Perfeição, seres míticos e outros pensamentos

Cristianismo, Textos

Olá! Tudo bem com vocês?

Sei que faz tempo que eu não apareço por aqui, mas não, eu não parei de escrever nem nada (nunca paro, aliás), só ando focada em outros projetos. Um desses projetos, inclusive, é o canal que estou criando no YouTube para falar sobre as minhas leituras e espero compartilhar em breve, que também é a razão de eu nunca ter concluído a série que planejava fazer sobre a Jane Austen – vou acabar fazendo isso por lá. E ainda tem outras coisas que não consigo e nem quero detalhar perfeitamente aqui, quero fazer muita coisa ao mesmo tempo e consequentemente ando meio que negligenciando o blog; mas sempre que eu julgar necessário continuarei vindo aqui e usando este espacinho que construí.

E hoje, dia 06 de março, quero falar sobre uma coisa que tem me incomodado muito, mas muito mesmo, ultimamente. Acho que eu nunca tinha pensado com tamanha clareza sobre isso e por esse motivo não tinha me incomodado tanto, mas agora que penso e vejo me sinto tão brava que não consigo pensar ou falar sobre outra coisa com o meu círculo mais próximo de amizade; ou seja, é esse incômodo me leva a vir aqui e falar sobre, a despeito de quão mal interpretada eu possa ser – ainda que sinceramente eu espere que vocês consigam compreender perfeitamente o que quero dizer, mas estou ciente de que mesmo assim é um risco e estou disposta a correr porque julgo ser extremamente necessário.

Há alguns anos, acho que em 2016 para ser mais precisa, escrevi aqui um texto falando sobre este mesmo assunto que vou abordar hoje. E enquanto o relia agora percebi vários erros de revisão para serem corrigidos assim que eu tiver um tempinho extra, mas caso você decida lê-lo e ver como eu encarava isso antes, estou aqui colocando o link. Só que também percebi agora que não falei realmente sobre tudo o que realmente continua me incomodando até hoje e dissertei mais sobre a coisa toda de um ponto de vista meramente estético que não pretendo explanar hoje; assim como também não tenho mais a pretensão de ser amena com nada do que me está engasgado na garganta.

Porém, quero retomar uma questão que levantei nesse texto anterior: Quando você me olha, o que vê? E note que também estou trazendo de volta a mesma concepção de ver como mero ato biológico e olhar como um exercício que requer mais atenção.

Feita de barro

Acontece que, desses anos para cá cheguei à conclusão que muita gente que pensa que me conhece não me olha, mas apenas me vê; ou mesmo quando pensam que me olham estão mais concentrados na projeção que em suas mentes fizeram de mim do que naquilo que é de fato a verdade. E me desculpe, mas, sinceramente? Eu não quero ser grossa nem nada, mas também quero ajudar a entender que, se você é uma dessas pessoas que têm uma visão muito idealizada de mim, a culpa é sua e não minha; e dizer que você precisa urgentemente parar de fazer isso, não só comigo, mas com todo ser humano por que não é nada saudável.

Eu conheço muita gente, e não estou falando isso para me gabar, mas porque mudei até que muito de casa e escola, fiz vários cursos, amizades que fiz pela internet e mantenho até hoje, pessoas de períodos e cursos diversos com quem eu falava na faculdade, trabalho etc. E mesmo com esse tanto de conhecidos, não me sinto amiga mesmo de muita gente. Penso, inclusive, que eu preferia conhecer menos pessoas e que elas fossem mais próximas a ter de lidar com todas as expectativas alheias que vez ou outra vejo pessoas que não são próximas de mim expressando. E entenda que não estou me fechando para pessoas novas nem nada assim, MAS quero deixar bem claro que, caso vocês me conheçam ou queiram se aproximar de mim daqui para a frente, só gosto de ficar perto de gente que me aprecia pelo modo como realmente sou, e não por como acham ou esperam que eu seja.

O que mais me estranha e ao mesmo tempo me irrita é que isso parece algo óbvio demais para precisar ser dito, mas que se fosse tão óbvio assim eu não estaria aqui perdendo meu tempo escrevendo um textão/desabafo que passa longe de ser a coisa mais agradável que já escrevi, sabe?

A maioria das pessoas que me conhece de lugares diversos sabe que eu sou cristã protestante e que não tenho nenhuma vergonha de assumir isso, e nunca encarei minha crença e modo de vida como pretexto para fazer acepção de ou não falar com pessoas que pensam diferente de mim nem nada. É verdade que o meu círculo mais próximo de amizade também pensa e sente as coisas quase sempre do mesmo modo que eu, mas às vezes tenho a impressão de que pessoas que trabalhavam comigo diariamente me conhecem muito mais do que muitas pessoas que pensam que me conhecem e acham que supostamente sabem tudo da minha vida.

Eu ando muito cansada de me ver explicando constantemente pras pessoas que eu não sou TÃO diferente assim como pensam que sou. Não estou dizendo que não gosto de tratar as coisas com seriedade porque acho que isso é muito importante sim, mas não quero ver mais ninguém me atribuindo um modelo de perfeição que não existe. E sério, mais de uma vez eu ouvi pessoas me falando coisas como “Geórgia não brinca, Geórgia nunca fica brava, Geórgia não dança, Geórgia não faz isso ou aquilo”, sendo que pelo amor do bom Deus, gente! Geórgia pode ser meio doida ao ponto de gostar de ler, estudar e vez ou outra ouvir uma música clássica sim, mas a Geórgia é uma pessoa normal como qualquer outra e faz as mesmas coisas que todas as pessoas fazem – ou quase todas, pelo menos.

Ontem eu estava conversando com um amigo meu, que costumamos nos considerar como irmãos sem nenhum outro tipo de interesse, e falando que uma das coisas que fazem eu me sentir bem perto dele é justamente o fato de ele me enxergar e me tratar como uma pessoa normal que pode ter algumas qualidades sim, mas que também é cheia de defeitos e coisas que precisam ser trabalhadas como qualquer outra pessoa; e algumas outras coisas estranhas que não precisam ser alteradas também. E enquanto a gente falava sobre isso eu meio que fui lembrando que nem sempre foi assim, porque quando nós dois começamos a conversar mais, eu falava algumas coisas e ele respondia algo como “Não acredito que você faz isso, agora estou tendo que reconstruir toda a imagem que eu tinha de você”; sendo que as coisas que eu falava que fazia eram do tipo “Fiquei feliz com alguma coisa; corri para casa, fechei as portas e fiz minha dancinha da vitória ridícula que não mostro para ninguém” ou mesmo entender as minhas ironias, coisa que eu faço direto mas quase todas as vezes tenho que explicar que estou brincando – porque vocês sabem, é claro, que Geórgia não faz essas coisas.

