Textos

Arte em mim

No começo do semestre, se não me engano na primeira aula de Direito Tributário (não é esse o nome específico, mas chamar assim faz-nos sentir que a coisa é mais prática. Não faz não), meu professor nos perguntou qual seria a nossa reação se de repente surgisse um incêndio na faculdade e as respostas foram diversas; não vou nem falar a minha porque acho desnecessário repetir a vergonha.

O fato é que a pergunta tinha a ver com um tema introdutório, e as respostas apontavam para um dos quatro tipos de temperamentos — podendo haver ainda subdivisões. E eu gosto dessas coisas, assim que cheguei em casa tratei logo de fazer o teste; minha mãe e as meninas que convivem quase diariamente comigo concordaram que o resultado tinha bastante a ver: melancólico-sanguíneo.

Fica meio difícil para eu falar que não porque, sabe quando você tem aquela impressão de se ver descrito em algumas linhas? Foi como me senti.

Mas não quero me prender muito a todos os detalhes, só quero usar um como ponto de partida para expressar o que já venho dizendo há alguns anos sem ser compreendida. Entre várias coisas, “Melancólico sanguíneo é o temperamento mais inclinado para as artes” estava escrito, e é exatamente sobre isso que quero falar.

“Eu queria tanto saber cantar, tocar ou desenhar… Ter algum talento, sabe?”, é o tipo de coisa que muitas vezes ouvi.

Seria mentira minha dizer que não é bom, me sinto de um jeito tão intenso e livre quando canto ou escrevo que nem todas as palavras de todos os dicionários de todas as línguas me serviriam para descrever.

É mais ou menos como se por um breve momento pudesse sentir que a arte é minha, algo que vem de dentro de mim, mesmo sabendo que o dom e a inspiração não são — é uma dádiva.

Mas sempre que ouço esse tipo de lamúria me pergunto se ninguém percebe que as outras coisas também são talentos, porque não acho possível que só a arte seja capaz de fazer com que alguém se sinta assim; e é justamente por isso que acho válido tentar tirar um pouco do idealismo sobre a arte, mostrando que até mesmo ela tem alguns lados reais que não são tão bons assim.

Do começo, pois não vejo outro ponto considerável, acho importante falar um pouco dos meus pais.

Minha mãe é linda e tem olhos azuis, é uma mulher um tanto fora do padrão, e não estou falando isso por causa da beleza ou dos olhos azuis: ela é a única mulher que eu conheço que já decidiu e começou a estudar licenciatura em Mecânica, ainda que não tenha terminado por problemas financeiros.

Para mim isso é tão brilhante e incomum, tão incomum quanto a maioria masculina da classe dela na década de 80 também achou. Minha mãe sempre foi boa com números e exatas, e eu acho isso lindo demais.

E então o meu pai, quem sempre achei muito inteligente também, mas de uma maneira diferente da minha mãe. Corre dos números, mas é autodidata em humanas e idiomas, e muita coisa do violão aprendeu sozinho também.

Minha mãe é metódica, sistemática, organizada, atrapalhada e quase sempre desesperada; e meu pai é muito talentoso, tem uma memória musical fantástica, também tem déficit de concentração e é desorganizado que só.

Adivinha qual dos dois eu mais puxei? Já adianto que os olhos azuis e habilidade da minha mãe com exatas não herdei — já quanto a ser atrapalhada e a facilidade em desesperar-se já não posso dizer o mesmo.

Foi na barriga de minha mãe que ganhei o meu primeiro violão, desde muito cedo comecei a estudar canto e coral, flauta, teclado e ballet, e incrivelmente desenvolvi a fantástica e inovadora só que não arte de ser regular em todos eles; exceto na flauta e no ballet, porque ambos disputavam para ver em qual dos dois eu me saía pior.

