Faxina

Crônicas

Existe jeito melhor de abrir setembro do que escrever sobre faxina?

Tudo bem, eu também consigo pensar em vários assuntos mais agradáveis. Mas é o que temos para hoje.

Devo começar admitindo com certa vergonha que a faxina passa longe de ser uma das minhas tarefas domésticas preferidas. E sim, eu sei que chega a ser no mínimo irônico uma pessoa que tem mania de limpeza não gostar de faxina; mas nem tudo na vida é da maneira que gostaríamos, não é mesmo?

Tenho meus motivos para isso, e explico: pensei bastante até descobrir que a primeira razão encontra-se no fato de eu gostar muito mais do resultado final da limpeza, que do processo em si. Sei que pode parecer uma coisa muito óbvia quando falada dessa maneira, mas venho percebendo que não é. Por exemplo, cozinhar pra mim é divertido tanto no percurso quanto no resultado. Não que eu seja uma expert ou coisa parecida, porque ainda não sou, mas sempre que cozinho sinto prazer em descobrir as coisas, me encanta o fato de um ingrediente ou tempero poder, sozinho, mudar todo o sabor de uma comida; e é justamente esse encantamento que me falta quanto ao processo de limpeza.

Explicado esse primeiro motivo, tenho outra razão muito legítima para nunca ter me esforçado demais nesse quesito: sou alérgica a quase todos os produtos de limpeza que já inventaram. O jeito mais fácil de me ver com o nariz vermelho e com falta de ar é passando por esse corredor específico de qualquer supermercado. Aí, pensa! Não é como se eu fosse alérgica a todos os produtos existente, mas a preguiça e o desgosto se encarregam de usar minha alergia como uma muleta. E usam muito, aliás.

Por último, e que ao meu ver pesa mais que todos os dois porquês citados anteriormente, conta o fato de eu ser lerda. E não sou um pouco lerda, sou muito lerda! Eu queria muito, de verdade, ser uma daquelas pessoas que conseguem limpar a casa toda em um dia; mas só pra poder limpar e arrumar dignamente o meu quarto levei exatamente uma semana. Uma semana! Um dia inteiro para limpar o nicho, organizar e ver o que podia jogar fora, outro dia só para repetir o mesmo processo em minha penteadeira; e depois as portas do guarda-roupa, outro dia para as gavetas… E ainda estou terminando de cuidar do criado-mudo hoje.

Semana passada eu estava assistindo ao Flash e vi uma cena em que o Flash Reverso bagunça, depois limpa e organiza toda uma casa em questão de poucos segundos. Segundos, e eu aqui precisando de uma semana para arrumar só o meu quarto! Consegue entender que meu preparo é, principalmente, psicológico para ter paciência de não parar tudo no meio do caminho? E sim, naquele momento, vendo aquela cena, eu o invejei.

Ainda assim, mesmo levando tanto tempo para fazer algo que não gosto muito, não pude deixar de perceber a bondade de Deus sobre minha vida. Bondade que primeiro se manifestou em me dar uma mãe que também é doida por limpeza, mas que gosta muito mais do ato em si do que eu, porque já percebi que vou acabar deixando a parte mais pesada da limpeza nas mãos de uma diarista assim que eu sair de casa. Bondade em me ensinar a importância de não desistir de fazer as coisas simplesmente porque não gosto, e também porque obter o resultado desejado sempre faz valer o meu esforço.

Na verdade, eu acho que é até engraçado. Semana passada eu estava pensando comigo “Nossa, quase nem tenho roupa mais, não acredito que vou ter de comprar tudo de novo!”, mas se tem algo que alegremente redescubro toda vez que me proponho a limpar e organizar qualquer coisa é que tenho muito mais do que me lembrava ter. Tenho o suficiente para mim, e ainda sobram coisas boas para quem precisa.

Aí me dei conta de que a vida não é muito diferente de um quarto bem limpo e arrumado, sabe? As coisas fazem muito mais sentido quando estão em seus devidos lugares, e tudo o que não for bom precisa ser jogado fora.

Dá trabalho sim, nos últimos dias me vi adotando vários hábitos que nunca cogitei para não desperdiçar todo o trabalho que tive. Mas não tem sido um peso, as coisas meio que vão fluindo da maneira que deveriam se nos dispomos a mudar o foco. E tem valido muito a pena.

Sobre o tempo e tintas de cabelo

Crônicas

Repito: isto não é um tutorial de beleza ou nada do tipo, porque eu realmente não tenho a menor vocação para fazer ou falar dessas coisas. Mas gosto de misturar as coisas sérias da vida com situações cotidianas, e pretendo continuar assim. Portanto, insisto.

Essa não foi a primeira vez que pintei meu cabelo. Comecei aos dezesseis, cerca de uns sete anos atrás. “A cor do seu cabelo é muito esquisita, não é definida”, disseram. E eu, tonta, acreditei. Primeiro uma tinta loura sem amônia nas férias, não era como se fosse durar – ou mudar, de fato, alguma coisa. E já que não mudou muito, coloquei uma tinta mais forte, dessa vez um mel; nem eu sabia se meu cabelo estava loiro ou laranja, quanto mais as outras pessoas. Depois uma tinta mais loura, outra mais loura, uma outra mais loura… Até meu cabelo ficar todo branco e eu perceber a bosta que estava fazendo.

