

Estudos Bíblicos, Textos

E aí, tudo bem com vocês?

Eu tinha planos de tentar escrever ao menos um texto por semana esse ano, mas por enquanto a minha rotina corrida ainda não está me permitindo. Espero que isso mude e talvez em pouco tempo tenhamos novidades, mas por enquanto nada definido.

Correrias a parte, hoje quero falar sobre um assunto que vem queimando em mim há dias. E olha que eu não sei nem por onde começar!

Eu tenho conversado com algumas pessoas recentemente, e quanto mais dessas conversas tenho percebo como posso contar nos dedos quantas pessoas me conhecem de verdade, E não falo isso como forma de culpá-las ou coisa assim, porque nos últimos dois anos tenho mudado tantos conceitos que para mim pareciam definitivos, que até mesmo eu ainda estou (re)aprendendo a me conhecer de verdade.

E aí que me choca a ideia de que, quando nem eu mesma acho que me conheço o suficiente, saber que existe um Deus que me conhece íntima e profundamente, de um jeito que nenhum outro ser respirante é capaz de me conhecer. Parece meio louco quando tentamos racionalizar isso, não? Mas venho experimentando isso recentemente de tantas maneiras, que não consigo sequer contá-las sem me perder – espaço livre para inserir aqui sua piada sobre a pessoa ser de humanas e blá blá blá.

Não posso contar tudo o que vem acontecendo aqui dentro porque não quero atrapalhar a ordem natural (ou sobrenatural, melhor dizendo) dos acontecimentos, mas lhes asseguro que não é coisa pouca. Minhas certezas têm mudado bastante, os meus planos são quase que completamente outros agora; e mesmo sobre outras coisas que eu pensava já não querer, não posso mais afirmar que ainda me sinto tão resistente como outrora.

No meio de todo esse processo, mais que uma vez já me peguei dando explicações sobre coisas que achavam que eu queria ou então que eu era, situações muito desconexas da minha realidade. E por incrível que pareça, eu não me incomodei em fazer esses esclarecimentos simplesmente porque me apetece a ideia de que as pessoas à minha volta saibam como sou: carne, osso e alguns probleminhas. Gente como a gente, não sou nenhuma personagem de romance de época, a mocinha da novela das seis ou qualquer coisa do tipo.

Há algum tempo eu estava lendo o livro de Gênesis, e encontrei algo que me chamou a atenção:

1 Ora, Sarai, mulher de Abrão, não lhe dera nenhum filho. Como tinha uma serva egípcia, chamada Hagar, 2 disse a Abrão: “Já que o Senhor me impediu de ter filhos, possua a minha serva; talvez eu possa formar família por meio dela”. Abrão atendeu à proposta de Sarai.

3 Quando isso aconteceu, já fazia dez anos que Abrão, seu marido, vivia em Canaã. Foi nessa ocasião que Sarai, sua mulher, entregou sua serva egípcia Hagar. 4 Ele possuiu Hagar, e ela engravidou.

5 Quando se viu grávida, começou a olhar com desprezo para a sua senhora. Então Sarai disse a Abrão: “Caia sobre você a afronta que venho sofrendo. Coloquei minha serva em seus braços e, agora que ela sabe que engravidou, despreza-me. Que o Senhor seja o juiz entre mim e você”.
6 Respondeu Abrão a Sarai: “Sua serva está em suas mãos. Faça com ela o que achar melhor”. Então Sarai tanto maltratou Hagar que esta acabou fugindo.

