Por que ler Jane Austen hoje? Cinco motivos para conhecer esta autora incrível!

Leituras

Olá! 

Na última crônica escrita aqui eu expressei minhas opiniões sobre o que eu entendo como o real sentido de feminilidade no século XXI, etc. Se você quiser saber um pouco mais sobre o que eu penso a respeito disso para algumas contextualizações antes de começar a ler este novo texto, basta clicar aqui.

Mas hoje, eu finalmente estou começando uma sessão do blog que já era para ter saído há tempos; e depois de ter pensado muito sobre quais livros deveria ou não descrever, cheguei à conclusão de que não existe pessoa melhor para esta introdução às minhas leituras do que a Jane Austen, que é a minha musa.

Quem foi Jane Austen?

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Anne Hathaway interpreta a escritora em Becoming Jane (2007), traduzido para o Brasil como Amor e Inocência

Jane Austen é também erroneamente conhecida como uma solteirona que escreveu romances de época, bem água com açúcar. Mas, como acabei de dizer na sentença anterior, enxergá-la desse jeito deve-se muito a uma incompreensão tanto da história da autora quanto de seus respectivos livros.

Inclusive, só para vocês terem uma noção de como ela é muito incompreendida, dando uma procurada na internet e/ou livros recentemente criados vocês podem verificar que Jane é aclamada tanto por conservadoras quanto por feministas por motivos auto-excludentes! “Como isso é possível?!”, você pode me perguntar, e eu respondo que normalmente cada um enxerga a escritora que quer.

Por exemplo, as conservadoras cristãs costumam apontá-la como exemplo de recato e tudo o mais. E eu como cristã, ainda que não me encaixe muito na parte conservadora, concordo que a obra da Jane retrata sim muitos valores cristãos; mas isso não a isenta de ter feito críticas ácidas ao exercício do ministério anglicano como exclusiva fonte de renda e interesses, quando não havia nenhuma vocação.

E por outro lado, as feministas também costumam usar as suas personagens femininas mais fortes como figura de um protofeminismo, se é que assim podemos dizer. Quanto a isso, eu não concordo totalmente com essa visão porque acredito que muitas outras coisas podem e devem ser analisadas antes de fazer essas afirmações, até mesmo porque o protofeminismo em si já é um termo contraditório entre os próprios estudiosos do assunto. Nesse quesito só me cabe concordar que é inegável dizer que a Jane foi uma mulher a frente de seu próprio tempo.

A visão que eu particularmente gosto de ter sobre essa mulher incrível é que ela teve princípios e convicções firmes, foi inteligentíssima e muito criativa. Austen tinha um espírito muito crítico sobre a sociedade que transitava entre as eras georgiana e vitoriana em que viveu e de fato amou, ainda que não tenha podido viver esse amor porque “não tinha o berço desejado”.

Dito isso, vamos partir para o que realmente importa.

Motivos para ler Jane Austen hoje:

1. Ela não escreveu livros bobos para mulherzinhas bobas

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Cena de Orgulho e Preconceito

Também é comum que as pessoas a associem a obras de época muito rasas, como a novela recentemente inspirada em seu maior sucesso de todos, que é Orgulho e Preconceito. E embora esse seja um pensamento bem comum, nem por isso deixa de ser um engano.

Eu sou muito apaixonada por História e Literatura, então confesso que mesmo se os livros dela não fossem tão bons assim, acho que leria por curiosidade. Mas a segunda coisa que mais me encanta nela é justamente a visão ácida sobre a sua sociedade e o tom de ironia refinada adotado para retratá-la — a primeira coisa  que me atrai é que os livros são muito bem escritos.

Essa mesma ironia é o motivo de Jane ser tão mal interpretada como uma autora leve demais, porque se você fizer uma leitura desatenta vai perder muitos detalhes pequenos e importantes que mudam todo o sentido das histórias.

2. Ela é uma romancista até que muito racional

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Hattie Morahan como Elinor Dashwood, na adaptação de Sense and Sensibility feita pela BBC em 2008

É claro que, se você estiver passando por uma fase difícil, estiver na TPM ou se identificar demais com alguns personagens e situações, pode se debulhar em lágrimas e não reconhecer a racionalidade por trás dos livros de Jane Austen. Pode até acontecer, e já aconteceu comigo — mas sua interpretação pessoal não pode ser considerada culpa ou intenção primordial dela ao escrever.