Não foi fácil escurecer o cabelo nessa época. Me lembro de ter jogado louro escuro pelo menos umas duas vezes, mas o 12.0 sempre acabava sugando a cor de cima de um jeito ou de outro. A raiz crescia por cima, misturava com o cabelo tingido e ficava um negócio lindo que só! Aí comecei a cortar, e foi assim que me apaixonei pelo Chanel de bico: a metade de cima do cabelo estava da minha cor natural, e as pontas bem louras, como se aquilo fosse proposital.

Até que depois de um tempo me cansei e escureci tudo. Foi a primeira vez, ainda mais com o cabelo curto, que me senti uma espécie de Branca de Neve. Estava tudo muito lindo, até que a tinta foi desbotando e ficando meio ferrugem. É claro que eu pintei de novo, joguei um louro escuro pra deixar o meu cabelo o mais próximo do natural possível. E funcionou por um tempo, antes que começasse a desbotar. Mas nessa altura eu já estava cansada de tingir, só deixei ir desbotando, crescendo e fui cortando.

Foram anos até que meu cabelo ficasse completamente da cor natural, e ganhei uma habilidade de esperar como nunca antes já havia tido. Se quer saber, eu gosto da minha cor natural. É meio indefinida mesmo, e sendo bem sincera, não é lá das minhas preferidas. Mas é minha, e eu gosto. Fiquei muito satisfeita apenas com ela nos quatro anos que dali se passaram.

Mas mulher é um bicho muito esquisito. Conheço mulheres que não gostam quando eu digo isso, mas sou mulher e me reconheço como um bicho muito esquisito – e conheço outros tantos bichos esquisitos que ainda não se reconhecem como tal. Certo dia me levantei, olhei no espelho e, simplesmente pensei “Ah, ando meio cansada de acordar e ver sempre essa mesma cara. Acho que preciso dar uma repaginada no cabelo”. Uma semana depois, as pontas de meus cabelos estavam com luzes. Foi só o estopim: alguns meses depois e eu estaria completamente loira.

Só que o louro também não é a minha cor preferida de cabelo. Sabe quando você faz alguma coisa só porque sabe que combina? Não é como se você precisasse gostar de fato, mas já que era pra mudar, que fosse ao menos uma mudança que não ficasse ruim. Eu era bem loira quando criança, antes que meus cabelos passassem para o castanho claro, e sabia que combinava comigo. Logo, lá estava eu com os cabelos claros outra vez. Nem sequer pensei em todo o trabalho que tive.

Mas aí, no começo desse ano, aprontei de novo: adivinha quais são as cores de cabelo que mais gosto? Pois é, castanho escuro e preto. E não sei por quê, nem sempre preferência é algo que a gente explica. Escureci mesmo, e só não botei o preto porque sei que daria um bocado a mais de trabalho pra sair – não é como se o castanho escuro não estivesse dando trabalho também, em todo o caso.

Por que eu quero tirar uma cor que gosto tanto? É como eu disse, bicho esquisito. Porque a raiz natural sempre cresce, e não tenho paciência pra ficar retocando, acho que só terei quando meus cabelos estiverem brancos e eu me ver obrigada a fazer isso. Enquanto ainda não estamos nesse patamar, uma raiz mais clara fica crescendo, se mistura aos cabelos mais escuros e vai ficando aquela coisa linda, sabe?

Esses dias eu andava pensando sobre várias coisas que vêm acontecendo e percebi que as tintas de cabelo me servem como marcadores de tempo. Não é como se eu gostasse de esperar todo o tempo preciso antes que as coisas fiquem do jeito que eu quero, mas a minha decisão de não cortar o cabelo torna a espera uma necessidade. Fazer qualquer outra coisa machucaria meus cabelos e traria a tesoura como consequência, então não faço nada. Só respiro fundo e espero, sem saber quanto tempo será necessário e me incomodando sempre que vejo no espelho a raiz mais clara, mas reconhecendo que não existe coisa melhor para fazer. E olha que eu nem sei se meus cabelos vão ficar como quero ou não.

Não é como se nas outras coisas da vida fosse muito diferente, cada dia que passa descubro um tanto a mais de paciência que eu nem sabia ter, ou julgava impossível. Mas não é.

Talvez, da próxima vez, eu pense umas quinhentas vezes antes de mergulhar de novo em uma cor ou ideia nova. Ou talvez eu me lembre de todo o trabalho que dá e desista antes mesmo de tentar.

Talvez. É só o próprio tempo quem vai me dizer.

Sorria sim!

Crônicas

Você não precisa parar de sorrir, não deixe ninguém lhe convencer do contrário. Também não precisa ficar reclamando o tempo todo, menos ainda mendigar pelo amor e a atenção de alguém

Sabe, nem sempre na vida as coisas saem do jeito que a gente quer. Seria bom se saíssem, mas não seria real. Os contos de fadas param de fazer sentido depois que completamos, no máximo, doze anos, e a vida fica um bocado diferente do que nos fizeram acreditar que seria. Descobrimos que não basta querer muito algo, ou ficar apenas fantasiando e pensando positivo a vida inteira para que algo aconteça. A vida fora dos livros e filmes de romance é assim, e cedo ou tarde precisamos lidar com ela.

Mas isso não é motivo para se descabelar, passar o resto dos dias se lamentando ou qualquer coisa parecida com isso. A felicidade reside nas pequenas coisas do nosso dia-a-dia, cabe a você mesma saber distingui-la quando lhe bate à porta.

