Contos

Aquela do cadeado

Era como se ela vivesse escondida na torre, bem coisa de contos de fada mesmo.

Não que desde sempre tivesse sido assim. Não foi. Até algum tempo, e não muito tempo, não havia torre nem nada. É claro que a torre é só uma metáfora. Tinha só uma cerquinha, que não era lá muito resistente, e mais nada.

Então ela percebeu que só aquela cerca não era o suficiente para lhe proteger. A cerquinha pendia, com muita facilidade, conforme o vento soprava; e isso em nada lhe ajudava.

Era até estranho pensar em como uma cerquinha tão fraca pôde, em tão pouco tempo, dar lugar a um muro com uma pequena porta trancada duas vezes: a primeira por dentro, e depois por uma corrente com cadeado.

Não que isso tivesse sido algo proposital. Não foi. Mas cada sopro do vento lhe machucava e, tentando se proteger,  depressa foi colocando tijolo por tijolo no lugar. Foi só o tempo de piscar pra ver que o muro estava lá.

Não era crueldade, nem por mágoa ou rancor. Era só proteção mesmo; e talvez um pouco de medo do vento que, confuso, a cada dia soprava de um jeito diferente. Ela não sabia direito como se proteger, aí foi se esquivando até a hora em que percebeu não precisar mais. Por mais estranho que pudesse soar, o muro estava no lugar onde sempre deveria estar.

Não que o muro fosse indestrutível, intransponível ou coisa assim. Não era. E também não era errado. Tinha uma porta, um cadeado. Bastava ter a chave do cadeado, bater à porta. Tornou-se preciso mais que um simples sopro de vento para balançá-la: só tendo a chave mesmo.

Chave essa que ela não sabia onde estava, e decidiu não procurar. Ela não queria sair do muro. Também não queria se desfazer do cadeado, pois sabia que sua função era, de fato, estar lá. Mais do que nunca, sentia-se segura assim. E, se alguém tentasse pular o seu muro, sabia que algum outro mecanismo de defesa iria surgir.

Dentro do muro não era um lugar infeliz. Lá tinha cores, sorrisos, algumas flores e também os seus espinhos. Nada que lembrasse um cenário de filme: nada além da própria vida, real como é.

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