Crônicas

Em segredo

“A privacidade”, disse sr Charrington, “era uma coisa muito valiosa. Todo mundo queria ter um lugar em que pudesse estar a sós de vez em quando. E quando alguém encontrava um lugar assim, não era senão um gesto da mais trivial cordialidade que aqueles que soubessem do fato guardassem a informação para si mesmos.”

Eric Blair, a.k.a. George Orwell, é um dos meus romancistas preferidos, e eu não discordo do grupo de pessoas que afirma ser 1984 a sua obra prima. Recomendo a leitura. Mas recomendo muito mesmo, sabe?

Uma das coisas que me chamou a atenção quando o li pela primeira vez foi o Grande Irmão, e todo o conceito por trás da criação do Big Brother como reality show em si. Se a ideia do programa não lhe apetecer, após a leitura pode lhe apavorar; mas se gostar, duvido muito que não repensará. Não vou falar mais para não soltar spoiler.

Há algumas semanas, venho compartilhando com um grupo de amigas pensamentos sobre privacidade, o exagero de exposição no Facebook e nas redes sociais em geral, e coisas semelhantes. Aí me lembrei desse livro e de um fato ocorrido na minha infância, que na época achei muito curioso.

Eu ainda nem tinha cinco anos quando a Lady Di morreu, e não tenho qualquer outra lembrança dela em vida. Me lembro do choque de minha mãe quando no meio do jogo apareceu pela primeira vez a notícia, e das frases de minha avó dizendo coisas como “A princesa do povo” e etc. Antes desse dia eu nunca tinha ouvido o termo paparazzi, e não fazia a menor ideia do que significava.

Depois que cresci um pouco e pude avaliar a notícia com melhor entendimento, continuei achando a morte dela muito curiosa. É claro que, como criança, a morte por si só já me assustava; mas morrer tentando fugir de jornalistas que constantemente invadiam a privacidade das pessoas parecia algo muito complexo e triste.

Até hoje, confesso, tenho uma grande queda pelo jornalismo. Quando ainda adolescente, essa coisa de manchetes com títulos como “Xuxa é flagrada bebendo água de coco na praia”, além da manipulação de massas e a imprensa marrom, foram algumas das coisas que me fizeram repensar a escolha de minha profissão, entre outros motivos pessoais.

E aí me peguei imaginando como seria se Lady Di continuasse viva, ou se Winston, o herói de 1984, realmente existisse nos dias atuais. O que será que eles pensariam? Como reagiriam ao abrir suas contas do Facebook, Instagram e, na minha opinião o mais esquisito de todos, Snapchat?

Não quero dizer com isso que nunca houve exibicionismo em outras épocas, porque duvido muito. Mas acredito que a agilidade nas comunicações gerais trouxe tanto as notícias como o ato de se auto expor a patamares muito elevados.

Coisa rara hoje é ver gente não se expondo. Não parece mais que as pessoas querem ser conhecidas por suas ideias, mas sim pela #unhadasemana, ou pelas horas que passam na academia. Pelo que comem, por onde andam e com quem andam. O tempo todo.

Muitos só postam ocasionalmente o lado bom de suas vidas, acho que eu provavelmente me encaixo nesses, e aí são criticados, invejados por terem uma “vida perfeita”. Porque normal mesmo é usar as redes como muro de lamentações, não é? Gritar todas as mágoas, chateações e rejeições para todo o mundo; sair espalhando o mau humor e as tristezas por aí como se fossem um mantra.

Mas o contrário também existe. “Me xingava de feia na adolescência e agora mudou de opinião? Vou mostrar minha maturidade fazendo textão”. “Vou mostrar o quanto progredi na vida”. “Vou mostrar meu tênis de mil reais”. “Vou mostrar todas as minhas selfies”. “Vou mostrar o x-burger que paguei ao mendigo”. “Vou criar um canal no youtube para mostrar os meus novos materiais escolares e o meu caderno do Picasso” (HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH). Vou mostrar minha vida inteira como se fosse um livro escancarado diariamente, porque se eu não fizesse isso as pessoas não teriam como saber e eu seria obrigada a reconhecer que grande parte delas não está nem um pouco interessada em saber.

Eu mesma venho repensando muito o uso das minhas redes e o quanto elas revelam de mim sem que as pessoas precisem me conhecer de perto, trocando longas conversas no whatsapp por tempos de qualidade olho no olho e amizades mais sólidas, avaliando meticulosamente cada palavra que escrevo antes de publicar; e tenho gostado muito disso.

O que proponho não é um estímulo aos segredos como algo sombrio, aquela visão que as pessoas têm de só guardar em segredo aquilo que as envergonha; mas aprender a manter em segredo aquilo que lhes dá orgulho. Não é porque não tenho nada a esconder que necessariamente tenho de me mostrar por completo a todos, ainda que desconhecidos, 24hs por dia.

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2 comentários em “Em segredo

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