Crônicas

Pedra no peito

“Tinha uma pedra no meio do caminho…”, escreveu Drummond em seu mais famoso poema. Mas um dos meus favoritos dele é a Confidência do Itabirano:

Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

“Mas oitenta por cento de ferro nas almas é muito rude”, sempre pensei. E continuo pensando. Porém também já vi quem ultrapasse essa cota que já acho excessiva com oitenta e cinco, noventa… Cem por cento de ferro nas almas. É tanto ferro que nem sobra espaço para aquilo que Drummond considerou porosidade e comunicação.

E eu me pergunto por que o ser humano é tão esquisito assim. Esquisito porque temos manias tão absurdas, e é incrível a nossa habilidade em arranjar desculpas para justificá-las. Como se houvesse justificativa para o orgulho – não estou ignorando a existência dos famosos “Viu como eu tinha razão?” e “Eu avisei isso antes…”, sempre tão prontos como resposta em nossos lábios. Mas percebi que em nenhuma das vezes que digo qualquer uma dessas duas frases me sinto mais satisfeita ou feliz por isso.

Sentimos medo, e também temos fraquezas. Mas não lidamos com elas, ou pelo menos não como deveríamos lidar. Escondemos, ignoramos como se isso fosse o bastante para que elas sumissem sozinhas. Agimos como se elas não existissem, e tentamos convencer o resto do mundo de que isso é verdade. Como se todo esse orgulho fosse a capa que nos torna o Superman, que até poderia servir como exemplo de perfeição se não passasse de uma mera ficção. E é ainda pior quando até conseguimos nos convencer disso.

O orgulho também cega. Falo disso com a maior liberdade porque até os dezessete fui orgulhosa demais, quando então compreendi o que Shakespeare (ou Buda, ou Einstein, ou sabe-se-lá-quem porque atribuem essa frase a várias outras pessoas) quis dizer quando falou sobre tomar o veneno esperando que a outra pessoa morresse e desisti. Desisti de ser corroída por dentro, e depois disso passei a enxergar a vida com muito mais tons – sei que essa afirmação pode soar apenas meio poética, mas acontece que eu sou meio daltônica, então acredite quando digo que a variedade de tons é realmente algo importante para mim.

É irônico que, supostamente abrindo mão de nossos defeitos e falhas de caráter, e friso supostamente porque não acho que isso seria um problema se fosse algo sincero e não só por questão de aparência ou o que os outros poderiam pensar, não encontramos toda esta “superioridade” procurada. Toda vez que ouço alguém dizer “Eu vou ser superior”, mais inferior me parece e não vejo de que outro modo poderia ser.

Não é sobre abrir mão da nossa imperfeição, da qual com um pouquinho de bom senso sabemos que nunca vamos nos livrar completamente. É sobre abrir mão da nossa essência humana que erra e se arrepende, mas não foge disso apesar da vergonha, para nos tornarmos cem por cento ferro, cem por cento pedra ou qualquer outra coisa mecânica que não respira e tampouco precise sentir e demonstrar emoção.

A vida poderia ser tão mais fácil se descomplicássemos e amolecêssemos de vez essa dureza toda.

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