Se você gosta muito desses romances atuais, cheios de clichês e rios de lágrimas, ouso dizer até que pode achar os livros entediantes. Eu me lembro que quando comecei a ler Orgulho e Preconceito pela primeira vez achei até um pouco monótono antes de me acostumar, mas esse é justamente o terceiro motivo para hoje eu preferir os livros dela: eles não apresentam nada parecido com esse sentimentalismo barato e exagerado.

E não sou só eu que penso isso, Charlotte Brontë, a famosa autora de Jane Eyre, a chamou de “sem sentimentos”. O motivo para as críticas ferozes de Charlotte teria sido inveja após a recomendação de um tal senhor Lewes (que desconheço) para que ela fosse menos melodramática e se inspirasse mais em Austen. E, realmente, quem optar por ler os seus livros não vai encontrar muito melodrama não.

*Entenda que estou me referindo especificamente a melodramas quando falo isso, e não a todas as reviravoltas típicas de romances no geral.

3. Ela criou personagens femininas fortes

Keira Knightley interpretando Elizabeth Bennet em Pride and Prejudice, em 2005

Não vou mentir falando que todas as personagens são mulheres fortíssimas e bem resolvidas, porque mesmo se você só tiver assistido aos filmes vai se lembrar da Lydia, que passa longe de ser a minha preferida.

Mas uma coisa que eu também notei, é que algumas personagens aparentemente fracas, como a Fanny em Mansfield Park e a Marianne, em Razão e Sensibilidade, começam fraquíssimas e vão se desenvolvendo ao longo da trama. O mesmo princípio também se aplica à Anne Elliot, do meu segundo romance preferido dela, que é Persuasão — quando mais nova ela se deixa influenciar por uma escolha diferente da sua própria, mas no decorrer da história ela vai crescendo e ganhando força.

Fora essas personagens citadas acima, há também Elinor de Razão e Sensibilidade, que desde o começo do livro já se mostra uma mulher muito forte; e Lizzie, minha preferida, a heroína de Orgulho e Preconceito que é uma mulher fantástica.

Ainda não li Emma e Northanger Abbey para saber avaliar suas protagonistas com propriedade, talvez futuramente eu as inclua em uma nota por aqui.

4. Ela escreveu o livro que recebeu a melhor adaptação para filme que consigo me lembrar

Minha cena favorita do filme

Quando eu era mais nova, tinha mania de assistir aos filmes e ler os livros procurando defeitos. Hoje a Geórgia de 25 anos sabe que são duas linguagens e propostas diferentes, essas coisas todas que gente mais esclarecida costuma explicar e etc., mas nem toda vida foi assim.

Mas quando eu penso em Orgulho e Preconceito, e na sua versão cinematográfica mais famosa, aquela de 2005 com a Keira Knightley e o Matthew MacFayden, eu não consigo achar defeitos; não só isso como procuro assisti-la pelo menos uma vez por ano na Netflix — às vezes mais.

É claro que, como esse é o meu romance preferido, eu sou suspeita para opinar. E também não vou dizer que eles conseguiram colocar todos os 61 capítulos na tela, porque se você assistir ao filme procurando por isso com certeza vai se frustrar.

No entanto, o que eu gosto nessa adaptação é que, como o livro foca muito nos diálogos e densidade dos personagens em detrimento das paisagens, tudo o que foi filmado se apresenta como um bom complemento. Falas importantes foram bem preservadas, os atores combinaram muito com seus respectivos personagens, e a fotografia é perfeita!

5. Ela ainda é fonte de inspiração para mil romances

Clueless é uma releitura de Emma!

Muito do que se lê hoje é copiado ou totalmente inspirado nos escritos dela. Então, por que não ir direto à fonte e descobrir o encanto que até hoje deixa tantas  outras autoras inspiradas?

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Nem Amélia, Nem Girlboss

Crônicas

Sei que há o risco de eu ser mal interpretada enquanto leem este texto específico, mas sinceramente? Eu venho ruminando essas ideias dentro de mim há aproximadamente dois anos, e decidi correr o risco mesmo assim.

