Crônicas

Significados

De sábado para cá venho pensando bastante no significado das coisas. É estranho como, de alguma maneira para mim incompreensível, a sociedade deixa passar reto o porquê de quase tudo, e sempre que penso nisso faço uma análise interna para descobrir quantos porquês e “paraquês” eu mesma despercebo sem querer.

É tanta frase solta usada como escudo ou arma, totalmente desconexas de seus contextos e sentidos originais, ou tradições que se perpetuam sem que sejam compreendidas; e não estou aqui criticando as tradições, só penso que, como os clichês, existe um motivo para que assim o sejam. Mas às vezes me parece um tanto quanto raro achar gente interessada nesses porquês, o nosso comodismo impede. É sempre mais fácil deixar tudo como está, porque no fim das contas é só atribuir créditos à Clarice Lispector ou Caio Fernando Abreu e pronto. Quem é que liga mesmo para a origem? Cadê o lead?

Outra coisa que eu acho estranha, sobre tudo isso, é que paradoxalmente desprezamos os significados que de fato existem e são claros, e procuramos significados imaginários – isto é típico de mulher, inclusive. Não estou dizendo que isto é intencional porque é loucura, mas acontece. Somos capazes de achar que podemos enxergar algumas milhas de distância, mas não vemos o que está em frente aos nossos narizes. Conseguimos extrapolar o conceito de hipermetropia, sabe?

Ou atribuímos outros significados, colocamos a nossa percepção, que é relativa, como verdade absoluta. Isso é fácil de perceber quando vejo as pessoas falando um discurso, até que aparentemente bonito e de efeito, e no meio surgem as seguintes palavras: “Mas cada um tem a sua verdade pessoal. O que é verdade para você pode não ser verdade para mim…”, e na maioria das vezes eu não respondo o que penso por não querer ser grosseira ou mal compreendida apesar de que algumas pessoas sabem ler meu pensamento só pela cara que faço, mas sempre me pergunto como o ser humano consegue tornar subjetivos os próprios conceitos de verdade e mentira. Quando vejo alguma questão com alternativas nas minhas P1 ou P2, geralmente só uma das opções é afirmativa (ou falsa, se for este o caso), e não interessa se um ou dois itens da mesma sentença podem ser verdadeiros, porque a frase precisa ter todas as vírgulas e pontos corretos para ser considerada válida.

Isso também é visível de várias outras formas. Domingo agora, por exemplo, a Pessach judaica e a Páscoa cristã foram, e todo ano continuam sendo, associadas a coelhos que põem ovos. E, assim, eu tenho a opinião de que não há necessidade de nenhum pretexto para comer chocolate, mas havendo-os, todos se tornam válidos, sabe? Agora, a relação do coelho com a Páscoa ou do coelho com os ovos, ou ovos de coelho com chocolate, acho que nem Freud explica. Não dá para entender, e ainda assim o significado original deixa de existir para algumas pessoas, mesmo que o segundo não faça o menor sentido.

O pior de tudo é que, quando o significado é posto de lado, a essência se esvai junto. É como se o cantar de um pássaro deixasse de ser uma expressão da natureza para tornar-se uma mera combinação de notas, mecânicas e sem sentimento. O raiar do sol deixaria de ser um recomeço diário, um sorriso não nos cativaria e nem nos impulsionaria a sorrir junto; assim as coisas pequenas e simples perderiam o seu valor. A vida seria por demais mecânica e sem graça, o tédio se espalharia por todos os cantos e todos os variados sons existentes seriam silêncio em meio à rotina.

Seria um mundo muito desagradável para se viver.

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