Crônicas

Mercado político

– Um político honesto, por favor. – pediu a jovem assim que adentrou o mercado.
– Hum, acho que estes já foram eleitos no primeiro turno ou nem isso, de tão pouca procura. Será que não posso lhe ajudar de alguma outra forma? Um menos corrupto, talvez? – perguntou o vendedor enquanto visualizava suas opções dentro e fora das prateleiras. O mercado, apesar do nome, muito assemelhava-se a uma feira ou a um açougue.
– Menos corrupto? Eu quero um nada corrupto! – insatisfeita com a resposta, a jovem indignou-se.
– Você ainda é muito jovem, não sabe como esse país era antes… Hoje estamos muito melhor. – percebendo uma possível discussão, uma senhora preferiu roubar a vez antes que chegasse o seu momento na fila preferencial – Me mostre os menos corruptos, por favor.
– Temos A, B e C. A está na política há mais de vinte anos, não teve nenhuma proposta ou obra marcante e seu partido é composto por escândalos, mas é carismático e insiste não saber de nada; B elegeu-se alegando que pior não ficaria e foi considerado um dos melhores e mais presentes, apesar de ter arrastado quatro ladrões do partido com junto devido à sua popularidade; e C não é de todo ruim, só não conclui seus mandatos porque a cada dois anos procura um cargo melhor. – respondeu o comerciante, apresentando as opções como se fossem peças de carne.
– Parece mesmo difícil escolher. – ponderou a senhora, avaliando suas opções.
– Vocês estão falando e pensando demais, eu quero mesmo é alguém que faça alguma coisa. – sem paciência com as duas, apressou-se um office boy em direção ao balcão.
– D faz bastante coisa, só está envolvido em algumas investigações de lavagem e desvio de dinheiro no exterior. – disse o vendedor, mostrando uma quarta opção.
– Defina ‘bastante coisa’. Ou por acaso vai me dizer que você está falando daquela geringonça que deveria ajudar o trânsito no centro da cidade e ninguém mais sabe o que faz? – a jovem, que havia se calado procurando um candidato diferente, arqueou uma das sobrancelhas.
– Tanto faz, pelo menos esse me representa. – o office boy pediu para embalar.
– O maior ladrão de todos lhe representa? – mostrando muita preocupação, a senhorinha apertou sua carteira contra o peito, e a jovem acompanhou-a ao segurar firmemente sua bolsa.
– Cadê o E? Aquele que é político bom! Nunca antes na história desse país vi elegerem um analfabeto como eu. – tomando o lugar do office boy, chegou um senhorzinho de barba branca segurando uma bengala.
– E não está candidato, mas apoia F.
– Quem é F? – perguntou o senhor, interessado na proposta que o vendedor estava lhe fazendo.
– Certamente você conhece F, que há quatro anos já está aí. Não fez nada muito marcante também, e se enrola um pouco com as palavras. Mas lhe dê uma chance, F só não teve muito tempo para fazer algo realmente relevante ainda… – respondeu o vendedor, tirando F de um lugar destacado para mostrar quem tinha a campanha e propaganda mais bonitas.
– Ah, não! Se F continuar eu não consigo mais escolher e nem comprar nada! – interviu a jovem.
– Estou gostando de F, se E apoia é porque sabe o que faz. – o senhor entregou o dinheiro e recebeu seu pacote.
– Mas você nem precisa votar! – a jovem insistiu, tentando tirar o pacote de sua mão.
– Mas eu quero! – e o senhor o puxou de volta. Não com força, até dava para puxar uma vez mais… Mas então a jovem se viu lutando por um pacote com um velhinho, e ficando nervosa consigo mesma, o deixou passar.
– Ai, de que lugar é esse senhor mesmo? – uma executiva, segurando o celular, empinou o nariz e chegou ao balcão ignorando as duas que ali estavam. – Eu quero mesmo é saber quem tem diploma.
– G tem diploma. – disse o vendedor, apontando mais uma opção. A executiva não tinha tempo para entrar em muitos detalhes, era muito rápida e já estava pegando o dinheiro em sua carteira.
– Mas você não vai nem avaliar suas propostas? – a jovem inconformou-se outra vez.
– Querida, eu trabalho há mais de quinze anos e patrão nenhum nunca quis saber de minhas propostas. Vê como sou exigente? Não sou como esses despolitizados que elegem E ou F, meu padrão é muito mais elevado. – a executiva respondeu, sem desfazer o ar esnobe ou sequer olhar para a jovem enquanto falava, pegou seu pacote e saiu.

Assim como a executiva, o senhorzinho e o office boy, incontáveis apressados ultrapassaram a jovem e a senhora na fila, comprando qualquer coisa que o vendedor lhes apresentasse porque certamente tinham coisa mais importante para fazer.

– Será que você pode embalar C para mim? – por fim perguntou a senhora.
– Mas você já se esqueceu que ele disse que C não conclui nada? – a jovem, que até então estava calada, respirou fundo.
– Minha filha, não sou como você que tem todo o tempo do mundo, eu nem sei se estarei viva quando C tentar outra coisa daqui a dois anos. – sem perder a amabilidade, a senhorinha guardou sua carteira e pegou o seu pacote, deu dois tapinhas no ombro da jovem e foi embora.
– Agora só falta você. – já sem nenhuma paciência, o vendedor a encarou. Queria fechar logo o expediente e todos os outros já haviam saído.
– Tenho mesmo que escolher um desses aí? – indagou a jovem pela última vez.

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