Crônicas

Espectadora

Eu me achava estranha por querer conversar com os personagens dos filmes, com os jogadores de futebol e etc. Ter a visão mais ampla do roteiro ou partida soa como algo desesperador, isto é, na minha cabeça.

Não assisto novelas porque além de não ter paciência e achá-las um lixo cultural com a constância essa sensação bizarra toma proporções maiores, e enquanto parava e refletia sobre isso agora, pensei que talvez seja esta uma das minhas justificativas para o meu problema em acompanhar séries — além da preguiça.

“Mas você não está vendo que ele é o vilão? Olha pra trás!”, é um pensamento às vezes verbalizado por mim. E não adianta argumentar racionalmente sobre ser ficção, porque eu tenho a plena convicção disso, mas não é como se esta certeza me ajudasse de alguma maneira. Já tentei, e pelo menos até agora não ajudou.

É como o medo de barata, sabe? Já me falaram mais de mil vezes que ela é menor que eu e várias coisas desse tipo, que eu sei que são verdade, mas que de algum jeito incompreensível e inexplicável o meu subconsciente ignora tudo isso e me mostra um T-Rex sempre que vejo uma. A essência do medo é irracional e não vou tentar explicar o que nem eu mesma entendo, só sei que comigo funciona assim.

Hoje percebi que muitas vezes a própria vida me parece um filme: conheço muito bem os personagens, e também o enredo. É clichê, e clichê é uma coisa do tipo que jamais existiria se não desse certo, tal como a trama que, diferente de basear-se apenas, é feita em fatos reais.

O próprio clichê já dá todas as pistas do que pode acontecer, mas não basta, e a ele somam-se as pistas da trilha sonora. Ainda que o clichê falhe, a trilha sonora é  mais evidente, porque o tom denuncia o desenrolar da trama.

É mais ou menos a sensação de ouvir Le Quattro Stagioni, de Vivaldi, e por isso acho que a música clássica se enquadra tão bem nos filmes. As palavras não são necessárias para transmitir nada, e talvez até atrapalhassem. La Primavera, minha favorita na infância, aquela dos comerciais de sabonete, é a tradução da felicidade em Mi Maior.

E então começa L’estate, que inicialmente não me surpreende, mas deixa a dica: Sol Menor. Os violinos, que tanto me encantam, terminam por dar revelar a presença do suspense, o perigo e a perseguição. Há quem diga que mostram a aventura, no entanto o perigo parece tão mais claro para mim.

Mas nenhum personagem percebe. Como não, por quê?! É tão raro encontrar no mainstream um roteiro inovador, mas ainda assim cada personagem sente-se único e especial, diferente dos milhares iguais que já existiram. E não é! Nem sequer o drama é original!

Só que não sou roteirista, meus gritos e avisos são mudos, não importando o que eu faça. Não consigo dar vida a um personagem ou impor minhas opiniões e convicções, nem mudar os seus caminhos e decisões. Mas gostaria. Como espectadora, amaria. Me sentiria melhor se assim pudesse.

Acho que se fosse a autora pensaria diferente. Ninguém gosta de ler ou assistir uma estória insossa, quanto mais de escrever. Os personagens são reféns da ilusão de serem independentes e escolherem o que bem quiserem.

E afinal, o ser humano é o quê?

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