Cristianismo

Graça, e nada mais

Já tem alguns meses que senti de escrever sobre este tema, mas estava começando a ficar apertada com as últimas pesquisas da faculdade e a entrar na neura das provas finais, por isso adiei tanto. Julguei ser mais prudente procurar mais referências vindas de pessoas muito mais experientes que eu, como escritores e teólogos renomados, mas no fim das contas achei que seria muito mais sincero escrever sobre a minha própria experiência, ainda que por vezes a ache tão confusa, do que escrever em cima de empirismos alheios.

Antes que eu prossiga, preciso fazer três constatações para que qualquer pessoa que se aventure a ler minhas palavras reflita se há vale mesmo a pena ou não: 1. Não sou nenhuma especialista em Teologia, me julgo a mais leiga dentre os leigos; 2. Em tudo que até hoje li, conheci e descobri sobre o Deus das Escrituras, nada jamais me intrigou tanto quanto o conceito de Graça; e 3. Também não existe nenhum outro tema que me maravilhe tanto quanto a Graça, e é justamente este o motivo (o único) de eu ter resolvido me atrever a escrever o texto em questão. Posto isto, prossigo.

Há algumas semanas, não sei quantas ao certo, venho compartilhando com as meninas do pequeno grupo que temos aqui em casa que são muito estranhos os dias que vivemos, principalmente no meio cristão. Porque muitas vezes eu mesma tenho a impressão de que deixamos passar, por qualquer motivo incompreensível e descartável, o real significado da Graça; e fico aqui pensando com meus botões que se mesmo eu tenho essa impressão, quanto mais aqueles que jamais sequer souberam a dimensão desse favor imerecido.

Falo isso porque ouço e vejo coisas totalmente vazias da essência da Graça, e quanto mais percebo isso, maior é o meu medo de tratá-la do mesmo modo que a vejo sendo tratada. E não sei quantas vezes, inconscientemente ou não, posso ter caído no mesmo erro sem querer ou perceber. Escrevo isso não só como uma maneira de analisar, mas também memorizar o que venho descobrindo para não correr o risco de agir assim.

Quase todos os dias quando ando por minha rua, seja indo em direção ao ponto de ônibus ou descendo para reuniões no próprio templo, sou abordada por algumas mulheres me oferecendo papeis e querendo conversar sobre Deus comigo. Minhas respostas geralmente variam entre “Moça, eu preciso correr para não me atrasar” e “Já faço parte de uma igreja, obrigada”, e quando respondo esta segunda principalmente, mais que uma vez fui encarada com um arquear de sobrancelhas e olhares que ao mesmo tempo divergem entre um julgamento seguido por soberba. E não pretendo, de maneira alguma, dizer qual denominação está certa sobre isso ou aquilo, mas na minha cabeça não me parece aceitável que a minha calça jeans, o meu corte de cabelo despontado ou a cor do meu batom me tornem menos cristã que pessoa alguma. Não que eu me sinta dona da razão, pelo contrário, quanto mais me conheço mais descubro quantas falhas no meu caráter ainda precisam ser tratadas e mudadas; e saber destas mesmas falhas me leva a pensar que eu deveria ser julgada por coisas mais sérias e importantes que a maneira como me visto.

Sei que, dada a diversidade de pensamento no meio cristão (outra coisa que para mim também parece incompreensível desde que Jesus orou pedindo para que fossemos um, mas…), muita gente pode discordar de mim quanto ao que foi dito no parágrafo anterior, mas não propositalmente eu li uma coisa muito interessante e oportuna que o próprio Jesus disse a respeito enquanto fazia a minha devocional de madrugada, e prefiro considerar a opinião dEle que a de qualquer outra pessoa, então… Guardo-me apenas o direito de compartilhar o que Ele mesmo disse a esse respeito, e que cada um lendo isso sinta-se no direito de pensar o  que quiser:

            “Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês dão o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas têm negligenciado os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Vocês devem praticar estas coisas, sem omitir aquelas. Guias cegos! Vocês coam um mosquito e engolem um camelo.
            “Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês limpam o exterior do copo e do prato, mas por dentro eles estão cheios de ganância e cobiça. Fariseu cego! Limpe primeiro o interior do copo e do prato, para que o exterior também fique limpo.
            “Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês são como sepulcros caiados: bonitos por fora, mas por dentro estão cheios de ossos e todo tipo de imundície. Assim são vocês: por fora parecem justos ao povo, mas por dentro estão cheios de hipocrisia e maldade.

