Crônicas

1007 erros

Quando criança, existiam duas maneiras práticas de me deixar entretida: a primeira era passar a tarde assistindo televisão com minha avó, o que automaticamente significava Highlander e qualquer coisa que tivesse o Chuck Norris no meio, e antes da TV a cabo todas as novelas que passassem no SBT e na Globo, e depois da TV a cabo também. A segunda coisa consistia em gibis, almanaques e tudo o mais que envolvesse a Turma da Mônica.

É claro que eu brincava também. Mas, assim, nunca, nunca mesmo, minha mãe me deixou brincar na rua, e minha irmã caçula demorou muito a nascer, sabe? As meninas que iam brincar comigo no quintal eram mais velhas, então obviamente cresceram antes de mim. Eu tinha um melhor amigo de infância, me lembro que nós acordávamos mais cedo para brincar e/ou assistir Dragon Ball antes de estudar, íamos juntos para a mesma escola (onde brincávamos no intervalo porque éramos de sala diferentes), voltávamos juntos e ainda continuávamos brincando no mesmo quintal antes de ir dormir. Mas depois de um tempo ele se mudou de casa, e depois disso as férias deixaram de ser tão divertidas como costumavam ser.

Principalmente para os meus pais. Porque deixar uma criança fora da escola, sem os amigos e o tempo todo assistindo TV significava ter muita energia acumulada para a hora em que eles chegavam do trabalho. Energia acumulada de todas as maneiras imagináveis. Eu não era só uma criança querendo brincar o tempo todo, era uma criança querendo brincar e perguntar o tempo todo. E aquelas perguntas bem de criança mesmo, tipo o porquê do céu ser azul, se a centopeia tinha mesmo cem patas, se tinha leite na Via Láctea, por que os judeus e os árabes nunca faziam as pazes, etc. e tal.

Foi aí que meu pai descobriu uma invenção incrível, que nem sei se ainda existe hoje: o almanacão de férias. Ele me levava à banca e me deixava pegar tudo o que eu quisesse, e eu me sentia tão feliz com isso criança inocente que saía pegando todos os almanaques, gibis, figurinhas e revistas Recreio que via pela frente.

Mas eu era, mesmo, uma criança meio muito esquisita. Quando eu abria um desses almanaques, não lia primeiro a estória, pintava os desenhos ou qualquer coisa normal assim. Não, a primeira coisa que eu fazia era procurar o jogo dos 7 erros. E quanto mais desse jogo tivesse, mais eu gostava. Só depois de encontrar todos os erros e ter a certeza absoluta de que não tinha mais nenhum desses jogos, eu começava a ler e depois fazia aquela obra de arte surrealista de rabiscados coloridos e misturados formando qualquer coisa irreconhecível no papel. Um talento nato, coisa que impressionava de se ver.

Essa mania de procurar os erros em tudo me perseguiu por um bom tempo, e mesmo hoje não me abandonou por completo. Não que eu ainda seja perfeccionista como já fui, mas, em casos de pessoas atrapalhadas como eu, prestar muita atenção nisso pode ser até bom para saúde. Minha mãe não gosta que eu diga que sou atrapalhada, porque ela acha que é ser cruel demais comigo mesma. Já eu chamo isso de ser realista e aceitar logo os fatos, porque se até agora não consegui deixar de ser atrapalhada, minhas expectativas para o futuro não são das mais otimistas.

Por exemplo, é comum que uma pessoa como eu encontre hematomas de origem desconhecida com certa frequência no corpo. Digo que a origem é desconhecida porque, literalmente, não existe jeito de saber. É tão comum tropeçar, cair, chutar o pé da cama por engano, bater a cabeça e o braço sem querer; acordada ou não. Eu realmente não sei se crio mais hematomas acordada ou dormindo, cada dia é uma nova surpresa e uma grande probabilidade nem tão desejada de auto superação.

Também é comum eu espero que seja que pessoas como eu optem por novas tendências, muitas das quais nós mesmas lançamos e são exclusivíssimas. Tipo só descobrir que vesti a blusa do lado avesso no ponto de ônibus quando alguém me avisa, uma das minhas favoritas – “favorita” não é bem a palavra, mas é bem típica. Ou passar máscara para cílios em um olho só e sair correndo com medo de se atrasar. Essa também pode vir ocasionalmente acompanhada de um choro no ônibus por ter passado um daqueles cremes específicos para a área dos olhos, quando depois de espalhado o creme não compreende direito que é para ficar na área externa, e escorre para dentro do olho querendo proteger o que não precisa. É claro que isso acontece no olho com máscara, e o resultado final disso é prova viva de que nem sempre ter a cara limpa é pior que usar maquiagem.

Eu sou um jogo dos 7 erros ambulante, e se eu for bem sincera a minha conta de erros já deve ter passado dos 1007 há muito tempo. E não falo isso como drama ou autocomiseração, mas sim porque sei que a minha conta já está bem alta e os números se elevam a cada dia. Parei de calcular, porque não gosto de sofrer. E também, porque nem sempre contá-los serve como maneira de preveni-los mesmo.

Os erros não são previsíveis. Isto é, nem sempre, porque às vezes é tão notoriamente errado que quase chega a ser um grito. E quando o próprio erro grita um aviso, é melhor escutar. Quando me aparece um erro desses eu só consigo pensar em correr. Não é uma metáfora.

Mas outras vezes quando a gente percebe que foi um erro só dá tempo de bater na testa, e bater na testa consecutivamente. Tenho uma coleção desses erros aí, que é provavelmente a maior das minhas coleções.

O fato é que um erro, ou a suspeita dele, muda toda uma percepção pré-concebida. Muda os planos e qualquer outra coisa que possibilite não repeti-lo, ou mesmo fugir dele. É claro que infelizmente eu não posso ser perfeita e continuo errando, aliás, faço isso quase todos os dias “quase” só quando percebo. Mas quando tenho a chance de evitar o erro, burrice seria se assim eu não o fizesse.

É até clichê ouvir pessoas dizendo que a vida passa rápido demais para se preocupar com todos os erros e, parcialmente, até concordo que não dá para pensar neles o tempo todo. Mas também acho que a vida é preciosa demais para descartá-los totalmente, já que um erro, simples ou não, pode mudar todo um percurso. É coisa muito séria para se pensar.

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