Sobre o tempo e tintas de cabelo

Crônicas

Repito: isto não é um tutorial de beleza ou nada do tipo, porque eu realmente não tenho a menor vocação para fazer ou falar dessas coisas. Mas gosto de misturar as coisas sérias da vida com situações cotidianas, e pretendo continuar assim. Portanto, insisto.

Essa não foi a primeira vez que pintei meu cabelo. Comecei aos dezesseis, cerca de uns sete anos atrás. “A cor do seu cabelo é muito esquisita, não é definida”, disseram. E eu, tonta, acreditei. Primeiro uma tinta loura sem amônia nas férias, não era como se fosse durar – ou mudar, de fato, alguma coisa. E já que não mudou muito, coloquei uma tinta mais forte, dessa vez um mel; nem eu sabia se meu cabelo estava loiro ou laranja, quanto mais as outras pessoas. Depois uma tinta mais loura, outra mais loura, uma outra mais loura… Até meu cabelo ficar todo branco e eu perceber a bosta que estava fazendo.

Não foi fácil escurecer o cabelo nessa época. Me lembro de ter jogado louro escuro pelo menos umas duas vezes, mas o 12.0 sempre acabava sugando a cor de cima de um jeito ou de outro. A raiz crescia por cima, misturava com o cabelo tingido e ficava um negócio lindo que só! Aí comecei a cortar, e foi assim que me apaixonei pelo Chanel de bico: a metade de cima do cabelo estava da minha cor natural, e as pontas bem louras, como se aquilo fosse proposital.

Até que depois de um tempo me cansei e escureci tudo. Foi a primeira vez, ainda mais com o cabelo curto, que me senti uma espécie de Branca de Neve. Estava tudo muito lindo, até que a tinta foi desbotando e ficando meio ferrugem. É claro que eu pintei de novo, joguei um louro escuro pra deixar o meu cabelo o mais próximo do natural possível. E funcionou por um tempo, antes que começasse a desbotar. Mas nessa altura eu já estava cansada de tingir, só deixei ir desbotando, crescendo e fui cortando.

Foram anos até que meu cabelo ficasse completamente da cor natural, e ganhei uma habilidade de esperar como nunca antes já havia tido. Se quer saber, eu gosto da minha cor natural. É meio indefinida mesmo, e sendo bem sincera, não é lá das minhas preferidas. Mas é minha, e eu gosto. Fiquei muito satisfeita apenas com ela nos quatro anos que dali se passaram.

Mas mulher é um bicho muito esquisito. Conheço mulheres que não gostam quando eu digo isso, mas sou mulher e me reconheço como um bicho muito esquisito – e conheço outros tantos bichos esquisitos que ainda não se reconhecem como tal. Certo dia me levantei, olhei no espelho e, simplesmente pensei “Ah, ando meio cansada de acordar e ver sempre essa mesma cara. Acho que preciso dar uma repaginada no cabelo”. Uma semana depois, as pontas de meus cabelos estavam com luzes. Foi só o estopim: alguns meses depois e eu estaria completamente loira.

Só que o louro também não é a minha cor preferida de cabelo. Sabe quando você faz alguma coisa só porque sabe que combina? Não é como se você precisasse gostar de fato, mas já que era pra mudar, que fosse ao menos uma mudança que não ficasse ruim. Eu era bem loira quando criança, antes que meus cabelos passassem para o castanho claro, e sabia que combinava comigo. Logo, lá estava eu com os cabelos claros outra vez. Nem sequer pensei em todo o trabalho que tive.

Mas aí, no começo desse ano, aprontei de novo: adivinha quais são as cores de cabelo que mais gosto? Pois é, castanho escuro e preto. E não sei por quê, nem sempre preferência é algo que a gente explica. Escureci mesmo, e só não botei o preto porque sei que daria um bocado a mais de trabalho pra sair – não é como se o castanho escuro não estivesse dando trabalho também, em todo o caso.

Por que eu quero tirar uma cor que gosto tanto? É como eu disse, bicho esquisito. Porque a raiz natural sempre cresce, e não tenho paciência pra ficar retocando, acho que só terei quando meus cabelos estiverem brancos e eu me ver obrigada a fazer isso. Enquanto ainda não estamos nesse patamar, uma raiz mais clara fica crescendo, se mistura aos cabelos mais escuros e vai ficando aquela coisa linda, sabe?

