Crônicas

Caneta e papel

Acho difícil pensar em duas outras ferramentas mais queridas. É um caso de amor tão sincero e tão antigo… Mais antigo que minha paixão pelo violão ou qualquer outro objeto de afeto que eu sequer possa pensar.

Porque quando seguro uma caneta sob uma folha limpa, é como se não existisse nada mais lá fora ou em qualquer outro lugar. A mão vai se borrando de tinta, ficando azul ou preta, e à medida que o papel se enche a minha alma enfim me parece nítida como o branco do papel.

É como me enxergo por dentro, tanto o melhor quanto o pior de mim. Todos os meus medos e desassossegos, opiniões e as coisas que não posso dizer ficam juntos numa folha qualquer. Até os meus planos fantásticos, tão incríveis em minha mente, necessitam passar pelo teste do papel  – quando então descubro que muitos deles são ridículos e não fantásticos, mas de nenhuma outra maneira saberia.

Uma folha limpa é um universo de oportunidades: um ninho de palavras enroscadas, notas musicais esperando por serem tocadas, ou cartas não entregues. É um espelho da alma, de tudo o que é importante e não se pode deixar passar, como um conjunto de rabiscos que em qualquer outra ocasião não fariam nenhum sentido… Mas fazem. E as alegrias descritas no papel também parecem tão mais alegres! Tão mais acessíveis em um arquivo secreto da memória, revividas sempre que lidas.

As palavras são especialistas nessa capacidade imensa de trazer às coisas à vida, ainda que eu não compreenda completamente o porquê. No princípio era o Verbo, e assim para sempre há de ser.

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