Existe uma raiva que eu preciso confessar. Não sou do tipo de pessoa que gosta de guardar raiva, e sempre fico me monitorando para que isso não aconteça, mas como é algo tão decorrente é capaz de que muitas vezes eu acabe me esquecendo. E essa raiva que sinto é da música, da literatura e às vezes até do cinema, que são coisas que gosto bastante pra ser sincera. Raiva porque várias letras, livros e roteiros são repletos de carência excessiva, e essas coisas nos são vendidas de modo a acreditar que depender emocionalmente de outra pessoa é a coisa mais normal do mundo. Mas não é, e você precisa saber disso.

Pensa em todas as vezes que já sorriu, mesmo que por impulso. Cada pequena fração de segundo que lhe gerou uma risada, e como a vida era tão melhor com esses momentos. A gente sorri vendo bebês fazendo coisas engraçadas, com comida, com a paisagem, com micos alheios, com a satisfação de ser bem sucedido em alguma coisa, e tantas outras coisas que nem consigo enumerar. A felicidade é o conjunto de todas essas coisas, e não algo que você possa atribuir a outra pessoa que erra tanto quanto ou mais que você. Essa capacidade está dentro de você, e não fora.

Eu sei que nem todas as situações da vida estão sujeitas ao seu controle, mas você também já deve ter percebido que reclamar disso o tempo todo não melhora muita coisa. Se é que melhora alguma coisa, porque comigo nunca adiantou. Mas quando eu sorrio, ainda que sem ter um motivo exato, me sinto mais feliz e é justamente aí que me surgem mais motivos para sorrir. Costumamos esperar que nos sintamos alegres para só então sorrir, mas o oposto também é válido e você devia tentar. Enxugue as suas lágrimas, e volte a sorrir como sempre fez.

E, quando se olhar no espelho, não se esqueça que só uma das pessoa mais importantes do mundo deve lhe achar espetacularmente linda: VOCÊ! E sim, nesse quesito não existe pessoa mais importante que você. Não se vista e nem se arrume para nenhum cara, faça isso por você. Fique linda para você, feliz com você. Primeiro por dentro, e quando assim o for não será preciso fazer nada para que todos à sua volta percebam. Na verdade, você nem vai mais ligar se percebem ou não, porque só o seu foco vai ser outro. Sei que você pode, sim, voltar a sorrir.

Confia em mim, eu nunca quis o seu mal. Não é egoísmo pensar dessa maneira, você não só pode como não merece nada menor que isso. Sei que uma hora as coisas vão dar certo para você, e torço sinceramente por isso. Queria poder lhe dizer isso pessoalmente, mas não sei se você iria me entender. Você só precisa parar de procurar do lado de fora a própria chave que escondeu sem perceber.

O que eu sei sobre a vida?

Crônicas

Minha cabeça funciona de um jeito muito doido. Na maioria das vezes é complexo até pra eu mesma compreender esse jeito, quanto mais pra explicar. Acho tão engraçado quando alguém me diz “Nossa, isso deve ser difícil, ainda mais para você que parece ser bem organizada”. Deixa eu contar um segredinho pra vocês: não sou, e também não faço a menor ideia do que leva uma pessoa a pensar que eu seja. Porque pensa bem, e entenda que não estou dizendo isso para me gabar, mas eu escrevo, canto, componho, tento tocar algumas coisas e vez ou outra sai alguma coisa legal quando tento desenhar. Você já reparou que, geralmente, quanto mais criativa uma pessoa é, mais desorganizada ela tende a ser? É claro que existem as exceções, mas até hoje não conheci muitas. Fica aí a dica pra você que costuma se sentir atraído por gente talentosa.

Isso não é algo que eu me orgulhe, pelo contrário. Gostaria de ser uma daquelas pessoas que tem agenda bem estruturada, com horários pra tudo e etc., mas comparando isso à minha realidade agora digo que quando consigo organizar um pequeno espaço do meu quarto, por menor que seja, e seguir o cronograma esperado já fico comemorando cada pequena vitória. E isso se reflete nos meus pensamentos, pois quase sempre eles parecem um monte de spaghetti espalhado, tudo junto e misturado de um jeito que pode ser qualquer coisa, menos linear. Esse é até um dos motivos pelos quais gosto de escrever, botar meus pensamentos em uma folha de papel me ajuda a compreendê-los melhor e me organizar internamente.

Por pensar dessa forma cíclica, vira e mexe alguma pergunta fica martelando na minha cabeça, várias vezes consecutivas, até encontrar uma resposta. E, desde a última sexta, não consigo parar de me perguntar o que eu sei sobre a vida. Talvez porque a resposta não seja uma das que mais me agradam.

Quando criança, costumavam me chamar de nerd. E, admito, eu era mesmo, naquela época gostava bastante de estudar (saudades!). Uma vez ganhei até medalha na escola, acho que na quinta série (guardo essa medalha até hoje, porque quem já me viu tentando jogar qualquer coisa sabe que nunca mais vou ganhar outra medalha na vida), e na sexta série fui a terceira colocada em um provão lá que a gente fez, perdendo apenas para dois caras, um do terceiro e outro do segundo ano. Depois disso, quando me mudei de bairro e escola fiquei muito mais relaxada (ganhei uma coisa chamada vida social, etc), mas ainda assim sempre fui reconhecida como uma pessoa inteligente e blá blá blá. E é muito difícil escrever isso sem parecer orgulhosa disso ou querendo me gabar, mas ainda gosto de estudar – claro que em uma proporção bem menor que antigamente, mas sim.