7 O Anjo do Senhor encontrou Hagar perto de uma fonte no deserto, no caminho de Sur, 8 e perguntou-lhe: “Hagar, serva de Sarai, de onde você vem? Para onde vai?”
Respondeu ela: “Estou fugindo de Sarai, a minha senhora”.
9 Disse-lhe então o Anjo do Senhor: “Volte à sua senhora e sujeite-se a ela”. 10 Disse mais o anjo: “Multiplicarei tanto os seus descendentes que ninguém os poderá contar”.
11 Disse-lhe ainda o Anjo do Senhor: “Você está grávida e terá um filho, e lhe dará o nome de Ismael, porque o Senhor a ouviu em seu sofrimento. 12 Ele será como jumento selvagem; sua mão será contra todos, e a mão de todos contra ele, e ele viverá em hostilidade contra todos os seus irmãos”.

13 Este foi o nome que ela deu ao Senhor que lhe havia falado: “Tu és o Deus que me vê”, pois dissera: “Teria eu visto Aquele que me vê? “

Gênesis 16:1-13, NVI

Vou tentar fazer um resumo para quem não conhece essa história. Basicamente, foi o seguinte:

Deus tinha prometido a Abraão que ele seria pai de multidões e que os seus descendentes seriam tantos quanto as areias do mar, impossíveis de se contar, o que sabemos que, a julgar pelo tanto de judeus que existem, de fato a promessa se cumpriu. Só que, antes que isso acontecesse, a mulher dele, que na época ainda se chamava Sarai, era estéril. E aí que parece meio difícil ser pai de multidões quando não se consegue ter nem mesmo um único filho, não?

Essa história me chama a atenção de muitas maneiras. Primeiro porque, diante da impossibilidade de gerar um filho, Sara ofereceu a sua empregada ao marido para que ele pudesse gerar um filho através da empregada. Acontece que eu não conheço nenhuma mulher tão abnegada assim, tão pronta a usar a uma barriga de aluguel sem nem recorrer a uma inseminação artificial nem nada… Definitivamente não é o tipo de coisa que eu faria. Mas, considerando o contexto histórico-cultural daquela época, a desonra de não poder gerar filhos era tão grande que ela preferiu permitir que o marido engravidasse outra mulher – e não vou nem comentar sobre a facilidade com que Abrão teve em aceitar o plano da esposa tão prontamente.

E é aí que surge Hagar, uma mulher tão curiosa que até então nem sequer havia sido mencionada. Apesar de ser descrita como serva, e mesmo sem saber se minha teoria é válida ou não, eu costumo imaginar Hagar como sendo uma escrava. Porque tanto Sarai como Abrão se referem a ela como a um objeto sujeito a qualquer uma de suas decisões, logo não consigo enxergar nela qualquer grau mínimo de autonomia. Hagar era uma posse de sua senhora, e quem sabe tenha visto nesse plano a chance de alcançar a sua tão sonhada liberdade. Afinal, se ela gerasse um herdeiro, por que não poderia ela mesmo se tornar a senhora? A humilhada seria exaltada, e seus dias de luta teriam um fim.

Outra coisa que eu imagino quando leio esse trecho é que, apesar de ser escrava ou qualquer coisa perto disso, prática que infelizmente era comum naquela época, Hagar não devia ter tanta coisa assim para reclamar. Primeiro porque, para bolar um plano tão maluco assim, Sarai devia no mínimo ter muita confiança nela; por si só o plano já era arriscado demais (tão arriscado que nesse trecho já mostrou não ter dado muito certo, o que só se confirmou mais pra frente e até os dias de hoje, não é mesmo?), tanto mais seria dando tamanha ousadia a uma louca que não fosse de sua confiança. E segundo porque, Sara foi queixar-se da serva até que o marido lhe desse permissão para atormentá-la e se vingar; o que me leva a concluir que até então as duas não tinham nenhum grave problema de relacionamento – tantos anos lendo romances policiais me deixaram com mania de escrever assim, quase uma Xeroque Rolmes da vida.

