Crônicas

Manuais de instruções

Quando criança, acredito que pouca ou nenhuma coisa me irritava mais que manuais de instruções. Pense numa coisa chata de ler! Só queria curtir logo de uma vez os meus brinquedos assim que os recebia, mas bastava abrir a caixa e aquelas páginas coloridas com um monte de figuras, vários passos detalhados e desenhados, eram logo a primeira coisa que meus olhos viam. Eu sempre me frustrava, e nunca os lia – meus pais que lessem, montassem e só me chamassem quando os meus brinquedos já estivessem prontos, oras!

Depois eu cresci e larguei os brinquedos, mas não larguei a mania de fugir dos manuais por completo; quase em todos os casos vou tentando aprender tudo quanto é possível sem usar nenhum deles. É meio que aquela coisa de trocar o celular, a calculadora ou a câmera fotográfica, só aprender as funções mais básicas do aparelho e deixar por isso mesmo. Dá pra ligar, desligar e mexer em (quase) tudo o que preciso sem fazer muito esforço. A vida parece seguir sem grandes problemas assim.

Isto é, sem grandes problemas na maioria das vezes. Porque outras vezes saio apertando botões por engano, ativando funções que desconheço sem querer, me desesperando momentaneamente sem entender o que está acontecendo. Tudo em questão de segundos, sabe? Procuro algum tutorial como medida de emergência e não sossego até descobrir como desfazer o que fiz. Um, dois, dependendo do caso três ou mais tutoriais. Dia desses eu estava pensando nisso e percebi que não ler os manuais me dá muito mais trabalho que o contrário.

Também fiquei pensando nas ironias que a vida prega na gente: fujo dos manuais que existem, mas gostaria que tivessem inventado manuais específicos pra tanta coisa que não tem! Ainda não inventaram um manual que garanta 100% de certeza nas horas em que quero fazer as escolhas certas, por exemplo. Ou um manual que mostrasse quando as coisas são o que de fato parecem ou só uma impressão doida da nossa cabeça e nada mais, coisas assim que exigem um manual pra gente saber como lidar – ou uma luz, um sinal. Talvez um semáforo inteiro, só pra não ficar nenhuma dúvida…

É estranho pensar em como a vida deveria ser tão simples, mas é mais que fácil complicá-la sem precisar de um por quê. E aí a gente vai vivendo, se apoiando nas funções básicas enquanto dá, procurando uma ajuda aqui e ali quando algo foge demais do controle, ou quando uma situação é nova demais para saber como proceder. A gente nunca sabe todas as funções disponíveis, e quando pensa estar de alguma forma chegando perto de saber a própria vida se encarrega de mostrar que não. Cada dia apresenta uma (im)possibilidade diferente, e a nós só cabe discernir quantas coisas improváveis na verdade não o são. Sem nenhum manual, às vezes com pouco ou nenhum recurso além do tempo e da observação.

E aí a gente só segue analisando, errando, esperando, duvidando, reconsiderando e tentando acertar com tudo o que nos vêm à mão; só buscando o que de melhor se pode fazer. De qualquer forma, não é como se houvesse muita opção além disso.

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