Só que ninguém nunca me perguntou por que eu gosto de estudar. E tá que ser de alguma forma reconhecida é legal, seria mentira minha se eu dissesse que não, mas nunca foi esse o motivo. Nunca, mesmo. Pode até parecer clichê o que estou para dizer, mas é verdade: sempre acreditei que saber é melhor do que não saber. Não para provar nada para ninguém, e nem pra mim mesma, mas porque toda pergunta merece uma resposta. Nenhuma pergunta existiria se não houvessem sua resposta equivalente, aliás, e é esse processo de descoberta que sempre me fascinou e ainda continua fascinando.

Sabe qual o problema nosso tudo? É uma coisa que já venho reparando há alguns anos, e sinceramente gostaria muito que qualquer pessoa que se considera minimamente inteligente também percebesse. Porque, infelizmente, quanto mais a gente sabe, mais a gente passa a pensar que sabe. E à primeira vista isso pode até parecer um raciocínio completamente lógico, mas não é. Só quando olhamos atentamente, bem atentamente mesmo, conseguimos perceber que quanto mais pensamos saber alguma coisa, menos sabemos no fim das contas. Toda vez que faço alguma descoberta nova percebo que o meu conhecimento é infinitamente menor do que eu julgava ser antes de descobrir, e não o contrário. Eu sei que é uma informação bem confusa de se assimilar, não é como se saber disso me tornasse mais esclarecida quanto a qualquer coisa, na verdade toda vez que essa conclusão me assombra quase sai fumacinha da minha cabeça.

Porque é ruim não saber. Não encontrar todas as respostas desejadas me desagrada, quase mais que qualquer outra coisa, porque eu sei que essas respostas estão por aí em algum lugar, e muitas das vezes eu não posso e não sei se um dia irei encontrá-las. A vida não é como um livro, ou uma boa escola onde você treina todas as respostas certas para acertar na prova. Seria bem mais prático se fosse, e tudo seria mais lindo como unicórnios cor-de-rosa voando e deixando seu rastro de arco-íris. Mas não é assim.

O que me alegra em tudo isso, apesar de eu não saber ainda se é alegria ou conforto, é que saber disso, e mais que isso, reconhecer isso publicamente requer coragem, humildade e outras coisas que muitas vezes são ainda mais importantes que o conhecimento. Eu me entristeço sempre quando vejo alguém que sabe muito pensar que sabe tudo e agir como se assim fosse, não porque é irritante, mas porque fico imaginando o quão triste e decepcionante uma vida assim deve ser.

Manuais de instruções

Crônicas

Quando criança, acredito que pouca ou nenhuma coisa me irritava mais que manuais de instruções. Pense numa coisa chata de ler! Só queria curtir logo de uma vez os meus brinquedos assim que os recebia, mas bastava abrir a caixa e aquelas páginas coloridas com um monte de figuras, vários passos detalhados e desenhados, eram logo a primeira coisa que meus olhos viam. Eu sempre me frustrava, e nunca os lia – meus pais que lessem, montassem e só me chamassem quando os meus brinquedos já estivessem prontos, oras!

Depois eu cresci e larguei os brinquedos, mas não larguei a mania de fugir dos manuais por completo; quase em todos os casos vou tentando aprender tudo quanto é possível sem usar nenhum deles. É meio que aquela coisa de trocar o celular, a calculadora ou a câmera fotográfica, só aprender as funções mais básicas do aparelho e deixar por isso mesmo. Dá pra ligar, desligar e mexer em (quase) tudo o que preciso sem fazer muito esforço. A vida parece seguir sem grandes problemas assim.

Isto é, sem grandes problemas na maioria das vezes. Porque outras vezes saio apertando botões por engano, ativando funções que desconheço sem querer, me desesperando momentaneamente sem entender o que está acontecendo. Tudo em questão de segundos, sabe? Procuro algum tutorial como medida de emergência e não sossego até descobrir como desfazer o que fiz. Um, dois, dependendo do caso três ou mais tutoriais. Dia desses eu estava pensando nisso e percebi que não ler os manuais me dá muito mais trabalho que o contrário.

Também fiquei pensando nas ironias que a vida prega na gente: fujo dos manuais que existem, mas gostaria que tivessem inventado manuais específicos pra tanta coisa que não tem! Ainda não inventaram um manual que garanta 100% de certeza nas horas em que quero fazer as escolhas certas, por exemplo. Ou um manual que mostrasse quando as coisas são o que de fato parecem ou só uma impressão doida da nossa cabeça e nada mais, coisas assim que exigem um manual pra gente saber como lidar – ou uma luz, um sinal. Talvez um semáforo inteiro, só pra não ficar nenhuma dúvida…

É estranho pensar em como a vida deveria ser tão simples, mas é mais que fácil complicá-la sem precisar de um por quê. E aí a gente vai vivendo, se apoiando nas funções básicas enquanto dá, procurando uma ajuda aqui e ali quando algo foge demais do controle, ou quando uma situação é nova demais para saber como proceder. A gente nunca sabe todas as funções disponíveis, e quando pensa estar de alguma forma chegando perto de saber a própria vida se encarrega de mostrar que não. Cada dia apresenta uma (im)possibilidade diferente, e a nós só cabe discernir quantas coisas improváveis na verdade não o são. Sem nenhum manual, às vezes com pouco ou nenhum recurso além do tempo e da observação.

