Crônicas

Imprevistos

Desde o fim do ano passado, e a cada dia mais, me pego pensando muitas vezes sobre a imprevisibilidade da vida. Eu odeio aquela sensação de ficar repetindo a mesma tecla, mas às vezes sinto como se toda vez que acho já ter aprendido e percebido tudo o que podia a respeito disso, outras situações inesperadas aparecem e me relembram de que ainda preciso de muita prática para aplicar o pouco de teoria que venho descobrindo.

Era quinta-feira passada, lá por volta das 6:40 da manhã, quando peguei o ônibus a caminho do meu primeiro dia letivo do semestre e tudo parecia correr muito bem. Parecia. Um dos meus antigos problemas que venho tentando reverter é a falta de organização em vários aspectos, incluindo a impontualidade, e apesar de felizmente já ter notado alguns progressos, ainda me sinto bem longe de como quero estar. Mas nesse dia não me senti tão longe assim, para ser sincera, estava até que bem feliz comigo mesma por ter conseguido arrumar tudo e as coisas se encaminharem da maneira como eu havia planejado, tudo no horário certo e tal… Só que não por muito tempo. Mal pude aproveitar muito a felicidade de ver o tempo a meu favor e, quando o ônibus estava quase chegando na estação de São Miguel, por algum motivo que até agora não entendi, todos os carros ficaram parados e de repente só se ouviam buzinas furiosas e pessoas impacientes esvaziando os ônibus e lotações. Esta não era uma opção para mim, então fiquei quieta no mesmo lugar observando o celular, que antes marcava 7:05, apontar 8:15 quando cheguei na faculdade.

Há de se dizer que, além de me frustrar com o meu visível atraso, tive tempo para ler, dormir, lamentar, etc e etc. E depois de cochilar um pouco no trajeto, fiquei percebendo o quão falha, frustrada e impotente me sinto diante dos imprevistos. Eu já tinha pensado sobre isso algumas vezes, mas até então acho que não tive a dimensão exata de quanto tudo isso me afetava, e de como isso é sério. É tão errada a minha percepção que, quando algo assim acontece, não consigo ver a situação como “Não saiu do jeito que eu esperava, mas sei que fiz a minha parte e tudo vai acabar ficando bem”, porque na maioria das vezes penso “As coisas não saíram como eu planejava, e agora? E agora?!”. É um excesso de necessidade de controle desnecessário e abusivo, e que não se apresenta como o monstro que só agora o percebo, porque inicialmente se mostra como uma pequena e linda borboleta, inofensiva. É um roteiro todo pronto. Antes eu pensava “Vou terminar o EM e faço um ano de cursinho, aí entro numa universidade pública e consigo um emprego bem bacana. Não quero ser como essas minhas amigas que se envolvem demais emocionalmente, não vou me interessar por ninguém até que eu esteja pelo menos na metade da minha segunda faculdade, antes disso não quero e nem vou me preocupar. E já preciso começar a pensar no que vou me especializar, porque quero pelo menos ter terminado o mestrado antes de começar a pensar em ter filhos; que serão um belo casal de filhos, aliás, o menino pelo menos uns três anos mais velho que a menina. Ainda não pensei nos instrumentos musicais que eles vão estudar, hm…”.

Hoje, repito, hoje, eu sei que é loucura planejar tantos detalhes assim, e maior loucura ainda achar que todo o meu roteiro pronto sairia da maneira como eu havia planejado. No entanto, insano mesmo é o meu choque e a paralisia que sinto diante desses imprevistos, “E agora?!” é uma expressão carregada com mais medos e inseguranças do que eu jamais poderia imaginar. É um fardo pesado demais, que eu já me cansei de carregar. A vida não é como uma massa de bolo pronta, e eu já perdi as contas de quantas dessas fórmulas prontas eu abri, e continuo abrindo mão; fórmulas que aspiram ser amuletos contra os medos e erros, mas depois de um tempo acabam se revelando ainda piores que enfrentar logo a raiz do problema.

“Mas não é como se você pecasse por causa disso, isso aí já é um exagero seu”, já me disseram, mas não consigo entender essa mania de esperar que aconteça um sintoma muito exagerado para correr atrás do antídoto. Se eu percebi que isso não tem me feito bem já é o bastante, não? Não posso ignorar que muitas vezes minha vida saiu ao contrário, e muito melhor, do que eu havia planejado ou pensado, e temer não saber o que pode me acontecer não é o tipo de coisa que quero acumulando espaço dentro de mim. “E agora?!” é uma pergunta que, no fim das contas, acaba sendo respondida por si só.

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