Quando a gente pensa em feminilidade, feminismo ou assuntos relativos às escolhas de vida da mulher geralmente surgem dois modelos: aquele primeiro e ideal machista, mais raro atualmente, da Amélia que não tinha a menor vaidade, e que por isso sim era mulher de verdade (???); ou o segundo mais condizente com os nossos dias, da mulher extremamente segura de si, bem resolvida e independente, todo o conceito que a Sophia Amoruso materializou como Girlboss.

Mas e se eu não me identificar com nenhuma delas? Porque nenhum dos dois modelos me representa, e a cada dia que passa me sinto mais livre por ter chegado a essa conclusão.

Até porque vamos combinar, né? Se teve uma coisa que aquela onda de “Bela, recatada e do lar” fez, em 2016, foi mostrar que essa ideia da mulher “sem vaidade”, que não se cuida, nunca liga para si mesma etc., já foi rejeitada até mesmo pelo próprio machismo – e entenda que não estou aqui criticando a escolha pessoal de vida da Marcela Temer nem nada semelhante, mas achei no mínimo curioso a tentativa de alavancá-la como o padrão de mulher a ser seguido. Não sei vocês, mas eu pelo menos não tenho nenhuma empregada e nem me lembro se já fui à dermatologista alguma vez na vida.

Mas também não me sinto nenhuma Girlboss, e não me sinto em nada inferior por isso.

Alguns de vocês, imagino, devem saber que eu até li o livro. Eu já estava cogitando a chance de virar freelancer no ano passado, via o título em várias fotos descoladas no Instagram e tudo o mais; aí pedi e ganhei no amigo secreto da empresa em busca de inspiração. E não vou dizer para vocês que é um livro ruim nem nada porque é até engraçadinho, tem uma leitura bem fluída, uns desenhinhos legais, várias frases motivacionais e feministas do tipo “Você é mulher e nada a impede de ser bem-sucedida! Você é totalmente capaz!” e blá blá blá. Mas vou confessar a vocês que, quando passei a conhecer um pouco mais a fundo a parte da história da Sophia que não é contada no livro e nem na série, percebi que tampouco queria me parecer com ela também.

Não sei se a gente só vai aprendendo essas coisas com o passar dos anos, mas precisei silenciar muitas vozes externas antes de poder encontrar a minha própria; precisei aprender a questionar, como já escreveu Mariliz, por que “A mão que bate em Marcela não bate em Marisa, tal qual primeira-dama decorativa”. E aí percebi que eu nunca me senti verdadeiramente inferiorizada por ser mulher, mas os discursos contrários eram tantos e em todos os lugares, que minha própria experiência pessoal não parecia ter nenhum efeito.

Não posso dizer que com todo mundo foi assim, seria muita fantasia da minha parte pensar isso. Mas voltando à minha experiência, eu sempre fui incentivada a estudar e me dedicar a tudo o que eu quisesse, desde as aulas de Ballet e Kung fu até os mil cursos técnicos de Gestão Empresarial à Comunicação Visual. Em todo tempo as pessoas costumavam me elogiar pela minha inteligência e capacidade, como fazem até hoje.

Meu pai é uma daquelas pessoas que odeiam qualquer menção ao feminismo, sabe? Mas foi ele mesmo quem correu atrás de pagar todos esses meus caprichos, e uma vez quando eu tinha dez anos quase quebrou o meu nariz porque nós dois estávamos jogando futebol e ele simplesmente se esqueceu que tinha no mínimo umas três vezes o meu peso e tamanho – eu nunca mais fui tratada de forma tão igual, depois disso 50% de todo o resto me pareceu privilégio.

Se eu resolvi postar esse texto agora, a despeito de todos os xingamentos ou reações que podem vir dele, é porque eu realmente gostaria de compartilhar isso com tantas mulheres quanto possíveis. Você não é livre porque um movimento ou ideologia assim o diz, o que realmente pode trazer liberdade é o reconhecimento de quem você é, de onde veio e para onde vai. E hoje sim, posso afirmar que me sinto mais convicta da minha identidade do que jamais estive.

Eu amo estudar e trabalhar, mas também quero aprender a cozinhar melhor. E não quero fazer isso apenas para me enquadrar em um padrão de “mulher pra casar”, quero cozinhar porque gosto muito de comer. Que problema há nisso?

Já passou da hora de deixar as mulheres serem de fato livres para o que decidirem ser de verdade.