Mateus 23:24-28, NVI


“Mas, Geórgia, o que você disse não faz o menor sentido porque foi algo direcionado aos fariseus que viviam debaixo da Lei e não da Graça, e não é este o nosso caso”, sei que esta é uma das possibilidades de interpretar todo o capítulo de Mateus 23, mas não é o jeito como eu entendo o que está escrito. Primeiro porque já aprendi que todas as coisas escritas no conjunto de livros que chamamos de Bíblia foram escritas para o meu ensino pessoal (Romanos 15:4), e portanto não posso tratar nenhum versículo sequer como algo direcionado a qualquer outra pessoa do planeta que eu mesma não precise não só aprender como também me lembrar constantemente e praticar; e outra coisa que não consigo ignorar é que tanto os fariseus quanto os mestres da lei eram vistos como aqueles que detinham mais conhecimento sobre Deus que as pessoas em geral, fato que também se aplica a nós como cristãos hoje em dia, ou no mínimo explica muito da maneira cheia de expectativas como costumo ser tratada; e ainda não falei sobre os três pontos que entendo como o maior destaque do versículo 23: a justiça, a misericórdia e a fidelidade, e como pelo menos eu me sinto tão falha e precise aprender ainda muito dos três. Tendo essas três coisas anteriores como base, não consigo concluir outra coisa senão que Jesus dá muito maior importância ao que realmente somos do que aquilo que as pessoas pensam ver em nós, e isso me leva a questionar como e por quê deixamos que outras pessoas pensem que algo tão maravilhoso como a Graça poderia se resumir apenas a roupas, costumes e ritos.

Eu tenho uma mania de ficar caçando bandas interessantes no cenário indie, coisa que até hoje não consegui abrir mão, e foi fazendo isso que descobri a After Edmund no sábado. E eles têm uma música no último álbum, de 2013, que desde então não me sai da cabeça. Procurei um link no Youtube para colocar aqui e facilitar, mas só achei no Spotify. Não acho que Superhuman sirva como tentativa de ilustrar a Graça em si, mas seu refrão vale como uma percepção que todo ser humano devia ter acerca de si mesmo: “I ain’t no superhuman fighting evil away, I ain’t no superhuman saving the day. I wish I was bulletproof ‘cause everything’s breaking through”. Porque para mim seria impossível acreditar em qualquer coisa diferente disso.

Ainda não tinha ouvido essa música no dia em que fiz 22, há exatamente uma semana, mas achei que ela descreve melhor do que eu poderia tentar o jeito que me senti ao ler de gente querida, amada e muito bem intencionada coisas como “Que Deus te abençoe muito, porque você é merecedora” e etc. E não, gente, eu não mereço nada não. Mesmo. Sei muito bem onde meu calo aperta, todos os meus erros e defeitos, e qualquer coisa boa que tenha acontecido ou seja visível em minha vida é pura Graça de Deus, e nada mais. Acho muito engraçado quando ouço alguém dizer que não consegue me imaginar nervosa ou coisas do tipo, porque é claro que eu também fico nervosa, também sou um saco quando estou de TPM e infelizmente às vezes me pego fazendo coisas das quais me arrependo, muitas vezes aliás.

E por falar em música, a minha maior referência do real significado de Graça foi composta por um homem que gastou parte de sua vida fazendo o que é injustificável a qualquer ser humano, o que não poderia ser racionalmente explicado por nenhum um outro motivo, seja o lucro ou sei lá quais outras razões, e diante de tudo isso disse: “Minha memória já quase se foi, mas eu recordo duas coisas: que eu sou um grande pecador, e que Cristo é meu grande salvador!”. Acho muito interessante a história de John Newton, o homem que compôs Amazing Grace (vocês podem lê-la aqui), e o que mais me chama a atenção é a percepção que ele tinha de si, visível quando na conhecida letra ele diz “That saved a wretch like me”. ‘Wretch’ é uma palavra que poderia ser traduzida por patife, vilão, vil, canalha, miserável, infeliz, coitado ou desgraçado. Newton sabia que não lhe faltariam adjetivos para descrever o por quê de não merecer nenhum favor de Deus, e sabendo disso não lhe restou outra coisa senão contemplar a dimensão e a magnitude da Graça de Deus sobre sua vida.