E aí a gente só segue analisando, errando, esperando, duvidando, reconsiderando e tentando acertar com tudo o que nos vêm à mão; só buscando o que de melhor se pode fazer. De qualquer forma, não é como se houvesse muita opção além disso.

Menas

Textos

Quando eu estudava Comunicação Visual, nenhum movimento artístico conseguiu me cativar tanto quanto o minimalismo. E não falo isso pelos resultados em si, pois admito que tiveram outras coisas visualmente muito mais interessantes; mas é o conceito por trás do minimalismo que me encanta.

Também me lembro que, quando começamos a desenhar, editar ou vetorizar qualquer coisa, ainda não tínhamos muito essa pegada minimalista, porque quando tudo nos parecia novidade ficava muito fácil criar qualquer coisa com excesso de informação. Nessas mesmas horas, sempre aparecia alguma professora para dizer “Menos é mais” e nos fazer mudar de opinião.

Depois que me familiarizei com a ideia minimalista, descobri que há muito tempo nós, garotas, já lidávamos com o seu conceito sem perceber. É mais ou menos como quando está muito calor e, decidindo vestir um short, acabamos escolhendo uma camiseta, bata ou qualquer coisa mais larga para evitar muita atenção. Ou quando o batom é vermelho ou escuro, e deixamos a maquiagem mais leve na área dos olhos para não parecermos o Ronald McDonald. Porque menos sempre vai continuar sendo mais.

Nessa última semana venho pensando bastante sobre como a sociedade seria um lugar diferente se fossemos mais minimalistas em alguns aspectos. Hoje, na DP que venho fazendo durante algumas tardes desse semestre, estávamos conversando sobre os relatos de como alguns refugiados imaginavam o Brasil antes de chegarem aqui, como outros estrangeiros nos veem e como nós mesmos vemos as demais regiões nacionais. Eu nem sei imaginar direito como é a vida nesses lugares, porque nunca sequer consegui me imaginar fora daqui – e quem é de SP sabe bem do que estou falando.

SP é o lugar mais hype do Brasil, e eu amo minha cidade. Nós temos informação, lazer, opções em excesso, e as coisas não ficam muito diferentes se tratando de tudo o mais. Sendo bem sincera, ainda não descobri algo que não tenha em excesso aqui.

O problema é que, com todo esse excesso de tudo, às vezes fica difícil nos esquecermos de como é ser simples. De um jeito ou de outro, é raro encontrar alguém que não esteja excessivamente focado em sua própria lista de afazeres, ou nos planos que fazemos, ao ponto de não conseguir enxergar o que se passa do lado de fora.

Quando não isso, corremos o risco de nos perdermos naquilo que os outros esperam de nós. Aquilo que o mercado de trabalho espera de nós, para ser mais exata. E não estou dizendo com isso que é errado ter qualificações, acho que já escrevi uma vez aqui que pelo menos um mestrado tenho planos de fazer. Só que, apesar disso, outras vezes me pego pensando se essa busca constante por títulos não nos tira a essência que nos define como humanos à medida que nos apegamos a eles.

Seje menas. Menos mimimis, menos nhénhénhéns, coisinhas sem o menor sentido e medo do que os outros podem ou não pensar. Vá direto ao ponto, sem rodeios. Já perdi as contas de quantas coisas boas eu podia ter feito, e assim devia, mas preferi ficar pensando, maquinando infindas vezes, e nada fiz. E eu sei que nem tudo está em minhas mãos, mas não existe nada que me isente daquilo que está.

A gente é que tem mania de complicar as coisas, mas a verdade é que muito pouco além do que é essencial importa.

22

Crônicas

Às vezes me pergunto se, caso eu soubesse antes que o tempo passa tão rápido assim, só essa consciência já traria à minha vida alguma mudança muito significativa. Porque antes dos dezoito a gente tem mania de querer que o tempo voe logo, fazer muitos aniversários etc. E, depois deles, até hoje me pergunto onde foram parar esses quatro anos que praticamente sumiram sem eu ver. Bate até saudades de quando o tempo demorava a passar.

Chega a ser estranho quando, dados aqueles momentos de se lembrar de todas as mudanças, estas são recordadas minuciosamente. Não sei se é preocupante perceber que, de repente, aquela frase dita pelos mais velhos de que “A infância é a melhor fase da vida” passa a fazer sentido – afinal, não é preciso muito uso do cérebro para a esta altura perceber que, gradualmente, se está ficando velha também. Já a adolescência, exceto por algumas ótimas lembranças, agora me parece ridícula demais para se querer lembrar. A vida é breve demais para caber todo aquele drama inútil, sabe?

Também não há mais espaço para tantos diários, que perderam seus lugares nos armários. Hoje as confissões largaram as folhas escondidas para encontrar espaço com uns poucos e bons amigos; a maioria das anotações se resumem a dois cadernos e uma pequena caderneta, arquivos no note e algumas notas de inspirações no celular. Mas sempre que vejo alguma dessas particularidades alheias, no facebook, percebo a falta que um diário pode fazer na vida de um ser humano.

Eu não tinha como prever, aos dezesseis, que trocaria os best sellers por livros de poesia; ou que o mais perto de um “horóscopo” pra mim, hoje, seria o aplicativo que mostra a cotação do dólar no celular. Acho que, na verdade, eu jamais imaginaria o quanto da nossa vida colocamos numa coisa que pode caber dentro de um bolso, como um celular.

