Ninguém me vê como Ele me vê

Estudos Bíblicos, Textos

E aí, tudo bem com vocês?

Eu tinha planos de tentar escrever ao menos um texto por semana esse ano, mas por enquanto a minha rotina corrida ainda não está me permitindo. Espero que isso mude e talvez em pouco tempo tenhamos novidades, mas por enquanto nada definido.

Correrias a parte, hoje quero falar sobre um assunto que vem queimando em mim há dias. E olha que eu não sei nem por onde começar!

Eu tenho conversado com algumas pessoas recentemente, e quanto mais dessas conversas tenho percebo como posso contar nos dedos quantas pessoas me conhecem de verdade, E não falo isso como forma de culpá-las ou coisa assim, porque nos últimos dois anos tenho mudado tantos conceitos que para mim pareciam definitivos, que até mesmo eu ainda estou (re)aprendendo a me conhecer de verdade.

E aí que me choca a ideia de que, quando nem eu mesma acho que me conheço o suficiente, saber que existe um Deus que me conhece íntima e profundamente, de um jeito que nenhum outro ser respirante é capaz de me conhecer. Parece meio louco quando tentamos racionalizar isso, não? Mas venho experimentando isso recentemente de tantas maneiras, que não consigo sequer contá-las sem me perder – espaço livre para inserir aqui sua piada sobre a pessoa ser de humanas e blá blá blá.

Não posso contar tudo o que vem acontecendo aqui dentro porque não quero atrapalhar a ordem natural (ou sobrenatural, melhor dizendo) dos acontecimentos, mas lhes asseguro que não é coisa pouca. Minhas certezas têm mudado bastante, os meus planos são quase que completamente outros agora; e mesmo sobre outras coisas que eu pensava já não querer, não posso mais afirmar que ainda me sinto tão resistente como outrora.

No meio de todo esse processo, mais que uma vez já me peguei dando explicações sobre coisas que achavam que eu queria ou então que eu era, situações muito desconexas da minha realidade. E por incrível que pareça, eu não me incomodei em fazer esses esclarecimentos simplesmente porque me apetece a ideia de que as pessoas à minha volta saibam como sou: carne, osso e alguns probleminhas. Gente como a gente, não sou nenhuma personagem de romance de época, a mocinha da novela das seis ou qualquer coisa do tipo.

Há algum tempo eu estava lendo o livro de Gênesis, e encontrei algo que me chamou a atenção:

1 Ora, Sarai, mulher de Abrão, não lhe dera nenhum filho. Como tinha uma serva egípcia, chamada Hagar, 2 disse a Abrão: “Já que o Senhor me impediu de ter filhos, possua a minha serva; talvez eu possa formar família por meio dela”. Abrão atendeu à proposta de Sarai.

3 Quando isso aconteceu, já fazia dez anos que Abrão, seu marido, vivia em Canaã. Foi nessa ocasião que Sarai, sua mulher, entregou sua serva egípcia Hagar. 4 Ele possuiu Hagar, e ela engravidou.

5 Quando se viu grávida, começou a olhar com desprezo para a sua senhora. Então Sarai disse a Abrão: “Caia sobre você a afronta que venho sofrendo. Coloquei minha serva em seus braços e, agora que ela sabe que engravidou, despreza-me. Que o Senhor seja o juiz entre mim e você”.
6 Respondeu Abrão a Sarai: “Sua serva está em suas mãos. Faça com ela o que achar melhor”. Então Sarai tanto maltratou Hagar que esta acabou fugindo.

7 O Anjo do Senhor encontrou Hagar perto de uma fonte no deserto, no caminho de Sur, 8 e perguntou-lhe: “Hagar, serva de Sarai, de onde você vem? Para onde vai?”
Respondeu ela: “Estou fugindo de Sarai, a minha senhora”.
9 Disse-lhe então o Anjo do Senhor: “Volte à sua senhora e sujeite-se a ela”. 10 Disse mais o anjo: “Multiplicarei tanto os seus descendentes que ninguém os poderá contar”.
11 Disse-lhe ainda o Anjo do Senhor: “Você está grávida e terá um filho, e lhe dará o nome de Ismael, porque o Senhor a ouviu em seu sofrimento. 12 Ele será como jumento selvagem; sua mão será contra todos, e a mão de todos contra ele, e ele viverá em hostilidade contra todos os seus irmãos”.