Esses dias eu andava pensando sobre várias coisas que vêm acontecendo e percebi que as tintas de cabelo me servem como marcadores de tempo. Não é como se eu gostasse de esperar todo o tempo preciso antes que as coisas fiquem do jeito que eu quero, mas a minha decisão de não cortar o cabelo torna a espera uma necessidade. Fazer qualquer outra coisa machucaria meus cabelos e traria a tesoura como consequência, então não faço nada. Só respiro fundo e espero, sem saber quanto tempo será necessário e me incomodando sempre que vejo no espelho a raiz mais clara, mas reconhecendo que não existe coisa melhor para fazer. E olha que eu nem sei se meus cabelos vão ficar como quero ou não.

Não é como se nas outras coisas da vida fosse muito diferente, cada dia que passa descubro um tanto a mais de paciência que eu nem sabia ter, ou julgava impossível. Mas não é.

Talvez, da próxima vez, eu pense umas quinhentas vezes antes de mergulhar de novo em uma cor ou ideia nova. Ou talvez eu me lembre de todo o trabalho que dá e desista antes mesmo de tentar.

Talvez. É só o próprio tempo quem vai me dizer.

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Quanto tá o dólar?

Crônicas

Apesar de minhas aulas terem começado oficialmente há duas semanas, ainda que com dois ou três dias letivos apenas, por conta dos feriados, foi só nessa segunda-feira que as coisas ficaram realmente sérias e eu me obriguei a voltar a rotina de pular da cama bem cedo.

2016 acabou de começar praticamente, e já tem sido para mim um ano de várias mudanças e desafios, em vários aspectos. Um dos meus desafios é concluir esse, que deveria ser o meu último semestre na faculdade, sem grandes surpresas enquanto termino meu TCC  e estudo para o vestibular outra vez – tudo ao mesmo tempo! Além disso preciso lidar com cursos de inglês, uma busca constante e doida por um estágio que dê certo com o meu horário, leituras atrasadas para pôr em dia e todo esse tipo de coisa; mas como o semestre ainda está no comecinho, longe da tensão pré-provas eu tenho podido desfrutar de relativa paz em meio a isso.

Essa terça-feira foi um desses dias de paz, sem extensas listas de afazeres. Até consegui colocar o meu skoob em dia, coisa que não fazia há anos. Já no finalzinho da tarde, enquanto arrumava o cabelo para sair, meu celular emitiu um ruído e eu resolvi ver do que se tratava.

– Não acredito! – falei, indignada.
– Que foi? – minha mãe apareceu rápido no corredor, preocupada.
– O dólar subiu de novo, agora tá 4,07! – respondi, mostrando a ela o aplicativo, minha mãe me olhou confusa e voltou para a cozinha.

“Quatro e sete! Onde já se viu?”, pensei e voltei a alisar meus cabelos. Aí me olhei no espelho, mas não como alguém que está se arrumando, e sim com aquela cara de espanto que a gente faz quando se dá conta de algo. “Desde quando comecei a me preocupar com o valor do dólar?”, me perguntei mentalmente.

Sei que essa resposta está logo no começo da faculdade, acho que assim que tive aulas de Economia no segundo semestre checar o valor do dólar se tornou um hábito para mim. E por se tornar um hábito, também virou um ato mecânico: coisa que em menos de um minuto se faz, muitas vezes até sem perceber que o estou fazendo. Também virou comum conversar sobre essas cotações em rodas de amigos ou na faculdade, mas tão, tão comum, que até então eu não tinha me dado conta do quanto.

Me dei conta de algumas outras coisas: os livros que eu mais pego na biblioteca e carrego durante os meus trajetos de ônibus são sobre Comex, Economia e assuntos correlatos. Quando criança, ficar chateada sempre que meu pai pedia para que eu me calasse enquanto ele assistia ao jornal era parte de minha rotina, mas hoje sou eu quem em casa pede silêncio diante das notícias. E também me dei conta de que eu já não estava mais arrumando o meu cabelo enquanto pensava nessas coisas.