Mas vem cá e me explica aqui uma coisa: desde quando uma pessoa não pode brincar com alguma coisa ou dançar só porque é “séria” e a consideram inteligente? Uma coisa que eu sempre digo tanto para esse amigo específico quanto para meus outros amigos que são mais próximos é que nem eu mesma me suportaria se fosse desta espécie de seres míticos e angelicais que a maioria das pessoas parece pensar que sou o tempo todo. E não estou com isso fazendo apologia aos meus erros e defeitos, mas gente, já passou da hora de sermos realistas: PESSOAS PERFEITAS NÃO EXISTEM, e provavelmente seriam um saco se existissem.

Eu mesma nunca quis ter gente perfeita do meu lado, sempre procurei conhecer e entender os defeitos alheios, e as pessoas que mais aprecio e gosto de ter por perto têm muitas imperfeições, assim como também tenho as minhas. Nunca esperei nada diferente disso, e se possível, daqui para a frente gostaria que ninguém esperasse coisa diferente de mim também.

Excelente, talvez. Perfeita, não!

Neste carnaval eu fui acampar com os jovens de minha igreja, como em todos os últimos nove anos, e o tema deste ano foi “Excelentes”; e gostei muito porque abordou uns pontos que sempre venho remoendo comigo há muito tempo. E tem umas coisas dentro desse tema que eu sempre carrego comigo, e enquanto conversava com a minha mãe hoje fiquei pensando que talvez elas poderiam ser um dos motivos por trás de tantas coisas estranhas que ouço ao meu próprio respeito. E não estou dizendo que as pessoas que façam isso sejam assim por mal nem nada, é só um engano bem enganado mesmo.

Tenho uma outra amiga que me conhece desde que eu tinha… doze anos, penso, então a nossa amizade tem cerca de quatorze anos, e a Bia é uma das pessoas que mais me viu em minhas diferentes fases. Mesmo sendo diferentes em muitas coisas, e a despeito do tempo em que ela morou em Guarulhos, nós continuamos sendo próximas em todos esses anos, e pouca gente me conhece tão bem quanto ela. E um dos motivos que eu acho que contribuem para esta ideia louca que algumas pessoas fazem de mim é o pensamento de que “A Geórgia faz tudo com perfeição”; e sério, eu já escutei isso e a minha reação foi só olhar calada como se a pessoa não soubesse a besteira que estava dizendo.

Acontece que a Geórgia não é essa pessoa doce o tempo todo ou que só acerta em tudo que se propõe a fazer, e a Bia sabe muito bem disso. Mas, ao mesmo tempo, ela também sabe que mesmo quando a gente era adolescente e sem noção nunca fui de levar a vida de uma forma totalmente leviana: sempre gostei de colocar muita dedicação nas coisas que eu fazia, e tenho pra mim que essa mania está intrinsecamente ligada à esta falsa perfeição que gostam de me atribuir. Me lembro que, uma vez, há poucos anos, eu estava almoçando com a família dessa amiga e relembrando as coisas que fazíamos quando mais nova, dando risadas e blá blá blá. Aí não lembro exatamente quem foi que falou isso, mas alguém disse “Mas a Gê sempre foi a mais mente firme das suas amigas, por isso que deu certo na vida. Até quando vocês eram mais novas ela era a menos doidinha”, e nisso o falecido tio dela começou a dizer que sendo assim eu nem precisava “ir para a igreja” então e outras coisas semelhantes; e na hora eu fiquei tão chocada que não consegui explicar que isso passava longe de ser a razão pela qual congrego.

Estava aqui lembrando disso enquanto escrevo e pensando que sim, eu realmente sempre fui dedicada desse jeito desde que me conheço por gente, mas mesmo assim a minha visão era completamente diferente do que é hoje. Antes eu sentia um peso fora do normal buscando uma perfeição que não existe porque me cobrava muito mais que o necessário, pensava que se eu não acertasse as coisas nunca seria good enough. E é verdade que continuo me dedicando muito a quase tudo hoje, mas aquele peso horrível que eu sentia foi embora; não procuro mais fazer bem as coisas para buscar o reconhecimento de outros ou o meu próprio, e me conhecendo como me conheço acredito passar muito longe de qualquer perfeição. Mas sigo tentando dar o meu melhor sempre porque, sinceramente, acredito muito que se for para fazer alguma coisa de qualquer jeito, prefiro nem fazer (e isso não é tão bom ou nobre quanto pode parecer, porque muitas vezes me impede de fazer coisas que eu gostaria e travo por não me sentir capaz).

E tem ainda um outro motivo para eu fazer as coisas do jeito que faço, e confesso que este deveria ser o primeiro e principal motivo (mas é como estou dizendo, não sou nada perfeita): aos meus dezessete anos compreendi que eu devia me dedicar ainda mais a tudo que me propusesse a fazer porque eu não estava fazendo as coisas para outras pessoas, e sim para Deus; e isso é muito mais libertador do que pode parecer, porque apesar de demandar uma dedicação ainda maior, hoje sei muito bem reconhecer os meus limites e me contentar em saber que dei o meu melhor mesmo quando as coisas não saem bem do jeito que espero. E vocês sabem que, infelizmente, nem todo mundo aprendeu a desfrutar dessa liberdade.

Outra amiga minha com quem estive nesses dias de acampamento, a Sah, que inclusive é minha discipuladora, disse que as pessoas tendem a me pintar como esse anjo da Capela Sistina porque prestam atenção demais na maneira como me porto no louvor dos cultos, e eu sei que me entrego mesmo, várias vezes choro; e sendo sincera novamente, eu só sinto que estou mesmo louvando por meio da música quando não consigo pensar em mais nenhuma outra coisa, seja quando estou em casa ou em qualquer outro lugar. Mas isso tampouco me torna perfeita, só se encaixa nessas mesmas duas categorias já ditas de querer fazer as coisas com excelência e fazer tudo como se fosse para Deus. E o engraçado (na verdade é triste e eu tô ficando muito brava com isso) é que às vezes minha mãe me conta que pessoas a procuram nos cultos para falar que me admiram e ela só responde que sou no templo do mesmo jeito que sou em casa, mas ultimamente em vez de me sentir lisonjeada com isso eu passei a me perguntar se de algum modo as pessoas me imaginam só ouvindo e assistindo músicas e coisas que me edificam o tempo todo, como se eu nunca risse por um meme bobo, fosse irônica ou brincasse e só lesse livros de grandes autores conceituados – e perdão se estou ferindo alguma convicção que você possa ter ou coisa assim, mas repito que não acredito na existência de pessoas desse tipo.

