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Textos

Quando você me olha, o que vê?

Semana passada me fiz vários questionamentos. Vi algumas coisas que não gostaria de ter visto, e não sei se é assim com todo mundo, mas quando vejo determinados tipos de erro tendo a compará-los com minhas próprias experiências negativas. Não é algo que eu queira, intencionalmente, fazer; tudo ocorre de uma maneira bem automática.

 Quando adolescente, eu costumava me cobrar muito, me comparar com o padrão de beleza imposto pelas mídias, sempre me sentir inferior naquilo que eu não me assemelhava. É uma mania que, graças ao bom Deus, vai diminuindo progressivamente com o passar dos anos, mas continuo vendo esse mesmo reflexo no comportamento de meninas mais novas.

Existem basicamente duas maneiras de lidar com isso: a primeira, que eu preferi e recomendo, é ficar feliz com os pontos de beleza que gradualmente se descobre ter, aceitar o que não pode ser mudado e bola pra frente, focar em outras coisas. E o segundo jeito é se adaptar, render-se às exigências cada vez mais incessantes, tanto externas quanto internas; perder a própria essência em busca de qualquer coisa que lhe parecer melhor.

Não quero ser mal interpretada ou com isso dizer para todas as mulheres saírem bagunçadas por aí, até porque isso seria muita hipocrisia de minha parte: só minha mãe sabe quanto tempo e dinheiro já gastei com meu cabelo, escolhendo roupas ou cores de batom que me agradaram. Mas quero estender a questão um pouco mais além disso.

Quando me arrumo, assim o faço porque me sentiria mal caso não fizesse, não pelas expectativas que outras pessoas possam ou não ter, mas pela minha própria forma de cuidar de mim mesma. É esse o pensamento que norteia o seu jeito de se vestir, de se fotografar, ou mesmo se enxergar como mulher?

Também não quero que esse texto seja lido meramente como mais um ato de defender a moral e os bons costumes, porque sinceramente acredito que todo mundo tem o direito de pensar, agir e se vestir como quiser; e é justamente em posse desse direito que a convido a refletir: quando alguém te olha, o que vê?

Eu procurei pelos significados de olhar e ver antes de começar a escrever aqui, mas não vou copiá-los em forma de verbete porque seria muito clichê. Resumindo, na maioria das vezes ver pode ser compreendido como um simples ato biológico, enquanto o olhar requer mais cuidado e atenção. Disse na maioria das vezes porque linguistas, artistas, filósofos, psicólogos e antropólogos parecem um pouco confusos quanto ao sentido que atribuem a um e outro verbo – e se até eles ainda se confundem, quanto mais eu! Mas não quero criar nenhuma outra confusão, por isso me retenho ao sentido da percepção em ambas as palavras, podendo esta ser superficial ou não.

Já reparou que tanto a oferta quanto a demanda por conteúdos ligados à estética são mais expressivas? São milhares de revistas, programas e canais inteiros, no Youtube ou na TV a cabo, blogs, tutoriais etc. E sim, por mais que em vários casos eu ache mais coisas fúteis que úteis, reconheço que essas coisas têm sim o seu lugar; mas que nem por isso devem se tornar obsessão.

Por outro lado, o mesmo não pode ser dito quanto a pauta em questão é a beleza interior. Frequentemente o caráter não é retratado como a máxima das virtudes, nem na vida real e menos ainda na ficção. Por exemplo, uma das séries que venho acompanhando mais agora que entrei de férias e o roteiro me impressiona demais é House of Cards. Entretanto, uma coisa que me desanima na série, e me desanima principalmente porque sei que não é de todo distante da realidade, é que as poucas personagens que apresentam uma conduta correta, uma postura diferenciada e inconformada com todas as mentiras e injustiças que os mais poderosos cometem, cedo ou tarde são sucumbidas por ameaças ou pelo próprio sistema. Passa a impressão de que ter um bom caráter não é prioridade para a nossa sociedade, e sabemos que em muitos casos infelizmente não é mesmo.

E esse é justamente o ponto onde eu queria chegar, porque a beleza que mais me impressiona não pode ser comparada a poses, ângulos, roupas e afins. Não que eu ignore completamente o aspecto físico, porque isso também não seria verdade, apenas não considero a parte mais importante. Não é o que mais priorizo quando conheço alguém, tampouco é o que quero como fator mais marcante em mim. E é muito bom sim quando alguém diz que a gente é bonita, faz bem para a autoconfiança e alma, alimenta o ego etc mas sempre que recebi esse tipo de elogio fiquei me perguntando se é só isso que quem me fala consegue ver.

