Crônicas

Inspir(ação)

Semana passada, voltando de Sumaré no ônibus e antes de cochilar, enquanto lia as primeiras páginas de um dos livros adquiridos após a mini viagem, fiquei pensando. Pensando em várias coisas, para ser sincera, porque o meu pensamento divaga sobre assuntos desconexos ou não de uma forma que nem eu consigo compreender; mas em meio a toda essa divagação interna um único pensamento foi fixo.

Pensei em todos os meus livros. Sei que poderia ter pensado em, sei lá, todas as músicas que já escutei ou qualquer outra coisa; mas confesso que, muitas vezes, quando penso nas coisas propriamente ditas, objetos e junções de átomos, me parece difícil pensar em outra coisa. Pensei no sorriso que abro quando toco um livro sabendo que tenho nas mãos algo meu – sensação que experimentei, assim, umas três vezes, no fim de semana em questão.

É preciso levar em consideração que, como já disse em outro post, sou uma viciada em livros em constante terapia, tentando não gastar com isso toda mínima moeda que guardo ou com paçoca, mangaba e açaí. Até tentei organizar uma biblioteca em meu tablet. “É prático, fácil de organizar e não consome tanto espaço”, pensei. O problema é que sou meio antiquada e gosto mesmo de papel, sabe? Ainda não me sinto bem com esses formatos digitais e não me lembro da última vez em que consegui concluir uma leitura dessa maneira.

Mas o fato é que, quando pensei em meus livros naquele domingo, se tem algo em que não pensei foi no espaço em que ocupam ou no meu trabalho para organizá-los. Pensei nos temas distintos: cristianismo, poesia, literatura, ficção, crônicas, teologia, filosofia, sociedade e umas outras coisas que não consigo classificar direito. Pensei em como os leio filtrando aquilo que julgo ser bom, aquilo que me inspira a ter atitudes práticas, e se toda essa inspiração tem de fato se convertido em novas práticas.

Falo principalmente dos livros porque sinto-os de uma forma bem mais nítida, mas não acredito que a inspiração resida apenas neles. Me sinto inspirada pelas músicas que ouço, por frases de efeito que vejo ou mesmo pelas respostas mais simples; pessoas me inspiram. É como se a inspiração andasse por todos lados, muitas vezes surpreendendo por surgir nos momentos e lugares menos esperados: é um pensamento solto, voando, que de repente, encontra onde pousar.

Por outro lado, tem vezes que acho a inspiração algo muito difícil de se compreender. É suficientemente externa para que eu não me sinta no direito de julgá-la sendo minha, mas suficientemente interna para exigir uma resposta minha. É quando, por exemplo, ganho uma canção de presente por inspiração. É como uma chuva incessante de palavras que brotam no papel ou no bloco de notas do meu celular sem que eu saiba como ou por quê, é literalmente uma letra que vejo pronta por minhas mãos sem a sentir minha. Não é produto de horas ou noites em claro, como há alguns anos; às vezes é coisa rara, que demora a aparecer, mas que quando decide aparecer se resolve em questão de minutos.

E mesmo assim, fluindo independentemente de mim, não se concretiza sem que eu caminhe intencionalmente nesse sentido. Não porque eu seja superior em alguma coisa, porque acredito que inspiração possa pousar sobre qualquer um que dê a ela espaço, mas porque sem qualquer ação ela se torna vazia. Uma letra não se transforma em música antes de encontrada uma melodia e testadas várias harmonias, uma ideia não passa de algo distante enquanto não encontra metas para a sua realização, e nem as palavras ou sentimentos mais bonitos são úteis quando não se traduzem em práticas.

Sei que é um tanto clichê colocar o significado de verbetes em textos. Mas, sendo bem sincera, não é o tipo de coisa com que me importo. A minha teoria sobre os clichês que eles não o seriam se não funcionassem, e é por isso que têm o seu lugar certo. Enfim, quando procurei por inspiração no Aurélio, encontrei:

  1. Movimento pelo qual se leva ar aos pulmões.
  2. Ideia ou pensamento que surge de repente; estro.
  3. Insinuação, conselho.
  4. Coisa inspirada.
  5. Infusão da vontade divina na consciência humana.
  6. Pausa de um quarto de compasso.

Mas o estranho mesmo, e piegas, devo admitir, é a brisa que entrei enquanto pensava nisso. Pensei na gramática coisa muito interessante para se pensar e em sua formação de sufixos. Existem vários tipos de sufixos, mas os principais são dois: os que formam nomes de ação e os que formam nomes de agentes. E aí que, entre os que formam nomes de ação, um deles é o próprio –ção, ex: promoção.

Não contente em saber que o sufixo indica ação, meu pensamento tentou procurou se lembrar de quantas coisas boas, além da inspiração, indicam, desde a própria palavra que a designa, a ação de uma maneira ainda mais nítida: oração, comunicação, educação, aproximação, satisfação, realização, organização, cativação, motivação, demonstração… A lista não tem fim.

Pensar nessa lista de palavras foi uma das coisas mais bobas que me lembro de ter feito em meses. Apesar disso, sinto que este é um exercício que eu deva repetir muitas outras vezes, porque preciso de um lembrete constante de que a minha vida não pode ser simplesmente passiva o tempo todo. Eu preciso me mover.

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