Contos

Aquela que amava o cheiro do mar

Amava o cheiro do mar. Simples assim, sem ter muito o que acrescentar.

Não era o ato de banhar-se, ou tampouco mergulhar, pois lhe bastava a brisa, molhar os pés e sentar-se na areia assistindo a maré.

Gostava do efeito visual das ondas, sempre que as olhava milhares de coisas lhe passavam pela cabeça: seus planos, segredos, sonhos e outras partes de sua vida às quais poucos tinham acesso. Todos os seus pensamentos pareciam tão mais claros, e simultaneamente insignificantes, enquanto olhava o mar. As mesmas ondas que visualmente lhe encantavam também faziam o favor de levar embora tudo aquilo que ela não devia guardar, e a brisa marítima lhe trazia paz. Enquanto estivesse sentada ali, não conseguia precisar de nada mais.

Resolveu então que ali deixaria cada dia com seu mal, os seus dilemas e tantas outras perguntas das quais não sabia as respostas. Não sabia mais se queria saber as respostas, não por medo de suportá-las, mas por preguiça de continuar tentando descobri-las. Desistira, e nada disso parecia importar mais porque, quando olhava o mar, sentia-se como um grãozinho de areia perante o universo; um pontinho mínimo.

Mas ela não via esse sentimento como menosprezo interno, nenhuma sensação que fosse além da brevidade. Sabia que mesmo os pontinhos mínimos tinham o seu lugar certo e um propósito ímpar, então respirou aliviada por finalmente sentir que não havia com o que se preocupar – sentimento este que completava e em muito superava sua mera percepção intelectual do fato, e apesar de sua demora, chegara. Decidiu que jamais permitiria que esse sentimento partisse.

Imaginou-se dedilhando cordas em uma harmonia sem letra correspondente, fazendo os movimentos equivalentes na areia, e sorriu. Estava aprendendo a se desprender, e se sentia livre como há muito tempo não se sentia. Ela avistou um navio na linha do horizonte, assim como algumas aves sobrevoando o oceano, e partilhou da mesma leveza. Lhe pareceu engraçada essa nova sensação de liberdade, era como ter um par de asas ainda que seus pés não saíssem do chão. Sorriu mais uma vez.

E ali deixou-se ficar. Não queria conversar, justificar-se ou ouvir explicações sobre coisa alguma. Ela não diria nada, mas criaria um lembrete fixo para que daquele momento nunca mais se esquecesse.

De algum jeito estranho e indescritível, sabia que coisas novas estavam por vir.

Anúncios

2 comentários em “Aquela que amava o cheiro do mar

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s