Mas o que eu queria mesmo era ter uma máquina do tempo para avisar a Geórgia dos treze anos que eu mesma com dezoito jogaria fora todas aquelas revistas: Capricho, Atrevida etc. Quem sabe assim, talvez, aquele dinheiro tivesse um destino mais produtivo – ou pelo menos tivesse virado algo de que eu não precisasse me envergonhar.

Quem diria que o desejo de ondular o cabelo seria maior que o de alisar? Ou que, ao receber alguma crítica por não gostar de minissaia, psicologicamente não faria nenhuma diferença? Nem se eu quiser sair com nenhum pingo de maquiagem, internamente não faz a menor diferença – exceto se eu não passar nenhum pingo de batom, porque só minha irmã e minha mãe sabem o quão branca minha boca pode ser.

Quando me dei conta, vi que vinte dois é uma idade bem gostosa para se estar. Não é como se eu precisasse de algum rosto em uma capa de revista para me comparar, ou saber quais roupas estão na televisão para me basear. Aliás, o que é televisão? Até mesmo as inseguranças, aquelas desagradáveis companheiras de longa data, vão saindo uma a uma sem nenhuma formalidade: simplesmente se vão antes que eu as perceba, e quando percebo não as persigo.

E foi assim que vi que já são quase vinte e três.

1007 erros

Crônicas

Quando criança, existiam duas maneiras práticas de me deixar entretida: a primeira era passar a tarde assistindo televisão com minha avó, o que automaticamente significava Highlander e qualquer coisa que tivesse o Chuck Norris no meio, e antes da TV a cabo todas as novelas que passassem no SBT e na Globo, e depois da TV a cabo também. A segunda coisa consistia em gibis, almanaques e tudo o mais que envolvesse a Turma da Mônica.

É claro que eu brincava também. Mas, assim, nunca, nunca mesmo, minha mãe me deixou brincar na rua, e minha irmã caçula demorou muito a nascer, sabe? As meninas que iam brincar comigo no quintal eram mais velhas, então obviamente cresceram antes de mim. Eu tinha um melhor amigo de infância, me lembro que nós acordávamos mais cedo para brincar e/ou assistir Dragon Ball antes de estudar, íamos juntos para a mesma escola (onde brincávamos no intervalo porque éramos de sala diferentes), voltávamos juntos e ainda continuávamos brincando no mesmo quintal antes de ir dormir. Mas depois de um tempo ele se mudou de casa, e depois disso as férias deixaram de ser tão divertidas como costumavam ser.

Principalmente para os meus pais. Porque deixar uma criança fora da escola, sem os amigos e o tempo todo assistindo TV significava ter muita energia acumulada para a hora em que eles chegavam do trabalho. Energia acumulada de todas as maneiras imagináveis. Eu não era só uma criança querendo brincar o tempo todo, era uma criança querendo brincar e perguntar o tempo todo. E aquelas perguntas bem de criança mesmo, tipo o porquê do céu ser azul, se a centopeia tinha mesmo cem patas, se tinha leite na Via Láctea, por que os judeus e os árabes nunca faziam as pazes, etc. e tal.

Foi aí que meu pai descobriu uma invenção incrível, que nem sei se ainda existe hoje: o almanacão de férias. Ele me levava à banca e me deixava pegar tudo o que eu quisesse, e eu me sentia tão feliz com isso criança inocente que saía pegando todos os almanaques, gibis, figurinhas e revistas Recreio que via pela frente.

Mas eu era, mesmo, uma criança meio muito esquisita. Quando eu abria um desses almanaques, não lia primeiro a estória, pintava os desenhos ou qualquer coisa normal assim. Não, a primeira coisa que eu fazia era procurar o jogo dos 7 erros. E quanto mais desse jogo tivesse, mais eu gostava. Só depois de encontrar todos os erros e ter a certeza absoluta de que não tinha mais nenhum desses jogos, eu começava a ler e depois fazia aquela obra de arte surrealista de rabiscados coloridos e misturados formando qualquer coisa irreconhecível no papel. Um talento nato, coisa que impressionava de se ver.

Essa mania de procurar os erros em tudo me perseguiu por um bom tempo, e mesmo hoje não me abandonou por completo. Não que eu ainda seja perfeccionista como já fui, mas, em casos de pessoas atrapalhadas como eu, prestar muita atenção nisso pode ser até bom para saúde. Minha mãe não gosta que eu diga que sou atrapalhada, porque ela acha que é ser cruel demais comigo mesma. Já eu chamo isso de ser realista e aceitar logo os fatos, porque se até agora não consegui deixar de ser atrapalhada, minhas expectativas para o futuro não são das mais otimistas.

Por exemplo, é comum que uma pessoa como eu encontre hematomas de origem desconhecida com certa frequência no corpo. Digo que a origem é desconhecida porque, literalmente, não existe jeito de saber. É tão comum tropeçar, cair, chutar o pé da cama por engano, bater a cabeça e o braço sem querer; acordada ou não. Eu realmente não sei se crio mais hematomas acordada ou dormindo, cada dia é uma nova surpresa e uma grande probabilidade nem tão desejada de auto superação.

Também é comum eu espero que seja que pessoas como eu optem por novas tendências, muitas das quais nós mesmas lançamos e são exclusivíssimas. Tipo só descobrir que vesti a blusa do lado avesso no ponto de ônibus quando alguém me avisa, uma das minhas favoritas – “favorita” não é bem a palavra, mas é bem típica. Ou passar máscara para cílios em um olho só e sair correndo com medo de se atrasar. Essa também pode vir ocasionalmente acompanhada de um choro no ônibus por ter passado um daqueles cremes específicos para a área dos olhos, quando depois de espalhado o creme não compreende direito que é para ficar na área externa, e escorre para dentro do olho querendo proteger o que não precisa. É claro que isso acontece no olho com máscara, e o resultado final disso é prova viva de que nem sempre ter a cara limpa é pior que usar maquiagem.