A regularidade é culpa minha, confesso, porque a dificuldade em concentrar-se é outra incrível habilidade que recebi: eu queria muito tocar teclado, sei que queria. Assim como também queria saber desenhar perfeitamente, pintar, dançar, entrar em um grupo de teatro, dominar tudo o que fosse relativo à História da Arte e mais uma outra lista de coisas que nem me lembro mais tipo salvar uma baleia, ir à lua, inventar alguma coisa importante para a humanidade e etc.

Mas a música nunca me deixou, embora também não me acompanhe do jeito que eu imaginava. Gosto mesmo é de escrever e cantar, e só resolvi mesmo tentar tocar alguma coisa quando vi que não gostava muito de pedir ajuda na hora de pensar nas harmonias que iam acompanhar as letras e melodias por mim criadas.

Meu método de aprendizado: um mês de aulas particulares, livros e DVDs comprados em bancas de jornal, vídeos e cifras variadas… Meu modelo não é o problema em si, porque também sou autodidata. E ser autodidata não é nada ruim; mas imagino que seja ainda melhor quando além de autodidata a pessoa também consegue ser disciplinada.

Tem outro ponto muito crítico, a organização. Ou a ausência dela, para ser mais sincera.

Conheço várias pessoas criativas envolvidas com arte das mais diversas formas, e mesmo com tantas diferenças, se tem uma única coisa em comum que percebi de longe foi a desorganização.

Não estou dizendo que seja uma regra absoluta, até acho que seja possível caber criatividade e organização em uma pessoa só — mas ainda não vi.

Falo por mim mesma, já experimentei vários estágios de desorganização e diria que já têm uns 10 anos que tento ser uma pessoa organizada… E continuo tentando, com alguns períodos de sucesso e outras derrapadas; não vejo a hora de chegar o dia em que eu finalmente poderei dizer que sou uma pessoa organizada.

Mas tem uma explicação lógica para isso, ou pelo menos na minha cabeça parece lógica. Porque são tantas ideias e inspirações diferentes que até a mente já fica uma bagunça.

Sabe o que é andar com um caderninho pequeno por quase todos os cantos anotando palavras-chave saídas de inspirações para serem desenvolvidas posteriormente e ter outro turbilhão de ideias o tempo todo sem conseguir desenvolver tudo? Pois é.

E se a mente de alguém é assim, imagine então que coisa linda fora dela!

“Essa gente metida com artes é mesmo muito esquisita, excêntrica….”, é outra coisa que já ouvi bastante. E é mesmo, ainda não encontrei nenhum argumento que negasse isso.

Tem outro ponto que, pelo menos pra mim, acho horrível no que tange às artes: a sensibilidade. Mas não estou falando de um nível normal e aceitável de sensibilidade, e sim de um completo exagero vestido de sensibilidade.

Certa vez, quando estudava Comunicação Visual na Etec, fomos à Bienal e o grande destaque de toda a exposição estava sobre as obras de Arthur Bispo do Rosário. Nós não sabíamos muita coisa sobre ele, só tínhamos ouvido falar superficialmente em uma ou duas aulas de História da Arte — e as demais coisas aprendemos por lá mesmo.

Quando nos deparamos com o Manto, obra-prima do artista, uma de minhas colegas, coincidentemente uma das melhores artistas plásticas que já conheci pessoalmente, passou mal. Muito mal, ficou tonta e angustiada de um jeito que nem mesmo ela sabia entender.

O Manto em questão tem mesmo um significado triste. Bordado em anos de internação de clínicas psiquiátricas, os seus desenhos e nomes apontam para as fantasias e tristezas, misturado à crença de que ele seria o Messias e aquela seria sua roupa de apresentação no juízo final. É mesmo uma coisa bem chocante quando entendemos o seu significado.

Mas não entendíamos ainda, e nem a moça em questão entendia. Ela já sentia, e é como eu me sinto em relação à música ou à literatura.

Fui criada ouvindo desde de Chico, Tom, e Flávio Venturini a Elvis, Air Supply, Beatles e Bee Gees. Fora que depois fui criando o meu próprio repertório, com Keane, Arctic Monkeys, Móveis Coloniais de Acaju, Cachorro Grande, KT Tunstall, Tiê e etc. Eram muitas bandas e das mais variadas, até que com 17 anos parei de ouvi-las.

