Textos

#AskHerMore

Eu vinha planejando, para este mês, uma série de posts abrangendo temáticas femininas e tal, mas à medida que os primeiros trabalhos do semestre foram finalmente surgindo e a lista de livros e exercícios aumentando, além de outros probleminhas técnicos, percebi que as coisas não acabariam saindo bem da maneira como planejei outra vez. Tem um bocado de coisas que eu gostaria de abordar e tal, mas como não sei mais se isso será possível, vou tentando fazer o que está ao meu alcance.

Enfim, ainda é Dia Internacional da Mulher no Brasil (por enquanto) e foi até complicado decidir sobre o que eu queria escrever primeiro. Como já falei em alguns outros posts, eu não sou a mulher mais feminista da face da Terra, sou contrária a legalização do aborto e outras coisas que fazem de mim uma pessoa muito conservadora em alguns aspectos, e também falei que concordo que é mais que necessária a igualdade salarial entre os gêneros. Não por qualquer questão sexista, mas sim por bom senso apenas, afinal, a nossa própria Constituição Federal defende no art. 5º incisos I, II, III e XLI a isonomia sobre as liberdades fundamentais e criminal. Aí eu fico aqui pensando, somando isso ao fato de só as garotas que estudaram comigo, na grande maioria, terem procurado alguma especialização profissional e cursos superiores, e que na minha faculdade (e em outras faculdades também, segundo meus professores) é muito maior o percentual de alunas matriculadas, em pleno século XXI pagar menos a uma mulher que exerce o mesmo cargo que um homem não faz o menor sentido.

Nesse aspecto de algumas das causas defendidas pelas feministas com as quais me identifico, existe uma outra coisa que, por incrível que pareça, consegue me incomodar ainda mais, e com todo esse contexto do Oscar ficou ainda muito mais visível, e é disso que se trata a #AskHerMore. E vou ser bem sincera, quem me conhece de perto sabe o quanto eu gosto de vestidos, saias e etc., todo esse girly stuff; mas assim que tornam visível o incômodo que as próprias atrizes sentem com esse tipo de pergunta no red carpet, acho que fica mais fácil a tradução e interpretação do que quero dizer.

Tenho nojo das revistas femininas, a última que descobri pela internet e me interessou, justamente por ter o formato um pouco diferente das revistas brasileiras e traduções ou versões como a Vogue (é, eu não curto Vogue. Não me apedrejem, por favor) foi a australiana Frankie Magazine. Durante a adolescência gastei muito dinheiro comprando essas Atrevidas e Caprichos da vida quando saía na capa alguma banda que eu gostava, tanto que quando fui jogá-las fora aos dezoito e fiz a conta de quanto tinha gastado naquilo (não me lembro o número exato, mas foi cerca de R$ 300) quase chorei, mas em suma todas essas revistas são iguais: anúncios e publicidades de vestidos e outras marcas caras, entrevistas com artistas e testes imbecis com os títulos ainda mais imbecis, tipo “Ele beija bem?” ou “Será que você beija bem?” e outras inutilidades afins. E quando cresci pensei que as revistas para mulheres fossem diferentes, com um conteúdo mais interessante, mas pense no meu choque quando percebi que a essência é basicamente a mesma, com a exceção de que as “matérias” que envolvem o sexo oposto são muito mais… Deixa pra lá, é melhor eu nem tentar explicar.

Isso não acontece só com revistas, existem vários fatores, através da mídia de massa ou não, que reduzem a feminilidade a questões superficiais como a moda, a cor do esmalte ou da tintura de cabelo e blá blá blá. Repito, essas coisas são legais e fazem parte do nosso dia-a-dia sim, mas eu não gosto, e nem compro mais, certas revistas por saber que não terão nada além disso; as conversas que tenho com minhas amigas sobre isso praticamente não duram cinco minutos antes que encontremos temas mais interessantes. E existem duas possíveis coisas desagradáveis que normalmente surgem diante desse tipo de alienação: a) algumas mulheres acabam realmente acreditando que a vida se resume a isso; ou b) não sei dizer ao certo se porque algumas das mulheres mencionadas na primeira alternativa passam essa imagem e por isso somos tratadas desta maneira, ou se primeiro elas recebem a alienação e depois todas nós, em maior ou menor grau, somos tratadas desse jeito porque isso acabaria caindo naquela velha lenga-lenga do ovo e da galinha; mas existe alguma dinâmica muito estranha na maneira como algumas mulheres se enxergam e como o sexo masculino nos enxerga.

Também me incomoda toda essa sensualidade excessiva que a mídia impõe sobre a mulher, e eu sei que há quem goste, até mesmo mulheres, mas me incomoda. Falando sobre mim outra vez, eu me sinto insegura sobre muitas coisas, diria até que o meu nível de insegurança beira os 50%, o que eu acho ser muita coisa, e se eu estiver na TPM pode variar entre 150% ou 300%. É tanta insegurança que, quando eu percebo ou penso perceber algum cara olhando para mim, a primeira coisa que me passa pela cabeça é “Não, ele não deve estar olhando pra mim não, é só impressão. Certeza que tem alguma outra menina mais bonita por aqui, mais alta e sem óculos, com a pele mais macia, o cabelo com uma cor mais brilhante e sedoso… É claro que não deve ser pra mim, só se for pegadinha do malandro” e simultaneamente começo a olhar para os lados procurando por alguma estrela perdida de Hollywood, com Photoshop e tudo. Ainda assim, não é porque me sinto insegura desse jeito que preciso ser chamada de “gostosa” ou receber alguma cantada imprópria, das mais grosseiras às mais estúpidas imagináveis, para me sentir bonita ou satisfeita comigo mesma.

Aliás, quem foi que inventou que gritar “GOSTOSA!” no meio da rua é um elogio ou uma boa maneira de conquistar uma mulher? Sempre que ouço alguém dizer isso primeiro penso em uma lasanha ou uma bandeja com todos os chocolates do mundo, mas quando percebo que não é bem disso que se trata me sinto ofendida, e não entendo como é que algumas mulheres conseguem gostar disso. Não quero ser reconhecida pelo meu corpo ou por fotografias com vários likes no Instagram só porque meus peitos saltam para fora (hipoteticamente, gente!), e isso não significa que eu queira sair por aí parecendo a Noiva Cadáver, mas… Acho que ficou claro o que eu quis dizer, não?

É fato que sou mais emocional que racional na maioria das vezes, que não defendo nenhum tipo de igualdade de gêneros quando a barata voa ou rasteja, ou respira e acho que o cavalheirismo ainda é muito importante nos dias atuais, que gosto de girly stuff e tal, mas não sou só isso e nem quero ser tratada dessa única maneira. Quando atrizes reclamam publicamente só receberem perguntas insatisfatórias sobre o seu vestuário é, na verdade, um grito coletivo que também parte de quase toda mulher. Eu não quero ficar conversando só sobre a cor do meu cabelo (que eu nem sei, inclusive, mas é natural); quero falar de música e poesia, livros, política e economia. Quero falar dos meus planos, do que desejo profissionalmente, penso e espero da vida, que é muito maior que essas superficialidades.

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