Cristianismo

A primeira pedra

No finalzinho da tarde de ontem minha mãe veio conversar comigo, bastante chocada, me perguntando se eu já sabia sobre o que haviam feito nesta edição da Parada do Orgulho LGBT aqui em São Paulo, no último domingo. A partir daí tivemos uma conversa um tanto quanto longa em cima desse tema.

Antes de continuar escrevendo, pois sei que este é um tema bem delicado e polêmico, preciso dizer algumas coisas, ainda que isto signifique correr o risco de ser mal compreendida – mas não há outro modo de explicar tudo o que penso sobre o tema, então sim, é necessário. Eu sou cristã, e por isso entendo o porquê de as pessoas se sentirem ofendidas. Não me sinto homofóbica em dizer isso, pelo contrário, tenho vários amigos gays e nenhum deles nunca me criticou de tê-los tratado de alguma maneira ofensiva por causa da minha fé. Cristianismo não é sinônimo de homofobia, ainda que a culpa desse mal entendido seja, em grande parte, de alguns cristãos que têm uma postura muito diferente daquela recomendada na Bíblia; mas sei que esse é um assunto vasto demais para ser demasiadamente explicado aqui, e talvez ainda leve tempo até que as pessoas compreendam, tanto a sociedade em geral quanto os próprios cristãos.

Vi, pelo facebook, várias pessoas dizendo não entenderem o porquê de tanta ofensa utilizando uma imagem que reúne uma encenação de A Paixão de Cristo, a revista Placar com o Neymar crucificado e por último Viviany Bebeloni, a atriz transexual que protestou crucificada contra a violência que a comunidade LGBT é exposta, perguntando a diferença entre os três. Respondo que a primeira é uma encenação representando literalmente a própria cruz de Cristo e por isso não foi ofensiva, a segunda foi uma piada infeliz, e a terceira um protesto incompreendido. Se Viviany disse que não teve a intenção de atacar a Igreja com o seu ato e apenas quis protestar, eu acredito nela. Algumas outras fotografias que vi, como a que envolve um crucifixo, por exemplo, já ficam mais difíceis de compreender, mas não quero entrar neste quesito.

Não penso que a questão toda pare por aí, eu dizia à minha mãe ontem que às vezes a gente peca por ver tudo de uma maneira muito superficial. São dias de muita intolerância estes que vivemos, em todo canto, e infelizmente a Igreja não está isenta disso. Como cristã, sei muito bem o que a cruz de Cristo significa para mim. Mas as outras pessoas não sabem, e como poderia eu esperar que compreendessem perfeitamente algo onde elas não enxergam o mesmo valor que vejo? Seria insanidade minha nutrir uma expectativa dessas.

Um outro exemplo dessa intolerância pôde ser visto em um fato ocorrido no começo deste ano, quando todo mundo ficou chocado com a barbárie contra os cartunistas da revista Charlie Hebdo, e nunca na minha vida eu tinha visto tantas pessoas falando francês, mesmo que só para dizer “Je suis Charlie”.

Neste mesmo tempo, vi inúmeras reclamações sobre toda a atenção que foi dada ao assunto, dizendo coisas como “Deveriam prestar mais atenção na África e nas favelas, isso sim. Chega de tanto ‘Je suis Charlie’!”. E, francamente? Não sou alheia ao que está acontecendo no mundo, ando muito triste pelas pessoas que morrem no caminho para a Europa enquanto fogem da guerra civil na Síria e das 150 pessoas que morreram num posto de gasolina em Gana buscando proteção contra as enchentes, e quanto mais na periferia onde a coisa é ainda mais visível pela proximidade. Mas não consegui ficar menos chocada com o que aconteceu na França por saber de todas essas coisas, e nem achar que só porque eles eram de primeiro mundo a gente devia só se preocupar com coisa mais importante. Pessoas são a “coisa mais importante”, eles eram seres humanos como todos os outros que citei e não mereciam morrer daquele jeito.

Da mesma maneira que fui contrária aos ataques contra Charlie Hebdo, sou contrária ao jeito que tenho visto alguns cristãos ofenderem pessoas que estavam na 19ª edição da Parada do Orgulho LGBT neste domingo. Não me lembro de Jesus como alguém que deu uma lista de princípios moralistas a serem seguidos pela humanidade, mas sim como alguém que impactava as pessoas com Seu amor e, só por isso, por própria vontade elas mudavam suas crenças e, consequentemente, os seus hábitos por amor a Ele.

Aliás, também me lembro de Jesus como aquele que estendeu a mão, e não a primeira pedra (João 8:1-11). Se Ele agiu assim, por que querer fazer algo completamente diferente?

Está mesmo faltando amor nesse mundo.

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