Por que? “É que você é cristã e não pode ficar ouvindo essas coisas, né?”, algumas vezes me perguntaram. Minha resposta não é exatamente esta.

Primeiro que, mesmo sendo cristã, os estilos de música que ouço não mudaram — e não, não ouço Aline Barros, Diante do Trono e nem nada assim. Não gosto, mesmo. Foi-se o tempo que música cristã era só DT e HCC; a cada dia descubro um grupo novo de algum estilo que gosto e vivo muito bem assim.

E a outra coisa é que, aos 17 anos percebi que eu tinha a mania irritante de sentir muito forte aquilo que o artista sentia quando compôs a música, o que não é nada legal quando os autores compõem músicas tristes, com raiva e etc.

Tô falando sério! Tem gente que diz que isso é exagero meu, mas até hoje eu sinto mesmo. E se tento afastar até os meus próprios sentimentos ruins e dúvidas, imagine os de outras pessoas! Nesse sentido eu não fico buscando muito essa coisa de identificação não.

Não é como se eu tivesse esquecido todas as letras dos Killers, do Guilherme Arantes ou de qualquer um deles, na verdade me lembro muito bem e vire-e-mexe alguma dessas letras invade a minha mente sem pedir nenhuma licença, até porque a memória musical na maioria das vezes traz-me alguma música à lembrança assim que alguém me diz uma palavra qualquer.

Mas no que depende de mim, tento fugir de todas elas porque, de sensações esquisitas já me bastam as minhas.

Ou sobre a timidez. Para algumas pessoas parece tão estranho acreditar que alguns artista sejam tímidos em qualquer coisa que não se relacione à arte, mas não é e isso porque a arte transcende a própria timidez.

Admito que já fui bem mais tímida antes de descobrir o ponto fixo nas aulas de teatro, hoje até dizem que apresento bem os seminários na faculdade — o detalhe é que sempre tiro os óculos na hora da apresentação e falo sem enxergar direito a cara de ninguém.

Não é como se eu deixasse de fazer as coisas que me são necessárias por sentir vergonha, estou tentando me livrar dela diariamente. Só que ainda costumo ficar vermelha, porque esse tipo de coisa não tenho como controlar.

Mas nenhuma dessas outras coisas é tão ruim quanto a que segue.

Às vezes me pego imaginando quantos artistas, dos mais variados possíveis, existem e quantos sobrevivem da sua arte. Porque sério, repito que não acho que o dinheiro seja a coisa mais importante; mas se eu fizer um poema declarando como eu me sinto sobre isso na hora de pagar um simples pão na padaria, penso que o padeiro não ficaria nada feliz.

Muitas pessoas deixam de lado a arte para não morrer de fome, e de sonho a transformam em um hobbie na tentativa de se sentirem menos infelizes.

E então veem a Britney Spears (não sei quem é a pessoa sem talento do momento que a substitui), o Romero Britto e o Paulo Coelho fazendo muito sucesso e sobrevivendo disso; dá para imaginar como as pessoas criativas e talentosas devem se sentir?

Acho que já escrevi aqui que queria estudar Jornalismo até um tempo atrás. Eu não queria aparecer na televisão nem nada do tipo, só queria ser paga para fazer nada mais nada menos que escrever.

Aí depois de um tempo mudei de ideia, já tive vários blogs (esqueci a senha de todos, haha) e hoje escrevo de graça aqui simplesmente porque pra mim difícil mesmo seria não escrever; não ter ideias ou não imaginar coisa alguma.

O ponto é que apesar de tudo isso a arte não é mesmo ruim.

Mas ter o dom de ensinar também não, é uma coisa linda. E ajudar as pessoas das mais diversas formas então?

Existem tantas outras habilidades lindas que não entendo porque ainda tem gente que perde o tempo achando que só a arte é válida.

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