Cristianismo · Reflexões

Você é tão lindo!

Sabe quando uma música não quer sair da sua cabeça? Quando você ouve, canta e toca a mesma coisa por dias e dias, ao ponto de sua irmã implorar que você pare porque ela não aguenta mais?

Pois é, eu sei. E há aproximadamente duas semanas Pulsante tem sido essa música para mim.

Sei que já têm textos em outros blogs falando sobre essa música (inclusive, até recomendo a leitura deste aqui), e não tenho a pretensão de copiar nenhum deles. Mas, considerando que meu coração vem sendo bastante confrontado em vários aspectos que se relacionam a essa letra ultimamente, sinto uma necessidade de compartilhar um pouco do que tem significado para mim.

Geralmente algumas pessoas me dizem coisas como “Nossa, você é uma mulher de Deus!”, “Você é uma verdadeira adoradora”, “Quero me parecer mais com você” etc, e eu não estou falando isso para me vangloriar nessas coisas, muito pelo contrário. Eu realmente quero ser tudo isso que acham que sou, mas não me enxergo dessa maneira, porque quando olho bem dentro de mim sei o quanto ainda falho e preciso melhorar – e melhorar muito! Isso é bom porque me dá cada vez mais a consciência de que eu preciso de Deus, e que se houver alguma coisa boa em mim é só por causa Dele.

Quando converso com pessoas na faculdade sobre cristianismo, ou em qualquer outro lugar, percebo que a visão delas sobre o assunto é muito distorcida. Em parte porque a televisão faz isso quando propaga uma teologia da prosperidade, onde Deus está mais para um mordomo subordinado às nossas vontades do que o Criador dos céus e da Terra; e também porque nós, cristãos (ou supostos cristãos), ainda não aprendemos a nos parecer plenamente com Cristo, e isso passa uma visão completamente equivocada de quem Ele é.

A verdade é que Ele é uma pessoa, e não uma religião, portanto o relacionamento com Ele deve constituir a base de nossa fé, e não ritos. E relacionamentos são bem mais complexos, demandam muito mais esforço que quaisquer ritos. É infinitamente mais fácil para qualquer um de nós nos reunirmos aos domingos, com sorrisos estampados nos rostos e vestidos de boas, do que ser de fato cristãos nos demais dias da semana, relembrando e seguindo os passos de Cristo nas mesmas situações que Ele também enfrentou – é claro que, quando digo isso, não me refiro à crucificação literal que nenhum de nós enfrentou (exceto alguns casos atuais em outros países, e outras épocas), mas às situações adversas pelas quais não passaríamos se tivéssemos a chance de escolher.

Perguntei a mim mesma o que significa cristianismo para mim, e apesar de saber que a origem da palavra cristão remete a parecer-se com Cristo, minha resposta pessoal também acrescentaria “paz para a minha alma”. Só que de uma forma bem paradoxal, compreende? Porque nem todos compreendem, e não posso culpá-los.

Paulo, o apóstolo, era um cara que manjava muito sobre muitas coisas. Se o tema fosse religião, então, era provavelmente mais zeloso no cumprimento da Lei que qualquer um de nós; e mesmo assim, um belo dia, seu mundo virou de cabeça para baixo. De repente, tudo aquilo que aprendeu ao longo de sua vida deixou de valer e ele precisou despojar-se disso para abraçar toda uma concepção nova de vida. Esse mesmo dilema vivido por Paulo foi também retratado por Bob Dylan (sim, ele mesmo!) em Gonna change my way of thinking, minha música preferida do primeiro álbum (Slow Train Coming) de sua aproximação com a fé cristã – como alguns sabem, depois de três álbuns ele acabou voltando às suas origens judaicas e desprezando as experiências que teve; mas isso seria um assunto muito longo para adentrar agora.

O fato é que Paulo chegou a brilhante conclusão que “Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios, e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar os fortes” (1Coríntios 6:27, NVI). E eu vejo nesse versículo muito mais que uma frase de efeito: vejo a essência de muitas coisas para as quais não existe uma resposta pronta.

É comum que, ao começar a acreditar em Deus, as pessoas subentendam que, por Ele ser dono de toda a misericórdia e bondade, nunca mais encontrarão problemas na vida. Ou que se fizerem as coisas do jeito certo, e pedirem do jeito certo, Deus é obrigado a cumprir todas as suas vontades – porque afinal de contas, Ele é poderoso para fazer com que qualquer coisa aconteça e “Olha como eu sou um filho bom, cumprindo todas as minhas obrigações religiosas. Por que Deus não me abençoaria?”.

Eu acho que a única pessoa que realmente poderia usar esse discurso com propriedade é Jesus, e mesmo para Ele as coisas não funcionaram desse jeito. Jesus, o Cordeiro Santo que tira o pecado do mundo, orou para que, caso fosse possível, Deus afastasse Dele o sofrimento vindouro; e teve Seu pedido recusado. Porém, no mesmo versículo em que Jesus ora pedindo para não ser crucificado, Ele também abre mão da Sua própria vontade e se rende ao propósito para o qual veio ao mundo (Mt 26:39); e Ele é o mesmo Jesus que disse que aqueles que O quisessem seguir deveriam também negar-se a si mesmos e tomar suas próprias cruzes (Mt 16:24).

Nenhum de nós gosta de tomar a sua própria cruz, porque é desagradável. Porque dói, incomoda e pesa. E é justamente aí que se encontra o paradoxo, é surpreendente que à medida que passo a me render à dor dos pregos de minha própria cruz, encontro paz. O amor não diminui quando sou confrontada, ele cresce; e indo ainda mais adiante, o momento em que mais cresço é quando diminuo – é onde as coisas loucas e fracas que Paulo descreveu começam a fazer algum sentido.

É quando nenhuma lágrima, perda, peso ou dor se comparam à beleza e à paz que não encontro em nenhum lugar fora Dele.

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