Crônicas

Constância

Ultimamente ando pensando muito sobre constância, e como esta é uma virtude tão necessária.

Olhando no dicionário, a vejo descrita como: 1 Qualidade de constante. 2 Firmeza de ânimo; perseverança, coragem. 3 Duração. 4 Persistência e 5 Paciência. Nunca vi alguém usar nenhuma denotação pejorativa para a constância, aparentemente é como se todos a entendessem como uma virtude e ponto; mas na prática não é bem assim que a coisa funciona. Por exemplo, enquanto estou aqui sentada na cama escrevendo sobre isso também estou tentando me lembrar de alguma letra de música, qualquer uma, que exalte a constância e tal, mas nenhuma me vem à cabeça. Mas se repito o mesmo exercício, trocando pela inconstância, eis que um leque me surge. Para início de conversa, vou mencionar duas músicas nacionais culturalmente muito conhecidas, sendo uma Metamorfose Ambulante do Raul (título e letra autoexplicativos), e a outra Como Uma Onda, ou Zen-Surfismo, do Lulu Santos. E, mais recentemente (tá, doze anos não podem ser tão recentes assim), lembro-me que na adolescência eu tinha um CD, original, da Pitty, onde uma das minhas músicas favoritas também ressaltava a inconstância da vida humana dizendo “Chega simples como um temporal, parecia que ia durar. Tantas placas e tantos sinais, já não sei por onde caminhar. E quando olhei no espelho eu vi meu rosto e já não reconheci, então vi minha história tão clara em cada marca que tava ali…”.

Eu estava me perguntando por que sendo a constância amplamente compreendida como uma coisa boa, as letras de música, crônicas ou poesias, que são reflexos da nossa sociedade, não a reconhecem como tal, e aí me dei conta de que a resposta é justamente esta: reflexos de uma sociedade inconstante. Porque, de alguma maneira estranha, apesar de nem todas as pessoas serem tão abertas a todo tipo de mudança, é como se a inconstância sempre estivesse presente em cada um de nós. Já não é assim com a constância que, como qualidade e sinônimo de maturidade, precisa ser desenvolvida e raramente é uma característica natural. Talvez por isso a monogamia seja algo tão horripilante para alguns, ainda exista o nomadismo (isso é mais ou menos diferente do que aprendemos na escola, apesar de ter a mesma essência. Não costuma acontecer com tanta frequência aqui no Brasil, mas nos países tido como desenvolvidos é muito comum que as pessoas mudem devido aos estudos ou o trabalho, os estrangeiros são bem mais desprendidos nesse sentido) e as pessoas andem cada vez mais ansiosas pelos upgrades de seus aparelhos; acho muito esquisito quando vejo o nível de insanidade que algumas pessoas cometem só para trocar seu iPhone pelo último modelo – como se o anterior fosse tão pior assim.

É claro que toda essa inconstância transborda para os relacionamentos. Eu tenho mania de guardar praticamente tudo, fotos, cartas, presentes (dos mais legais aos mais estranhos, tipo embalagens de bombons ou pilhas usadas) que ganhei dos meus amigos em anos, desde a 4ª série mais ou menos, então vire e mexe acabo encontrando uma dessas caixas, camisetas anotadas e recados em agendas antigas. Não é muito agradável a sensação de relembrar pessoas com quem tínhamos laços tão especiais e, com o passar do tempo, a maioria acaba se distanciando por circunstâncias diversas, apesar de quase totalmente compreensivas. A coisa também não fica muito distinta nos relacionamentos românticos… Certa vez, Nelson Rodrigues escreveu que “Todo amor é eterno. Se não é eterno, não era amor”, e fico me perguntando se, caso ele ainda estivesse vivo, ficaria tão horrorizado com a banalização do amor como eu fico. Eu já perdi as contas de quantas vezes preferi passar o resto da minha vida sozinha a ter qualquer coisa parecida com esses casais que vivem dizendo “Te amo” e expiram em menos de três meses, e por incrível que pareça, conseguem “amar” igualmente a pessoa com quem se envolvem depois, coisa que também não dura muito tempo, e isso continua se repetindo como um ciclo sem fim.

Só que é sempre da constância que surgem as coisas boas. É a constância que permite a alguém terminar uma graduação, um livro ou se dedicar verdadeiramente a qualquer coisa; mas também é a presença contínua de uma mesma percepção que nos permite abandonar a ideia de algo que jamais existiria e escolher um caminho diferente. Antes eu costumava pensar que a constância implicava diretamente na ausência de um final, mas percebi que isso não é verdade, porque de maneira contrária à inconstância, seu trunfo é produzir um final digno. E  não é extremamente fácil perseverar em meio a tantas adversidades, mas os frutos provam que não há outra coisa certa a fazer.

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