Textos

Ser ou ter, eis a questão

Tinha essa ideia em mente há um bocado de tempo já, mas ando tão louca com as coisas da faculdade que não estava conseguindo desenvolvê-la direito — e também porque dentro da minha cabeça tem um monte de ideias e opiniões sobre um monte de coisas, aqui dentro é uma bagunça que só! Vou tentar ser sucinta.

Quando o Eike Batista abriu a boca hoje, depois de tanto tempo em silêncio, vi “notícias” de todo o tipo. A que mais me chamou a atenção, na Exame, foi uma comparação entre as frases de quando bilionário com as declarações feitas agora, endividado. E eu confesso que até ri de algumas piadinhas dos internautas, mas não quero ficar aqui falando do que aconteceu ou deixou de acontecer com ele. No entanto, vejo nele um bom modo de exemplificar o que penso.

Parece um choque que um cara que já esteve classificado na Forbes tenha hoje um patrimônio negativo de aproximadamente US$ 1 bi, e certamente o é. “Não dá para fazer com que as coisas deixem de acontecer porque simplesmente ninguém achou que isso fosse possível, não está em nosso controle”, foi mais ou menos como relembrou-me uma amiga querida ontem (estou tentando lembrar as palavras dela, mas sei que a essência do que disse era assim). A vida tem dessas coisas.

A matéria que mais me chamou a atenção, sobre a comparação de frases de antes e depois, assim o fez porque as coisas ditas pelo Eike agora parecem muito mais sensatas, isto é, para qualquer pessoa normal. Já nas frases anteriores nota-se um nível exagerado de autoconfiança e eu diria que até mesmo arrogância, o que muitas vezes (não gosto de generalizações) acontece como uma relação diretamente proporcional à riqueza de alguém. Essa é mais uma das esquisitices do ser humano.

Ser classe média é uma coisa normal para tantas entre as sete bilhões de pessoas na Terra e eu me incluo nelas, mas quando acontece com alguém de grande destaque nasce um tumulto em volta. Acho que já escrevi em algum outro texto sobre como me chamam de mimada até hoje por ter alguns privilégios, que não são muitos, mas admito que existem. E quanto mais penso nisso, mais penso na relatividade dessas coisas.

Quando eu era mais nova e estudava em escola particular, com uns 10 ou 11 anos, acho, vivia perguntando para minha mãe por que eu não podia ter os tênis caros que todo mundo usava (uma vez minha mãe me deu uma chuteira, de menino, porque era o mais barato da loja), ou mesmo um celular quando começou a deixar de ser uma coisa descomunal — em um tempo remoto e repleto de Nokias 2280 ou Siemens A50. Estou ficando velha.

A resposta para minhas perguntas era evidente: não tínhamos dinheiro para isso. Meus pais me criaram com o pensamento de que era mais que válido investir o dinheiro, que já não era muito, em coisas que de alguma forma me transmitissem conhecimento e princípios, mas que jamais seria aceitável esgotar esse recurso escasso para satisfazer os devaneios consumistas de uma garotinha. E hoje eu concordo com eles, exceto pela chuteira. Não tenho nenhuma fixação com sapatos caros, mas podiam ter recorrido ao bom e clássico All Star.

É claro que depois que meu pai pediu o divórcio nos mudamos de bairro, terminei de estudar em escola pública para que minha mãe pudesse usar o dinheiro para construir casa, depois comprar apartamento e etc, conheci muitas pessoas com realidades diferentes da qual fui criada. Gente para quem ter um apartamento simples e modesto, um notebook e faculdade, ainda mais pública, parece luxo — e abro outro parêntese aqui: eu não fiz curso de inglês, pré-vestibular ou qualquer outra coisa a vida inteira, não comprei e nem paguei muita coisa que precisei ou quis. Tem muita coisa boa e gratuita na internet e fora dela ou com um preço simbólico e acessível para qualquer um que esteja disposto a gastar mais de R$ 50 por fim de semana em uma balada, mas ainda continua mais fácil esperar que as coisas caiam do céu e criticar quem se esforça para correr atrás de qualquer coisa que realmente lhe importe.

Conforme fui crescendo passei a me perguntar se precisaria mesmo de todas as coisas que penso precisar. É uma pergunta que me faço até hoje quando me deparo com um guarda-roupa lotado de peças que não uso mais ou prateleiras que ficam entulhadas e bagunçadas com livros que ainda nem consegui ler totalmente, apesar de ser esta a minha intenção. Não reclamo de nada e agradeço, me sinto muito satisfeita. Mas preciso?

Há tantas coisas que não compreendo. Posso estudar um milhão de vezes a Pirâmide de Maslow e achar que entendo o conceito de necessidade e desejo, mas quando visto de maneira prática me parece… Não tenho palavras para descrever. Como por exemplo gastar R$ 200 mil em uma bolsa, por mais linda que seja, mesmo sabendo que quem faz isso tem outras preocupações, não faz o menor sentido para mim; assim como também sei que para outras pessoas a loucura é minha quando gasto o meu dinheiro para comida em livros diversos, desde os que custam R$ 2 na Sé até aqueles caros que a gente sente que vai usar por um semestre (ou menos) na faculdade. Cada pessoa tem a esquisitice que lhe cabe.

O que me assusta é ver que a indagação transmitida por Shakespeare em Hamlet também vai perdendo o sentido hoje, porque cada vez mais vejo gente preocupando-se em ter alguma coisa quando poderiam estar mais focadas no que são ou pretendem ser; e isso não se a aplica só a dinheiro.

Sou da opinião de que ninguém é bonito, e sim tem beleza por quanto tempo a vida quiser lhe presentear (e tentar prolongar esta dádiva com uma coleção de plásticas só vai ter um efeito inverso do esperado). Em outras palavras, não acho que ser lindo dê a ninguém o direito de ser antipático, burro ou acomodado. Seria maravilhoso se todo mundo fosse lindo, simpático, inteligente e esforçado; mas como sei que isso é utopia também, recomendo pelo menos dois outros itens da lista (não falei de educação, mas está subentendido). Porque se ou quando a beleza acabar, o que vai restar? Alguma coisa precisa restar.

E não isento o conhecimento dessa concepção. Ninguém é puramente conhecimento, mas sim o adquire. Admito que tentar compreender coisas variadas é uma espécie de vício para mim, mas não vejo isso como maneira de diminuir ninguém e até por isso estou tentando reduzir outro de meus defeitos, o sarcasmo.

Sei de várias pessoas que criticam, assim como eu, a vaidade materialista, mas não percebem que a vaidade intelectual é tão nociva quanto ou até mesmo pior, pois como sabiamente me disse outra amiga nessas férias, diferentemente da quantia de dinheiro que pode ser imprevisível (volto ao exemplo do Eike Batista), o conhecimento acumula-se com o passar dos anos; e o que deveria ser para nós motivo de crescimento acaba nos empobrecendo se servir apenas de alimento ao ego.

Sou uma menina de cidade grande, nunca morei fora de SP e nem consigo imaginar direito como seria minha vida fora da área metropolitana, mas tem uma coisa que não sei se invejo ou admito no interior: lá tem gente tão mais simples e mais amável que eu!

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