Acho que o tempo deve ser mesmo cheio de pregar essas peças nas pessoas. Um dia estou correndo descabelada no quintal, fazendo caretas quando sentia o cheiro forte do café; e outro dia me descubro gente grande, preocupada com assuntos de gente grande, às vezes até recorrendo ao próprio café se parecer difícil me manter acordada. Tudo isso nítido na minha memória como se fosse ontem, como se um estalo tivesse consumido os anos que se passaram até aquele dia que chamei hoje: a última terça-feira.

As fotografias e o tempo

Crônicas

Não sou das pessoas que mais gostam de tirar ou mesmo aparecer em fotos, isto é, de mim, porque gosto muito de fotografar outras coisas, e às vezes penso que hoje sou assim porque já devo ter estourado minha cota de selfies durante a infância e a adolescência, quando nem nome para isso a gente sabia que existia. Na maioria das vezes que resolvo aparecer em uma fotografia, só minha ou com outras pessoas, quase que invariavelmente as razões são: a) Estou cansada de olhar minha cara nessa foto e não tenho mais outras; e b) Gosto tanto dessa pessoa, e todas as nossas fotos parecem ter quase um ano (ou dois, ou três…).

Quando descarto a hipótese de já ter tirado todas as fotografias e por isso estar cansada de estar na frente das lentes, penso que o verdadeiro motivo para isso, e o mais plausível, é que não quero que minhas fotografias se tornem qualquer coisa. Elas até podem ser sobre qualquer coisa, livros, paisagens e talvez comida, quando não estou nelas; mas para botar a minha cara nelas, a menos que seja uma chance única do tipo “Por que estou me sentindo uma pessoa bonita agora? Por que meu cabelo não bagunçou e minha franja está no lugar? É melhor eu até parar e fotografar isso, porque né…”, gosto da ideia de ser uma coisa especial. Aquela coisa antiga de momentos memoráveis e lembranças que precisam ser guardadas, sabe? E sinto que se isso “acontecesse” toda hora não teria nada de especial, pelo contrário, seria mais comum que não sei o quê.

Gosto de transformar as fotografias em coisas especiais principalmente por causa da sensação que isso dá com o passar dos anos. Não consigo encontrar em uma palavra perfeita para definir, e talvez seja só a nostalgia mesmo, mas gosto de ter a sensação de olhar essas fotografias especiais e pensar em como o tempo passou e mudou as pessoas que aparecem nelas, inclusive eu. Me apegava demais aos meus antigos diários quando os comparava com os mais recentes e pensava sobre tudo o que havia mudado nos meus planos, opiniões e sentimentos, mas parei de escrevê-los quando percebi que as fotografias cumprem este propósito de maneira muito melhor.

Porque no fim das contas, é tudo sempre sobre o tempo. Tanto faz se escrito ou fotografado, mas é sempre ele! Já perdi as conta de quantas vezes o tempo me mostrou coisas à minha volta e sobre mim que nem eu mesma havia percebido, e que de outra maneira jamais perceberia. O tempo voa quase sempre sem pedir permissão, e me surpreende como ninguém.

Converso tanto sobre o tempo, e com pessoas tão variadas quanto as respostas que ouço. Quase sempre percebo, tanto em mim quanto em outras pessoas, uma vontade de controlar o tempo, moldá-lo à nossa própria maneira. Como se o tempo fosse nosso, sabe? E nem sempre isso é sobre querer fazer com que tudo aconteça do jeito mais rápido possível, algumas vezes eu gostaria que todo o resto congelasse e as horas demorassem a passar por um único momento.

Mas não é assim que acontece, e nem teria como ser. O tempo não pede licença, e tampouco se importa com a opinião alheia, para ser o que nasceu para ser – sei que é estranho imaginar o próprio tempo nascer, mas seria muito irônico se logo ele escapasse a linha cronológica do começo, meio e fim. Não é como se isso tornasse o tempo um vilão ou coisa assim, ele só não é meu mordomo.

Nunca vi coisa melhor que o tempo para me chacoalhar quando estou inerte e preciso me mexer, e é também ele que me revela quando não há necessidade de correr. Talvez não seja sempre compreensível quanto eu gostaria que fosse, mas é imutável e muitas vezes tido injustamente como culpado por aquilo que as pessoas fizeram e/ou deixaram de fazer.