Eu sou um jogo dos 7 erros ambulante, e se eu for bem sincera a minha conta de erros já deve ter passado dos 1007 há muito tempo. E não falo isso como drama ou autocomiseração, mas sim porque sei que a minha conta já está bem alta e os números se elevam a cada dia. Parei de calcular, porque não gosto de sofrer. E também, porque nem sempre contá-los serve como maneira de preveni-los mesmo.

Os erros não são previsíveis. Isto é, nem sempre, porque às vezes é tão notoriamente errado que quase chega a ser um grito. E quando o próprio erro grita um aviso, é melhor escutar. Quando me aparece um erro desses eu só consigo pensar em correr. Não é uma metáfora.

Mas outras vezes quando a gente percebe que foi um erro só dá tempo de bater na testa, e bater na testa consecutivamente. Tenho uma coleção desses erros aí, que é provavelmente a maior das minhas coleções.

O fato é que um erro, ou a suspeita dele, muda toda uma percepção pré-concebida. Muda os planos e qualquer outra coisa que possibilite não repeti-lo, ou mesmo fugir dele. É claro que infelizmente eu não posso ser perfeita e continuo errando, aliás, faço isso quase todos os dias “quase” só quando percebo. Mas quando tenho a chance de evitar o erro, burrice seria se assim eu não o fizesse.

É até clichê ouvir pessoas dizendo que a vida passa rápido demais para se preocupar com todos os erros e, parcialmente, até concordo que não dá para pensar neles o tempo todo. Mas também acho que a vida é preciosa demais para descartá-los totalmente, já que um erro, simples ou não, pode mudar todo um percurso. É coisa muito séria para se pensar.

EXW & DDP

Crônicas

Sei que nunca utilizei nenhum termo de Comércio Exterior como analogia para explicar o que penso a respeito de algo, mas como é isso o que eu estudo e não consigo pensar em nenhuma outra coisa que ilustre melhor, é assim mesmo que vai ser – e para quase tudo existe uma primeira vez, não?

Incoterms é uma abreviação para International Commercial Terms, um negocinho que é tão fundamental em uma negociação internacional que, desde o 1º semestre, os professores nos alertam sobre a importância de conhecer essas condições de venda de cor e do avesso. E eu não quero entrar em detalhes muito técnicos sobre a composição deles porque não é esta a linha deste blog, mas para explicar bem o meu ponto devo dizer que, a função principal desses termos comerciais é deixar muito claro a quem pertence as responsabilidades e os riscos em uma operação de comércio exterior, ao exportador ou ao importador.

Quando fazíamos simulações de exportação ou importação, geralmente calculávamos o custo total baseados no CIF ou no FOB – que também podem significar o preço da mercadoria com ou sem frete, mas neste caso me refiro aos incoterms homônimos mesmos. Porém, existem dois termos que sempre parecem bem mais atrativos, apesar de não muito utilizados: EXW e DDP.

EXW é uma sigla para Ex Works, ou Local de Produção em português, e DDP significa Delivered Duty Paid, traduzido oficialmente como Entregue Direitos Pagos. A razão para estes termos serem bem mais interessantes que os outros são as mais óbvias: o sonho de todo mundo é jogar as responsabilidades sobre os riscos e os custos para a outra parte presente na negociação.

É claro que, de todo jeito, o exportador ou o importador repassará esses custos para o último consumidor (é aí que o negócio fica interessante para você quando consome um produto importado, caro leitor) no fim das contas, mas ainda assim… Ninguém quer ter dor de cabeça, sabe? Para o exportador (ou produtor) o sonho é fechar uma negociação em EXW, porque seu único dever é deixar o produto pronto na fábrica, fazenda e etc, e o importador que se vire com transporte, impostos e etc. – já o importador adoraria um DDP, porque o exportador cuidaria de todas coisas essenciais à operação, e ele apenas esperaria tranquilo até que a mercadoria chegasse em seu país destino e no local de sua escolha.

E aí eu me peguei pensando sobre quantas vezes na vida a gente fica meio EXW e DDP, porque é muito mais fácil esperar que os outros façam tudo e nós não precisemos mover um dedo para fora da nossa zona de conforto. O título desse escrito está há meses marcado em um post-it rosa que deixo na parede da cabeceira de minha cama para lembrar das minhas inspirações, e antes de entrar de férias e começar a escrevê-lo fiquei me perguntando se eu mesma não tenho agido assim – e concluí que, pelo menos intencionalmente, que eu me recorde, ultimamente não.

É tão estranha essa essência egoísta do ser humano. É natural, e justamente por ser intrínseca assim, leva um tempo até que possa ser totalmente subjugada.

Voltando ao exemplo da negociação internacional, a menos que o produto seja de extrema importância e interesse do importador/exportador, a escolha de um desses dois incoterms seria inviável, utópica. Eis o motivo de não serem os mais utilizados, mas ainda assim têm o seu lugar. Isto é, em uma negociação.

