Crônicas

Minha infância

Pensei muito antes de procurar uma foto da minha infância. Porque estava com preguiça, preocupada com outras coisas minhas e da faculdade, etc e tal. Aí hoje, que estava mais relaxada, percebi que não tem nenhuma foto de quando criança que eu goste mais que esta.

Gosto da sensação que a foto me traz, das lembranças que ainda me parecem tão recentes na memória – mas não gosto dessa sensação de velhice embutida.

Era bom fazer careta pra quase tudo e não me preocupar com quase nada, comer várias correntinhas de mel colorido, pensar que a vida tinha sabor de chocolate e cheiro de terra molhada (é grande a probabilidade de escutar a voz da Sandy em sua cabeça se tiver uma idade avançada feito a minha).

Eu tinha complexo de Mônica, meu passatempo preferido era correr e bater nos meus primos e meninos que por qualquer motivo besta me provocavam; e por algum outro motivo inexplicável, acho que o passatempo favorito deles era me deixar nervosa. Em casa, na igreja, na escola e em todo canto.

E por falar em Mônica, saudades da minha caixa de gibis e almanaques de férias. Saudades dos tantos álbuns de figurinhas que nunca consegui completar. Saudades do Sam, meu japonês preferido, não se incomodava sempre que eu parava na banca para conversar.

Saudade de ralar o joelho, de pregar peça. Eu era tonta demais para saber pregar peça em alguém, mas tenho uma prima sacana que quando vinha do interior pra cá e quando não era eu o alvo de suas peças me botava em seus esquemas de aprontar com o seu irmão. Nessas poucas vezes eu percebia que meu primo mais velho era ainda mais tonto que eu.

E as minhas Barbies, gostava tanto delas! Mas acho que elas não gostavam tanto assim de mim… Só porque eu testava meus dotes cabeleireiros, fazia algumas manchas nelas com um esmalte vermelho que minha mãe tinha quando queria brincar de hospital e me esquecia de passar acetona depois, vai entender.

Sinto saudades das aulas de ballet, e das dores que eu sentia depois delas por na minha cabeça pensar que isso me dava o direito de cantar Só a bailarina que não tem. Eu sei, também não entendo metade das coisas que eu pensava na minha infância.

Acho que só não sinto saudades de comer sabonete, embora por qualquer motivo também incompreensível meu subconsciente se orgulhe disso. Porque sabe, meus amigos comiam minhoca, tana-jura, tijolo laranja… Eu realmente me sinto feliz por só ter comido sabonete e pasta de dente.

E vender limonada, fabricar sabonetes estranhos lê-se: amassar sabonetes velhos e fazer uma bola colorida que eu vendia pros meus tios no quintal que meus tios compravam de mim por me acharem fofinha. Era tão fácil me sentir rica com dez reais!

Também não sinto saudades das aulas de flauta, mas gosto de lembrar que nelas não existia preguiça de ler partituras – mas aí a gente cresce, descobre as cifras…

Aí a gente cresce e toma vergonha que antes não tinha, complica tudo o que antes era tão simples. A gente cresce e para de correr e se descabelar, e cria tanto medo besta que às vezes até esquece como é bom sonhar.

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