Textos

À moda antiga

Sei que já falei dos livros e da música, mas tem outra coisa que gosto muito de fazer e, infelizmente, desde que decidi que passaria a tomar vergonha na cara e assistir séries assiduamente, não venho fazendo com tanta frequência. E, quando falo isso, por mais vergonhoso que possa ser, preciso confessar que nem é tanto o ato de ir ao cinema em si que me encanta… Pelo contrário, eu gosto mesmo é de pegar o notebook, me jogar na cama e caçar algo no Netflix; ou mesmo deitar no sofá e zapear até encontrar algo interessante na TV a cabo bem coisa de gente sem vida social mesmo, nas palavras de minha irmã.

Até o ano passado, perdi a conta de quantos filmes assisti; e dos tipos mais variados. Admito que tenho um afeto particular pelo cinema independente e/ou europeu, mas de maneira bem geral mesmo a regra presente em 85% das vezes que gosto de um filme é justamente a oposta que me atrai em séries: finais loucos, surpreendentes e até mesmo incompreensíveis; se um enredo passar por uma dessas linhas é praticamente certeza que vou gostar. Porque, sabe, eu não ligo de passar duas horas assistindo um filme e deitar a cabeça no travesseiro ainda tentando compreender – mas finais igualmente loucos ou infelizes são abomináveis em séries, porque existe uma diferença muito clara entre duas horas e meses ou anos.

E aí que desde o começo do ano concluí duas séries e, o número de filmes que assisti dá para contar nos dedos. Nenhum novo. Les Misérables foi uma surpresa, porque tinha medo de que o filme não capturasse aquela magia que encontrei lendo o livro, mas obviamente eu estava totalmente enganada. Fora que ainda não consegui pensar em uma palavra para descrever a Anne Hathaway como Fantine e menos ainda para ela cantando, coisa que fico chocada só de me lembrar.

Ainda assim, o filme que mais me encantou nesse ano é um pouco mais antigo que Les Misérables, do ano de 2011: Midnight in Paris (ou Meia Noite em Paris, em português). Antes de continuar com o por quê da minha escolha, preciso esclarecer que, quando coloco o nome original de algumas coisas não é querendo me exibir ou nada parecido não. É só porque, na maioria das vezes, tenho a impressão de que o título das coisas soa muito melhor em seu idioma original, mesmo quando se tratando de uma tradução literal como nesse caso – é mania de gente louca mesmo, coisa difícil de se explicar.

É estranho pensar que pessoas distintas tinham me recomendado esse filme várias outras vezes, mas sempre que eu pesquisava algo sobre na internet e olhava a foto-capa do filme* pensava: “Nah, acho que ando meio cansada dessas comédias românticas por um tempo”, e deixava o filme de lado outra vez. Mesmo quando finalmente comecei a assisti-lo, eu não estava muito certa de que queria terminar.

midnight in paris 2*Esta foto aqui.

            Se me é possível mencionar apenas uma coisa sobre o enredo do filme, diria que a forma como Woody Allen coloca em tela essa mania do ser humano de sentir saudades daquilo que não conhece, sempre acreditando ingenuamente que tempos passados eram realmente muito melhores que aquele seu momento contemporâneo é a chave do encanto filme. Já vi quadrinistas retratarem esse sentimento de várias formas, mas acho que o diretor conseguiu dar um toque muito particular e especial.

Assim como Gil Pender, o personagem principal do filme, eu também tinha uma década que gostaria de ter vivido, ou pelo menos conhecido melhor: 1920. Porque eu gostaria muito de ter sido contemporânea de Chaplin e viver em uma época onde praticamente todas as mulheres vestiam Chanel e sem necessariamente pagar uma fortuna para isso. Queria ter visto a reação imediata das pessoas ao conhecerem o trabalho de Duchamp, e saber como ele e Dalí era vistos em seu próprio tempo. Sem contar que sempre achei as músicas e as danças dessa década fantásticas também.

Essa mania estranha e nada saudável do ser humano achar que era muito melhor de se viver em alguma época muito distante, passada ou futura da sua, não é nenhuma novidade. Outra pessoa que retratou muito bem essa sensação foi o Renato Russo. Durante a minha adolescência, em uma fase que escutei muito o Legião Urbana, Índios era a minha música favorita deles. E coincidentemente, seu refrão diz “(…) Meu vício de insistir nessa saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vi”. E eu acho que, nesse sentido, ele conseguiu ir até mais além da ideia que o filme traz – porque a questão não é simplesmente julgar o passado melhor; mas achar aquilo que não viveu melhor, seja no passado quanto no futuro.

O problema aparece quando a gente romantiza tanto essa outra época a ponto de desprezar completamente a nossa, pensamento que se revela ilógico em dois aspectos (principalmente, mas sei que é possível encontrar outros também): 1. O nosso tempo não é tão ruim assim. Talvez possa não ser o melhor de todos, confesso, mas tem lá suas qualidades; e qualidades estas que nunca vamos perceber enquanto supervalorizarmos os defeitos. 2. As pessoas que viviam as épocas que costumamos admirar provavelmente comparavam os seus dias com outros acontecimentos, pessoas, mentalidades etc. Se analisarmos a fundo descobriremos que o problema está mais na constante insatisfação humana do que nos anos em si. É claro que, sim, os dias são maus. Mas sempre foram e sempre serão, então…

E fiquei aqui pensando: por que o ser humano é assim, tão complicado? Porque ando concluindo que a felicidade de uma pessoa é diretamente proporcional à sua habilidade em ser simples. Não que eu seja a pessoa mais simples do mundo para dizer isso com toda a propriedade, mas venho tentando me descomplicar sim – e sim, abrir mão de tanta complicação tem me tornado mais feliz. E sei que prestarmos atenção direito, descobriremos coisas boas em nossos dias sim.

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