Não é vontade de ser feia, porque não acho que ninguém sinta isso. Eu só não quero, e sendo mais sincera não aceito, ser só um rosto, um pedaço de carne, uma roupa ou a maquiagem que uso; nem consigo entender como qualquer ser humano, independente de sexo, aceita. E ser algo que dê de fato gosto de ser é muito mais trabalhoso que tentar parecer qualquer coisa, é um esforço diário que dia após dia apresenta um desafio diferente e nunca acaba; é reconhecer que alguns progressos consideráveis foram feitos, mas nem por isso dar-se por satisfeito.

Aí eu repito: quando você me olha, o que vê? Porque eu não quero ser uma imagem idealizada, se for pra ser reconhecida como alguma coisa, que seja como uma pessoa normal, de carne osso, que só procura acertar, mas que ainda assim erra pra caramba. Uma pessoa que continua aprendendo como se livrar de um medo, antigo ou não, por dia. Que prefere sorrir e ver coisas engraçadas a filmes e livros que fazem chorar; que gosta demais de comida gorda pra tentar fazer academia ou dieta, entre tantas outras coisas: outros detalhes que só poderiam ser percebidos com tempo e atenção, coisas que pra mim são as mais importantes de saber.

E você, já parou pra pensar o que as pessoas olham quando te veem?

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Manuais de instruções

Crônicas

Quando criança, acredito que pouca ou nenhuma coisa me irritava mais que manuais de instruções. Pense numa coisa chata de ler! Só queria curtir logo de uma vez os meus brinquedos assim que os recebia, mas bastava abrir a caixa e aquelas páginas coloridas com um monte de figuras, vários passos detalhados e desenhados, eram logo a primeira coisa que meus olhos viam. Eu sempre me frustrava, e nunca os lia – meus pais que lessem, montassem e só me chamassem quando os meus brinquedos já estivessem prontos, oras!

Depois eu cresci e larguei os brinquedos, mas não larguei a mania de fugir dos manuais por completo; quase em todos os casos vou tentando aprender tudo quanto é possível sem usar nenhum deles. É meio que aquela coisa de trocar o celular, a calculadora ou a câmera fotográfica, só aprender as funções mais básicas do aparelho e deixar por isso mesmo. Dá pra ligar, desligar e mexer em (quase) tudo o que preciso sem fazer muito esforço. A vida parece seguir sem grandes problemas assim.

Isto é, sem grandes problemas na maioria das vezes. Porque outras vezes saio apertando botões por engano, ativando funções que desconheço sem querer, me desesperando momentaneamente sem entender o que está acontecendo. Tudo em questão de segundos, sabe? Procuro algum tutorial como medida de emergência e não sossego até descobrir como desfazer o que fiz. Um, dois, dependendo do caso três ou mais tutoriais. Dia desses eu estava pensando nisso e percebi que não ler os manuais me dá muito mais trabalho que o contrário.

Também fiquei pensando nas ironias que a vida prega na gente: fujo dos manuais que existem, mas gostaria que tivessem inventado manuais específicos pra tanta coisa que não tem! Ainda não inventaram um manual que garanta 100% de certeza nas horas em que quero fazer as escolhas certas, por exemplo. Ou um manual que mostrasse quando as coisas são o que de fato parecem ou só uma impressão doida da nossa cabeça e nada mais, coisas assim que exigem um manual pra gente saber como lidar – ou uma luz, um sinal. Talvez um semáforo inteiro, só pra não ficar nenhuma dúvida…

É estranho pensar em como a vida deveria ser tão simples, mas é mais que fácil complicá-la sem precisar de um por quê. E aí a gente vai vivendo, se apoiando nas funções básicas enquanto dá, procurando uma ajuda aqui e ali quando algo foge demais do controle, ou quando uma situação é nova demais para saber como proceder. A gente nunca sabe todas as funções disponíveis, e quando pensa estar de alguma forma chegando perto de saber a própria vida se encarrega de mostrar que não. Cada dia apresenta uma (im)possibilidade diferente, e a nós só cabe discernir quantas coisas improváveis na verdade não o são. Sem nenhum manual, às vezes com pouco ou nenhum recurso além do tempo e da observação.

E aí a gente só segue analisando, errando, esperando, duvidando, reconsiderando e tentando acertar com tudo o que nos vêm à mão; só buscando o que de melhor se pode fazer. De qualquer forma, não é como se houvesse muita opção além disso.