Contos

Aquela do sorriso singelo

Não era bem um sorriso largo, daqueles em que se vê todos os dentes ou que mesmo de longe a gente já reconhece. Mas era um sorriso, bem simples. Talvez envergonhado, com vontade de se esconder. Não que alguma dessas coisas deslegitimassem o seu sorriso de alguma maneira.

Era o seu sorriso típico, diário. O mesmo sorriso que dava ao olhar pela janela e ver o sol aparecendo novamente, que acompanhava o seu “Bom dia” por onde passava ou quando algo lhe agradava. Sempre o mesmo sorriso, que apenas se abria em algumas raras exceções.

Ela acreditava que, se abrisse muito o seu sorriso, revelaria mais de si que o permitido. Só mesmo quem lhe fosse bem próximo, vez ou outra, poderia vê-la em um momento de descuido. Nesses poucos casos, seu sorriso vinha geralmente acompanhado de uma risada.

Não era mal humorada. Era doce, mas bem reservada. Pensava que o seu sorriso aberto era um segredo a ser descoberto, e que por isso não devia ser amplamente distribuído. Se sentia exposta, logo indefesa. Mas com o sorriso singelo nunca se sentia assim.

Lhe era característico, tão intrínseco que já não havia mais como dissociar. Porque não era só o sorriso singelo que a definia, mas sim a própria singeleza. Ela nunca gostou de extravagâncias, a teoria mais constante em sua vida era aquela de que quanto mais simples melhor. A verdade é que não era afeita a nenhum excesso: sobre como se portar, na hora de se vestir ou até mesmo falar. Media suas palavras, suas consequências e o quanto podia ficar refém delas. Por isso parecia calada, não era por maldade.

Se algo lhe parecesse impossível ou complicado demais, descartava. Mantinha os pés no chão. Não que sempre tivesse sido assim, mas depois de alguns tombos aprendeu. As alturas passavam longe de lhe remeter qualquer segurança, e ela gostava de saber bem onde pisava. Se não gostasse do trajeto, não chegaria a pensar três vezes antes de mudar de direção.

Era uma mulher de poucas palavras, não era difícil lhe ver com um par de fones de ouvido ou um livro. Falava com todos e lhes dava o seu sorriso singelo, mas ainda assim fugia de gente. Exceto se estivesse com seus amigos, pois ali era conhecida e se deixava conhecer. Mas até chegar a este ponto de liberdade plena… Tinha muito chão. E se por algum momento, mínimo que fosse, questionasse em seu íntimo se de fato podia depositar em alguém tamanha confiança, correria de volta à toca como uma lebre desconfiada. Como a raposa de Saint-Exupéry, tinha muito medo de se deixar cativar.

Mesmo com todas suas particularidades, e tendo a singeleza como o seu único excesso, o que paradoxalmente lhe complicava, era feliz. À sua maneira, mas era. E quando não estava contente, também não reclamava; se calava e dava outro sorriso singelo, às vezes com lágrimas, acreditando que uma hora passaria. E não é que passava? Sempre passava.

Levava a vida assim. Não precisava de muito, o suficiente já lhe era o bastante. Guardava a maioria das palavras para si, em caixas ou cadernos diversos. Era mais como um sol fraco em um dia cinza, a gente nunca sabe quando vai irradiar.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s