Crônicas

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Às vezes me pergunto se, caso eu soubesse antes que o tempo passa tão rápido assim, só essa consciência já traria à minha vida alguma mudança muito significativa. Porque antes dos dezoito a gente tem mania de querer que o tempo voe logo, fazer muitos aniversários etc. E, depois deles, até hoje me pergunto onde foram parar esses quatro anos que praticamente sumiram sem eu ver. Bate até saudades de quando o tempo demorava a passar.

Chega a ser estranho quando, dados aqueles momentos de se lembrar de todas as mudanças, estas são recordadas minuciosamente. Não sei se é preocupante perceber que, de repente, aquela frase dita pelos mais velhos de que “A infância é a melhor fase da vida” passa a fazer sentido – afinal, não é preciso muito uso do cérebro para a esta altura perceber que, gradualmente, se está ficando velha também. Já a adolescência, exceto por algumas ótimas lembranças, agora me parece ridícula demais para se querer lembrar. A vida é breve demais para caber todo aquele drama inútil, sabe?

Também não há mais espaço para tantos diários, que perderam seus lugares nos armários. Hoje as confissões largaram as folhas escondidas para encontrar espaço com uns poucos e bons amigos; a maioria das anotações se resumem a dois cadernos e uma pequena caderneta, arquivos no note e algumas notas de inspirações no celular. Mas sempre que vejo alguma dessas particularidades alheias, no facebook, percebo a falta que um diário pode fazer na vida de um ser humano.

Eu não tinha como prever, aos dezesseis, que trocaria os best sellers por livros de poesia; ou que o mais perto de um “horóscopo” pra mim, hoje, seria o aplicativo que mostra a cotação do dólar no celular. Acho que, na verdade, eu jamais imaginaria o quanto da nossa vida colocamos numa coisa que pode caber dentro de um bolso, como um celular.

Mas o que eu queria mesmo era ter uma máquina do tempo para avisar a Geórgia dos treze anos que eu mesma com dezoito jogaria fora todas aquelas revistas: Capricho, Atrevida etc. Quem sabe assim, talvez, aquele dinheiro tivesse um destino mais produtivo – ou pelo menos tivesse virado algo de que eu não precisasse me envergonhar.

Quem diria que o desejo de ondular o cabelo seria maior que o de alisar? Ou que, ao receber alguma crítica por não gostar de minissaia, psicologicamente não faria nenhuma diferença? Nem se eu quiser sair com nenhum pingo de maquiagem, internamente não faz a menor diferença – exceto se eu não passar nenhum pingo de batom, porque só minha irmã e minha mãe sabem o quão branca minha boca pode ser.

Quando me dei conta, vi que vinte dois é uma idade bem gostosa para se estar. Não é como se eu precisasse de algum rosto em uma capa de revista para me comparar, ou saber quais roupas estão na televisão para me basear. Aliás, o que é televisão? Até mesmo as inseguranças, aquelas desagradáveis companheiras de longa data, vão saindo uma a uma sem nenhuma formalidade: simplesmente se vão antes que eu as perceba, e quando percebo não as persigo.

E foi assim que vi que já são quase vinte e três.

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