13 Este foi o nome que ela deu ao Senhor que lhe havia falado: “Tu és o Deus que me vê”, pois dissera: “Teria eu visto Aquele que me vê? “

Gênesis 16:1-13, NVI

Vou tentar fazer um resumo para quem não conhece essa história. Basicamente, foi o seguinte:

Deus tinha prometido a Abraão que ele seria pai de multidões e que os seus descendentes seriam tantos quanto as areias do mar, impossíveis de se contar, o que sabemos que, a julgar pelo tanto de judeus que existem, de fato a promessa se cumpriu. Só que, antes que isso acontecesse, a mulher dele, que na época ainda se chamava Sarai, era estéril. E aí que parece meio difícil ser pai de multidões quando não se consegue ter nem mesmo um único filho, não?

Essa história me chama a atenção de muitas maneiras. Primeiro porque, diante da impossibilidade de gerar um filho, Sara ofereceu a sua empregada ao marido para que ele pudesse gerar um filho através da empregada. Acontece que eu não conheço nenhuma mulher tão abnegada assim, tão pronta a usar a uma barriga de aluguel sem nem recorrer a uma inseminação artificial nem nada… Definitivamente não é o tipo de coisa que eu faria. Mas, considerando o contexto histórico-cultural daquela época, a desonra de não poder gerar filhos era tão grande que ela preferiu permitir que o marido engravidasse outra mulher – e não vou nem comentar sobre a facilidade com que Abrão teve em aceitar o plano da esposa tão prontamente.

E é aí que surge Hagar, uma mulher tão curiosa que até então nem sequer havia sido mencionada. Apesar de ser descrita como serva, e mesmo sem saber se minha teoria é válida ou não, eu costumo imaginar Hagar como sendo uma escrava. Porque tanto Sarai como Abrão se referem a ela como a um objeto sujeito a qualquer uma de suas decisões, logo não consigo enxergar nela qualquer grau mínimo de autonomia. Hagar era uma posse de sua senhora, e quem sabe tenha visto nesse plano a chance de alcançar a sua tão sonhada liberdade. Afinal, se ela gerasse um herdeiro, por que não poderia ela mesmo se tornar a senhora? A humilhada seria exaltada, e seus dias de luta teriam um fim.

Outra coisa que eu imagino quando leio esse trecho é que, apesar de ser escrava ou qualquer coisa perto disso, prática que infelizmente era comum naquela época, Hagar não devia ter tanta coisa assim para reclamar. Primeiro porque, para bolar um plano tão maluco assim, Sarai devia no mínimo ter muita confiança nela; por si só o plano já era arriscado demais (tão arriscado que nesse trecho já mostrou não ter dado muito certo, o que só se confirmou mais pra frente e até os dias de hoje, não é mesmo?), tanto mais seria dando tamanha ousadia a uma louca que não fosse de sua confiança. E segundo porque, Sara foi queixar-se da serva até que o marido lhe desse permissão para atormentá-la e se vingar; o que me leva a concluir que até então as duas não tinham nenhum grave problema de relacionamento – tantos anos lendo romances policiais me deixaram com mania de escrever assim, quase uma Xeroque Rolmes da vida.

Ou seja, o quadro de Hagar era o seguinte: duas vezes traidora de sua senhora. Duas vezes, sim. Alguém poderia dizer “Mas foi Sarai quem teve essa ideia idiota”, porque sim, foi uma ideia muito idiota mesmo; mas em momento algum há aqui se vê aqui o menor traço de intenção da serva em contrariá-la, certo? Hagar se aproveitou do desespero da esposa para se beneficiar. E não satisfeita com todos os benefícios que já receberia por ser mãe de um herdeiro, ainda virou-se contra aquela que foi a primeira a ajudá-la. Se isso não é traição dupla, não sei o que mais seria.