Mas quem é esta Geórgia afinal?

Eu passei a maior parte deste texto falando sobre como não sou, então até mesmo para dar uma variada, achei melhor falar um pouco de como sou – mas não vou falar tudo também porque, quem quiser me conhecer mesmo, precisa aprender a conversar comigo em vez de ficar só lendo os meus textos.

De maneira geral, a Geórgia é meio esquisita (completamente esquisita, dependendo do seu ponto de vista). Ela gosta muito de escrever e ler, mas também gosta de passar a tarde rindo com os memes mais idiotas. Quando faz alguma brincadeira ou piada, entretanto, quase nunca é bem compreendida porque tem aquele tipo de humor CQC (na época que ainda prestava). A Geórgia também aprendeu a sambar quando tinha seis anos de idade, mas só samba quando está muito inspirada na zoeira; e um de seus passatempos prediletos é montar coreografias ridículas e secretas para músicas indies, coreografias estas que sai dançando na frente de seu cachorro dia sim, dia não. Ela nunca parou de ouvir John Mayer ou outras músicas seculares, mas passou a aplicar o filtro de Filipenses 4:8 em todo tipo de conteúdo que consome depois que se converteu. A Geórgia também gosta de conversar sobre Política, Economia e outras questões relevantes para a sociedade, mas só com quem consegue entender a aleatoriedade de seus pensamentos e que no segundo seguinte a uma reflexão aparentemente profunda ela pode estar desenterrando alguma musiquinha da Disney ou do Castelo Rá-Tim-Bum, e que isso é um processo incontrolável e automático. Além disso, ela também gosta de ler tanto Machado de Assis quanto graphic novels, e uma coisa não exclui a outra.

A Geórgia também é muito atrapalhada, vive esbarrando em paredes e encontrando hematomas de que nunca consegue se recordar da origem; não gosta de sair se expondo tanto assim para gente que nem conhece direito, e por isso prefere parar de escrever por aqui.

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Satisfação

Cristianismo, Reflexões

Saudações vulcanas!

Acho que acabei dando bem mais que uma semana para vocês absorverem o último conteúdo que compartilhei aqui, certo? Pois vim concluir aquele pensamento pendente. Só que hoje eu não vou usar tantas referências e textos feitos por outras pessoas como na última vez, porque o objetivo é justamente compartilhar aquilo que eu mesma já venho experimentando e sentindo com o Minimalismo.

Primeiro de tudo, acho que já deixei bem claro no texto anterior que procuro manter um pensamento equilibrado sobre tudo o quanto me é possível. Então, não é como se eu tivesse parado com qualquer forma de consumo desde a última vez que escrevi aqui, e se for esse o pensamento de alguém ao me ler, sinto por desapontá-los desde já. Inclusive, não sei se vocês repararam, mas às vezes aparece um calor bem intenso aqui em São Paulo – o que naturalmente significa que precisei comprar mais roupas que me ajudassem a não morrer de calor.

Aí é que está o ponto, perceberam? E é bem sutil: eu precisei comprar roupas mais frescas. Precisar é bem diferente de querer, e não é necessário fazer uma especialização em Marketing para compreender bem quão distintas são essas duas coisas.

Para tudo o que venho consumindo, antes de chegar a uma decisão tenho me feito essa simples pergunta: Será mesmo que eu preciso disso? Parece até bobo dizer uma coisa tão óbvia, mas pensar duas vezes faz mesmo a maior diferença!

Nesse aspecto eu acredito que Cristianismo e Minimalismo têm tudo a ver, sabe? A gente costuma ver tanta coisa estranha na televisão sobre o que supostamente deveria significar Igreja, e essa falsa Teologia da Prosperidade se espalhando por todos os cantos, que não é de se estranhar que incrédulos torçam o nariz ao ouvir qualquer coisa a respeito de Cristianismo. Contudo, como cristãos, é nosso dever fazer com que através de nossas próprias práticas de vida essas mesmas pessoas possam descobrir que nada daquilo que está na TV é verdade, que há uma Essência que há muito foi perdida, e que nós podemos traçar veredas antigas que nos levem de volta para o lugar onde tudo deveria de fato estar.

Essa essência é Jesus e os Seus ensinamentos sobre uma vida simples. O problema é que, como já cantou KT Tunstall, nós somos pássaros com os olhos voltados para qualquer coisa brilhante, e frequentemente precisamos nos lembrar de quem somos e para onde vamos. Se nada aqui é definitivamente duradouro, então qual o sentido de me deixar gastar por aquilo que não permanece?

Eu li nos Evangelhos o que Jesus diz sobre uma vida modesta, e até pensei que já tinha compreendido, assim como o que Paulo disse sobre saber lidar com todas as perdas ou ganhos tendo uma vida sustentada pela Graça. Mas sou humana, complicada, e fora do cotidiano é difícil, senão impossível, compreender plenamente qualquer coisa. Não é como se eu fosse capaz de aprender verdadeiramente isso sem antes sentir na minha própria pele.

Minha vida não é isenta de problemas, tampouco de correria. Na verdade, correria e pressão é o que mais sinto todos os dias, e tem sido mais do que aliviador relembrar que o meu lugar de paz independe de tudo isso.

Eu amo assistir Gilmore Girls, e nos períodos de stress que tive esse ano usei a série como calmante. Mas aí percebi que não queria precisar de uma série de vidas simples para me acalmar, e sim ter uma vida simples que naturalmente transbordasse calma. Seria mentira dizer que vez ou outra não bate um desassossego ou revolta com alguém ou alguma coisa, mas depois de posta a inquietação para fora me vem de volta a desejada calmaria.

Menos luxo significa mais tempo. Há aproximadamente dois meses abri mão do ônibus fretado, do meu travesseirinho de viagem, de um cobertor e de uma mochila grande e pesada. Voltei para o transporte público, para aquele calor humano sempre indesejado. E sabe o que eu encontrei? Paz. Paz para me contentar com um lugar vago no ônibus até a estação de metrô e quando muito uma hora de sono nesse trajeto, bem menos do que outrora eu costumava ter. Paz para aproveitar esse tempo gasto com a distância para pôr as minhas leituras em dia, descobrir músicas novas e desenterrar ideias que há muito estavam esquecidas. Paz para chegar mais cedo em casa, sair ou ficar por aqui mesmo, sair da rodinha do hamster e não apenas lembrar, mas realmente sentir, quão bela e simples a vida pode ser.