Ou seja, o quadro de Hagar era o seguinte: duas vezes traidora de sua senhora. Duas vezes, sim. Alguém poderia dizer “Mas foi Sarai quem teve essa ideia idiota”, porque sim, foi uma ideia muito idiota mesmo; mas em momento algum há aqui se vê aqui o menor traço de intenção da serva em contrariá-la, certo? Hagar se aproveitou do desespero da esposa para se beneficiar. E não satisfeita com todos os benefícios que já receberia por ser mãe de um herdeiro, ainda virou-se contra aquela que foi a primeira a ajudá-la. Se isso não é traição dupla, não sei o que mais seria.

Acontece que eu vejo em Hagar um sinal que mesmo no princípio já começava a apontar para a Graça. Reparem que o anjo não aprovou em nada a sua conduta, mas ainda assim se preocupou com ela, com sua jornada e seu destino. Ele a aconselhou, lhe apontou uma direção e ainda fez uma promessa que alcançaria a sua posteridade; promessa esta que se cumpriu e deu origem ao povo árabe. Alguém pode até argumentar que nem tudo na promessa eram flores, mas ainda assim me parece bem mais do que ela merecia.

Hagar conhecia melhor que ninguém as suas mazelas, talvez ela tenha fugido no primeiro sinal de pressão por ver-se como indigna diante dos meios que tinha usado para atingir os seus objetivos. E qual de nós também já não se sentiu indigno por conta de seus atos, das nossas vergonhas escondidas que a maioria das pessoas não conhece? Pelo menos nesse aspecto, Hagar não me parece muito diferente de nenhum de nós. Ela foi descoberta, em um instante deparou-se com quem era capaz de desnudar sua alma por completo (v. 13). E obviamente esse encontro a deixou com vários pontos de interrogação, não tinha jeito de passar despercebido.

Sabe, na última vez que eu li esse texto me senti um pouco como Hagar. Não me vejo concordando com um plano tão maluco quanto o delas, mas acho que a Graça desperta esse estado em qualquer ser humano, essa total nudez de alma seguida por favor imerecido. Porque ainda que poucos me conheçam direito, Ele me vê: Ele sabe quantas vezes já me peguei lutando contra o orgulho, e quantas nem sequer tentei lutar. Sabe o que me enfurece, o que me entristece e o que me move, assim como o que faz meus olhos brilharem. Ele me enxerga muito além da minha cara de boazinha, sabe bem o que há de pior em mim; conhece todos os meus medos, e não satisfeito em apenas me tirar aos poucos cada um deles, todos os dias me concede uma chance de melhorar. E olha que melhorar não é coisa fácil, exige paciência – Ele só pode ter mesmo muita paciência para não me largar.

Para finalizar esse texto antes de dormir, quero compartilhar uma coisa que descobri no ano passado quando uma amiga e eu decidimos participar da conferência Pink Punch. O Rodolfo Abrantes é um dos caras que eu mais admiro hoje, e ele faz parte da minha vida praticamente desde que eu tinha uns seis pra sete anos de idade e não fazia a menor ideia do que as letras dos Raimundos significavam. Enfim, ele estava lá nessa conferência para jovens moças, e logo no primeiro dia já falou que nem sabia direito o que dizer porque nunca tinha pregado para tanta mulher junta; mas aí, no dia seguinte, sua esposa lhe lembrou que aquela já era a segunda vez que isso acontecia, e na primeira vez que ele estava ministrando para mulheres surgiu o espontâneo de Isaías 9: em uma penitenciária feminina.

“Ninguém me toca como Você,
Ninguém me vê como Você me vê;
Faz brilhar Teu rosto sobre mim.”

E tá que mesmo antes de saber isso essas palavras já tinham um significado muito forte para mim, mas hoje eu não consigo pensar nelas sem meus olhos lacrimejarem ao imaginar a história de vida daquelas mulheres que ouviram a melodia pela primeira vez, a bagagem que elas devem ter e como se sentiram ao ouvir isso.

É uma sensação tão intensa que eu não me sinto minimamente capaz de descrever. É graça sobre graça, e eu não tenho mais nada a dizer.

Caso não conheçam a música que falei:

Até!

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