Acontece que eu vejo em Hagar um sinal que mesmo no princípio já começava a apontar para a Graça. Reparem que o anjo não aprovou em nada a sua conduta, mas ainda assim se preocupou com ela, com sua jornada e seu destino. Ele a aconselhou, lhe apontou uma direção e ainda fez uma promessa que alcançaria a sua posteridade; promessa esta que se cumpriu e deu origem ao povo árabe. Alguém pode até argumentar que nem tudo na promessa eram flores, mas ainda assim me parece bem mais do que ela merecia.

Hagar conhecia melhor que ninguém as suas mazelas, talvez ela tenha fugido no primeiro sinal de pressão por ver-se como indigna diante dos meios que tinha usado para atingir os seus objetivos. E qual de nós também já não se sentiu indigno por conta de seus atos, das nossas vergonhas escondidas que a maioria das pessoas não conhece? Pelo menos nesse aspecto, Hagar não me parece muito diferente de nenhum de nós. Ela foi descoberta, em um instante deparou-se com quem era capaz de desnudar sua alma por completo (v. 13). E obviamente esse encontro a deixou com vários pontos de interrogação, não tinha jeito de passar despercebido.

Sabe, na última vez que eu li esse texto me senti um pouco como Hagar. Não me vejo concordando com um plano tão maluco quanto o delas, mas acho que a Graça desperta esse estado em qualquer ser humano, essa total nudez de alma seguida por favor imerecido. Porque ainda que poucos me conheçam direito, Ele me vê: Ele sabe quantas vezes já me peguei lutando contra o orgulho, e quantas nem sequer tentei lutar. Sabe o que me enfurece, o que me entristece e o que me move, assim como o que faz meus olhos brilharem. Ele me enxerga muito além da minha cara de boazinha, sabe bem o que há de pior em mim; conhece todos os meus medos, e não satisfeito em apenas me tirar aos poucos cada um deles, todos os dias me concede uma chance de melhorar. E olha que melhorar não é coisa fácil, exige paciência – Ele só pode ter mesmo muita paciência para não me largar.

Para finalizar esse texto antes de dormir, quero compartilhar uma coisa que descobri no ano passado quando uma amiga e eu decidimos participar da conferência Pink Punch. O Rodolfo Abrantes é um dos caras que eu mais admiro hoje, e ele faz parte da minha vida praticamente desde que eu tinha uns seis pra sete anos de idade e não fazia a menor ideia do que as letras dos Raimundos significavam. Enfim, ele estava lá nessa conferência para jovens moças, e logo no primeiro dia já falou que nem sabia direito o que dizer porque nunca tinha pregado para tanta mulher junta; mas aí, no dia seguinte, sua esposa lhe lembrou que aquela já era a segunda vez que isso acontecia, e na primeira vez que ele estava ministrando para mulheres surgiu o espontâneo de Isaías 9: em uma penitenciária feminina.

“Ninguém me toca como Você,
Ninguém me vê como Você me vê;
Faz brilhar Teu rosto sobre mim.”

E tá que mesmo antes de saber isso essas palavras já tinham um significado muito forte para mim, mas hoje eu não consigo pensar nelas sem meus olhos lacrimejarem ao imaginar a história de vida daquelas mulheres que ouviram a melodia pela primeira vez, a bagagem que elas devem ter e como se sentiram ao ouvir isso.

É uma sensação tão intensa que eu não me sinto minimamente capaz de descrever. É graça sobre graça, e eu não tenho mais nada a dizer.

Caso não conheçam a música que falei:

Até!

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Minha justiça não vale nada

Cristianismo, Reflexões

Oi! Preciso avisar vocês que esse blog passará por algumas mudanças.

Acontece que, apesar de já ter postado alguns estudos bíblicos e coisas semelhantes aqui, por ser um blog pessoal, eles nunca foram muito constantes – e isso vai mudar um pouco a partir de agora.