Talvez quem me acompanha pelo Instagram tenha percebido um pouco dessa mudança no meu Stories. Eu venho mostrando muita coisa boba do meu cotidiano ali ultimamente e alguns dos meus momentos em casa, não por que eu não goste de sair ou qualquer coisa assim, mas sim porque tenho me alegrado muito em desfrutar de cada um desses momentos singelos; e no mundo infestado de publicidade, na busca pelas melhores poses e ângulos que vemos em todas as nossas redes sociais, acho bom lembrar e mostrar ao mundo que a felicidade também reside, e principalmente reside, nos momentos simples que colecionamos, além da liberdade de ser quem somos.

É na junção dessas coisas bobinhas que venho encontrando mais qualidade de vida e satisfação, e sei que se você tentar pode encontrar também 😉

Até mais!

Eternidade em mim

Insatisfeitos

Reflexões

Hey! E aí?

Vim compartilhar uns dedos de prosa com vocês.

Acredito que eu já tenha falado aqui sobre ter (finalmente) concluído a faculdade em Dezembro, e que por graça apenas já comecei a trabalhar em Janeiro, então vou pular essa parte. O fato é que depois disso muita coisa tem mudado em minha vida, e é justamente sobre isso que quero falar hoje.

Trabalhar é muito bom, em certos aspectos – acho mesmo muito difícil alguém ver a minha pessoa falando que acordar cedo é legal, assim como 99% da população mundial. Mas à medida que as responsabilidades aumentam, assim como as manobras para atender a todas as outras questões da vida, o amadurecimento e a recompen$a também crescem proporcionalmente.

Porém, também sabemos que nem tudo na vida são flores. Além de cansaço físico e mental, eu adquiri dois novos vícios: o capuccino e as compras. Pra ser sincera, eu ainda não sei se adquiri esse segundo vício ou só reacendi algo que julgava estar adormecido.

Me lembro que, quando peguei o meu primeiro salário, pensei algo mais ou menos como: “Tudo bem se eu comprar tudo o que eu quiser esse mês, afinal, já esperei tempo demais para fazer isso”, e quem me conhece de perto sabe que esperei mesmo. Só sei que de repente me vi comprando três bolsas e vários sapatos, tantos sapatos quanto fui capaz de imaginar. E isso sem contar o meu vício de consumo mais antigo: os livros, que foram muitos também.

Mas pensei que no segundo mês eu já estaria mais sóbria, afinal, há tempos tenho planos de economizar uma boa quantia e viajar, mas para a minha surpresa, o segundo mês não foi nada diferente do primeiro.

Já no terceiro mês a necessidade de trocar meu celular se sobressaiu aos meus desejos de trocar de teclado e comprar um ukulele. E mais roupas, e mais livros. O lado bom é que os presentes para os meus amigos se tornaram muito melhores.

Esse ciclo se repetiu por mais um tempo e depois foi evoluindo, eu já estava começando a ficar bem mais ligeira para encontrar os melhores lugares e os melhores preços. Só que essa informação não era tão útil assim, visto que só me capacitava a comprar ainda mais.

Em algum ponto desse processo todo, enquanto procurava o presente para um amigo e segurava o novo par de sapatos que tinha acabado de comprar, percebi que ao contrário do que eu imaginava que seria, aquele poder de compra não tinha aumentado a minha felicidade. Mas se agora eu tinha as coisas que sempre quis ter, de onde vinha tanta insatisfação?

Passei dias me questionando no íntimo sobre isso, e essa inquietação me tornou mais sensível às pessoas que vi à minha volta. Percebi que eu não era a única, e que essa mesma insatisfação também atingia outras pessoas que, com mais tempo e esforço, chegaram a níveis bem mais “elevados” que o meu. E presta atenção nisso porque eu não estou falando de gente pobre e sem esperança na vida não, me refiro à uma classe média bonita e aparentemente cheia de vida – cheia de rolês, popularidade e quase tudo que o status quo costuma desejar.

Em parte, eu meio que fiquei feliz por não ter precisado ir ainda mais longe antes de descobrir essa insatisfação. Eu até costumava pensar vagamente em como a nossa geração é bastante insatisfeita, porque queremos tudo e queremos logo, mas ainda assim não tinha experimentado isso com tanta intensidade.

Você já parou pra realmente se perguntar por que queremos as melhores faculdades e os melhores cursos? Será mesmo que estamos realmente preocupados com a qualidade do conhecimento, ou só com o nome bonito e a impressão que isso causa quando as pessoas nos perguntam? Porque, sinceramente, esse papo de “Conseguir um bom emprego” comigo já não cola mais: fui privilegiada com uma vaga em uma faculdade pública que é muito boa na minha área profissional, mas assim que comecei a trabalhar perdi a conta de quantos profissionais ótimos, e com bons cargos, formados em lugares que pessoas das mais variadas universidades públicas e particulares de renome costumam chamar desrespeitosamente de Uniesquina – e se por acaso você, leitor universitário estadual ou federal, filho da PUC ou Mackenzista, também caiu nesse mito, que é perpetuado até mesmo pelos nossos próprios mestres, sinto dizer que lhe enganaram.

Passei a questionar bastante as minhas escolhas pessoais desde então, e olha que eu sou uma pessoa bem exigente. Será mesmo que 7 ou 8/10 não pode ser bom o bastante algumas vezes, que perfeição inalcançável é essa que a gente tanto procura? Foi me fazendo essas perguntas que comecei a encontrar sentido e afinidade com algumas ideias minimalistas; e apesar desse post ser muito denso e precisar ser dividido em duas partes, quero começar a mostrar um pouco do que tenho pesquisado e pensado sobre isso com vocês.

Em um livro que estou lendo no momento sobre Minimalismo e Cristianismo, e em quê as duas coisas se relacionam, o autor sabiamente diz:

Vivemos no mundo dos excessos, tudo o que fazemos precisa ser grande e intenso. Queremos que tudo seja rápido, fácil e, se possível, em grande quantidade. A modernidade nos trouxe muitas facilidades; mas, com elas, vieram também os excessos.