59 dias

Crônicas

59 dias. 1416 horas, 84960 minutos, 5.097.600 segundos. Tantos milésimos quantos não ouso contar. Menos que dois meses, quase nada.

Aí eu percebo que, sempre nessa mesma época, começo a lembrar e analisar o que eu esperava do meu ano. Aquelas listas de metas, sabe? Não como aquelas listas enormes que eu fazia na adolescência, com metas incontáveis das quais eu não chegava a cumprir a metade – coisa que, quando paro e lembro as coisas esquisitas que eu costumava escrever, não acho que tenha sido tão ruim assim ter deixado vários itens pendentes. Acho que minhas metas hoje são bem mais práticas e pé no chão.

E não é como se meu ano tivesse sido ruim, porque não foi, ou se eu tivesse conseguido cumprir todas as metas que escrevi, porque ainda faltam duas; mas não é isso que me assusta. O tempo me assusta, a ausência dele para ser mais sincera. Ainda não vi coisa mais preciosa que o tempo, nem mais escassa.

Sempre que penso sobre isso fico perplexa. Na infância, nas aulas de canto e coral da 5ª série, meu professor de música preferido costumava nos treinar para cantar Aquarela, do Toquinho, em uma apresentação que já nem me lembro mais se aconteceu ou não, só sei que eu gostava tanto daquela música que nunca mais esqueci a letra; e enquanto estava aqui escrevendo sobre isso me lembrei daquele trecho que diz “E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar, não tem tempo, nem piedade e nem tem hora de chegar. Sem pedir licença muda nossa vida, depois convida a rir ou chorar…”.

Quando criança, querendo crescer logo (hoje não sei por quê), eu não tinha a mínima ideia do que o Toquinho queria dizer com isso; depois na adolescência concordei. Mas agora não acho que só o futuro seja tão imprevisível e incontrolável assim, porque todos os dias quando acordo o presente dá um jeito de me surpreender. E não estou dizendo que isto seja algo ruim, porque não é em 85% das vezes. Só me assusta mesmo.

Me lembro tantos detalhes da minha infância, até já escrevi sobre alguns aqui, mas me lembro nitidamente de coisas de quando eu tinha três ou quatro anos… E no mês que vem, caso assim Deus queira, já serão vinte e dois anos. Eu, com vinte dois anos. Ainda nem me acostumei direito com os vinte e um! Deixei de me acostumar depois dos dezoito. Talvez esta seja a famosa crise dos vinte, e não é nada agradável.

Acho tão confuso pensar em todas essas coisas, porque se penso demais na brevidade do tempo começo a me imaginar daqui a alguns anos correndo atrás de uma criança remelenta que chamarei de meu filho enquanto seguro outra mais nova nos braços para trocar a fralda (pelo menos é assim na minha cabeça, se vai ser assim mesmo eu já não sei); e muitos anos depois (espero!) me vejo tendo aquela crise do primeiro fio de cabelo branco; e muitos outros anos depois, já com todos os cabelos brancos, abusando da minha velhice para ser ranzinza. Não, eu não quero ser ranzinza, acho mais capaz de ser uma daquelas idosas que contam histórias, tipo a de quando resolvi escrever alguma coisa sobre o tempo na minha juventude.

Tudo não passa de um átimo, e isso é bizarro. Coisa que voa sem pedir minha opinião, e do jeito que sou lerda, caso a minha opinião diferenciasse em algo, gostaria que tudo acontecesse em câmera lenta para descobrir se aproveitando o tempo minuciosamente não houvesse pretexto para saudade, nem para lamentos ou procrastinação.

Como se fosse possível degustar o tempo como chocolate, saboreando detalhadamente e identificando todos os sabores presentes na receita, exceto aqueles que de tão ruins ninguém quer. Como se o tempo se importasse em ser sujeito às minhas vontades loucas e estivesse sempre à minha espera, como os mordomos dos filmes que estão prontos a atender assim que um sininho ressoa…

Toda essa brevidade me serve como um lembrete diário de que eu nada sou.