Aquela que já sabia que não sabia

Contos

Aquela que já sabia que não sabia

Qual é a raiz quadrada de setenta e cinco? Há vida inteligente fora da Terra? O aquecimento global é real ou uma fraude?

Ela sabia que nunca teria a resposta para todas as perguntas na ponta da língua. Não se pressionava com isso, e nem se surpreenderia caso alguém mais astuto lhe interrogasse.

Não é como se não apreciasse a inteligência, pelo contrário, sabia mais do que bem a sua importância. Mas ela também sabia que pouco conhecimento era cem por cento absoluto ao ponto de nunca evoluir ou mudar, que não era pecado perguntar e que sempre haveria a possibilidade de alguém mais esperto lhe confrontar.

E sabendo disso, por que se cobraria mais que o necessário?

Hoje ela escolhia evitar o desgaste, mas isso não significa que sempre tenha sido assim. Quem lhe visse agora talvez nem reconhecesse mais aquela que sempre prezou pela razão em primeiro lugar.

A vida tem dessas, não é mesmo? Às vezes a gente pensa que sabe alguma coisa, mas sábio mesmo é quem reconhece não saber nada – já reparou que quem pensa que sabe quase nunca está disposto a aprender?

Ela vivia cada dia como se fosse uma nova descoberta. O senhorzinho que sempre sorria, ainda que estivesse todo dia em baixo do sol distribuindo papel na rua; a mãe que com firmeza repreendia os filhos andando na rua, ou a vendedora que mesmo ignorada respirava fundo e mantinha a simpatia: todos eles tinham algo a ensinar. E como eterna aprendiz que era, estava sempre ávida por todos esses detalhes.

O tempo havia lhe ensinado aquilo que nem todos os livros, filósofos ou mestres puderam registrar; que a verdadeira sabedoria ia muito além de coisas que a mais alta cultura poderia tentar descrever ou enumerar.

Essa convicção lhe tornava livre como nenhuma outra antes poderia ter tornado. Não era uma liberdade que justificava a passividade ou a ignorância, mas sim que a libertava para não se preocupar em ser superior a ninguém que não fosse ela mesma. E ainda que tentasse por meio de palavras, nunca se sentiria capaz de explicar – e nem devia. Não era obrigada, a nada.

O irônico mesmo era que, quanto mais concluía consigo mesma que nada sabia, mais queria saber. Uma coisa puxava automaticamente a outra, não conseguia evitar e nem queria. No íntimo se sentia feliz que assim o fosse.

Quem lhe via por fora talvez corresse o risco de imaginar que essa sabia muito, mas ela mesma não se deixava enganar. Não era facilmente seduzida por elogios que inflassem o seu ego, e ainda que o pensamento lhe passasse rapidamente pela cabeça, fazia questão de não deixá-lo fixar.

E assim levava a vida, com tanta calma e serenidade quanto possível. E quando essa calma não parecia ser possível, bastavam cinco minutos e mais um pouco de reflexão para descobrir que era.

Será que Sócrates, aquele filosófo, se orgulharia ao saber que ela achava simplesmente genial a sua descoberta?

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