Precisamos trabalhar mais, para poder ganhar mais dinheiro. Quanto dinheiro ainda precisamos? Não sabemos, mas sempre precisa ser um pouco mais. Precisamos crescer profissionalmente e expandir nossa rede de relacionamentos, se não quisermos ficar fora do mercado. Vivemos debaixo de uma tempestade de informações e interatividade e, para conseguir assimilar tudo o que está a nossa disposição, precisaremos ter aquele aparelho que é o último lançamento em tecnologia digital. Enquanto as opções de entretenimento se multiplicam diante de nós, tentamos encontrar espaço em nossa agenda para todas elas; enquanto isso, ainda comemos compulsivamente tentando conter a ansiedade que aumenta a cada dia.

No fim, já não sabemos mais quantas coisas são necessárias para que possamos nos sentir completos e realizados. Vivemos no que poderíamos chamar de um mundo completamente “over”. O mais interessante é que este estilo de vida caracterizado por intensidade e quantidade não nos trouxe realização. Nos sentimos ansiosos, estressados, com a sensação permanente de que estamos perdendo alguma coisa importante. O “muito” nos prometeu a felicidade, mas não conseguiu entregar. Estamos cada vez mais cansados e não sabemos o que fazer para mudar isso. ¹

¹ BOTELHO, André. Menos é mais – o que Jesus ensinou, mas insistimos em não entender. Lampejos Livreteria, 2017.

E Francine Jay, a Miss Minimalism, autora do best seller Menos é mais, resume a felicidade como querer aquilo que se tem. Ela também afirma que “A publicidade quer que acreditemos que mais coisas significam mais felicidade, mas, na verdade, mais coisas significam mais dor de cabeça e dívidas”.

Mas sabe o que eu acho mesmo engraçado? Tenho conversado sobre isso com os meus amigos mais próximos, e nós concordamos que agora está até na moda reclamar sobre os excessos de nossa sociedade, buscar uma vida mais simples, etc e etc. Inclusive, indico um documentário muito bom que encontrei na Netflix sobre o tema, Minimalism: a documentary about the important things.

Entretanto, enquanto refletia essa semana, me lembrei que todas essas mesmas questões que levantamos hoje já foram feitas há muito, mas muito mesmo, tempo atrás. Eu acredito na existência do Rei Salomão pela minha simples questão de fé no Cristianismo e pelos relatos históricos contados no Antigo Testamento, mas caso você possa ter alguma dúvida quanto a realidade desses fatos, acho válido apenas dizer que arqueólogos e pesquisadores têm encontrado fatos históricos que evidenciam algumas ocorrências que não contrariam o que foi dito na Bíblia (e nesse caso específico me refiro ao quinto item desse link).

Enfim, o que eu quero mesmo dizer é que o Rei Salomão já enfrentou esses mesmos dilemas que a nossa sociedade atual questiona hoje, há muito mais tempo. Tanto que, no livro de Eclesiates, é ele quem diz:

Eu disse a mim mesmo: Venha. Experimente a alegria. Descubra as coisas boas da vida! Mas isso também se revelou inútil. Concluí que o rir é loucura, e a alegria de nada vale. Decidi entregar-me ao vinho e à extravagância, mantendo, porém, a mente orientada pela sabedoria. Eu queria saber o que vale a pena, debaixo do céu, nos poucos dias da vida humana.

Lancei-me a grandes projetos: construí casas e plantei vinhas para mim. Fiz jardins e pomares e neles plantei todo tipo de árvore frutífera. Construí também reservatórios para irrigar os meus bosques verdejantes. Comprei escravos e escravas, e tive escravos que nasceram em minha casa. Além disso, tive também mais bois e ovelhas do que todos os que viveram antes de mim em Jerusalém. Ajuntei para mim prata e ouro, tesouros de reis e províncias. Servi-me de cantores e cantoras, e também de um harém, as delícias dos homens. Tornei-me mais famoso e poderoso do que todos os que viveram em Jerusalém antes de mim, conservando comigo a minha sabedoria.

Não me neguei nada que os meus olhos desejaram; não me recusei a dar prazer algum ao meu coração. Na verdade, eu me alegrei em todo o meu trabalho; essa foi a recompensa de todo o meu esforço.

Contudo, quando avaliei tudo o que as minhas mãos haviam feito e o trabalho que eu tanto me esforçara para realizar, percebi que tudo foi inútil, foi correr atrás do vento; não há nenhum proveito no que se faz debaixo do sol.

Eclesiastes 2:1-11, NVI

Ou seja, não é só a nossa geração que está insatisfeita, o nosso problema é bem mais profundo que isso. E será possível que uma ideia, relativamente recente quando comparada ao problema, seja capaz de resolvê-lo?

Particularmente, acredito que o Minimalismo tem, sim, coisas muito úteis que podemos aplicar em nossa busca de uma vida com maior qualidade. Mas ainda assim, penso que ele por si só não seja o suficiente… Meio que sou uma daquelas pessoas que pesa em tudo aquilo que pode ser considerado, mas com equilíbrio, sabe?

Como assim? Bem, penso que o Minimalismo seja uma boa ideia de organização de espaço, tempo, assim como uma boa maneira de repensar o meu consumo; só que isso não significa que necessariamente que vou largar todas as minhas coisas e emprego agora, e me tornar uma nômade – até porque essa também é uma forma incorreta de interpretar o próprio minimalismo. E é a partir dessa óptica que venho encontrando mais satisfação de vida ao concordar com algumas propostas que essa simplicidade me apresenta, mas esse é um pensamento que eu só vou poder concluir na semana que vem.

Corre atrás do vento – Estêvão Queiroga

Você é tão lindo!

Cristianismo, Reflexões

Sabe quando uma música não quer sair da sua cabeça? Quando você ouve, canta e toca a mesma coisa por dias e dias, ao ponto de sua irmã implorar que você pare porque ela não aguenta mais?

Pois é, eu sei. E há aproximadamente duas semanas Pulsante tem sido essa música para mim.

Sei que já têm textos em outros blogs falando sobre essa música (inclusive, até recomendo a leitura deste aqui), e não tenho a pretensão de copiar nenhum deles. Mas, considerando que meu coração vem sendo bastante confrontado em vários aspectos que se relacionam a essa letra ultimamente, sinto uma necessidade de compartilhar um pouco do que tem significado para mim.

