Perfeição, seres míticos e outros pensamentos

Cristianismo, Textos

Olá! Tudo bem com vocês?

Sei que faz tempo que eu não apareço por aqui, mas não, eu não parei de escrever nem nada (nunca paro, aliás), só ando focada em outros projetos. Um desses projetos, inclusive, é o canal que estou criando no YouTube para falar sobre as minhas leituras e espero compartilhar em breve, que também é a razão de eu nunca ter concluído a série que planejava fazer sobre a Jane Austen – vou acabar fazendo isso por lá. E ainda tem outras coisas que não consigo e nem quero detalhar perfeitamente aqui, quero fazer muita coisa ao mesmo tempo e consequentemente ando meio que negligenciando o blog; mas sempre que eu julgar necessário continuarei vindo aqui e usando este espacinho que construí.

E hoje, dia 06 de março, quero falar sobre uma coisa que tem me incomodado muito, mas muito mesmo, ultimamente. Acho que eu nunca tinha pensado com tamanha clareza sobre isso e por esse motivo não tinha me incomodado tanto, mas agora que penso e vejo me sinto tão brava que não consigo pensar ou falar sobre outra coisa com o meu círculo mais próximo de amizade; ou seja, é esse incômodo me leva a vir aqui e falar sobre, a despeito de quão mal interpretada eu possa ser – ainda que sinceramente eu espere que vocês consigam compreender perfeitamente o que quero dizer, mas estou ciente de que mesmo assim é um risco e estou disposta a correr porque julgo ser extremamente necessário.

Há alguns anos, acho que em 2016 para ser mais precisa, escrevi aqui um texto falando sobre este mesmo assunto que vou abordar hoje. E enquanto o relia agora percebi vários erros de revisão para serem corrigidos assim que eu tiver um tempinho extra, mas caso você decida lê-lo e ver como eu encarava isso antes, estou aqui colocando o link. Só que também percebi agora que não falei realmente sobre tudo o que realmente continua me incomodando até hoje e dissertei mais sobre a coisa toda de um ponto de vista meramente estético que não pretendo explanar hoje; assim como também não tenho mais a pretensão de ser amena com nada do que me está engasgado na garganta.

Porém, quero retomar uma questão que levantei nesse texto anterior: Quando você me olha, o que vê? E note que também estou trazendo de volta a mesma concepção de ver como mero ato biológico e olhar como um exercício que requer mais atenção.

Feita de barro

Acontece que, desses anos para cá cheguei à conclusão que muita gente que pensa que me conhece não me olha, mas apenas me vê; ou mesmo quando pensam que me olham estão mais concentrados na projeção que em suas mentes fizeram de mim do que naquilo que é de fato a verdade. E me desculpe, mas, sinceramente? Eu não quero ser grossa nem nada, mas também quero ajudar a entender que, se você é uma dessas pessoas que têm uma visão muito idealizada de mim, a culpa é sua e não minha; e dizer que você precisa urgentemente parar de fazer isso, não só comigo, mas com todo ser humano por que não é nada saudável.

Eu conheço muita gente, e não estou falando isso para me gabar, mas porque mudei até que muito de casa e escola, fiz vários cursos, amizades que fiz pela internet e mantenho até hoje, pessoas de períodos e cursos diversos com quem eu falava na faculdade, trabalho etc. E mesmo com esse tanto de conhecidos, não me sinto amiga mesmo de muita gente. Penso, inclusive, que eu preferia conhecer menos pessoas e que elas fossem mais próximas a ter de lidar com todas as expectativas alheias que vez ou outra vejo pessoas que não são próximas de mim expressando. E entenda que não estou me fechando para pessoas novas nem nada assim, MAS quero deixar bem claro que, caso vocês me conheçam ou queiram se aproximar de mim daqui para a frente, só gosto de ficar perto de gente que me aprecia pelo modo como realmente sou, e não por como acham ou esperam que eu seja.

O que mais me estranha e ao mesmo tempo me irrita é que isso parece algo óbvio demais para precisar ser dito, mas que se fosse tão óbvio assim eu não estaria aqui perdendo meu tempo escrevendo um textão/desabafo que passa longe de ser a coisa mais agradável que já escrevi, sabe?

A maioria das pessoas que me conhece de lugares diversos sabe que eu sou cristã protestante e que não tenho nenhuma vergonha de assumir isso, e nunca encarei minha crença e modo de vida como pretexto para fazer acepção de ou não falar com pessoas que pensam diferente de mim nem nada. É verdade que o meu círculo mais próximo de amizade também pensa e sente as coisas quase sempre do mesmo modo que eu, mas às vezes tenho a impressão de que pessoas que trabalhavam comigo diariamente me conhecem muito mais do que muitas pessoas que pensam que me conhecem e acham que supostamente sabem tudo da minha vida.