Mas a vida não é uma negociação para ser vista dessa maneira, tampouco os relacionamentos (amizades, amorosos, familiares e etc., todos os tipos de relacionamentos) devem ser tratados nessa mesma óptica. É impossível desenvolver qualquer coisa profunda e durável pensando assim.

A vida é muito mais que isso. Todos os dias, quando abro os olhos antes de me levantar da cama me pego pensando em algumas coisas e analisando os meus riscos, ou o quanto as minhas responsabilidades aumentam gradativamente. Seria muito fácil ignorar tudo isso, me fechar na minha redoma e rejeitar qualquer coisa que a invada. Mas também seria o oposto de viver.

Sei bem dos meus riscos, e também das minhas responsabilidades. E também sei que se escolho estar em algo que para mim é importante, é porque ainda assim continua valendo a pena.

A parte fácil

Crônicas

Já parou pra pensar quantas vezes antes de fazer ou resolver alguma coisa procurou a parte mais fácil antes?

Não me lembro se foi na semana passada ou retrasada, mas estava pensando sobre determinado assunto e automaticamente me vi calculando o grau de dificuldade, procurando saber se tinha alguma facilidade em tudo aquilo. E foi bem aí que eu percebi que faço isso com muita frequência, uma frequência assustadora até.

Eis uma coisa estranha, o meu elevado só que não nível de conhecimento (aplicado, ao menos) em matemática: as quatro operações básicas e a regra de três e de preferência a simples, por favor. Mas na hora de classificar meus medos e dificuldades em números, rapaz… Me sinto até expert na coisa! Inúmeras vezes consegui quantificar em números e estatísticas atualizadas as minhas justificativas para fugir de dadas situações e tal, caberia até apresentação no Power Point e etc.

Toda essa covardia sempre me fez ansiar e procurar pela parte fácil, e entenda que, quando digo “parte fácil” não estou necessariamente querendo dizer “jeitinho” ou qualquer trapaça semelhante. Por exemplo, a parte fácil pode muitas vezes ser a procrastinação. Nesse semestre tenho uma matéria que, além da explicação da professora e dos slides, usamos um livro e toda semana a professora acrescenta um capítulo à nossa lista de leitura, sempre referente ao tema que ela acaba de explicar. E é aí que a parte fácil entra em ação: depois de ter tentado terminar, várias vezes, o primeiro capítulo sem muito sucesso, pensei que seria mais prudente eu focar nas minhas anotações e prestar muita atenção nelas, assim poderia assistir minhas séries em paz e ler outros livros mais interessantes só me preocupar com os capítulos de leitura às vésperas da P1.

E não é que deu certo? O que não significa, entretanto, que seja propriamente certo.

Mas aí, quando finalmente saí do capítulo introdutório, que era mesmo extenso e bem chatinho por ser repetitivo com algumas noções que já tínhamos visto nos outros semestres, à medida que ia avançando a leitura pelos outros capítulos percebi que de repente eu já não folheava as páginas fazendo uma lista mental de coisas mais legais que eu poderia estar fazendo em vez de ler aquele livro, e que até estava gostando da parte operacional de Comex mais do que imaginei que gostaria. E quando percebi que estava gostando do jeito difícil me lembrei de quantas vezes fiz meus planos baseados na parte mais fácil e em quantas coisas boas eu perderia se as coisas sempre saíssem segundo o meu roteiro.

Durante a adolescência eu não queria ter filhos biológicos. É claro que havia todo um discurso humanitário e social por trás disso, que confesso ainda admirar quem não só faz o mesmo discurso que eu fazia como também o pratica, mas no meu caso específico a parte fácil era a essência do meu discurso. Não era exatamente o medo de ter estrias, de meus pés incharem ou de ficar gorda, mas sempre que em algum filme ou série aparecia a cena de um parto, o médico gritando para a mãe fazer força e uma mulher descabelada berrando, o meu pensamento inicial era “E se eu não tiver forças pra fazer a criança sair? Por que mesmo eu quero ter um casal de filhos e não posso ficar satisfeita com um só?”. Há de se admitir que existia lógica no meu pensamento, vai…

Só que aos vinte a cabeça de uma mulher já não é a mesma dos dezesseis, e quase toda vez que alguma criancinha pequena me chama para brincar e me cansa de tanto correr, me pego imaginando que bonito será o dia em que eu tiver uma pessoinha pequenininha dessas me chutando por dentro. Esse tipo de coisa é importante para uma mulher, mesmo não sendo fácil.

E a lista de coisas importantes e não tão fáceis só aumenta, embora nem todas as outras coisas sejam tão bonitas assim. Não é fácil sair de casa para fazer uma prova quando se acorda com uma daquelas cólicas cruéis que não dão vontade de sequer pensar em qualquer outra coisa que não seja a cama, ou deixar a preguiça de lado para fazer algo que não seja tão prazeroso quanto o esperado. Também não é fácil escolher a escada quando se encontra o elevador paradinho com a porta aberta, e nem preferir um lanche mais saudável quando se vê uma linda lata de batatas na prateleira do mercado ou assistir só um episódio da série pensando em adiantar a leitura de um daqueles livros que a gente lê porque precisa, e não por escolha. Nenhuma dessas coisas é bonita, mas todas são boas e necessárias.

Nem sempre a vida é composta por escolhas fáceis ou bonitas, e pra falar a verdade acho que na maioria das vezes não é. A zona de conforto não é um hotel cinco estrelas, e mesmo que o nome até remeta a isso, não é um canto para se espreguiçar e fixar moradia; não sei nem se é um bom lugar de passagem.