Geralmente algumas pessoas me dizem coisas como “Nossa, você é uma mulher de Deus!”, “Você é uma verdadeira adoradora”, “Quero me parecer mais com você” etc, e eu não estou falando isso para me vangloriar nessas coisas, muito pelo contrário. Eu realmente quero ser tudo isso que acham que sou, mas não me enxergo dessa maneira, porque quando olho bem dentro de mim sei o quanto ainda falho e preciso melhorar – e melhorar muito! Isso é bom porque me dá cada vez mais a consciência de que eu preciso de Deus, e que se houver alguma coisa boa em mim é só por causa Dele.

Quando converso com pessoas na faculdade sobre cristianismo, ou em qualquer outro lugar, percebo que a visão delas sobre o assunto é muito distorcida. Em parte porque a televisão faz isso quando propaga uma teologia da prosperidade, onde Deus está mais para um mordomo subordinado às nossas vontades do que o Criador dos céus e da Terra; e também porque nós, cristãos (ou supostos cristãos), ainda não aprendemos a nos parecer plenamente com Cristo, e isso passa uma visão completamente equivocada de quem Ele é.

A verdade é que Ele é uma pessoa, e não uma religião, portanto o relacionamento com Ele deve constituir a base de nossa fé, e não ritos. E relacionamentos são bem mais complexos, demandam muito mais esforço que quaisquer ritos. É infinitamente mais fácil para qualquer um de nós nos reunirmos aos domingos, com sorrisos estampados nos rostos e vestidos de boas, do que ser de fato cristãos nos demais dias da semana, relembrando e seguindo os passos de Cristo nas mesmas situações que Ele também enfrentou – é claro que, quando digo isso, não me refiro à crucificação literal que nenhum de nós enfrentou (exceto alguns casos atuais em outros países, e outras épocas), mas às situações adversas pelas quais não passaríamos se tivéssemos a chance de escolher.

Perguntei a mim mesma o que significa cristianismo para mim, e apesar de saber que a origem da palavra cristão remete a parecer-se com Cristo, minha resposta pessoal também acrescentaria “paz para a minha alma”. Só que de uma forma bem paradoxal, compreende? Porque nem todos compreendem, e não posso culpá-los.

Paulo, o apóstolo, era um cara que manjava muito sobre muitas coisas. Se o tema fosse religião, então, era provavelmente mais zeloso no cumprimento da Lei que qualquer um de nós; e mesmo assim, um belo dia, seu mundo virou de cabeça para baixo. De repente, tudo aquilo que aprendeu ao longo de sua vida deixou de valer e ele precisou despojar-se disso para abraçar toda uma concepção nova de vida. Esse mesmo dilema vivido por Paulo foi também retratado por Bob Dylan (sim, ele mesmo!) em Gonna change my way of thinking, minha música preferida do primeiro álbum (Slow Train Coming) de sua aproximação com a fé cristã – como alguns sabem, depois de três álbuns ele acabou voltando às suas origens judaicas e desprezando as experiências que teve; mas isso seria um assunto muito longo para adentrar agora.

O fato é que Paulo chegou a brilhante conclusão que “Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios, e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar os fortes” (1Coríntios 6:27, NVI). E eu vejo nesse versículo muito mais que uma frase de efeito: vejo a essência de muitas coisas para as quais não existe uma resposta pronta.

É comum que, ao começar a acreditar em Deus, as pessoas subentendam que, por Ele ser dono de toda a misericórdia e bondade, nunca mais encontrarão problemas na vida. Ou que se fizerem as coisas do jeito certo, e pedirem do jeito certo, Deus é obrigado a cumprir todas as suas vontades – porque afinal de contas, Ele é poderoso para fazer com que qualquer coisa aconteça e “Olha como eu sou um filho bom, cumprindo todas as minhas obrigações religiosas. Por que Deus não me abençoaria?”.

Eu acho que a única pessoa que realmente poderia usar esse discurso com propriedade é Jesus, e mesmo para Ele as coisas não funcionaram desse jeito. Jesus, o Cordeiro Santo que tira o pecado do mundo, orou para que, caso fosse possível, Deus afastasse Dele o sofrimento vindouro; e teve Seu pedido recusado. Porém, no mesmo versículo em que Jesus ora pedindo para não ser crucificado, Ele também abre mão da Sua própria vontade e se rende ao propósito para o qual veio ao mundo (Mt 26:39); e Ele é o mesmo Jesus que disse que aqueles que O quisessem seguir deveriam também negar-se a si mesmos e tomar suas próprias cruzes (Mt 16:24).

Nenhum de nós gosta de tomar a sua própria cruz, porque é desagradável. Porque dói, incomoda e pesa. E é justamente aí que se encontra o paradoxo, é surpreendente que à medida que passo a me render à dor dos pregos de minha própria cruz, encontro paz. O amor não diminui quando sou confrontada, ele cresce; e indo ainda mais adiante, o momento em que mais cresço é quando diminuo – é onde as coisas loucas e fracas que Paulo descreveu começam a fazer algum sentido.

É quando nenhuma lágrima, perda, peso ou dor se comparam à beleza e à paz que não encontro em nenhum lugar fora Dele.

Minha justiça não vale nada

Cristianismo, Reflexões

Oi! Preciso avisar vocês que esse blog passará por algumas mudanças.

Acontece que, apesar de já ter postado alguns estudos bíblicos e coisas semelhantes aqui, por ser um blog pessoal, eles nunca foram muito constantes – e isso vai mudar um pouco a partir de agora.

Na verdade, até pensei em criar um outro blog, para as coisas não ficarem muito misturadas e confusas. Mas, embora não pareça, criar um blog dá trabalho, sabia? É preciso pensar em nomes novos e tantos outros detalhes que não surgem simplesmente de uma hora pra outra, além de conciliar dois blogs com as matérias restantes da faculdade, estágio, cursos, projetos pessoais etc. Se eu fosse levar todas essas coisas em conta e criar um novo endereço mesmo assim, precisaria no mínimo de uns dois meses para me organizar, e isso atrapalharia a urgência que eu venho sentindo em compartilhar algumas coisas.

Isso não quer dizer, entretanto, que vou parar de escrever crônicas e textos sobre assuntos diversos. Só que num primeiro momento isso se tornará secundário, mas com um tempo as coisas vão acabar se alinhando. Pelo menos é essa a minha expectativa.

Ainda não sei bem como definir a categoria desse texto que estou escrevendo, mas pode-se dizer que ele serve como uma introdução para todos os temas semelhantes que serão tratados daqui para frente. E acho que chega de avisos por enquanto.