Na verdade, até pensei em criar um outro blog, para as coisas não ficarem muito misturadas e confusas. Mas, embora não pareça, criar um blog dá trabalho, sabia? É preciso pensar em nomes novos e tantos outros detalhes que não surgem simplesmente de uma hora pra outra, além de conciliar dois blogs com as matérias restantes da faculdade, estágio, cursos, projetos pessoais etc. Se eu fosse levar todas essas coisas em conta e criar um novo endereço mesmo assim, precisaria no mínimo de uns dois meses para me organizar, e isso atrapalharia a urgência que eu venho sentindo em compartilhar algumas coisas.

Isso não quer dizer, entretanto, que vou parar de escrever crônicas e textos sobre assuntos diversos. Só que num primeiro momento isso se tornará secundário, mas com um tempo as coisas vão acabar se alinhando. Pelo menos é essa a minha expectativa.

Ainda não sei bem como definir a categoria desse texto que estou escrevendo, mas pode-se dizer que ele serve como uma introdução para todos os temas semelhantes que serão tratados daqui para frente. E acho que chega de avisos por enquanto.

Indo direto ao assunto, nessa semana estive pensando bastante em umas coisas que costumo ouvir, e é justamente sobre isso que quero falar. Acredito que já falei aqui um pouco sobre minha vida em alguns textos, sobre a minha experiência de ter nascido em um lar cristão, ter me desviado aos quatorze anos e só ter me fixado novamente em uma igreja local quando já tinha dezessete (falei, não?).

O que eu não contei ainda é que nesse período que andei afastada minha vida não era tão interessante quanto as pessoas costumam imaginar, nada que fosse do tipo ‘sexo, drogas e rock’n’roll’, ou parecido com isso. Na verdade, eu sempre tive fama ser a “certinha” dentre as minhas amigas, nerd, a mais ajuizada, decidida, pé no chão etc. Tanto que quando me converti várias pessoas me disseram “Por que? Você nem precisa” e outros discursos semelhantes.

Domingo agora, conversando com uma de minhas melhores amigas, voltei a ouvir esse mesmo discurso, coisa que há anos não acontecia. E durante toda a semana isso não me saiu da cabeça.

Acontece que eu, que me conheço melhor que todas essas pessoas queridas, não penso que eu era TÃO boa assim como eles tendem a acreditar. Eu era rancorosa, não sabia perdoar. Orgulhosa. Infeliz. E vingativa também. Às vezes ficava meio difícil de distinguir o que fazia parte da minha imaginação e o que era realmente verdade, e outras vezes eu era meio estressada, quase grossa; e obviamente estava sempre certa também, as outras pessoas nunca tinham razão… Sinceramente, acho que se fosse para cavar todas as qualidades ruins que eu tinha e as outras pessoas não viam, me faltariam palavras para descrever com exatidão.

Sendo mais sincera ainda, continuo descobrindo coisas em que eu preciso melhorar quase todos os dias – e digo quase não porque nos outros dias eu me julgue perfeita, mas sim porque muito provavelmente deixo algum defeito passar batido. Sabe como é, a gente tende a ser muito compassivo conosco, o problema está sempre nos outros…

O que quero dizer é que, há aproximadamente sete anos, descobri que minha justiça não valia muita coisa; e mesmo hoje não continua valendo. A verdade é que muito me choca quando vejo pessoas supostamente cristãs se autoproclamando “merecedoras” da salvação em um mundo onde todas as demais pessoas têm todos os motivos para arder eternamente no inferno, porque a mensagem da cruz me mostra claramente que ninguém merece coisa alguma, exceto arder eternamente no inferno (TODOS, sem exceção); e aí surge uma coisa inexplicável, incompreensível, chamada Graça, que oferece à todas as pessoas justamente o contrário do que elas mereciam receber.

É de se dar um nó na cabeça, não?

Eu sei que é sim. Mas é fundamental, é a base de tudo o que vivo e acredito. E as demais coisas vou explicando depois.

