Crônicas

A parte fácil

Já parou pra pensar quantas vezes antes de fazer ou resolver alguma coisa procurou a parte mais fácil antes?

Não me lembro se foi na semana passada ou retrasada, mas estava pensando sobre determinado assunto e automaticamente me vi calculando o grau de dificuldade, procurando saber se tinha alguma facilidade em tudo aquilo. E foi bem aí que eu percebi que faço isso com muita frequência, uma frequência assustadora até.

Eis uma coisa estranha, o meu elevado só que não nível de conhecimento (aplicado, ao menos) em matemática: as quatro operações básicas e a regra de três e de preferência a simples, por favor. Mas na hora de classificar meus medos e dificuldades em números, rapaz… Me sinto até expert na coisa! Inúmeras vezes consegui quantificar em números e estatísticas atualizadas as minhas justificativas para fugir de dadas situações e tal, caberia até apresentação no Power Point e etc.

Toda essa covardia sempre me fez ansiar e procurar pela parte fácil, e entenda que, quando digo “parte fácil” não estou necessariamente querendo dizer “jeitinho” ou qualquer trapaça semelhante. Por exemplo, a parte fácil pode muitas vezes ser a procrastinação. Nesse semestre tenho uma matéria que, além da explicação da professora e dos slides, usamos um livro e toda semana a professora acrescenta um capítulo à nossa lista de leitura, sempre referente ao tema que ela acaba de explicar. E é aí que a parte fácil entra em ação: depois de ter tentado terminar, várias vezes, o primeiro capítulo sem muito sucesso, pensei que seria mais prudente eu focar nas minhas anotações e prestar muita atenção nelas, assim poderia assistir minhas séries em paz e ler outros livros mais interessantes só me preocupar com os capítulos de leitura às vésperas da P1.

E não é que deu certo? O que não significa, entretanto, que seja propriamente certo.

Mas aí, quando finalmente saí do capítulo introdutório, que era mesmo extenso e bem chatinho por ser repetitivo com algumas noções que já tínhamos visto nos outros semestres, à medida que ia avançando a leitura pelos outros capítulos percebi que de repente eu já não folheava as páginas fazendo uma lista mental de coisas mais legais que eu poderia estar fazendo em vez de ler aquele livro, e que até estava gostando da parte operacional de Comex mais do que imaginei que gostaria. E quando percebi que estava gostando do jeito difícil me lembrei de quantas vezes fiz meus planos baseados na parte mais fácil e em quantas coisas boas eu perderia se as coisas sempre saíssem segundo o meu roteiro.

Durante a adolescência eu não queria ter filhos biológicos. É claro que havia todo um discurso humanitário e social por trás disso, que confesso ainda admirar quem não só faz o mesmo discurso que eu fazia como também o pratica, mas no meu caso específico a parte fácil era a essência do meu discurso. Não era exatamente o medo de ter estrias, de meus pés incharem ou de ficar gorda, mas sempre que em algum filme ou série aparecia a cena de um parto, o médico gritando para a mãe fazer força e uma mulher descabelada berrando, o meu pensamento inicial era “E se eu não tiver forças pra fazer a criança sair? Por que mesmo eu quero ter um casal de filhos e não posso ficar satisfeita com um só?”. Há de se admitir que existia lógica no meu pensamento, vai…

Só que aos vinte a cabeça de uma mulher já não é a mesma dos dezesseis, e quase toda vez que alguma criancinha pequena me chama para brincar e me cansa de tanto correr, me pego imaginando que bonito será o dia em que eu tiver uma pessoinha pequenininha dessas me chutando por dentro. Esse tipo de coisa é importante para uma mulher, mesmo não sendo fácil.

E a lista de coisas importantes e não tão fáceis só aumenta, embora nem todas as outras coisas sejam tão bonitas assim. Não é fácil sair de casa para fazer uma prova quando se acorda com uma daquelas cólicas cruéis que não dão vontade de sequer pensar em qualquer outra coisa que não seja a cama, ou deixar a preguiça de lado para fazer algo que não seja tão prazeroso quanto o esperado. Também não é fácil escolher a escada quando se encontra o elevador paradinho com a porta aberta, e nem preferir um lanche mais saudável quando se vê uma linda lata de batatas na prateleira do mercado ou assistir só um episódio da série pensando em adiantar a leitura de um daqueles livros que a gente lê porque precisa, e não por escolha. Nenhuma dessas coisas é bonita, mas todas são boas e necessárias.

Nem sempre a vida é composta por escolhas fáceis ou bonitas, e pra falar a verdade acho que na maioria das vezes não é. A zona de conforto não é um hotel cinco estrelas, e mesmo que o nome até remeta a isso, não é um canto para se espreguiçar e fixar moradia; não sei nem se é um bom lugar de passagem.

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