Indo direto ao assunto, nessa semana estive pensando bastante em umas coisas que costumo ouvir, e é justamente sobre isso que quero falar. Acredito que já falei aqui um pouco sobre minha vida em alguns textos, sobre a minha experiência de ter nascido em um lar cristão, ter me desviado aos quatorze anos e só ter me fixado novamente em uma igreja local quando já tinha dezessete (falei, não?).

O que eu não contei ainda é que nesse período que andei afastada minha vida não era tão interessante quanto as pessoas costumam imaginar, nada que fosse do tipo ‘sexo, drogas e rock’n’roll’, ou parecido com isso. Na verdade, eu sempre tive fama ser a “certinha” dentre as minhas amigas, nerd, a mais ajuizada, decidida, pé no chão etc. Tanto que quando me converti várias pessoas me disseram “Por que? Você nem precisa” e outros discursos semelhantes.

Domingo agora, conversando com uma de minhas melhores amigas, voltei a ouvir esse mesmo discurso, coisa que há anos não acontecia. E durante toda a semana isso não me saiu da cabeça.

Acontece que eu, que me conheço melhor que todas essas pessoas queridas, não penso que eu era TÃO boa assim como eles tendem a acreditar. Eu era rancorosa, não sabia perdoar. Orgulhosa. Infeliz. E vingativa também. Às vezes ficava meio difícil de distinguir o que fazia parte da minha imaginação e o que era realmente verdade, e outras vezes eu era meio estressada, quase grossa; e obviamente estava sempre certa também, as outras pessoas nunca tinham razão… Sinceramente, acho que se fosse para cavar todas as qualidades ruins que eu tinha e as outras pessoas não viam, me faltariam palavras para descrever com exatidão.

Sendo mais sincera ainda, continuo descobrindo coisas em que eu preciso melhorar quase todos os dias – e digo quase não porque nos outros dias eu me julgue perfeita, mas sim porque muito provavelmente deixo algum defeito passar batido. Sabe como é, a gente tende a ser muito compassivo conosco, o problema está sempre nos outros…

O que quero dizer é que, há aproximadamente sete anos, descobri que minha justiça não valia muita coisa; e mesmo hoje não continua valendo. A verdade é que muito me choca quando vejo pessoas supostamente cristãs se autoproclamando “merecedoras” da salvação em um mundo onde todas as demais pessoas têm todos os motivos para arder eternamente no inferno, porque a mensagem da cruz me mostra claramente que ninguém merece coisa alguma, exceto arder eternamente no inferno (TODOS, sem exceção); e aí surge uma coisa inexplicável, incompreensível, chamada Graça, que oferece à todas as pessoas justamente o contrário do que elas mereciam receber.

É de se dar um nó na cabeça, não?

Eu sei que é sim. Mas é fundamental, é a base de tudo o que vivo e acredito. E as demais coisas vou explicando depois.

A primeira pedra

Cristianismo

No finalzinho da tarde de ontem minha mãe veio conversar comigo, bastante chocada, me perguntando se eu já sabia sobre o que haviam feito nesta edição da Parada do Orgulho LGBT aqui em São Paulo, no último domingo. A partir daí tivemos uma conversa um tanto quanto longa em cima desse tema.

Antes de continuar escrevendo, pois sei que este é um tema bem delicado e polêmico, preciso dizer algumas coisas, ainda que isto signifique correr o risco de ser mal compreendida – mas não há outro modo de explicar tudo o que penso sobre o tema, então sim, é necessário. Eu sou cristã, e por isso entendo o porquê de as pessoas se sentirem ofendidas. Não me sinto homofóbica em dizer isso, pelo contrário, tenho vários amigos gays e nenhum deles nunca me criticou de tê-los tratado de alguma maneira ofensiva por causa da minha fé. Cristianismo não é sinônimo de homofobia, ainda que a culpa desse mal entendido seja, em grande parte, de alguns cristãos que têm uma postura muito diferente daquela recomendada na Bíblia; mas sei que esse é um assunto vasto demais para ser demasiadamente explicado aqui, e talvez ainda leve tempo até que as pessoas compreendam, tanto a sociedade em geral quanto os próprios cristãos.

Vi, pelo facebook, várias pessoas dizendo não entenderem o porquê de tanta ofensa utilizando uma imagem que reúne uma encenação de A Paixão de Cristo, a revista Placar com o Neymar crucificado e por último Viviany Bebeloni, a atriz transexual que protestou crucificada contra a violência que a comunidade LGBT é exposta, perguntando a diferença entre os três. Respondo que a primeira é uma encenação representando literalmente a própria cruz de Cristo e por isso não foi ofensiva, a segunda foi uma piada infeliz, e a terceira um protesto incompreendido. Se Viviany disse que não teve a intenção de atacar a Igreja com o seu ato e apenas quis protestar, eu acredito nela. Algumas outras fotografias que vi, como a que envolve um crucifixo, por exemplo, já ficam mais difíceis de compreender, mas não quero entrar neste quesito.

Não penso que a questão toda pare por aí, eu dizia à minha mãe ontem que às vezes a gente peca por ver tudo de uma maneira muito superficial. São dias de muita intolerância estes que vivemos, em todo canto, e infelizmente a Igreja não está isenta disso. Como cristã, sei muito bem o que a cruz de Cristo significa para mim. Mas as outras pessoas não sabem, e como poderia eu esperar que compreendessem perfeitamente algo onde elas não enxergam o mesmo valor que vejo? Seria insanidade minha nutrir uma expectativa dessas.

Um outro exemplo dessa intolerância pôde ser visto em um fato ocorrido no começo deste ano, quando todo mundo ficou chocado com a barbárie contra os cartunistas da revista Charlie Hebdo, e nunca na minha vida eu tinha visto tantas pessoas falando francês, mesmo que só para dizer “Je suis Charlie”.

Neste mesmo tempo, vi inúmeras reclamações sobre toda a atenção que foi dada ao assunto, dizendo coisas como “Deveriam prestar mais atenção na África e nas favelas, isso sim. Chega de tanto ‘Je suis Charlie’!”. E, francamente? Não sou alheia ao que está acontecendo no mundo, ando muito triste pelas pessoas que morrem no caminho para a Europa enquanto fogem da guerra civil na Síria e das 150 pessoas que morreram num posto de gasolina em Gana buscando proteção contra as enchentes, e quanto mais na periferia onde a coisa é ainda mais visível pela proximidade. Mas não consegui ficar menos chocada com o que aconteceu na França por saber de todas essas coisas, e nem achar que só porque eles eram de primeiro mundo a gente devia só se preocupar com coisa mais importante. Pessoas são a “coisa mais importante”, eles eram seres humanos como todos os outros que citei e não mereciam morrer daquele jeito.