Graça, e nada mais

Cristianismo

Já tem alguns meses que senti de escrever sobre este tema, mas estava começando a ficar apertada com as últimas pesquisas da faculdade e a entrar na neura das provas finais, por isso adiei tanto. Julguei ser mais prudente procurar mais referências vindas de pessoas muito mais experientes que eu, como escritores e teólogos renomados, mas no fim das contas achei que seria muito mais sincero escrever sobre a minha própria experiência, ainda que por vezes a ache tão confusa, do que escrever em cima de empirismos alheios.

Antes que eu prossiga, preciso fazer três constatações para que qualquer pessoa que se aventure a ler minhas palavras reflita se há vale mesmo a pena ou não: 1. Não sou nenhuma especialista em Teologia, me julgo a mais leiga dentre os leigos; 2. Em tudo que até hoje li, conheci e descobri sobre o Deus das Escrituras, nada jamais me intrigou tanto quanto o conceito de Graça; e 3. Também não existe nenhum outro tema que me maravilhe tanto quanto a Graça, e é justamente este o motivo (o único) de eu ter resolvido me atrever a escrever o texto em questão. Posto isto, prossigo.

Há algumas semanas, não sei quantas ao certo, venho compartilhando com as meninas do pequeno grupo que temos aqui em casa que são muito estranhos os dias que vivemos, principalmente no meio cristão. Porque muitas vezes eu mesma tenho a impressão de que deixamos passar, por qualquer motivo incompreensível e descartável, o real significado da Graça; e fico aqui pensando com meus botões que se mesmo eu tenho essa impressão, quanto mais aqueles que jamais sequer souberam a dimensão desse favor imerecido.

Falo isso porque ouço e vejo coisas totalmente vazias da essência da Graça, e quanto mais percebo isso, maior é o meu medo de tratá-la do mesmo modo que a vejo sendo tratada. E não sei quantas vezes, inconscientemente ou não, posso ter caído no mesmo erro sem querer ou perceber. Escrevo isso não só como uma maneira de analisar, mas também memorizar o que venho descobrindo para não correr o risco de agir assim.

Quase todos os dias quando ando por minha rua, seja indo em direção ao ponto de ônibus ou descendo para reuniões no próprio templo, sou abordada por algumas mulheres me oferecendo papeis e querendo conversar sobre Deus comigo. Minhas respostas geralmente variam entre “Moça, eu preciso correr para não me atrasar” e “Já faço parte de uma igreja, obrigada”, e quando respondo esta segunda principalmente, mais que uma vez fui encarada com um arquear de sobrancelhas e olhares que ao mesmo tempo divergem entre um julgamento seguido por soberba. E não pretendo, de maneira alguma, dizer qual denominação está certa sobre isso ou aquilo, mas na minha cabeça não me parece aceitável que a minha calça jeans, o meu corte de cabelo despontado ou a cor do meu batom me tornem menos cristã que pessoa alguma. Não que eu me sinta dona da razão, pelo contrário, quanto mais me conheço mais descubro quantas falhas no meu caráter ainda precisam ser tratadas e mudadas; e saber destas mesmas falhas me leva a pensar que eu deveria ser julgada por coisas mais sérias e importantes que a maneira como me visto.

Sei que, dada a diversidade de pensamento no meio cristão (outra coisa que para mim também parece incompreensível desde que Jesus orou pedindo para que fossemos um, mas…), muita gente pode discordar de mim quanto ao que foi dito no parágrafo anterior, mas não propositalmente eu li uma coisa muito interessante e oportuna que o próprio Jesus disse a respeito enquanto fazia a minha devocional de madrugada, e prefiro considerar a opinião dEle que a de qualquer outra pessoa, então… Guardo-me apenas o direito de compartilhar o que Ele mesmo disse a esse respeito, e que cada um lendo isso sinta-se no direito de pensar o  que quiser:

            “Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês dão o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas têm negligenciado os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Vocês devem praticar estas coisas, sem omitir aquelas. Guias cegos! Vocês coam um mosquito e engolem um camelo.
            “Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês limpam o exterior do copo e do prato, mas por dentro eles estão cheios de ganância e cobiça. Fariseu cego! Limpe primeiro o interior do copo e do prato, para que o exterior também fique limpo.
            “Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês são como sepulcros caiados: bonitos por fora, mas por dentro estão cheios de ossos e todo tipo de imundície. Assim são vocês: por fora parecem justos ao povo, mas por dentro estão cheios de hipocrisia e maldade.