Eu ando muito cansada de me ver explicando constantemente pras pessoas que eu não sou TÃO diferente assim como pensam que sou. Não estou dizendo que não gosto de tratar as coisas com seriedade porque acho que isso é muito importante sim, mas não quero ver mais ninguém me atribuindo um modelo de perfeição que não existe. E sério, mais de uma vez eu ouvi pessoas me falando coisas como “Geórgia não brinca, Geórgia nunca fica brava, Geórgia não dança, Geórgia não faz isso ou aquilo”, sendo que pelo amor do bom Deus, gente! Geórgia pode ser meio doida ao ponto de gostar de ler, estudar e vez ou outra ouvir uma música clássica sim, mas a Geórgia é uma pessoa normal como qualquer outra e faz as mesmas coisas que todas as pessoas fazem – ou quase todas, pelo menos.

Ontem eu estava conversando com um amigo meu, que costumamos nos considerar como irmãos sem nenhum outro tipo de interesse, e falando que uma das coisas que fazem eu me sentir bem perto dele é justamente o fato de ele me enxergar e me tratar como uma pessoa normal que pode ter algumas qualidades sim, mas que também é cheia de defeitos e coisas que precisam ser trabalhadas como qualquer outra pessoa; e algumas outras coisas estranhas que não precisam ser alteradas também. E enquanto a gente falava sobre isso eu meio que fui lembrando que nem sempre foi assim, porque quando nós dois começamos a conversar mais, eu falava algumas coisas e ele respondia algo como “Não acredito que você faz isso, agora estou tendo que reconstruir toda a imagem que eu tinha de você”; sendo que as coisas que eu falava que fazia eram do tipo “Fiquei feliz com alguma coisa; corri para casa, fechei as portas e fiz minha dancinha da vitória ridícula que não mostro para ninguém” ou mesmo entender as minhas ironias, coisa que eu faço direto mas quase todas as vezes tenho que explicar que estou brincando – porque vocês sabem, é claro, que Geórgia não faz essas coisas.

Mas vem cá e me explica aqui uma coisa: desde quando uma pessoa não pode brincar com alguma coisa ou dançar só porque é “séria” e a consideram inteligente? Uma coisa que eu sempre digo tanto para esse amigo específico quanto para meus outros amigos que são mais próximos é que nem eu mesma me suportaria se fosse desta espécie de seres míticos e angelicais que a maioria das pessoas parece pensar que sou o tempo todo. E não estou com isso fazendo apologia aos meus erros e defeitos, mas gente, já passou da hora de sermos realistas: PESSOAS PERFEITAS NÃO EXISTEM, e provavelmente seriam um saco se existissem.

Eu mesma nunca quis ter gente perfeita do meu lado, sempre procurei conhecer e entender os defeitos alheios, e as pessoas que mais aprecio e gosto de ter por perto têm muitas imperfeições, assim como também tenho as minhas. Nunca esperei nada diferente disso, e se possível, daqui para a frente gostaria que ninguém esperasse coisa diferente de mim também.

Excelente, talvez. Perfeita, não!

Neste carnaval eu fui acampar com os jovens de minha igreja, como em todos os últimos nove anos, e o tema deste ano foi “Excelentes”; e gostei muito porque abordou uns pontos que sempre venho remoendo comigo há muito tempo. E tem umas coisas dentro desse tema que eu sempre carrego comigo, e enquanto conversava com a minha mãe hoje fiquei pensando que talvez elas poderiam ser um dos motivos por trás de tantas coisas estranhas que ouço ao meu próprio respeito. E não estou dizendo que as pessoas que façam isso sejam assim por mal nem nada, é só um engano bem enganado mesmo.

Tenho uma outra amiga que me conhece desde que eu tinha… doze anos, penso, então a nossa amizade tem cerca de quatorze anos, e a Bia é uma das pessoas que mais me viu em minhas diferentes fases. Mesmo sendo diferentes em muitas coisas, e a despeito do tempo em que ela morou em Guarulhos, nós continuamos sendo próximas em todos esses anos, e pouca gente me conhece tão bem quanto ela. E um dos motivos que eu acho que contribuem para esta ideia louca que algumas pessoas fazem de mim é o pensamento de que “A Geórgia faz tudo com perfeição”; e sério, eu já escutei isso e a minha reação foi só olhar calada como se a pessoa não soubesse a besteira que estava dizendo.

Acontece que a Geórgia não é essa pessoa doce o tempo todo ou que só acerta em tudo que se propõe a fazer, e a Bia sabe muito bem disso. Mas, ao mesmo tempo, ela também sabe que mesmo quando a gente era adolescente e sem noção nunca fui de levar a vida de uma forma totalmente leviana: sempre gostei de colocar muita dedicação nas coisas que eu fazia, e tenho pra mim que essa mania está intrinsecamente ligada à esta falsa perfeição que gostam de me atribuir. Me lembro que, uma vez, há poucos anos, eu estava almoçando com a família dessa amiga e relembrando as coisas que fazíamos quando mais nova, dando risadas e blá blá blá. Aí não lembro exatamente quem foi que falou isso, mas alguém disse “Mas a Gê sempre foi a mais mente firme das suas amigas, por isso que deu certo na vida. Até quando vocês eram mais novas ela era a menos doidinha”, e nisso o falecido tio dela começou a dizer que sendo assim eu nem precisava “ir para a igreja” então e outras coisas semelhantes; e na hora eu fiquei tão chocada que não consegui explicar que isso passava longe de ser a razão pela qual congrego.

