Crônicas

As fotografias e o tempo

Não sou das pessoas que mais gostam de tirar ou mesmo aparecer em fotos, isto é, de mim, porque gosto muito de fotografar outras coisas, e às vezes penso que hoje sou assim porque já devo ter estourado minha cota de selfies durante a infância e a adolescência, quando nem nome para isso a gente sabia que existia. Na maioria das vezes que resolvo aparecer em uma fotografia, só minha ou com outras pessoas, quase que invariavelmente as razões são: a) Estou cansada de olhar minha cara nessa foto e não tenho mais outras; e b) Gosto tanto dessa pessoa, e todas as nossas fotos parecem ter quase um ano (ou dois, ou três…).

Quando descarto a hipótese de já ter tirado todas as fotografias e por isso estar cansada de estar na frente das lentes, penso que o verdadeiro motivo para isso, e o mais plausível, é que não quero que minhas fotografias se tornem qualquer coisa. Elas até podem ser sobre qualquer coisa, livros, paisagens e talvez comida, quando não estou nelas; mas para botar a minha cara nelas, a menos que seja uma chance única do tipo “Por que estou me sentindo uma pessoa bonita agora? Por que meu cabelo não bagunçou e minha franja está no lugar? É melhor eu até parar e fotografar isso, porque né…”, gosto da ideia de ser uma coisa especial. Aquela coisa antiga de momentos memoráveis e lembranças que precisam ser guardadas, sabe? E sinto que se isso “acontecesse” toda hora não teria nada de especial, pelo contrário, seria mais comum que não sei o quê.

Gosto de transformar as fotografias em coisas especiais principalmente por causa da sensação que isso dá com o passar dos anos. Não consigo encontrar em uma palavra perfeita para definir, e talvez seja só a nostalgia mesmo, mas gosto de ter a sensação de olhar essas fotografias especiais e pensar em como o tempo passou e mudou as pessoas que aparecem nelas, inclusive eu. Me apegava demais aos meus antigos diários quando os comparava com os mais recentes e pensava sobre tudo o que havia mudado nos meus planos, opiniões e sentimentos, mas parei de escrevê-los quando percebi que as fotografias cumprem este propósito de maneira muito melhor.

Porque no fim das contas, é tudo sempre sobre o tempo. Tanto faz se escrito ou fotografado, mas é sempre ele! Já perdi as conta de quantas vezes o tempo me mostrou coisas à minha volta e sobre mim que nem eu mesma havia percebido, e que de outra maneira jamais perceberia. O tempo voa quase sempre sem pedir permissão, e me surpreende como ninguém.

Converso tanto sobre o tempo, e com pessoas tão variadas quanto as respostas que ouço. Quase sempre percebo, tanto em mim quanto em outras pessoas, uma vontade de controlar o tempo, moldá-lo à nossa própria maneira. Como se o tempo fosse nosso, sabe? E nem sempre isso é sobre querer fazer com que tudo aconteça do jeito mais rápido possível, algumas vezes eu gostaria que todo o resto congelasse e as horas demorassem a passar por um único momento.

Mas não é assim que acontece, e nem teria como ser. O tempo não pede licença, e tampouco se importa com a opinião alheia, para ser o que nasceu para ser – sei que é estranho imaginar o próprio tempo nascer, mas seria muito irônico se logo ele escapasse a linha cronológica do começo, meio e fim. Não é como se isso tornasse o tempo um vilão ou coisa assim, ele só não é meu mordomo.

Nunca vi coisa melhor que o tempo para me chacoalhar quando estou inerte e preciso me mexer, e é também ele que me revela quando não há necessidade de correr. Talvez não seja sempre compreensível quanto eu gostaria que fosse, mas é imutável e muitas vezes tido injustamente como culpado por aquilo que as pessoas fizeram e/ou deixaram de fazer.

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