Crônicas

Minha SP

461 anos, 1.523 km² e 11,89 milhões de pessoas – segundo a internet; essa São Paulo é tão linda e minha como de cada um desses outros habitantes. Todo ano penso em fazer algo especial quando no aniversário da minha cidade, e esse é o tipo de ideia que, além, de piegas, torna-se perigosa na cabeça de quem tem papel e caneta em mãos: não sou Mário e nem Oswald de Andrade, nem Lima Barreto ou Alcântara Machado, mas de tão teimosa insisto e me atrevo.

Tem uma coisa aqui em SP que até uns tempos atrás me incomodava bastante, mas nos últimos meses passou a me encantar e, disse um professor meu da faculdade que, mesmo viajando por quase o mundo todo a trabalho não é tão fácil de se encontrar, e já já digo o que é. Quando penso em Minas logo me vem à cabeça um sotaque específico, o pão de queijo, a arquitetura barroca transbordando história por todos os lados, as montanhas e cachoeiras e, pra completar, aquelas músicas que têm muita cara de Minas mesmo, tipo “Cavaleiro marginal, banhado em ribeirão…”; mas se o assunto for o Rio é meio que automático o sotaque chiado que me surge mentalmente, as praias mais lindas que sequer pensei em imaginar e a Bossa Nova, com seus acordes tão lindos e vez ou outra a voz do Tom dizendo “Se você disser que eu desafino, amor…” e sim, eu sei que minha visão sobre os dois (e possivelmente sobre vários outros estados), parece e é muito folclórica.

Mas se penso em SP, o meu lar, nunca me vem à memória um tipo de clima específico, só a blusa de frio e o guarda-chuva que sempre acham um espacinho na minha bolsa sem nem saber se vão ser usados ou não, e que mesmo o aplicativo de previsão do tempo não me ajuda muito na maioria das vezes. Também não penso em nenhuma comida típica, nunca vejo aquelas receitas dos bandeirantes que me obrigaram a levar à escola na 5ª ou na 6ª série comumente substituídas pelo bife com batatas fritas, ou pela pizza, pelo yakissoba e o que mais a gente encontrar, e olha que dá para encontrar muita coisa. Até a música que, ao meu ver, mais define minha cidade foi composta por um baiano e retrata perfeitamente essa chuva de indecisão: “Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba, mais possível novo quilombo de Zumbi…”. Mas o que me magoa de verdade é quando uma pessoa diz algo como “O shopping é a praia do paulistano”. Sério? Como ousar comparar a brisa do mar a uma coisa tão sem graça quanto um shopping? E sim, eu admito que o meu lado gordo gosta muito da possibilidade de encontrar aquele tanto de comida diferente e gostosa em uma só praça de alimentação, mas ainda assim, tô pra ver coisa mais sem graça!

São Paulo não tem um único sotaque, uma cara ou uma comida específica, e é justamente essa falta de especificidade que aprendi a admirar, desde o sotaque ítalo-paulistano da Mooca e o falar arrastado nordestino aos olhinhos semelhantes e puxados que vejo na Liberdade e em todo lugar; essa coisa de megalópole nunca para de me surpreender. Outra coisa que me encanta é que dentro dessa mesma “Pauliceia Desvairada” é possível imaginar incontáveis SPs distintas e particulares. A primeira, é claro, nem sempre é tão agradável, é repleta de filas de carros intermináveis e gente sendo quase que enlatada nos ônibus ou nos metrôs. É também muito contraditória: a mesma SP onde há um estopim com 0,20 centavos é onde o Haddad é aclamado tocando guitarra enquanto espera a poeira abaixar, e é também onde o Alckmin continua se reelegendo mesmo depois de o povo tanto reclamar – talvez porque a oposição dele consiga nos assustar ainda mais, inclusive. Até aquele céu lindo com camadas rosadas e laranjadas que tanto gosto de olhar está cheio de fumaça e outras substâncias que não quero inalar. Mas existe amor aqui sim!

Quanto às micro cidades particulares, só da minha posso falar. É mais ao leste, bem longe do centro, no bairro que já há muito tempo deixei de morar, porque foi onde nasci e cresci que minhas raízes escolheram brotar e ficar. É tão estranha e gostosa a sensação de ler nomes por mim conhecidos, como a Estrada de Mogi, nos livros antigos de romance e, ao passar de ônibus pela Praça do Forró (Padre Aleixo na verdade, mas quem é que diz?) e ver as placas traduzidas para o inglês, lembrar que um pedaço da história de SP aconteceu bem aqui, com Anchieta e os ururaís, e gente de fora vem para ouvir. Quero conhecer tantos lugares pelo mundo afora, e ainda assim não consigo imaginar outro onde eu gostaria mais de estar ou nascer, porque só o ar de São Miguel Paulista é aquele que me traz à boca um sabor gostoso de pertencer.

SP é assim: grande, cinza e diversa. Cheira a pastel de feira e um copo de cana de açúcar, tem menos flores e jardins do que eu gostaria, e há prédios pra qualquer canto que se olhe. É cheia de carros e motoristas com tanta pressa que mal deixam os outros atravessarem; e tem sim muita gente metida, mas também tem gente simples e feliz, daquelas pessoas que parecem sorrir com o olhar… É só o que posso chamar de lar.

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