Estava aqui lembrando disso enquanto escrevo e pensando que sim, eu realmente sempre fui dedicada desse jeito desde que me conheço por gente, mas mesmo assim a minha visão era completamente diferente do que é hoje. Antes eu sentia um peso fora do normal buscando uma perfeição que não existe porque me cobrava muito mais que o necessário, pensava que se eu não acertasse as coisas nunca seria good enough. E é verdade que continuo me dedicando muito a quase tudo hoje, mas aquele peso horrível que eu sentia foi embora; não procuro mais fazer bem as coisas para buscar o reconhecimento de outros ou o meu próprio, e me conhecendo como me conheço acredito passar muito longe de qualquer perfeição. Mas sigo tentando dar o meu melhor sempre porque, sinceramente, acredito muito que se for para fazer alguma coisa de qualquer jeito, prefiro nem fazer (e isso não é tão bom ou nobre quanto pode parecer, porque muitas vezes me impede de fazer coisas que eu gostaria e travo por não me sentir capaz).

E tem ainda um outro motivo para eu fazer as coisas do jeito que faço, e confesso que este deveria ser o primeiro e principal motivo (mas é como estou dizendo, não sou nada perfeita): aos meus dezessete anos compreendi que eu devia me dedicar ainda mais a tudo que me propusesse a fazer porque eu não estava fazendo as coisas para outras pessoas, e sim para Deus; e isso é muito mais libertador do que pode parecer, porque apesar de demandar uma dedicação ainda maior, hoje sei muito bem reconhecer os meus limites e me contentar em saber que dei o meu melhor mesmo quando as coisas não saem bem do jeito que espero. E vocês sabem que, infelizmente, nem todo mundo aprendeu a desfrutar dessa liberdade.

Outra amiga minha com quem estive nesses dias de acampamento, a Sah, que inclusive é minha discipuladora, disse que as pessoas tendem a me pintar como esse anjo da Capela Sistina porque prestam atenção demais na maneira como me porto no louvor dos cultos, e eu sei que me entrego mesmo, várias vezes choro; e sendo sincera novamente, eu só sinto que estou mesmo louvando por meio da música quando não consigo pensar em mais nenhuma outra coisa, seja quando estou em casa ou em qualquer outro lugar. Mas isso tampouco me torna perfeita, só se encaixa nessas mesmas duas categorias já ditas de querer fazer as coisas com excelência e fazer tudo como se fosse para Deus. E o engraçado (na verdade é triste e eu tô ficando muito brava com isso) é que às vezes minha mãe me conta que pessoas a procuram nos cultos para falar que me admiram e ela só responde que sou no templo do mesmo jeito que sou em casa, mas ultimamente em vez de me sentir lisonjeada com isso eu passei a me perguntar se de algum modo as pessoas me imaginam só ouvindo e assistindo músicas e coisas que me edificam o tempo todo, como se eu nunca risse por um meme bobo, fosse irônica ou brincasse e só lesse livros de grandes autores conceituados – e perdão se estou ferindo alguma convicção que você possa ter ou coisa assim, mas repito que não acredito na existência de pessoas desse tipo.

Mas quem é esta Geórgia afinal?

Eu passei a maior parte deste texto falando sobre como não sou, então até mesmo para dar uma variada, achei melhor falar um pouco de como sou – mas não vou falar tudo também porque, quem quiser me conhecer mesmo, precisa aprender a conversar comigo em vez de ficar só lendo os meus textos.

De maneira geral, a Geórgia é meio esquisita (completamente esquisita, dependendo do seu ponto de vista). Ela gosta muito de escrever e ler, mas também gosta de passar a tarde rindo com os memes mais idiotas. Quando faz alguma brincadeira ou piada, entretanto, quase nunca é bem compreendida porque tem aquele tipo de humor CQC (na época que ainda prestava). A Geórgia também aprendeu a sambar quando tinha seis anos de idade, mas só samba quando está muito inspirada na zoeira; e um de seus passatempos prediletos é montar coreografias ridículas e secretas para músicas indies, coreografias estas que sai dançando na frente de seu cachorro dia sim, dia não. Ela nunca parou de ouvir John Mayer ou outras músicas seculares, mas passou a aplicar o filtro de Filipenses 4:8 em todo tipo de conteúdo que consome depois que se converteu. A Geórgia também gosta de conversar sobre Política, Economia e outras questões relevantes para a sociedade, mas só com quem consegue entender a aleatoriedade de seus pensamentos e que no segundo seguinte a uma reflexão aparentemente profunda ela pode estar desenterrando alguma musiquinha da Disney ou do Castelo Rá-Tim-Bum, e que isso é um processo incontrolável e automático. Além disso, ela também gosta de ler tanto Machado de Assis quanto graphic novels, e uma coisa não exclui a outra.

A Geórgia também é muito atrapalhada, vive esbarrando em paredes e encontrando hematomas de que nunca consegue se recordar da origem; não gosta de sair se expondo tanto assim para gente que nem conhece direito, e por isso prefere parar de escrever por aqui.

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