Da mesma maneira que fui contrária aos ataques contra Charlie Hebdo, sou contrária ao jeito que tenho visto alguns cristãos ofenderem pessoas que estavam na 19ª edição da Parada do Orgulho LGBT neste domingo. Não me lembro de Jesus como alguém que deu uma lista de princípios moralistas a serem seguidos pela humanidade, mas sim como alguém que impactava as pessoas com Seu amor e, só por isso, por própria vontade elas mudavam suas crenças e, consequentemente, os seus hábitos por amor a Ele.

Aliás, também me lembro de Jesus como aquele que estendeu a mão, e não a primeira pedra (João 8:1-11). Se Ele agiu assim, por que querer fazer algo completamente diferente?

Está mesmo faltando amor nesse mundo.

Na contramão

Teologia Cristã, Textos

Há uns dias eu estava pensando na lista de coisas que preciso concluir e não estou conseguindo e aí resolvi escrever um texto, porque é claro que isso me ajuda a organizar melhor o meu tempo, quando me veio um pensamento à mente. Pensei na estranheza, mas ao mesmo tempo certeza, que pode ser a decisão de levar uma vida contrária ao senso comum.  É meio que uma daquelas ideias simples que se tornam confusas quando tentamos explicá-las, sabe? Há quem pense que ter uma vida diferente do típico como uma forma de elevar-se acima das outras pessoas, mas eu abomino essa ideia. Na verdade, abomino a arrogância em todos os seus disfarces, e não penso que este seja diferente. A coisa é um tanto mais complexa que isso.

Sabe aquela sensação de sentar no sofá, zapear a TV aberta e não encontrar nada que faça sentido? Mas aí, quando no ouvindo conversas paralelas de pessoas desconhecidas que eu preferiria não saber no ônibus, percebo que aquilo parece fazer sentido para alguém; às vezes até para muitos alguéns. Ou quando um carro com um volume estridente passa fazendo alvoroço na rua e, quero que fique bem claro que não estou falando isso apenas porque nunca vi um carro desses tocando uma música que eu gostasse, mas prestando atenção em qualquer dessas letras por dois míseros segundos surgem perguntas como “por quê?” e “para que ficar surdo com isso?”. E então o mesmo sentimento de vazio se repete em relação aos livros best-sellers, às roupas, aos discursos de essência repetitiva – e aos clichês de em todos os outros formatos, imagináveis ou não.

O ponto em questão não é uma simples mania de querer ser culta, ou mesmo uma tentativa forçada de sempre contrariar propositalmente. É um cansaço natural, intrínseco quando cai a ficha de que desde que o mundo é mundo este mesmo conteúdo vem sempre se repetindo com uma embalagem mais chamativa, “moderna” e contemporânea; mas depois de uma segunda olhada torna-se mais que perceptível que nenhuma destas coisas é tão nova assim. Inclusive, Cazuza descreveu bem essa sensação que procuro, sem muito sucesso, definir quando cantou “Eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades…”. E aí fiquei aqui pensando comigo que, esse já não era um pensamento novo na época de Cazuza, e menos ainda para Salomão (Ec 1:2-9), há muito mais tempo atrás.

Há não sei quantos anos, ou quantas outras vezes, incontáveis outras pessoas de distintos lugares pensaram isso e se fizeram as mesmas perguntas que eu. Às vezes a gente cai no erro de pensar que outras épocas eram melhores e que os antigos não deviam ser tão problemáticos quanto nossa própria geração nos parece ser, mas eu acho meio difícil e outro tanto improvável até mesmo de se imaginar que todo mundo vivia sempre satisfeito e facilmente se encaixava no padrão adotado pela sociedade. Pra falar a verdade, acredito que cada geração apresentava vários grupos de pessoas insatisfeitas e inconformadas.

Existem duas maneiras de se lidar com a coisa. A primeira, francamente, muito desagrada. É muito comum usar esse termo para referir-se de algum modo ao cristianismo e, de fato, sendo eu mesma cristã, acho um tanto impossível escrever sobre isso sem desvencilhar as minhas próprias percepções acerca da vida que são totalmente influenciadas pelas lentes do cristianismo; mas, não acredito que esse cansaço seja sentido por cristãos apenas, penso na coisa toda mais como um mal geral. Tendo explicado isso, volto ao exemplo bíblico de Salomão. Costumo pensar em Salomão como um rei que teve tudo o que alguém poderia imaginar ter e mais um pouco: sabedoria, riquezas, fama, reconhecimento e mil mulheres. Tá que eu, sendo mulher e conhecendo toda a complicação que deve ser para manter uma só, às vezes não consigo nem entender como alguém consegue querer uma só, quanto mais setecentas princesas e trezentas concubinas… Mas ok. O que me chama a atenção é que às vezes, e muitas vezes, aliás, vejo pessoas dizendo que se tivessem isso ou aquilo que desejam não seriam tão insatisfeitas. Passei a descartar totalmente essa alternativa depois de conhecer a história de Salomão. Imagino que ter tudo na vida e nem com assim sentir-se satisfeito pode deixar alguém bem ranzinza, e isso explicaria muito do que li no livro de Eclesiastes.  – Sei que alguém pode dizer “Mas Salomão é só um personagem bíblico e não existem evidências de sua existência…”, mas acho que já devo ter dito isso aqui antes e, sinceramente? Não existem provas de que o pensamento de Darwin seja o correto, e ele próprio admitiu não ter provas concretas sobre a sua teoria.

Já a segunda forma, que é a minha preferida, me traz paz, ainda que de uma maneira confusa. Confusa porque sei que estou em um lugar ao qual não pertenço, e por si só várias outras confusões e conflitos existenciais podem surgir a partir disso. Porém, quando me lembro que não pertenço a este lugar torna-se mais que compreensível a dificuldade de adaptação. Não é como se eu precisasse encucar demais sobre não conseguir me adaptar às concepções e distintos valores presentes na sociedade. Eles não são meus, não podem me influenciar demasiadamente ou me afetar exigindo sua total aceitação, porque eu não sou obrigada A NADA. E, não sendo obrigada, encontro paz que excede todo entendimento, uma descrita em canção da Lorena Chaves homônima ao título que tem se tornado uma das minhas favoritas de um ano para cá, sabe? E a graça que encontro nessa paz me basta.