Mateus 23:24-28, NVI


“Mas, Geórgia, o que você disse não faz o menor sentido porque foi algo direcionado aos fariseus que viviam debaixo da Lei e não da Graça, e não é este o nosso caso”, sei que esta é uma das possibilidades de interpretar todo o capítulo de Mateus 23, mas não é o jeito como eu entendo o que está escrito. Primeiro porque já aprendi que todas as coisas escritas no conjunto de livros que chamamos de Bíblia foram escritas para o meu ensino pessoal (Romanos 15:4), e portanto não posso tratar nenhum versículo sequer como algo direcionado a qualquer outra pessoa do planeta que eu mesma não precise não só aprender como também me lembrar constantemente e praticar; e outra coisa que não consigo ignorar é que tanto os fariseus quanto os mestres da lei eram vistos como aqueles que detinham mais conhecimento sobre Deus que as pessoas em geral, fato que também se aplica a nós como cristãos hoje em dia, ou no mínimo explica muito da maneira cheia de expectativas como costumo ser tratada; e ainda não falei sobre os três pontos que entendo como o maior destaque do versículo 23: a justiça, a misericórdia e a fidelidade, e como pelo menos eu me sinto tão falha e precise aprender ainda muito dos três. Tendo essas três coisas anteriores como base, não consigo concluir outra coisa senão que Jesus dá muito maior importância ao que realmente somos do que aquilo que as pessoas pensam ver em nós, e isso me leva a questionar como e por quê deixamos que outras pessoas pensem que algo tão maravilhoso como a Graça poderia se resumir apenas a roupas, costumes e ritos.

Eu tenho uma mania de ficar caçando bandas interessantes no cenário indie, coisa que até hoje não consegui abrir mão, e foi fazendo isso que descobri a After Edmund no sábado. E eles têm uma música no último álbum, de 2013, que desde então não me sai da cabeça. Procurei um link no Youtube para colocar aqui e facilitar, mas só achei no Spotify. Não acho que Superhuman sirva como tentativa de ilustrar a Graça em si, mas seu refrão vale como uma percepção que todo ser humano devia ter acerca de si mesmo: “I ain’t no superhuman fighting evil away, I ain’t no superhuman saving the day. I wish I was bulletproof ‘cause everything’s breaking through”. Porque para mim seria impossível acreditar em qualquer coisa diferente disso.

Ainda não tinha ouvido essa música no dia em que fiz 22, há exatamente uma semana, mas achei que ela descreve melhor do que eu poderia tentar o jeito que me senti ao ler de gente querida, amada e muito bem intencionada coisas como “Que Deus te abençoe muito, porque você é merecedora” e etc. E não, gente, eu não mereço nada não. Mesmo. Sei muito bem onde meu calo aperta, todos os meus erros e defeitos, e qualquer coisa boa que tenha acontecido ou seja visível em minha vida é pura Graça de Deus, e nada mais. Acho muito engraçado quando ouço alguém dizer que não consegue me imaginar nervosa ou coisas do tipo, porque é claro que eu também fico nervosa, também sou um saco quando estou de TPM e infelizmente às vezes me pego fazendo coisas das quais me arrependo, muitas vezes aliás.

E por falar em música, a minha maior referência do real significado de Graça foi composta por um homem que gastou parte de sua vida fazendo o que é injustificável a qualquer ser humano, o que não poderia ser racionalmente explicado por nenhum um outro motivo, seja o lucro ou sei lá quais outras razões, e diante de tudo isso disse: “Minha memória já quase se foi, mas eu recordo duas coisas: que eu sou um grande pecador, e que Cristo é meu grande salvador!”. Acho muito interessante a história de John Newton, o homem que compôs Amazing Grace (vocês podem lê-la aqui), e o que mais me chama a atenção é a percepção que ele tinha de si, visível quando na conhecida letra ele diz “That saved a wretch like me”. ‘Wretch’ é uma palavra que poderia ser traduzida por patife, vilão, vil, canalha, miserável, infeliz, coitado ou desgraçado. Newton sabia que não lhe faltariam adjetivos para descrever o por quê de não merecer nenhum favor de Deus, e sabendo disso não lhe restou outra coisa senão contemplar a dimensão e a magnitude da Graça de Deus sobre sua vida.