A boa notícia é que ninguém precisa experimentar ser um traficante de escravos para descobrir isso. Não que isso torne ninguém mais ou menos digno diante de Deus por causa disso ou aquilo, porque entendo que a Graça é justamente contrária a qualquer conceito proveniente de meritocracia humana, e talvez por isso não a compreendamos perfeitamente; mas esta incompreensão não é motivo suficiente para desprezá-la. Foi lendo O Peso de Glória, apesar de não me recordar em qual dos sermões, que vi o C.S. Lewis me ensinar do melhor jeito a diferença clara entre o perdão e a desculpa. Sei que não vou me lembrar as palavras exatas dele, mas disse algo sobre a desculpa ser todo e qualquer motivo (verdadeiro ou não) que pode nos levar a cometer aquilo que não queremos, e que Deus, em sua Onisciência, conhece melhor que nós mesmos todas as nossas desculpas. Mas o perdão é muito superior a isso, se aplica aqueles erros injustificáveis, sem nenhuma explicação plausível onde nada causam além de mágoa e decepção. E quanto mais percebemos  que muitas das nossas falhas são indesculpáveis, maior deve ser também a percepção da nossa dependência de perdão, tanto de Deus quanto dos homens.

E não é nada fácil chegar a esta conclusão, porque saber admitir os nossos pecados e erros doi, e não doi pouco. Reconhecer a nossa falibilidade e compreender que não nos basta o nosso próprio jeito é esvaziar-se ao extremo, e é impossível viver isto na prática sem nos despirmos de todas as nossas eventuais desculpas. A respeito disso, no livro que estou lendo agora, O Problema do Sofrimento, outra vez C.S. Lewis diz:

Por que os homens precisam de tanta alteração? A resposta cristã – de que usamos nosso livre-arbítrio para nos tornar excessivamente maus – é tão conhecida que praticamente não precisa ser expressa. Fazer, porém, com que esta doutrina ganhe vida real na mente do homem moderno, e até mesmo dos modernos cristãos, é muito difícil.
Quando os apóstolos pregavam, eles podiam supor como certa, mesmo em seus ouvintes pagãos, uma percepção real do fato de merecerem a ira divina. Os mistérios pagãos existiam para acalmar este sentimento, e a filosofia de Epicuro alegava livrar os homens do medo do castigo eterno. Foi contra este pano de fundo que o Evangelho surgiu como boas notícias. Ele trouxe notícias de uma possível cura para os homens que sabiam achar-se mortalmente enfermos. Mas tudo isto mudou. O cristianismo tem agora de pregar o diagnóstico – que é por si mesmo péssima notícia – antes de ganhar a atenção dos ouvintes para ensinar-lhes a cura.

E sim, assim como o autor, eu acredito que há uma cura, cura esta presente na Graça que não poderia ser melhor manifestada de nenhum outro jeito senão na Cruz. Porque se não fosse esse o fundamento da minha fé, eu não seria cristã. Tampouco sou cristã por me achar boazinha ou melhor que alguém devido ao meu comportamento ou minhas atitudes, porque viver acreditando nisso seria desprezar a Graça que me salvou apesar toda a sujeira que eu melhor que ninguém sei a meu respeito (Ef 2:8), assim como achar que mediante quaisquer atos alguém se tornasse aceito diante de Deus (Sl 14:1-3; Sl 53:1-3; Ec 7:20, Rm 3:9-20).

A Graça é maravilhosa por me libertar de toda a religiosidade, legalismo e principalmente o risco de permitir que minha vida seja baseada apenas na opinião de alguém tão mísera e cheia de falhas quanto eu.

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