A boa notícia é que ninguém precisa experimentar ser um traficante de escravos para descobrir isso. Não que isso torne ninguém mais ou menos digno diante de Deus por causa disso ou aquilo, porque entendo que a Graça é justamente contrária a qualquer conceito proveniente de meritocracia humana, e talvez por isso não a compreendamos perfeitamente; mas esta incompreensão não é motivo suficiente para desprezá-la. Foi lendo O Peso de Glória, apesar de não me recordar em qual dos sermões, que vi o C.S. Lewis me ensinar do melhor jeito a diferença clara entre o perdão e a desculpa. Sei que não vou me lembrar as palavras exatas dele, mas disse algo sobre a desculpa ser todo e qualquer motivo (verdadeiro ou não) que pode nos levar a cometer aquilo que não queremos, e que Deus, em sua Onisciência, conhece melhor que nós mesmos todas as nossas desculpas. Mas o perdão é muito superior a isso, se aplica aqueles erros injustificáveis, sem nenhuma explicação plausível onde nada causam além de mágoa e decepção. E quanto mais percebemos  que muitas das nossas falhas são indesculpáveis, maior deve ser também a percepção da nossa dependência de perdão, tanto de Deus quanto dos homens.

E não é nada fácil chegar a esta conclusão, porque saber admitir os nossos pecados e erros doi, e não doi pouco. Reconhecer a nossa falibilidade e compreender que não nos basta o nosso próprio jeito é esvaziar-se ao extremo, e é impossível viver isto na prática sem nos despirmos de todas as nossas eventuais desculpas. A respeito disso, no livro que estou lendo agora, O Problema do Sofrimento, outra vez C.S. Lewis diz:

Por que os homens precisam de tanta alteração? A resposta cristã – de que usamos nosso livre-arbítrio para nos tornar excessivamente maus – é tão conhecida que praticamente não precisa ser expressa. Fazer, porém, com que esta doutrina ganhe vida real na mente do homem moderno, e até mesmo dos modernos cristãos, é muito difícil.
Quando os apóstolos pregavam, eles podiam supor como certa, mesmo em seus ouvintes pagãos, uma percepção real do fato de merecerem a ira divina. Os mistérios pagãos existiam para acalmar este sentimento, e a filosofia de Epicuro alegava livrar os homens do medo do castigo eterno. Foi contra este pano de fundo que o Evangelho surgiu como boas notícias. Ele trouxe notícias de uma possível cura para os homens que sabiam achar-se mortalmente enfermos. Mas tudo isto mudou. O cristianismo tem agora de pregar o diagnóstico – que é por si mesmo péssima notícia – antes de ganhar a atenção dos ouvintes para ensinar-lhes a cura.

E sim, assim como o autor, eu acredito que há uma cura, cura esta presente na Graça que não poderia ser melhor manifestada de nenhum outro jeito senão na Cruz. Porque se não fosse esse o fundamento da minha fé, eu não seria cristã. Tampouco sou cristã por me achar boazinha ou melhor que alguém devido ao meu comportamento ou minhas atitudes, porque viver acreditando nisso seria desprezar a Graça que me salvou apesar toda a sujeira que eu melhor que ninguém sei a meu respeito (Ef 2:8), assim como achar que mediante quaisquer atos alguém se tornasse aceito diante de Deus (Sl 14:1-3; Sl 53:1-3; Ec 7:20, Rm 3:9-20).

A Graça é maravilhosa por me libertar de toda a religiosidade, legalismo e principalmente o risco de permitir que minha vida seja baseada apenas na opinião de alguém tão mísera e cheia de falhas quanto eu.